As Femme Fatales Mais Letais do Cinema

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 22/03/2006.

Ao ato da conclusão desta matéria, este que vos fala ainda não pode dizer absolutamente nada sobre Instinto Selvagem 2, tardia continuação das (des)venturas da maligna Catherine Tramell, a escritora bissexual – e assassina nas horas vagas – imortalizada pela atuação bem sacada da ainda maravilhosa Sharon Stone no primeiro longa. Bem, não posso dizer nada pois até o momento ainda não assisti esta segunda parte. Clássico? Tão bom quanto o primeiro? Oportunista? Cine Privê de quinta categoria? Só o tempo dirá. Independente disto, Catherine Tramell é legal pra xuxu e ainda lembrada por grande parte dos cinéfilos como uma figura emblemática do cinema dos anos 90. Responsa! :-D

Exagero? Na-não. Catherine Tramell tornou-se popularíssima justamente por resgatar muitas características de um termo muito usado na década de 40 e que parece estar um pouco defasado hoje em dia: as femme fatales. Ahn… Quem?

O termo femme fatale (do francês mulher fatal, simples assim) é usado para designar aquela personagem feminina que geralmente serve de perdição ao mocinho do filme ou aos personagens masculinos em geral. A mulher fatal, quase sempre associada ao gênero policial, é sedutora, sensual, insinuante, dissimulada, MUITO calculista, MUITO inteligente e não pensa duas vezes em fazer uso de seus atributos físicos para atingir seus objetivos (em sua grande parte, beeeem obscuros e malignos). A definição é véia, e nasceu no auge do cinema noir: as femme fatales eram obrigatórias nestas produções. Muitas atrizes destacaram-se com este tipo de papel, como Barbara Stanwyck (Pacto de Sangue, de 1944), Lana Turner (O Destino Bate à Sua Porta, 1946), Rita Hayworth (A Dama de Shanghai, 1948) e Kim Novak (na obra-prima do suspense Um Corpo que Cai, 1958).

Obviamente, estas não são as únicas. Uma pá de moças tentadoras e deveras perigosas estouraram nas telonas. Muitas, pra ser mais claro. Eis, então, uma singela listinha elaborada pelo Zarko aqui, com algumas das femme fatales mais significativas da sétima arte! O que elas têm de beleza, têm de mortais, e ainda assim, é impossível resistir a elas… Portanto, moçada, ajoelhem-se e façam reverência a:

• SÉVÉRINE ROUBAUD (Simone Simon)

Mostrou suas garrinhas em… A Besta Humana (La Bête Humaine, 1938), de Jean Renoir

Quem é a dita cuja? A francesinha Sévérine Roubaud é daquele tipo de garota delicada e encantadora, que qualquer homem levaria para casa e não teria coragem de tocar em um fio de cabelo. Na verdade, a aparência meiga de Sévérine esconde uma faceta sensual e perigosa, de alguém que não parece importar-se com algo além de seu próprio umbigo. Tanto que seu marido, Roubaud (Fernand Ledoux), um subchefe de estação ferroviária que cometeu um assassinato, forçou-a a usar seus dotes para calar a única testemunha do crime, o alcóolatra maquinista Jacques Lantier (Jean Gabin). Mal sabe o homem que Sévérine aproveitou-se da situação para tornar-se amante de Lantier… e tramar a morte do próprio Roubaud.

Grau de periculosidade: 50%. Sévérine costuma ficar na dela e não incomoda ninguém. Pelo menos será assim depois que seu marido estiver do jeito que ela quer: morto.

A história dessa louca: A Besta Humana, inspirado num romance de Emile Zola, é um dos primeiros longas-metragens a trazer elementos que, mais tarde, caracterizariam a categoria noir. É, também, o filme mais lembrado do cineasta Jean Renoir (A Grande Ilusão), além de trazer a melhor interpretação da carreira do grande Jean Gabin. Não à toa, o digníssimo senhor Alfred Hitchcock sempre dizia que A Besta Humana era um dos grandes responsáveis por sua predileção pelo suspense.

