Cassino Royale

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/12/2006.

Escolhido para ser o alicerce da 21.ª aventura do espião inglês James Bond nos cinemas, o enredo de 007 Cassino Royale não é apenas uma historinha criada por tabela para servir de veículo ao agente mais famoso da história do cinema – assim como o é, por exemplo, 007 Um Novo Dia Para Morrer e 007 O Amanhã Nunca Morre (dois veículos ótimos enquanto trama, diga-se de passagem). Ok, este último citado é tão imerso no universo do agente secreto que poderia facilmente se passar por um rascunho psicografado por Ian Fleming direto do limbo (!). Voltando, 007 Cassino Royale não é apenas uma traminha desenvolvida a partir da idéia surgida na cabeça de algum executivo de Hollywood sedento por dinheiro. 007 Cassino Royale é nada menos que a primeiríssima história de espionagem protagonizada pelo agente secreto, o romance que apresentou ao mundo aquele que alimenta a imaginação dos leitores até hoje; é neste romance, criado por Fleming no longínquo ano de 1953, que o personagem apareceu pela primeira vez, com todos os seus maneirismos.

Bem, quase. É bem verdade que Cassino Royale, o livro, era um xodózão de Fleming, já que retrata Bond, recém-batizado com sua denominação “00”, como um sujeito meio amador, experimentando no limite toda a excitação e a adrenalina de ser um agente secreto com um arma na mão e uma licença para matar no bolso – logo, é de se esperar que os elementos que hoje estão associados ao personagem ainda estejam, digamos, pré-moldados e até meio crus. Talvez este carinho todo com a obra que deu o ponto de partida em 007 tenha sido o motivo pelo qual Ian Fleming bateu o pé quando negociou a venda dos direitos de todas as suas obras à Eon Productions, que pretendia adaptá-las para as telas dos cinemas. Quer dizer, “todas as suas obras”, não. Cassino Royale não estava no meio.

E de nada adiantou insistir. Fleming recusou-se a ceder seu primeiro livro até não poder mais. E ai de quem começasse a encher o saco do cara! Hunf. :-D

Deixando de lado um curtinha insignificante veiculado em 1954 pela emissora CBS, a obra só chegou às telonas em 1967, quando James Bond já era um cara bastante popular por conta das películas estreladas por Sean Connery. Porém, os direitos de adaptação cinematográfica da história ainda permaneciam “bloqueados”, ou seja, qualquer suposta transposição não poderia fazer parte da série oficial de filmes do espião. E como se não bastasse, a idéia de resetar o mundinho de 007 parecia um tanto absurda; tanto que os produtores responsáveis por esta adaptação, entendendo que uma produção “rival” da série oficial jamais sobreviveria nas bilheterias se apresentasse as mesmas características de sua “concorrente”, decidiram reformulá-la por completo. O resultado é Cassino Royale (Casino Royale, 1967), o primeiro filme de James Bond… no ramo da comédia. Mas hein? Na comédia? :-P

Sim, sim. Na comédia. Um agente secreto ultra-bem-sucedido como personagem central de uma trama absurdamente nonsense que tira sarro justamente dos elementos que, cinco anos depois da estréia de Bond nos cinemas com 007 Contra o Satânico Dr. No, já tinham vida própria. Esta foi a saída dos produtores para atrair o público sem parecer apenas uma fitinha furreca caça-níqueis que queria pegar carona no sucesso do personagem. Este “desvio de personalidade” do enredo de Cassino Royale não foi apenas uma tirada para driblar os direitos autorais: também representou uma resposta do produtor Charles K. Feldman aos seus colegas Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, os “donos” da franquia original – que, traumatizados com todo o siricotico do excelentíssimo senhor Kevin McClory (não sabe do que estou falando? Ah, então leia neste pequeno website a gloriosa matéria sobre o famigerado 007 Nunca Mais Outra Vez!), recusaram-se terminantemente a co-produzir mais um filme com um “estranho”. E como Sean Connery não queria nem saber de estrelar a versão não-autorizada de Cassino Royale para não perder a moral com seus chefões, Feldman resolver tirar um sarrinho e transformar o negócio em uma salada.

