Distrito 9

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 15/10/2009.

Perguntar a um cinéfilo o que mais o atrai nos filmes é mais ou menos a mesma coisa que tentar entender o sentido da vida, do universo e tudo mais. Difícil de explicar, se é que é possível. Bem, no meu caso, trata-se de um conjunto imenso de pequenos fatores. Um deles, talvez o principal, é a capacidade do cinema de moldar realidade e ficção em um único pacote, discutindo temas complexos através de enredos apoiados em fantasia e inovações gráficas – dois grandes trabalhos recentes, o francês Persépolis e o israelense Valsa Com Bashir, estão aí para provar que assuntos espinhosos podem render trabalhos contundentes… e ao mesmo tempo fascinantes visualmente falando.

Em suma, cinema não só é uma válvula de escape para o povo relaxar e se entreter, como também pode ser um forte instrumento de reflexão e ponderação comportamental, com poder de persuasão maior do que qualquer outra espécie de veículo. (Claro que, para o público médio, acostumado a “não ter que pensar” e a devorar qualquer porcaria comercial que lhe apareça à frente e ainda gostar, enxergar este ponto de vista será bem difícil e isso parecerá papo de “pseudo-descolado”, mas a gente fala mesmo assim, né?)

Talvez este parágrafo de início ajude a compreender o que quero dizer quando falo que QUASE me apaixonei por Distrito 9 (District 9, 2009), um dos trabalhos mais comentados e esperados deste ano. Digo “quase”, porque a primeira meia-hora desta empolgante sci-fi comandada pelo novato sul-africano Neill Blomkamp e produzida por Peter Jackson nos dá a impressão de que estamos diante de um trabalho fodáximo que representa tudo aquilo que disse lá em cima. O negócio começa tão bem que, durante esta primeira meia-hora, pensei comigo mesmo, “putzarella, é o melhor do ano até agora” – até então, eu ainda não tinha visto Bastardos Inglórios que, por enquanto, é o dono do título. :-)

O problema é que o desenrolar da trama, que começa como um retrato bem realista de um conflito sócio-político em uma região cujas feridas causadas pelo apartheid ainda não cicatrizaram, esquece de tudo o que construiu inicialmente para se render a uma trama de ação que, por mais empolgante que seja (e realmente é), é prejudicada pela saraivada de clichês pipocando a cada segundo…

E olha que Distrito 9 tinha um pusta de um senhor potencial: logo no início, uma série de noticiários de televisão, imagens de “cinegrafistas amadores” e depoimentos de populares nos situa no grave problema que assola os sul-africanos residentes em Johannesburgo. Acontece que, um belo dia, uma gigantesca espaçonave apareceu nos céus da cidade e lá permaneceu, parada no ar e sem qualquer sinal de vida. Com a imunidade baixa e a nave avariada, os milhões de alienígenas ali presentes não conseguiram voltar para casa. Resultado: foram forçados a permanecer na Terra. Temerosa com a presença dos monstrengos, apelidados de “camarões” por se parecerem de fato com um, a população pressiona o governo a tomar atitudes. Primeiro, a criação de severas leis de segregação racial; depois, a construção de um “campo de refugiados para não-humanos”, denominado Distrito 9.

Não tarda para que a comunidade alien no Distrito 9, entregue à própria sorte em um planeta estranho e hostil, transforme o campo em uma imensa favela; com ela, surge um avançado estado de marginalidade e violência, impulsionado pelo tráfico de armas extraterrestres e pelo domínio da máfia nigeriana no local. Uma onda de morte e caos atribuída aos ETs força os governantes a dar início a uma operação de desapropriação do Distrito 9. É aí que entra o almofadinha Wikus Van De Merwe (o ótimo Sharlto Copley), agente do governo que trabalha para a MNU, espécie de organização que, pelo menos de fachada, visa garantir os direitos humanos dos não-humanos (?). Arrogante e autoproclamado “superior” à raça alienígena, Wikus supervisionará pessoalmente a ação de despejo dos aliens do Distrito 9.

Os problemas de Distrito 9, o filme, começam a surgir quando Wikus é vítima de um evento ocorrido dentro de uma das palafitas do D9, o que nos leva a outro evento que muda drasticamente os rumos da história (claro que não vou revelar o que acontece – quer saber, vá ao cinema, oras!). É neste momento que o roteiro escrito por Blomkamp em parceria com a também novata Terri Tatchell cai na mesmice: o conflito dá lugar a um joguinho de gato e rato igual a tantos já vistos em filmes de ação, com várias situações que beiram o clichê. Então, temos os militares malvados, o bam-bam-bam do governo que matará até a própria mãe se assim necessário for para garantir o sucesso de seu plano, o babaca que vira exército-de-um-homem-só em questão de horas, o ET amiguinho, os antagonistas que se odeiam e passam a lutar lado a lado em prol de um objetivo comum… aqui há espaço até para o “momento pode-ir-me-deixe-aqui” seguido do “momento não-vou-deixar-você-para-trás-estamos-nesta-juntos“. Afe! :-)

Sabe, tantas possibilidades, tantas alternativas para se desenvolver os rumos do enredo… e uma idéia tão inovadora quase se perde por causa da escolha mais preguiçosa.

Mas calma, eu disse “quase”. Os clichês baratos são compensados pela extrema habilidade do diretor Neill Blomkamp em conduzir seqüências de ação embasbacantes, capazes de deixar qualquer um de queixo caído – a invasão da MNU e a batalha final no D9 são absolutamente sensacionais. Quando a pancadaria começa (não contarei como, quando ou porquê para não estragar a surpresa), Distrito 9 não poupa o espectador de cenas violentíssimas, com sangue, membros mutilados e cabeças explodindo a torto e a direito (!). Os efeitos visuais são uma atração à parte: desafio qualquer um a encontrar um defeito sequer no CGI dos aliens, da nave e também do robô, um aparato usado por Wikus em determinado momento, capaz de causar inveja em qualquer um daqueles montes de metal retorcidos que atendem pela alcunha de Transformers (hehehe). E na melhor tradição O Senhor dos Anéis, os melhores personagens de Distrito 9 são virtuais – no caso, o alienígena Chistopher e seu encantador filhinho crustáceo (?), um pivetinho ET que rouba o filme sempre que aparece.

Mas enfim… Distrito 9 vale a pena ou não? Claro que vale. Vale cada centavo empregado no ingresso. Ainda com falhas, estamos falando de uma sci-fi de ação que, mesmo não correspondendo totalmente à enorme expectativa causada por sua divulgação e seu ponto de partida, não faz feio e está muito acima da média dos próprios longas que condensaram os tais clichês tão exaustivamente utilizados aqui. Pena que o enredo preferiu cair no pega-pra-capá ao invés de fazer história e centrar sua mira no poderoso manifesto sócio-político desenvolvido em seus primeiros momentos. O que poderia ser uma obra-prima como instrumento de reflexão, ficou apenas como um ótimo filme de entretenimento. Mas quem não gosta de um bom quebra-pau na telona só para distrair, não é mesmo? :-)

Ah sim: a resposta para o sentido da vida, do universo e tudo mais é… 42. O Guia do Mochileiro das Galáxias que falou. ;-)

DISTRICT 9 • EUA/ZEL • 2009
Direção de Neill Blomkamp • Roteiro de Neill Blomkamp e Terri Tatchell
Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope, Nathalie Boltt, Sylvanie Strike, Elizabeth Mkandawie, John Sumner, William Allen Young.
112 min. • Distribuição: Tri-Star Pictures.

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