• BRIGID O’SHAUGHNESSY (Mary Astor)

Mostrou suas garrinhas em… O Falcão Maltês (The Maltese Falcon, 1941), de John Huston

Quem é a dita cuja? Aparentemente, a elegante Brigid O’Shaughnessy não passa de uma mulher indefesa e correndo perigo. Pelo menos é assim que a dona se apresenta ao detetive Sam Spade (Humphrey Bogart), quando invade seu escritório dizendo ser perseguida por um certo Floyd Thursby. Spade percebe que Brigid esconde mais do que deveria ao colocar seu parceiro Miles Archer para perseguir Thursby… e descobrir que ambos foram encontrados mortos na mesma noite. A partir daí, a perseguição de um grupo de escroques a uma valiosa estátua de falcão desaparecida fará com que nossa amiga Brigid O’Shaughnessy mostre sua faceta escondida e revele suas verdadeiras intenções com relação a Sam Spade…

Grau de periculosidade: 50%. Você deve temer Brigid, sim… mas apenas se a tal estatueta do falcão estiver em seu poder. Aí, meu amigo, já era. Caso contrário, esqueça. Ela não é de prejudicar as pessoas de graça. :-)

A história dessa louca: Não há muito o que dizer de O Falcão Maltês, também conhecido pelo título de Relíquia Macabra, nome com a qual chegou aos cinemas em 1941. Qualquer cinéfilo e qualquer veículo aponta o longa como o verdadeiro paradigma do cinema policial, com seu anti-herói cínico e tão amoral quanto seus vilões (às vezes até mais), sua trama rocambolesca e cheia de surpresas, e sua femme fatale, uma das mais ambiciosas e determinadas da história.

• GILDA MUNDSON (Rita Hayworth)

Mostrou suas garrinhas em… Gilda (1946), de Charles Vidor

Quem é a dita cuja? Só quem pode responder a esta pergunta com exatidão é Johnny Farrell (Glenn Ford). Farrell salvou a vida do ricaço Ballin Mundson (George MacReady) e este, como forma de gratidão, empregou-o em sua boate. Com o tempo, a amizade se fortaleceu e Farrell tornou-se sócio do lugar. O problema surge quando Ballin viaja a “negócios” e retorna casado com Gilda, uma mulher do passado de Farrell. Misteriosa, manipuladora, sacana e absolutamente sedutora, Gilda sabe que Johnny Farrell a odeia – e faz questão de provocar os nervos do pobre coitado com irresistíveis joguinhos de sedução que podem anular o ódio do sujeito… ou alimentá-lo ainda mais. Uh, babe!

Grau de periculosidade: 60%. Gilda não é má pessoa; só uma garota muito, muito sapequinha, que adooooooora brincar com a libido dos homens. Mas quem arriscar deixar-se envolver, sairá com o sistema nervoso estourado e precisará de terapia intensiva durante anos! Não à toa, bastava ouvir a voz de Gilda para que Johnny Farrell sentisse um desejo sincero de esmurrar a primeira face que visse em sua frente, mesmo que fosse a de sua própria mãe…

A história dessa louca: Embora seja nada além de uma película bacaninha, Gilda é lembrado até hoje exclusivamente pela perfeita construção de Rita Hayworth para a protagonista. Gilda é considerada a primeira grande mulher fatal do cinema, definindo alguns padrões aplicados em quase todos os personagens similares a partir daí. E as seqüências na qual Hayworth, dublada por Anita Ellis, interpreta as belas Amado Mio e principalmente Put The Blame On Mame (onde a arisca Gilda faz um sensualíssimo e excitante strip-tease de apenas uma luva) são antológicas.