E que salada! Senão, veja só. Cassino Royale foi dirigido por CINCO indivíduos! Eis os nomes: Ken Hughes, diretor do musical arroz-de-festa da Sessão da Tarde O Calhambeque Mágico; Joseph McGrath, da comédia qualquer nota Um Marido de Reserva; Robert Parrish, habitual diretor de episódios da série Além da Imaginação; Val Guest, responsável pelo infame trash movie chamado A Abominável Mulher das Neves (?!); e por último, o notório John Huston, aclamadíssimo cineasta que comandou clássicos como O Tesouro de Sierra Madre, Moby Dick e O Falcão Maltês.

Se a direção da fita teve dedos de cinco meliantes, imagine o roteiro: oficialmente creditado a três pessoas, Wolf Mankowitz, John Law e Michael Sayers, sabe-se que o script foi incansavelmente reescrito por sujeitos como Ben Hecht (autor do enredo de Scarface – A Vergonha de uma Nação, versão de 1932), o humorista Peter Sellers, o cineasta Billy Wilder e até uma certa criatura que atende pelo nome de Woody Allen, por – sinal também integrante do elenco. E o que você pensaria de um filme que divide o personagem principal entre nada menos que SETE atores diferentes? Deu para imaginar o grau de insanidade aplicado à produção? :-)

Se não conseguiu imaginar, então conheça o enredo: James Bond (vivido por um impagável David Niven), que recebeu a ordem da rainha e agora é SIR James Bond, curte sua aposentadoria sem qualquer tipo de preocupação… até que é chamado para a labuta novamente. Convencido pelos chefes da agência de espionagem a agir contra um inimigo do passado, a SMERSH, Bond se manda para a Escócia e conhece uma intrigante agente (Deborah Kerr), que o faz enfrentar uma pá de atentados. De volta a Londres, Bond decide assumir o posto de M, que está morto (!). É aí que o ex-agente descobre que vários espiões estão debaixo da terra porque tentaram seguir seus passos de “sujeito galanteador” e se envolveram demais com mulheres fatais (!). Para botar ordem na casa e também localizar Jimmy Bond (Woody Allen), seu sobrinho desaparecido, Bond contrata Cooper (Terence Cooper), agente secreto que carrega uma suspeita fama de “incorruptível às mulheres”… Para confundir seus inimigos, o ex-007 também determina que todos os agentes a serviço de sua majestade, incluindo as criaturinhas do sexo feminino, deverão se chamar… JAMES BOND 007 (?).

Assim, o Bond original segue para sua missão: encontrar e chantagear a bela Vesper Lynd (vivida pela mais famosa Bond-Girl da história, Ursula Andress) e, com seu auxílio, armar um esquema para obter o apoio do dúbio Evelyn Tremble (Peter Sellers), que também se chamará James Bond 007. Tudo gira em torno dos planos de Bond em deter o bandidão mais perigoso da parada, o exímio jogador de bacará Le Chiffre (Orson Welles). As coisas podem sair dos trilhos quando surge na parada a belíssima Mata Bond (Joanna Pettet), filha ilegítima de Bond (?!), fruto de um casinho rápido com ninguém menos que… Mata Hari! Céus, que confusão dos diabos! :-D

Agora me diga: dá pra levar a sério um troço desses?

É aí que reside a graça de Cassino Royale. A criativa direção dos cinco cineastas ganha pontos justamente por assumir o absurdo de sua concepção e entregar-se por completo ao único objetivo de divertir a platéia e apresentar um James Bond fora do convencional. O personagem de David Niven (o lendário “típico inglês” de produções díspares como A Pantera Cor de Rosa e Morte Sobre o Nilo) passa quase o tempo todo tentando consertar as burradas dos sujeitos que levam seu nome – e que não fazem nada, mas nada certo… No meio de sua cruzada para derrotar Le Chiffre e finalmente voltar a descansar, o espectador é brindado com uma série de gags que satirizam todos os conceitos definidos pelos livros e pelos filmes de 007, além de juntar uma gama de astros popularíssimos na época, como os já citados e também outros grandes nomes como Anjelica Huston, William Holden, Charles Boyer, o eterno mafioso George Raft, o excelente Peter O’Toole (mais conhecido como o senhor Lawrence da Arábia), a maravilhosa Jacqueline Bisset e Jean-Paul Belmondo, um dos maiores galãs do cinema francês sessentista. Mais astros que isto, só nos filmes de Steven Soderbergh! :-)

