O Chamado 2

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 24/03/2005.

Parece que foi ontem que assisti pela primeira vez ao “crássico” O Chamado, remake gringo de uma fita de terror japonesa chamada Ringu – que até então, nunca tinha ouvido falar. Era uma pré-estréia absurdamente vazia (a platéia deveria conter um número máximo de 20 ou 25 pessoas), cujo horário de início era meia-noite. Ou seja, borraço total. Sim, porque este que vos fala é um dos caras mais borrões da face da Terra quando o asssunto é “filme de terror que preste”!

Bem, voltando ao assunto, eu não sabia nada sobre o longa; só que envolvia uma suposta lenda urbana sobre uma fita de videocassette que tinha o poder de matar quem ousasse assisti-la. E o que raios era aquela bola no cartaz? Melhor assim: quando vou ao cinema, gosto de conhecer a sinopse do que vou assistir, mas não quando é um filme de horror. Prefiro descobrir por mim mesmo, na hora em que estou lá, na sala de cinema. É uma experiência assustadoramente única. Mas claro que, para isto, a película precisa ser boa, né!

Enfim, a sessão rolou numa boa. E quando as luzes se acenderam, a grande maioria da galera do cinema saiu xingando. Aliás, talvez eu tenha sido a única pessoa daquela sala que realmente gostou do filme. Sim, eu gostei muito! E sim, precisei com urgência de um pacote de fraldinhas (!), porque o negócio foi pesado. Voltando, na saída da sessão, sentia um ódio profundo no meu coração a cada comentário besta que saía do povo. Comentários do tipo: “Ah, aquilo da menina aparecer daquele jeito é ridículo”, ou então “Que bobeira, e eu ainda perdi o paredão de hoje!”. Cara, como pode? Aquilo me deu um medo do caramba! Como é que só eu me assustei com aquela menina macabra saindo da TV, pelo amor de Deus? Isso porque, na saída do filme, já eram mais de uma da manhã e o mané aqui ainda teria que enfrentar 45 minutos de caminhada até chegar em casa – e no meio do caminho, presenciei uma figura de branco tão pavorosa que quase fui forçado a implorar pra dormir junto com papai e mamãe, mas isto é uma outra história… :-P

Depois entendi o motivo pelo qual a maioria dos mortais detestou a versão americana de O Chamado: quem não tem medo do Big Brother Brasil, não tem medo de mais nada! ;-D

O que acontece é que, hoje em dia, a platéia está cada vez mais preguiçosa. O povo quer é tudo mastigadinho. Aí, aparece uma fita de horror disposta a fazê-los pensar, e o resultado é este. Ainda mais no caso de O Chamado. Não que o roteiro seja complexo, ao contrário. A questão é que, para funcionar bem, pede-se que o espectador faça como o Bob Esponja: use a imaginação! Hehehe… Afinal, o medo vem justamente do que NÃO é mostrado – o que, na humilde opinião deste que vos fala, é muito mais bacana e aterrador do que escancarar tudo de uma vez. Alguém aí já viu Seven – Os Sete Crimes Capitais? Pois é. Se você é uma daquelas pessoas que detestam pensar, passem bem longe de qualquer sala de cinema que esteja exibindo este O Chamado 2 (The Ring Two, 2005), inevitável continuação do longa de 2002. Porque há uma probabilidade enorme do público odiar esta segunda parte mais do que detestou o primeiro, porque este ainda é mais obscuro, sugestivo… e ainda tem o porém de não dar medo algum.

Antes de mais nada, um ponto crucial precisa ser esclarecido: esta segunda parte da “saga ianque” não tem qualquer relação com Ringu 2, a seqüência japonesa. Esta é uma película totalmente nova, a não ser por um ou outro pequeno detalhe. Aliás, O Chamado 2 deixa de lado vários conceitos defendidos tanto pela trilogia Ringu quanto pelo próprio O Chamado “made in USA” – e incluo aí até a tal fita de video que é o pivô da historia. Como? Calma, vou explicar. Só o que preciso dizer é: este novo longa-metragem é, talvez, o mais consistente de todos os longas protagonizados pela menina amaldiçoada, já que o enredo não existe simplesmente para gerar dindim aos estúdios. Tá bom, ao contrário do outro longa, este filme não assusta nem criança de cinco anos. Mero detalhe: diverte de qualquer jeito! :-D

Vamos ao enredo: logo no início, é revelado que Rachel Keller (a maravilhosa Naomi Watts) e seu filho Aidan (o ruinzinho David Dorfman, de O Massacre da Serra Elétrica) abandonaram Seattle e agora vivem numa pequena cidade no estado do Oregon. O objetivo desta mudança, óbvio, é deixar para trás todo o lance macabro envolvendo a pequena Samara Morgan. Rachel arruma um emprego como editora num jornal local, onde geralmente bate cabeça com o jornalista Max (interpretado por Simon Baker, tão “bom” quanto seu antecessor Martin Henderson; e isto não foi um elogio) – que aqui não é apenas um “candidato amoroso” para Rachel, como todos imaginam ao ver o trailer da fita. Enfim, o que deveria ser um novo começo toma outros rumos quando um rapaz de 17 anos aparece morto. A seqüência que envolve a morte do garoto, por sinal, é bem legal – e ainda conta com uma pequena participação da bela Emily VanCamp, do seriado Everwood.