• NORMA DESMOND (Gloria Swanson)

Mostrou suas garrinhas em… Crepúsculo dos Deuses (Sunset Blvd., 1950), de Billy Wilder

Quem é a dita cuja? Antiga estrela do cinema mudo, a ex-diva Norma Desmond, em plena decadência e mergulhada no esquecimento, amarga uma existência solitária ao lado de seu mordomo Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim) numa imensa mansão em Sunset Boulevard, Hollywood. Desmond, que alimenta a ilusão de um dia voltar às telonas em grande estilo, vê uma chance de ouro surgir literalmente em seu quintal quando o roteirista desempregado Joe Gillis (William Holden) esconde-se na mansão ao fugir de credores. Ele não poderia ter feito burrada maior: enlouquecida, Norma aprisiona Gillis, transformando-o em amante e obrigando-o a escrever um roteiro para o seu “retorno triunfal”.

Grau de periculosidade: 90%. Impressionante como Norma Desmond consegue estar em TODOS os lugares ao mesmo tempo, como se fosse uma espécie de encosto maldito. Nunca, eu digo, NUNCA passe em frente à sua mansão. Se você é roteirista, então, pode dar adeus à sua vida. :-D

A história dessa louca: Saudado pela crítica como um réquiem à era de ouro de Hollywood, Crepúsculo dos Deuses é tão importante para a indústria cinematográfica que encabeça uma lista elaborada pelo Congresso americano de “patrimônios culturais da humanidade”. Não é exagero. Tenso, bonito e carregadíssimo de humor negro, Billy Wilder (Quanto Mais Quente Melhor) deu um banho de direção e entregou uma ácida crítica à “ilusão de eternidade” que a meca do cinema proporciona a seus astros descartáveis. Ah, e carrega um elemento já defasado hoje em dia, mas inédito e inovador em sua época: trata-se do primeiro filme narrado na íntegra por um personagem morto.

• SRA. ROBINSON (Anne Bancroft)

Mostrou suas garrinhas em… A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967), de Mike Nichols

Quem é a dita cuja? A clássica Sra. Robinson é uma mulher casada, reservada ao extremo, madura e de bom nível social. Nas entrelinhas, o que ela gosta mesmo é de uma boa noite de suadeira com o garotão Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), nada menos que o filho do sócio de seu marido. Braddock, recém-formado, cheio de dúvidas com relação a seu futuro profissional e com testosterona saindo até pelas narinas (!), acredita que a Sra. Robinson, que tem o dobro de sua idade, está apaixonada por ele. Ledo engano. A dissimulada senhora jamais daria crédito a um “fracassado” como Benjamin, e só precisa dele para sanar sua vontade de “dar no couro”. Mas eis que Benjamin apaixona-se pela filha dela, Elaine (Katharine Ross). E quando a Sra. Robinson descobrir… sai de baixo.

Grau de periculosidade: 75%. A Sra. Robinson é capaz de fazer qualquer brutamontes cair no choro e pedir pela mamãe só de lançar um olhar gelado. Medo!

A história dessa louca: Simplesmente um clássico do cinema. A Primeira Noite de um Homem, comandado pelo mesmo Mike Nichols do belíssimo Closer: Perto Demais, foi alçado ao status de cult movie e tornou-se um referencial para a juventude dos anos 60. Com uma estrutura simples, o longa marcou geração com sua fenomenal trilha sonora – e quem não conhece as maravilhosas canções de Simon & Garfunkel compostas especialmente para o filme? – e a atuação brilhante da saudosa Anne Bancroft na pele da maligna Sra. Robinson, um ícone sessentista que perdura até hoje.

• EVELYN MULWRAY (Faye Dunaway)

Mostrou suas garrinhas em… Chinatown (1974), de Roman Polanski

Quem é a dita cuja? A misteriosa Evelyn Mulwray, surgida como uma combustão espontânea na frente do dúbio detetive particular especializado em casos extra-conjugais J. J. Gittes (Jack Nicholson), queria saber se o marido dela a traía. Logo de cara, indícios revelam que Gittes nem deveria ter deixado a “sujeita” entrar em sua escritório. Pra começar, a tal garota não era quem dizia ser; e quando a verdadeira Evelyn aparece na jogada, seu marido – ninguém menos que o engenheiro-chefe do Departamento de Água e Energia de Los Angeles – também surge… mortinho da silva. Ignorando o perigo, Gittes inicia um caso com a tímida senhora. E se mete numa perigosíssima teia de traições envolvendo um bando de gângsteres, um plano maligno que envolve o reservatório de água da cidade e o próprio pai de Evelyn, o poderoso e psicótico Noah Cross (John Huston).