Ah, e não podemos nos esquecer de que Cassino Royale traz uma das mais brilhantes e talvez a mais deliciosa canção-tema de toda a cinessérie: The Look of Love, composta por Burt Bacharach e imortalizada na voz de Dusty Springfield. Melhor que esta, só Shirley Bassey soltando seu gogó no tema de Goldfinger! ;-)

Mas nem tudo são flores. A produção causou uma bela dor de cabeça em todos os envolvidos pelo orçamento meio inflado (US$ 12 milhões, um absurdo para a época) e também pelos inúmeros atritos entre dois importantes astros da película: Peter Sellers e Orson Welles. Sellers, por exemplo, tinha o costume de abandonar os sets de filmagem; às vezes, desaparecia sem aviso prévio por dias. Welles, dono de temperamento difícil e extremamente enciumado com a popularidade de Sellers, sempre fugia do roteiro e inventava alguma coisa para se mostrar, o que ocasionamente atrapalhava o andamento das filmagens. E as cenas que traziam Sellers e Welles juntos precisaram ser rodadas em dias diferentes e com os atores em separado, para que a equipe não fosse surpreendida por algum ocasional quebra-pra-capá (!). Isto tudo, sem contar o iminente lançamento de Com 007 Só Se Vive Duas Vezes, o então longa oficial de James Bond, que naturalmente representava uma ameaça em termos de bilheteria.

Como era de se esperar, o “produto oficial” rendeu mais do que o “genérico” (US$ 43 milhões contra US$ 22 milhões). E os fãs, que não admitiram uma visão cômica do agente inglês – ou não entenderam a piada – torceram o nariz. Hoje, a história é outra. A Eon finalmente conseguiu os direitos de adaptação cinematográfica de Cassino Royale, o livro, e acaba de lançar a história com um James Bond polêmico e o notório rótulo de “um dos melhores filmes da saga”. Enquanto isto, depois de uma longa batalha judicial, a MGM comprou os direitos desta versão não-oficial e hoje o filme é comercializado em DVD como parte da franquia, embora seja comercializado “em separado”, como “um capítulo à parte, específico”.

E quanto ao resultado final de Cassino Royale, a visão cômica da coisa? Bem, é fácil resumir da seguinte forma: num todo, trata-se de uma produção curiosa, atípica e altamente divertida. Se você é fã ferrenho, bem nerdy mesmo (no bom sentido da palavra), daqueles que não admitem qualquer fuga dos elementos definidos pelos textos de Ian Fleming e pelos longas-metragens da série oficial, você corre o risco de se ofender feio com as liberdades artísticas do roteiro, mesmo que uma ou outra característica do universo de Bond se faça presente. Numa boa? Besteira. Cassino Royale foi criado com o único intento de divertir. E isto, apesar de seus altos e baixos, faz com louvor. E não é ótimo saber que James Bond é tão único a ponto de saber tirar sarro de si mesmo? ;-)

CASINO ROYALE • ING/EUA • 1967
Direção de Val Guest, Ken Hughes, John Huston, Joseph McGrath, Robert Parrish e Richard Talmadge • Roteiro de Wolf Mankowitz, John Law e Michael Sayers • Roteiristas não creditados: Woody Allen, Val Guest, Ben Hecht, Joseph Heller, Terry Southern, Billy Wilder e Peter Sellers
Elenco: Peter Sellers, Ursula Andress, David Niven, Orson Welles, Joanna Pettet, Woody Allen, Deborah Kerr, William Holden, Charles Boyer, John Huston, George Raft, Jean-Paul Belmondo, Terence Cooper, Jacqueline Bisset, Geoffrey Bayldon, Geraldine Chaplin, Anjelica Huston, Peter O’Toole, Robert Vaughn
131 min. • Distribuição: United Artists.

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