Miss Simpatia 2 – Armada e Poderosa

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/03/2005.

Hoje em dia, na indústria cinematográfica, qualquer longa-metragem que faça um mínimo de sucesso ganha uma seqüência rapidamente. E olhem que, para isso, não é nem mesmo necessário que a fita em questão abra um parêntese no final ou algo que justifique a existência de uma continuação. É tudo movido a dinheiro mesmo. Em alguns casos, o plot gerado para mover a continuação é até bacana, por mais que não renda um bom trabalho – como é o caso do fraquíssimo Entrando Numa Fria Maior Ainda. Em outros casos, porém, não há absolutamente NADA que justifique a existência da segunda ou terceira ou décima oitava parte. E Miss Simpatia 2 – Armada e Poderosa (Miss Congeniality 2 – Armed and Fabulous, 2005), seqüência do simpático-e-divertidinho-porém-nada-mais-que-isso Miss Simpatia, de 2000, é uma prova concreta do que falo.

Na verdade, só há uma única explicação para que esta bomba atômica exista: Sandra Bullock. A “atriz” – e coloco entre aspas porque, em minha opinião, a atual “namoradinha da América” é qualquer coisa, menos atriz – anda mesmo precisando de um sucesso para fazer jus à posição de destaque que ganhou com o próprio Miss Simpatia; já que a personagem deste longa, a agente do FBI Gracie Hart, não exige quase nada em termos de interpretação, nada melhor do que um repeteco, certo? A rentável carreira que o primeiro filme construiu – custou US$ 40 milhões e gerou bilheteria de mais de US$ 120 milhões, só nos States – também contou bastante para a realização de uma nova fita. Bullock assumiu a produção, contratou um roteirista que pudesse escrever qualquer baboseira em dois dias, chamou um diretorzinho qualquer e fez deste roteiro sua nova aventura na pele da agente.

O problema é que o primeiro Miss Simpatia já não tinha lá uma grande história, e seu final sequer deu gancho para uma nova trama. Para quem não conhece o enredo do primeiro, aqui vai: a tal agente Gracie Hart precisa se disfarçar de candidata a Miss no popular concurso Miss Simpatia para descobrir a identidade e capturar um ser misterioso que ameaça transformar a etapa final do negócio numa tragédia. Só que Gracie é totalmente masculinizada, nunca se maquiou na vida, não sabe se equilibrar num sapato de salto alto e ainda tem uma risada que mais parece um ruído de um porco… Enfim, depois de passar por tudo quanto é provação, Gracie se disfarça, vira um mulherão, prende o meliante e ainda fica com o mocinho no final (*). E é isso. Agora, por favor, me respondam: um filme desses precisa de uma continuação? Não. Mas enfim, uma onda gigante arrasou a Ásia, o Big Brother faz o maior sucesso e Miss Simpatia 2 chega aos cinemas do Brasil. Ou seja: o mundo é um lugar bem injusto pra se viver! :-P

Mas é tão ruim assim? Não. É bem PIOR. Não há nada, nada mesmo, que se salve aqui. Antes o “roteirista” Marc Lawrence (dos igualmente péssimos Amor à Segunda Vista e Forças do Destino) optasse por reciclar as piadas do primeiro. Ao invés disso, o cara resolveu escrever um novo roteiro, totalmente incoerente e deslocado. O resultado é um festival de piadinhas babacas e sem graça, que só constrangem os atores e deixam o público com aquela cara de “ahn… isso é pra rir?”. Enfim, um vexame total, que provavelmente os envolvidos não citarão de jeito nenhum em seus currículos. E só pode ter algo errado quando uma cinema lotado dá apenas UMA RISADA durante um filme de comédia inteiro, não?

A história é terrivelmente ruim: depois do sucesso da missão do filme anterior, Gracie não pode mais agir sob disfarce em missões, uma vez que virou celebridade instantânea da noite para o dia. Pra piorar, o romance com o agente Eric Matthews, o mocinho da fita anterior, naufragou – mera desculpa; o personagem só foi eliminado daqui porque o ruinzinho Benjamin Bratt, intérprete do cara, não quis pagar mico nesta joça. Enfim, para não ser demitida do FBI, Gracie aceita uma proposta de seu chefe, o agente MacDonald (Ernie Hudson, de Os Caça-Fantasmas 2, numa participação inexplicável): trabalhar como “a nova cara do FBI”, aparecendo toda produzida em comerciais de TV, eventos beneficientes e afins. Tudo isso porque sua ação no concurso inspirou a mulherada a lutar por seus direitos e se defender da ameaça masculina ao seu redor, representada por homens malvados e sem coração… Ugh! Já vomitou aqui ou quer que eu continue?