Grau de periculosidade: 50%. O problema não é exatamente Evelyn, e sim os perigos que a cercam. Na verdade, a moça não chega a ser tão vilanesca assim, mas seu nome é sinônimo de confusão. O nariz quebrado de J. J. Gittes que o diga… :-)

A história dessa louca: Chinatown chegou aos cinemas ianques sem muito alarde e, aos poucos, converteu-se a sucesso instantâneo graças à sua assustadora trama, muito bem conduzida pelo polêmico Roman Polanski (Oliver Twist) na época em que seu nome ainda era associado a grandes trabalhos. Construído como uma homenagem ao cinema policial dos anos 40, Chinatown ganha cada vez mais força à medida que envelhece: seu tenebroso final (no bom sentido) deixa qualquer um paralisado até hoje. E a fria personagem da diva Faye Dunaway, que remete às loiras geladas dos anos 30, é nada menos que sublime.

• MATTY WALKER (Kathleen Turner)

Mostrou suas garrinhas em… Corpos Ardentes (Body Heat, 1981), de Lawrence Kasdan

Quem é a dita cuja? Para o advogado de porta de cadeia Ned Racine (William Hurt), Matty Walker é tudo o que um homem poderia pedir a Deus. Linda, loira, engraçada, sensual… e por incrível que pareça, caidinha por ele. Sim, Matty é casada, mas isto é somente um detalhezinho insignificante. O clima tórrido da Flórida, castigado por um verão infernal, contribui para que Matty traia seu marido com Ned. Totalmente cego de paixão, Ned não percebe que Matty Walker é, na verdade, uma perfeita cobra criada: valendo-se da atração que exerce sobre o cara, ela o convence a matar Edmund (Richard Crenna), seu marido, para que os dois possam fugir com a fortuna do elemento. O que Ned não sabe é que, no final desta história, certamente não haverá espaço para ele entre os vivos… afe!

Grau de periculosidade: 95%. Matty Walker é mentirosa, falsa, manipuladora ao extremo, não mede esforços para conseguir o que quer. E é capaz de QUALQUER COISA para chegar onde quer chegar. Qualquer coisa MESMO.

A história dessa louca: A meu ver, Corpos Ardentes, estréia de Lawrence Kasdan (O Apanhador de Sonhos) na direção de longas, não chega a ser tããão excelente assim. É apenas um bom filme. Mas não há como negar que apresenta uma das mulheres mais perigosas do cinema. Kathleen Turner, também estreante nas telonas com este trabalho, chegou a ser comparada com Lauren Bacall e Rita Hayworth, e por muito tempo ostentou o título de “a grande femme fatale do cinema contemporâneo”. Nada mal, hein? De quebra, Corpos Ardentes traz uma ótima fotografia, que trabalha sombras e cores quentes de maneira genial.

• DOROTHY VALLENS (Isabella Rossellini)

Mostrou suas garrinhas em… Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), de David Lynch

Quem é a dita cuja? Dorothy Vallens é uma cantora de cabaré e a mulher mais desejada da pequena e atrasada cidade de Lumberton. Ela é a protagonista dos sonhos molhados de dez entre dez jovens do lugar, entre eles Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan). Inatingível? Pode até ser, mas não para Jeffrey, que se vê envolvido diretamente com Dorothy depois de encontrar uma orelha humana decepada em seu jardim (?). Transformado em fantoche pela cantora, o indivíduo se vê no meio de uma absurda enrascada ao descobrir que Dorothy, que é sadomasoquista (??), é refém e escrava sexual do sádico traficante Frank Booth (Dennis Hopper). Pavor!

