Tudo em Família

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 07/01/2006.

Afe! Já estou até vendo que vou me lascar bonito em 2006. Sei lá se foi apenas má sorte ou é um presságio, mas começar o ano com um filme ruim logo de cara não deve ser bom sinal! Vou até me benzer, procurar ajuda ou algo do gênero, não é possível. :-P

E olhe que eu até esperava alguma coisa boa de Tudo em Família (The Family Stone, 2005), “suposta” comédia romântica (a razão da palavra “suposta” eu explico mais tarde) que chegou aos cinemas brazucas com um pouco de atraso – afinal, é uma típica produção natalina. Sim, tenho mesmo traumas horrorosos com fitas de Natal, ou pelo menos com uma fita de Natal específica, envolvendo um trenzinho e um bando de crianças em CGI mal-feitas e sem expressão. Hehehe! Bem, geralmente acho filmes natalinos um tanto deprimentes, como diria a Srta.Ni, mas esta aqui conta com um atrativo bastante especial chamado Rachel McAdams (de Penetras Bons de Bico e Vôo Noturno). Ela vale qualquer ingresso. ;-D

Pois é, pensei que Tudo em Família até seria legal, no mínimo divertidinho, e… torta na cara! Ao final, a fita mostra-se apenas uma produção super-hiper-ultra-mega CHATA, daquelas de fazer qualquer um morrer de tédio ou de diabetes durante a sessão. Sério mesmo, o longa chega a ser insuportavelmente maçante em certos momentos. E isto não é um surto psicótico de um “anti-comédias românticas”, visto que não tenho medo de assumir que gosto de boa parte dos exemplares do gênero. Ah, são perfeitos quando você quer – e precisa – desligar o cérebro e apenas relaxar. O problema principal, além do filme todo (!), é exatamente este: comédia romântica? Quem disse que isto é comédia romântica?

Vamos às explicações: se você teve oportunidade de conferir o trailer de Tudo em Família, que por sinal é bem bonitinho, certamente imaginou que o filme pretendia ser uma fitinha bem leve, bem água-com-açúcar, daquelas recheadas de piadas bobinhas, casais que se odeiam e depois se amam e blá blá blá. Produçãozinha bacana para se levar a(o) namorada(o) num domingão à noite. Sim, eu também tinha esta concepção. Para o negócio ficar altamente padrão, só faltou mesmo o Tom Hanks e a Meg Ryan no elenco, Bonnie Hunt no roteiro e Nora Ephron na direção. :-)

Antes fosse assim, viu? Na verdade, o resultado final de Tudo em Família não passa de um dramalhão mexicano típico dos medíocres folhetins da Televisa. Ugh! Ah, vamos concordar: quem vai ao cinema para assistir um romance bobinho não quer ver um longa sofrido e melancólico que passa mais da metade da projeção focado num personagem que está morrendo de uma doença fatal! Pois é, acredite se quiser, é isto que acontece aqui. Claro, seria errado atribuir a má qualidade do filme a este detalhe, embora eu esteja até agora amaldiçoando o executivo que teve a “brilhante” idéia de vender Tudo em Família como comédia. E daí que é um drama? Pode ser um bom drama, não tem crise. Mas o fato é que Tudo em Família é um drama chato, arrastado, com personagens sem carisma algum. Se eu fizesse parte deste clã, faria de tudo para ser deserdado, numa boa.

Só para se ter uma idéia do quão maçante é o negócio, a única coisa que realmente me empolgou foi uma velharia do Jefferson Starship que toca ao final da fita, que cansei de ouvir nas “rádios de elevador” da vida e sempre quis saber o nome. :-D

Então, vamos ao pseudo-enredo do longa: o clã Stone, chefiado por Kelly (Craig T. Nelson, o dublador do Sr. Incrível) e Sybil (Diane Keaton, repetindo-se pela enésima vez), prepara-se para receber seus filhos para mais um Natal. Desta vez, porém, o queridinho da mamãe, o bem-sucedido Everett (Dermot Mulroney, As Confissões de Schmidt), traz a tiracolo sua namorada, a estressada e workaholic Meredith Morton (Sarah Jessica Parker, a estrela do finado seriado Sex & The City), a quem pretende propor casamento durante as comemorações natalinas.