Ok, então eu continuo: Gracie aceita a idéia e passa dez meses sendo “treinada” por Joel (Diedrich Bader, de A Família Buscapé e do ainda inédito por aqui Napoleon Dynamite), um personal stylist – seja lá o que isso significa! Ao final, transforma-se numa dondoca de causar inveja à Vera Loyola (!), só que com o tal do Joel no lugar do cachorrinho. Tal comportamento azeda ainda mais o relacionamento de Gracie com sua nova parceira, a carrancuda Sam Fuller (Regina King, péssima – nem parece que é a mesma que arrebentou como a backing vocal de Ray). É, isso mesmo. As duas são parceiras, numa referência descaradíssima ao clássico Máquina Mortífera. Ah, e as duas se odeiam. Mas todos sabem que, até o final, as coisas mudam… E não reclamem, pois não falei demais: isto até o trailer mostra! Nas palavras da própria Bullock: “Um dos temas deste filme é a amizade e como um amigo pode surgir na pele de quem menos se espera”. Nossa, que tocante. Me deu até vontade de chorar. Pausa para ir até a farmácia comprar uma caixinha de Kleenex. :-P

Voltando, quando os melhores amigos de Gracie, a vencedora do Miss Simpatia Cheryl (Heather Burns) e o apresentador do concurso Stan Fields (William Shatner), são seqüestrados, Gracie e Sam são enviadas a Las Vegas, onde devem servir como “assessoras de imprensa” para o caso. Só que decidem intervir a seu modo quando percebem que o supervisor local do FBI, interpretado pelo sempre competente Treat Williams (do ótimo seriado Everwood), não está se mexendo tanto quanto devia. Para isso, contam com a ajuda do bonzinho e incompetente agente local Jeff Foreman (Enrique Murciano, da série Without a Trace, uma mistura bizarra de Tobey Maguire e Clive Owen). Viram só como o enredo é excelente? Um primor! Alguém, por favor, dê um Oscar ao indivíduo que escreveu ISTO! :-P

Os erros são muitos. Os personagens não criam empatia com o público, os atores são horríveis – com um destaque especial ao eterno “mala” William Shatner, numa participação humilhante -, os diálogos são lotados de frases de efeito, as piadas não fazem rir, as cenas de ação não empolgam e a direção do tal John Pasquin (quem?) é tão relaxada que, em determinada seqüência de ação, vê-se perfeitamente que Sandra Bullock e Regina King dão lugar a dublês – e homens, ainda por cima (!). Por falar nelas, a falta de química entre as atrizes é impressionante. Dá raiva vê-las juntas em cena. Desde já, fortes candidatas ao Framboesa de Ouro de Pior Dupla do próximo ano. Sem contar as cenas em que as duas atuam com o afetadíssimo Joel, “interpretado” por Diedrich Bader com os estereótipos no talo (e isto não foi um elogio). Nem a Regina King vestida de Tina Turner salvou. E o pior é que ela ficou igualzinha!

O problema maior, entretanto, é o roteiro. Além dos furos escabrosos, o roteirista ainda teimou em transformar a personagem de Sandra Bullock em algo que ela não é, arrancando de si o único elemento que a tornava realmente engraçada e natural. Se a maior graça da agente no longa anterior era o processo de transformação da Gracie relaxada para a Gracie beldade, o que temos aqui é uma socialite predominantemente perua e entojada. Imagem esta que definitivamente não combina com o espírito do filme. É como filmar X-Men 3 com um Wolverine gentil, educado e nada brutalizado. Pra resumir: filmeco de quinta categoria que não vale dez centavos do valor do ingresso! Quando a projeção de Miss Simpatia 2 acaba e as luzes do cinema se acendem, só temos a certeza concreta de três coisas: a) a película existe só pra levar nosso suado dinheirinho, b) alguns trabalhos devem se manter apenas na “parte 1”, e c) além de ser má atriz, Sandra Bullock ainda carrega uma maldição milenar envolvendo continuações! Alguém aí viu Velocidade Máxima 2? MEDO! :-P

CURIOSIDADES:

• Todo o elenco central de Miss Simpatia 2 – Armada e Poderosa (subtítulo horrível, pelo amor de Deus!), assim como o diretor e o roteirista, são amigos pessoas de Sandra Bullock, que é produtora do filme. Bem, se ela tivesse pensado em escalar atores de verdade ao invés de amigos, será que poderia ter dado certo?

• A trilha sonora do longa-metragem é composta, em sua maioria, de faixas compostas para outros longas, como A Fuga das Galinhas, Doce Novembro e Intrigas.

• O diretor John Pasquin já dirigiu longas-metragens do porte de Super Pai (2001) e Meu Papai é Noel (1994), ambos com o perigoso Tim Allen. Por isso, eu digo com todas as letras que tenho muito, mas muito medo dele. :-P

• (*) Sim, eu sei. Revelei um spoiler sobre o primeiro Miss Simpatia. Ah, mas quando você vê o filme, com 15 minutos já sabe que tudo aquilo que contei irá acontecer! :-D

MISS CONGENIALITY 2 – ARMED AND FABULOUS • EUA • 2005
Direção de John Pasquin • Roteiro de Marc Lawrence
Elenco: Sandra Bullock, Regina King, Enrique Murciano, Diedrich Bader, Treat Williams, Ernie Hudson, Heather Burns e William Shatner.
100 min. • Distribuição: Warner Bros.

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