Grau de periculosidade: Incalculável. Dorothy é apenas uma peça de um intrincado quebra-cabeça, é verdade (ela tem motivos graves para se deixar dominar por Frank Booth). Mas é capaz de sandices inimagináveis, como ameaçar um indivíduo com uma faca e forçá-lo a oferecer-lhe seus “dotes” para que ela pratique sexo oral (sim, ela faz isso). Se você não tem medo de ser torturado cirurgicamente até a morte pelas mãos de Booth, que morre de ciúmes da moça e manda arrancar as tripas de qualquer ser humano que ouse respirar perto dela (!), pode se aproximar de Dorothy, vai fundo. :-)

A história dessa louca: Estamos falando somente da dita obra máxima de David Lynch (Cidade dos Sonhos). Sujo, trash, vulgar e dificílimo de assistir, mas constantemente apontado como um dos poucos filmes dos últimos anos a serem realmente lembrados no futuro. Não à toa, Veludo Azul é geralmente usado como objeto de análise em TCCs de psicologia e cinema (é fato, dê uma busca no Google pra ver :-D). E todos os fãs de Lynch não se cansam de indicar Isabella Rossellini como a mulher fatal definitiva de seus trabalhos – e olhe que toda fita do cara tem uma! Bem… pra mim, dá vontade de chorar e cortar os pulsos só de ouvir a garota interpretando a canção-tema do longa, Blue Velvet.

• MARQUESA ISABELLE DE MERTEUIL (Glenn Close)

Mostrou suas garrinhas em… Ligações Perigosas (Dangerous Liaisons, 1988), de Stephen Frears

Quem é a dita cuja? À primeira vista uma senhora refinada e elegante da alta sociedade francesa do século XVIII, Marquesa de Merteuil não passa mesmo de uma mulher amargurada por ter sido abandonada por seu ex-marido. Dar a volta por cima? Que nada: para ela, mais interessante que isto é vingar-se do sujeito. Para tanto, arquiteta um sórdido plano junto ao não menos vilanesco Visconde de Valmont (John Malkovich); plano este que tem como alvo a nova esposa do ex-marido, a inocente Cécile de Volanges (Uma Thurman). Caso dê tudo certo, o prêmio para o Visconde será o corpo da safada Marquesa. O problema é que a vingança planejada pela malévola Isabelle de Merteuil pode destruir a vida de muitos ao seu redor, incluindo aí a casta Madame de Tourvel (Michelle Pfeiffer). E quem disse que a Marquesa de Merteuil se importa com este detalhe?

Grau de periculosidade: 80%. E olhe que sequer é necessário conhecê-la pessoalmente para tanto. Basta que ELA saiba de sua existência. Você pode ficar na sua, mas nunca saberá se faz parte dos joguinhos trágicos da Marquesa. E quando souber, pode ter certeza… será tarde demais.

A história dessa louca: Glenn Close é mestre em papéis de louca, assassina e afins (e Atração Fatal está aí para provar). Mas não há personagem em seu currículo que se compare à clássica Marquesa Isabelle de Merteuil, o cruel fio condutor de Ligações Perigosas. Vencedor de muitos prêmios, a fita, dirigida por Stephen Frears (Sra. Henderson Apresenta), dribla o habitual marasmo dos dramas de época para entregar uma história de deixar o espectador com os cabelinhos do braço em pé. E o destino da Marquesa é uma das coisas mais bonitas e pavorosas já produzidas pelo cinema. É ver pra crer.

• JESSICA RABBIT (Kathleen Turner, Amy Irving)

Mostrou suas garrinhas em… Uma Cilada para Roger Rabbit (Who Framed Roger Rabbit, 1988), de Robert Zemeckis

Quem é a dita cuja? A cantora e dançarina Jessica Rabbit é tudo o que a rapaziada babona espera de um mulherão: curvilínea, misteriosa, com um decote espetacular e pernas de deixar qualquer um doente. Como se não bastasse, ela sabe muito bem como usar sua aura sedutora em benefício próprio. Só um detalhe: ela é um desenho animado… o que não faz muita diferença numa cidade onde seres humanos e desenhos convivem e interagem pacificamente. Mas para o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins), um humano avesso a desenhos (um deles matou seu irmão), Jessica Rabbit não é apenas uma mulher animada (e bota animada nisso): ela também é a suposta peça-chave de uma terrível armação contra seu marido, o coelho Roger Rabbit – armação esta que tem como objetivo a destruição total de Toontown, a cidade dos desenhos.