O problema: Meredith contrasta por completo com os modos liberais da família. Seu jeitão travado desperta o ódio nos Stones, principalmente na encapetada Amy (Rachel McAdams), o que ocasiona uma série de conflitos entre Everett e o resto dos parentes. O único que nutre certa simpatia pela executiva é o maconheiro Ben (Luke Wilson, Os Excêntricos Tenenbaums), que não detesta Meredith, só acredita que o grande problema com o casal é que não há amor de ambas as partes. Óóóóóó, que meigo… :-P Bom, a coisa fede quando Meredith não agüenta o baque, surta e chama sua irmã Julie (Claire Danes, O Exterminador do Futuro 3) para dar-lhe apoio moral e ajudá-la a conquistar a parentaiada do futuro marido. A presença de Julie, como diz a sinopse, “dará início a muitas confusões”…

Enfim, até que o roteiro não é lá tão tenebroso assim. É só fraquinho, mas até que poderia render um filme bobinho-mas-divertido para se assistir no DVD. Só que o longa, escrito e dirigido por um certo Thomas Bezucha (quem?), que antes de ser uma tentativa de cineasta era executivo de moda (?), insiste em querer ser mais do que o enredo permite. Aos poucos, Tudo em Família perde o bom humor de seus momentos iniciais e mergulha numa série de situações exageradamente dramáticas, como o definhar de um dos personagens, que sofre de câncer, e o sofrimento de outro personagem, que abandonou seus sonhos para se dedicar a uma carreira segura… ou seja, tudo aquilo que já cansamos de ver nos made for TV que assombram a TV aberta nas noites de sábado. :-P

E este não é o único problema da fita. O cara não se decide se é comédia ou drama, pô! Quando você pensa que o negócio acabará em lágrimas, o roteiro enfia um personagem levando tombo (?). Sim, ao que parece, a concepção do roteirista para o termo “comédia” é alguém levando um capote, porque as poucas cenas que causam sorrisinhos amarelos envolvem pessoas escorregando e levando tombos. Uau, hein? Ainda poderia falar sobre a inutilidade da personagem da gracinha Claire Danes – ela só está lá para servir de “novo amor” para um personagem e justificar um dos maiores clichês do filme, a horrorosa “cena do ônibus” -, assim como também poderia comentar sobre a péssima atuação de Diane Keaton (ela está igual a TODOS os filmes que fez, nunca muda!), dentre outras coisas, mas perderia muito tempo. Afinal, teria que falar da película inteira. :-D Aliás, a Diane Keaton traz o figurino de casa? Sério, acho que faz uns 20 anos que ela usa basicamente a mesma roupa em todos os filmes que faz! Será promessa? Vixe.

No mais, até que Tudo em Família carrega alguns pontos positivos. Um exemplo é o tratamento dado ao casal homossexual Thad (o fraco Ty Giordano) e Patrick (Brian J. White), um deles negro e o outro com deficiência auditiva, retratados com seriedade e sem estereótipo algum. Se os caras não andassem colados e abraçados quase o tempo todo, juro que não desconfiaria… Outra escolha acertada é a escalação de Sarah Jessica Parker, divertidíssima como a deslocada Meredith. E não podemos nos esquecer da Rachel McAdams, que não faz pilomba nenhuma aqui, mas é linda de qualquer jeito, e é o que importa. :-) Pena que nada disso seja suficiente para compensar a bocejante experiência de enfrentar uma sessão.

Para resumir, Tudo em Família resulta num péssimo trabalho, seja no quesito comédia romântica, seja no quesito drama. E só serviu mesmo para que o Zarko aqui confirmasse três informações: a) a Rachel McAdams é realmente uma graça, b) filmes natalinos carregam uma maldição milenar, e c) eu definitivamente não devo ter sido um bom menino em 2005. Deus, onde errei? :-P

CURIOSIDADES:

• Os produtores de Tudo em Família sondaram atores como Billy Crudup (Peixe Grande), Aaron Eckhart (O Núcleo) e Johnny Knoxville (Os Reis de Dogtown) para o papel de Ben Stone. Todos eles demonstraram interesse para participar do projeto, mas pularam fora depois de algum tempo (!). Assim, o papel ficou para Luke Wilson. Será que eles fugiram depois de ler o roteiro?

• A música de abertura da fita, a clássica Let It Snow, Let It Snow, Let It Snow, é a mesma que encerra os dois primeiros filmes da fantástica cinessérie Duro de Matar.

• A propósito: o nome da música do Jefferson Starship é Count On Me. :-D

THE FAMILY STONE • EUA • 2005
Direção de Thomas Bezucha • Roteiro de Thomas Bezucha
Elenco: Sarah Jessica Parker, Claire Danes, Diane Keaton, Rachel McAdams, Dermot Mulroney, Craig T. Nelson, Luke Wilson, Tyrone Giordano.
102 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: