O Expresso Polar

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 24/11/2004.

Quando os senhores El Cid, Fanboy e R.Pichuebas me comunicaram que eu teria que escrever algo sobre O Expresso Polar (The Polar Express, 2004), não aceitei meu destino trágico assim logo de cara. E olha que até tinha motivos pra isso: primeiro, o trailer não me agradou nem um pouco. Segundo, não escondo de ninguém que não sou chegado mesmo no Tom Hanks (eu sei, já andei recebendo ameaças de morte por conta desta declaração). E por último, O Expresso Polar está caminhando a passos largos para se tornar o maior fracasso comercial do ano – custou mais de US$ 170 milhões e não rendeu nem US$ 55 milhões. Detalhe este que me assustou bastante. E também os caras d’A ARCA já me torturaram demais quando me fizeram ver Táxi e Exorcista: O Início. Bem que podiam ter poupado meu sofrimento desta vez.

Enfim, acabei encarando o medo e fui assistir à película. E pra não permitir que a aversão a Hanks interferisse no meu trabalho, no meio do caminho fiquei lembrando que o cara fez filmes bem legais como A Última Festa de Solteiro, O Homem do Sapato Vermelho e, nos últimos anos, tomou a frente de O Resgate do Soldado Ryan, que eu declaradamente gosto muito. Então esqueci da minha antipatia pelo ator e cheguei à sessão de coração aberto, sem medo de talvez adorar o novo e supostamente inovador longa de Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro) – e dar minha cara a tapa por isso.

As luzes da sala se apagaram e, depois de 97 minutos, tive uma única certeza: o Fanboy e o El Cid me odeiam. Eles me odeiam mesmo! O filme é tão chato, tão chato, que eu tive vontade de tentar contra minha própria vida.

MAS É TÃO RUIM ASSIM MESMO?

Antes de continuar, vou dizer uma coisa: é muito fácil pra qualquer um afirmar que não gostei de O Expresso Polar porque “sou daqueles que não gostam de filmes natalinos”. Não tenho nada contra, muito pelo contrário, nunca me incomodei com filmes assim e o Natal é particularmente um evento que me agrada bastante – eu gosto de luzes… :-P

Continuando, não que O Expresso Polar seja ruim, ruim, ruim. O problema é que esta produção tem zilhões e zilhões de defeitos. Não empolga, dá sono, tem diálogos risíveis, não prende os adultos e não prende as crianças. Fica bem claro durante toda a projeção que o trabalho é somente o resultado de um exercício de megalomania por parte dos senhores Zemeckis e Tom Hanks (que ganhou cinco papéis, cinco!). Não dá pra saber onde foi gasto tanto dinheiro. E a tal “técnica inovadora” que exaltaram é a maior furada, como vou explicar mais abaixo. Mas o defeito maior do filme ainda é glorificar os States. É filme pra americano ver, no pior sentido da palavra.

Vamos à pseudo-historinha: um pivete de 8 anos está deitado à sua cama, em plena véspera de Natal, sem conseguir dormir. Seus coleguinhas insistem que Papai Noel não existe, mas o garoto se recusa a acreditar nisso. De qualquer forma, sua fé no bom velhinho está abalada, e o moleque está lá, sem pregar no sono, à espera de qualquer sinal que possa clarear sua cabecinha. O sinal vem na forma de um trem que pára bem em frente à sua casa – o Expresso Polar do título. O misterioso condutor do trem (interpretado por… Tom Hanks) chama o garoto (interpretado por… Tom Hanks) para uma viagem até o Pólo Norte para conhecer o Papai Noel (interpretado por… Tom Hanks). Mesmo receoso, o moleque vai. No trem, conhece outras crianças, uma que não confia em si mesma, outra que sofre de ausência de humildade, e por aí vai. Estas crianças aprenderão algumas coisas sobre o espírito humano, algo mais ou menos assim.

ROTEIRO DE PÁRA-CHOQUE DE CAMINHÃO

Vamos começar pelo roteiro: a história, inspirada no livro de Chris Van Allsburg (autor também de Jumanji – seu trabalho é conhecido bem dizer somente lá nos EUA), tem uns furos cabulosos e personagens que não conquistam o público. As crianças principais, então, são um pé no saco. Dá vontade de jogá-las do trem em movimento, uma por uma! Algumas frases de efeito são tão sofríveis que é preferível sentar na beira da estrada e ficar lendo aqueles troços escritos em pára-choque de caminhão. Algumas cenas, como a do vagão dos brinquedos velhos, não se explicam. E há alguns erros terríveis de concordância (tudo bem que é uma história de fantasia, mas ir de Michigan ao Pólo Norte e voltar na mesma noite?).

Como se não fosse o bastante, a história é simples e inocente demais. Os caras vão até o Pólo Norte pra encontrar o barbudo e pronto, nada de profundidade emocional. Bem, será difícil alguém engolir esta historinha quando vivemos num mundo cujas crianças fizeram o sucesso de longas de certa forma complexos como Procurando Nemo e Shrek. Outro fator que está contribuindo bastante pra afundar este abacaxi é o fato de o visual do filme ser escuro demais em grande parte da projeção. Os pequerruchos, que seriam os únicos que poderiam aceitar numa boa a ingenuidade do roteiro de Zemeckis, preferirão se deslumbrar com o colorido de Os Incríveis e, principalmente, do longa do Bob Esponja (por sinal, dois filmes que merecem muito mais atenção que este aqui).