Grau de periculosidade: 50%. Não é possível saber até que ponto Jessica Rabbit é confiável. Mas a moçoila jura ser fidelíssima a seu amado marido-coelho. Pois é, uma mulher casada com um coelho. É que ele é “divertido”, segundo Jessica. :-D

A história dessa louca: Ah, vai dizer que nunca assistiu Uma Cilada Para Roger Rabbit? Um dos maiores filmaços dos anos 80 e você nunca ouviu falar? A divertidíssima junção de live-action com animação fez um tremendo sucesso nas bilheterias e entrou para a história por reunir numa só tacada diversos personagens clássicos dos desenhos – Mickey e Pernalonga pulando de pára-quedas lado a lado? Pato Donald e Patolino em um sangrento duelo de pianos? – e ainda trazer uma história decente. Curiosidade: Jessica Rabbit (cujos traços são inspirados na lendária Veronica Lake) é dublada por Kathleen Turner nos diálogos e por Amy Irving quando canta.

• SUSIE DIAMOND (Michelle Pfeiffer)

Mostrou suas garrinhas em… Susie e os Baker Boys (The Fabulous Baker Boys, 1989), de Steve Kloves

Quem é a dita cuja? A ex-call girl Susie Diamond é uma talentosa cantora de bar contratada pelos irmãos pianistas Frank (Beau Bridges) e Jack Baker (Jeff Bridges) para levantar a moral de seus shows, há muito decadentes. A sensualidade e o carisma de Susie realmente renovam a carreira dos irmãos, e eles experimentam um sucesso até então inédito em suas carreiras de músicos de bar e hotel. Entretanto, o que Susie tem de carismática e sensual, tem em dobro de atrevida, desbocada e intrometida. E alguém aí tem dúvidas com relação aos sentimentos que Susie despertará em Jack e Frank – e na tremenda confusão que causará como conseqüência?

Grau de periculosidade: 50%. Susie é mestre em seduzir, provocar e rebaixar os digníssimos representantes do sexo masculino para sua própria diversão. Mas não traz más intenções em seus atos.

A história dessa louca: Aclamado em sua estréia, Susie e os Baker Boys é um drama menor, quase independente, que têm na inspiradíssima interpretação de Michelle Pfeiffer um de seus pontos altos. Pfeiffer, que declarou mais tarde ter se inspirado nas musas dos anos 40 para compôr Susie, é a alma e o coração deste singelo drama romântico. Ótimo para se assistir com a(o) namorada(o). Mas cuidado para não babar muito na Michelle Pfeiffer! Ou disfarça, pelo menos. ;-)

• JUDE (Miranda Richardson)

Mostrou suas garrinhas em… Traídos pelo Desejo (The Crying Game, 1989), de Neil Jordan

Quem é a dita cuja? Bem, não seria muito correto incluir Jude nesta relação, já que não estamos falando de alguém tão belo assim. Na verdade, Jude é esculhambada, levemente masculinizada, veste roupinhas bizarras e está mais preocupada com seu radical posicionamento dentro do IRA, o Exército Republicano Irlandês, do que com o visual. Totalmente fora dos padrões para uma femme fatale. O único momento-mulher (?) que Jude tem é quando ocasionalmente cai num “rala-e-rola” com um colega do grupo, o indeciso militante Fergus (Stephen Rea). O que acontece é que, por conta das circunstâncias – que não revelarei aqui, claro -, as coisas mudam. E então, a terrorista assume uma personalidade sensual, glamourosa e visualmente mais deslumbrante. Agora sim! Se ela já era perigosa ao extremo, imagine quando descobrir que Fergus, agora um fugitivo caçado pelo IRA, está de casinho novo…