As diferenças entre as duas produções se tornam visíveis a partir deste ponto: quando Rachel deduz que há uma cópia da fita rolando pela cidade – e que mais ninguém além do garoto morto assistiu -, ela trata de encontrá-la rapidamente e, quando descobre seu paradeiro, a primeira coisa que faz é destruí-la. Bem, teoricamente a maldição deveria acabar aí, certo? Mais ou menos. O que acontece é que, de certa forma, Samara está ligada a Rachel e Aidan. Principalmente Aidan. E agora que a mortinha descobriu onde mãe e filho se escondem, não precisará mais de uma mera fitinha de videocassette para resolver suas “pendências”. Cabe a Rachel cavucar ainda mais o passado da garotinha, para tentar livrar a si mesmo e ao moleque do destino trágico que os aguarda. No caminho, a moçoila descobre que uma misteriosa mulher chamada Evelyn (a ótima Sissy Spacek, também em participação-relâmpago) tem papel-chave nisso tudo.

Nota-se perfeitamente as diferenças de direção; para quem não sabe, o cineasta Gore Verbinski, responsável pelo remake americano, foi substituído nesta segunda parte pelo japonês Hideo Nakata, diretor da cinessérie original. A impressão é que o clima aqui está mais claro, por mais que a fotografia ainda seja propositadamente cinzenta e meio azulada, e não há tantos sustos quanto na primeira parte. Pra ser sincero, quase não há sustos. Por outro lado, o enredo, por mais que deixe um pouco a desejar no final, é muito mais coerente – e o bacana é que amarra algumas pontas abertas com o outro filme. E a (oni)presença de Samara (aqui vivida por Kelly Stables, que substitui Daveigh Chase) é bem mais forte aqui, por mais que não chegue a assustar como antes. À exceção, claro, da nervosa cena do poço. A Sadako-cover provou definitivamente que tem um parentesco impressionante com o nosso camarada Gollum, de O Senhor dos Anéis.

O mais legal, contudo, é que a escolha de Nakata para comandar esta segunda parte se mostrou bem oportuna, já que o diretor visivelmente se preocupou bastante em trazer novidades no universo de Samara, e não apenas entregar um “repeteco” do que já mostrara nos longas japoneses. Ótima escolha, tio! O único problema, a meu ver, é o CGI que, em alguns momentos, beira o imperfeito. Nada que chegue realmente a incomodar. Enfim, por mais que uma boa parcela do público com certeza desaprove – assim como desaprovaram a primeira incursão da garota amaldiçoada em terrinhas ianques -, O Chamado 2 é uma boa e divertida pedida para os fãs de filmes de horror. E também para os fãs de Naomi Watts, já que a atriz, além de talentosa, está cada vez mais linda. Por ela, eu assisto quantas “fitas malditas” forem necessárias! Menos, claro, qualquer troço do Bruno Barreto, pois também não sou louco a ponto de rasgar dinheiro. :-P

CURIOSIDADES:

• Antes de Hideo Nakata assumir a direção de O Chamado 2, o diretor de comerciais Noam Murro foi convidado para dirigir, mas pulou fora depois de alegar “divergências artísticas” com o pessoal da DreamWorks. Em seguida, o estúdio convidou Richard Kelly, o criador da obra-prima Donnie Darko, que sequer cogitou a possibilidade de participar da produção.

• Como forma de promover o longa, a DreamWorks espalhou pela Internet uma cópia da tal “fita amaldiçoada”. Quando a pessoa assiste ao vídeo, é redirecionada ao site oficial do filme. Só não me pergunte onde este vídeo se encontra, pois não faço a mínima!

• Assim como no primeiro longa, O Chamado 2 não possui créditos de abertura.

THE RING TWO • EUA • 2005
Direção de Hideo Nakata • Roteiro de Ehren Kruger
Elenco: Naomi Watts, David Dorfman, Simon Baker, Elizabeth Perkins, Sissy Spacek, Emily VanCamp.
108 min. • Distribuição: UIP/DreamWorks SKG.

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