A LIV TYLER É UMA ELFA E O PAI DELA É UM DUENDE

Já a trilha sonora é completamente indecisa. A parte incidental, composta por Alan Silvestri (colaborador habitual de Zemeckis), é exatamente igual à trilha de tantos outros filmes natalinos, e vem numa salada com canções de Bing Crosby, Frank Sinatra e Aerosmith (?). Isso porque, em dado momento, aparece o Steven Tyler em pessoa, ou melhor, em CGI, numa versão “elfo” muito tosca, cantando e dançando na animação em computador mais feia do ano. Bizarro! Pelo menos a gente sabe agora que Tyler não é um alienígena, como todos pensavam, e sim um duende.

E o que dizer das canções compostas especialmente para o filme por Glen Ballard? As letras são ridículas e a melodia idem – bem, o que poderíamos esperar de alguém que escreve músicas para a Christina Aguilera? Em um certo momento, só faltou o Dinossauro Barney entrar em cena, pulando e cantando. Já os efeitos sonoros são ótimos (pelo menos uma coisa boa), ao contrário das cenas de “ação”, tão monótonas que, a todo momento, a gente espera que o trem descarrilhe e vá todo mundo conhecer Jesus logo de uma vez ao invés do Papai Noel. Que macabro! :-D

E A TAL TÉCNICA REVOLUCIONÁRIA?

Pois é, muito se falou disso. Pra quem não sabe, Robert Zemeckis diz ter “criado” uma “técnica” que consiste na captação de imagens dos atores com roupas especiais cheias de sensores óticos. As imagens, depois de captadas por câmeras especiais em ângulos de 360º, foram transferidas para um computador e transformadas em CGI, onde os técnicos de efeitos visuais inseriram os cenários, os figurinos… bem, todo o resto. O orçamento inflado do projeto se deve principalmente a esta técnica. Mas… e daí?

Antes de mais nada, essa história de “técnica inédita” é balela. Outras fitas contém processos bem semelhantes, inclusive o ardiloso Gollum de O Senhor dos Anéis foi feito assim (com resultados perfeitos e muito além destes aqui). E uma pergunta que ficou na cabeça de todos: pra quê fazer desta maneira? Pra quê inventar história? Segundo o diretor, o enredo de O Expresso Polar não permitia uma filmagem convencional. Em alguns pontos, concordo. Mas seria muito mais fácil rodar o longa com os atores e depois incluir o cenário virtualmente – processo já utilizado em muitos outros filmes. Não precisava fazer tudo em CGI. E o resultado final é muito bom, mas nada espetacular. O visual de Final Fantasy, feito mais ou menos desta mesma maneira, era bem superior. Onde está o “revolucionário”?

E o problema mais grave de todos parte justamente daí: os personagens virtuais. Eles não têm expressão. Acontecem mil coisas, mil situações, e os personagens ficam sempre com aquela mesma cara de peixe morto, aquele mesmo olhar vago. Em uma certa cena, o tal pivete passa por um perigo de morte e sua expressão é a mesma de sempre. Sem vida. Tal qual o “espírito que vive no teto do trem” (interpretado por… Tom Hanks), que grita, chora, berra, fala manso e não muda de expressão. Como se o Cigano Igor tivesse servido de modelo para os bonequinhos… Ao fim, o espectador não consegue simpatizar com os personagens. Como se empolgar com uma fita se não estamos nem aí para os protagonistas?

FILME PRA AMERICANO VER, E MAIS NINGUÉM

De fato, O Expresso Polar merece mesmo toda a recepção negativa que anda ganhando nas salas de exibição. É fraco, pretensioso, cliché, falso e beeeeeem vazio. Definitivamente, a pior opção para a garotada neste final de ano. O ideal é ficar mesmo com Os Incríveis, que já ganhou o posto de filme mais cool do ano antes de estrear, ou o divertidíssimo desenho do Bob Esponja. Bom, pra duas coisas a fita do Zemeckis serviu: agora sabemos que o trenó do Papai Noel foi fabricado com peças desmanchadas do DeLorean do Marty McFly (pois é, só vendo pra crer) e só as crianças dos Estados Unidos ganham presentes do bom velhinho, como o filme faz questão de provar. Não são só eles que importam? Deprimente.

Pombas, então ninguém vai gostar deste filme? Não é bem assim, tem pessoas que vão gostar. Os americanos.

CURIOSIDADES:

• A técnica utilizada em O Expresso Polar é na verdade um aperfeiçoamento do trabalho do diretor Richard Linklater num estranhíssimo filme chamado Waking Life (2001), em que um personagem se vê imerso num mundo de sonho. Neste filme, porém, a película não foi transformada em CGI e sim em animação tradicional, causando um efeito impressionante. Obrigatório!

• Além de Tom Hanks, trabalham no filme os atores Nona Gaye (a Zee de Matrix Reloaded), Peter Scolari (ator de teatro), Eddie Deezen (o nerd de Grease, nos Tempos da Brilhantina) e o ótimo dublador Charles Fleischer (que deu voz ao nervoso coelho Roger Rabbit no longa de 1988). Todos estes atores serviram de “modelo psicológico” para personagens de crianças, à exceção de Fleischer, que fez o duende chefe.

• O ator Michael Jeter, que trabalhou em À Espera de um Milagre e fez aqui seu último trabalho (como os irmãos maquinistas, dois personagens que estão aqui só pra ocupar espaço), faleceu em 2003, em decorrência do vírus da AIDS.

• Quando questionado sobre a má qualidade dos efeitos no que diz respeito aos humanos, Robert Zemeckis teve um ataque e afirmou com todas as letras que a intenção não era mesmo fazer tudo parecer real, e sim meio estilizado. Tá bom, Bob. A gente acredita.

THE POLAR EXPRESS • EUA • 2004
Direção de Robert Zemeckis • Roteiro de Robert Zemeckis e William Broyles, Jr.
Baseado no livro de Chris Van Allsburg
Elenco: Tom Hanks, Eddie Deezen, Michael Jeter, Nona Gaye.
97 min. • Distribuição: Warner Bros.

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