Grau de periculosidade: 70%. Jude não é maquiavélica, mas sabe ser letal quando quer. E quando isto acontece, ela se torna um monstro. Para sobreviver a ela, o esquema é nunca ingressar no exército inglês e JAMAIS questionar as atitudes do IRA perto dela. :-)

A história dessa louca: Uma das grandes surpresas do início da década de 90, Traídos pelo Desejo, um longa-metragem independente, arrebentou nas bilheterias ianques e fez bonito em vários festivais e diversas premiações (inclusive o Oscar), por conta do seu excelente roteiro… e das milhares de surpresas que ele traz, uma delas já lendária. Bem, acredito que hoje em dia não há uma viva alma que não saiba do que estou falando, mas ainda assim ficarei na minha. Só o que eu digo é: assista. Logo. E com o mínimo de informação possível. Vejamos se você sairá da sessão com o queixo no lugar…

• BRIDGET GREGORY (Linda Fiorentino)

Mostrou suas garrinhas em… O Poder da Sedução (The Last Seduction, 1994), de John Dahl

Quem é a dita cuja? Bem, a dita cuja é “apenas” uma das pessoas mais frias, macabras, maquiavélicas e desprovidas de sentimentos já surgidas nas telas. Até Hannibal Lecter consegue ter mais sentimentos que ela. Aliás, é incorreto categorizar desta forma, pois a executiva novaiorquina Bridget Gregory não é um ser humano, definitivamente. Senão, deixemos os fatos falarem por si só: Bridget convence seu marido, o médico Clay (Bill Pullman), a envolver-se no tráfico de anfetaminas. Quando o cara recebe uma bolada em dinheiro (sujo) como intermédio, ela passa a perna nele e foge com toda a grana, deixando-o à merce dos agiotas e dos traficantes. Foge para uma cidadezinha do interior, muda de nome, seduz um caipirão (Peter Berg) e o persuade a assassinar Clay, alegando que o marido é “um maníaco”. E isto tudo, comparado às perversidades que essa maníaca comete de graça no desenrolar da história, é um ATO DIVINO, pode acreditar.

Grau de periculosidade: 200%! Ou melhor, 400%! Bridget é uma mulher sórdida, calculista, que não pensa em ninguém além de si mesma. Não hesita em usar seu próprio corpo para tirar qualquer um de circulação. E não contente em apenas atingir seus objetivos, ela precisa DESTRUIR aqueles que, por infelicidade, cruzarem seu caminho. Passe MUITO LONGE de Bridget Gregory, se quiser viver. Aliás, ao menor contato com esta criatura, o melhor a fazer é adiantar as coisas e cometer suicídio. :-D

A história dessa louca: Embora seja um filme indiscutivelmente bacana, O Poder da Sedução, uma descarada homenagem ao cinema noir com muitas doses de humor negro, tem um único dono. Ou melhor, uma única dona: Linda Fiorentino. Seu trabalho como a ardilosa Bridget é simplesmente sensacional, de encher os olhos. Dizem que ela só não concorreu ao Oscar em 1995 por este ser um filme para a TV (lançado nos cinemas posteriormente), o que o descredencia entre os concorrentes. Sorte de Jessica Lange, que levou a estatueta neste mesmo ano por Céu Azul. Ainda não assistiu O Poder da Sedução? Tá esperando o quê, afinal?

• LYNN BRACKEN (Kim Basinger)

Mostrou suas garrinhas em… Los Angeles – Cidade Proibida (L. A. Confidential, 1997), de Curtis Hanson

Quem é a dita cuja? A loira gelada Lynn Bracken não é nada além de uma silenciosa e ambígua prostituta de luxo da fervente Los Angeles dos anos 50. Integrante de uma conceituada rede de prostituição (onde as garotas são idênticas a estrelas de cinema), a doce Lynn, parecidíssima com a diva Veronica Lake, carrega alguns segredos incendiários que podem desencadear uma crise na Polícia de L.A., infestada de policiais corruptos ou tendenciosos à corrupção, como o quase insuspeito Ed Exley (Guy Pearce), e carente de tiras honestos, como o brutamontes de bom coração Bud White (Russell Crowe) – por sinal, apaixonadíssimo por Lynn e capaz de cometer loucuras pela platinada…

Grau de periculosidade: 50%. Nem tanto pela garota, embora ela seja capaz de despertar intrigas apenas por mexer com a libido da galera, mas sim por conta do esquentadinho Bud White, que declaradamente arrasta um vagão de trem pela moça. Experimenta dar um simples esbarrão não-intencional em Lynn Bracken para ver o que o cara faz contigo… caixão na certa! :-)

A história dessa louca: Muitos não entenderam por qual razão Kim Basinger foi tão elogiada por seu papel no já clássico Los Angeles – Cidade Proibida, elogiadíssima adaptação para as telonas do best-seller noir de James Ellroy. De fato, a atuação de Basinger é inspirada, mas nada tão extraordinário assim a ponto de fazer com que a atriz abocanhe um Oscar, o que de fato aconteceu. Talvez seja porque o longa traz tantos acertos que seja quase impossível ater-se apenas a um ou outro detalhe. Comentar mais do enredo é um pecado. Filmaço com “F” maiúsculo!

• MARLA SINGER (Helena Bonham Carter)

Mostrou suas garrinhas em… Clube da Luta (Fight Club, 1999), de David Fincher

Quem é a dita cuja? Suicida em potencial, junkie talentosa e piradaça por natureza, Marla Singer é uma daquelas pessoas que incomodam apenas por existir. Inconveniente, cheia de delírios e tão viciada em cigarros que mais parece uma chaminé humana ambulante, Marla é o alvo do ódio mortal do sujeitinho anônimo que chamaremos de Jack (Edward Norton); o cara, que costumava sofrer de insônia num passado não muito distante, perde o sono só de olhar pra ela. Mal sabe Jack que Marla Singer se envolverá com o lendário Tyler Durden (Brad Pitt), que divide uma casa moribunda com Jack e mantém com ele um “clube da luta”, reunião de homens revoltados com o “sistema” que esmurram-se por prazer. Mal sabe Jack que Marla Singer em breve será um dos pivôs de um plano macabro que abrange… ah, deixa pra lá. Se contar mais, estraga. ;-)

Grau de periculosidade: Mínimo. Quase nulo. Pra falar a verdade, Marla Singer nem é tão perigosa. Ela é apenas chata. Na real, Marla é INSUPORTÁVEL. E apaixona-se fácil. É um chicletinho. Ignore-a. Finja que ela não existe. Faça de conta que não é contigo. Mas não se aproxime muito: você pode acabar gostando da figura…

A história dessa louca: Clube da Luta? David Fincher? É necessário dizer mais alguma coisa? Uma das mais importantes críticas à obsessão do americano médio (e conseqüentemente do resto do mundo) ao materialismo desenfreado e às tentações da “beleza eterna”. Um soco no estômago como há muito não se via, e que será quase impossível de se superar. E eu não falo mais nada, pois qualquer comentário adicional seria uma pusta de uma senhora SA-CA-NA-GEM com quem ainda não pôde conferir este jóia do cinema subversivo. Obrigatório!

E por último, mas não menos importante, a femme fatale mais perigosa do cinema: Carla Perez, no “crássico” Cinderela Baiana! Meu, será que mais alguém além de mim assistiu aquilo? A ex-dançarina do Tchan e seu, ahn, “filme” estão na lista porque não precisam de cinco minutos para infartar qualquer homem (de pavor e de desgosto por gastar dinheiro com a locação da fita)! Aliás, para infartar qualquer pessoa, homem ou mulher… cruzes. Eu falei que elas são perigosas, eu falei. :-D

AS FEMME FATALES MAIS LETAIS DO CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 22/03/2006
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem INSTINTO SELVAGEM 2 (Basic Instinct 2).

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