Filmes para Embalar o Natal

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 30/11/2004.

Natal é época de dar presentes, receber presentes, refletir sobre as coisas boas e ruins, planejar o que será posto (ou não) em prática no ano seguinte… e filmes, muitos filmes! O que chove de produções que glorificam a data ou mesmo que utilizam a chegada do barbudinho vermelho como pano de fundo para suas histórias não está escrito no gibi. O grande problema aí é que a maioria deles acaba se tornando descartável, com prazo de utilização restrito ao mês de Dezembro. Mas alguns, somente alguns, conseguem romper esta barreira e se tornam universais e atemporais. Dê uma olhada em alguns longas clássicos que nunca perdem seu charme… ou melhor, seu brilho!

• A FELICIDADE NÃO SE COMPRA, de Frank Capra

A história: George Bailey (James Stewart) é um cara legal que comanda uma cooperativa de construção de casas populares, que era de seu pai. Numa trapaça de seu arqui-inimigo, o imobiliário Potter (Lionel Barrymore), Bailey perde todo o dinheiro dos contribuintes. Revoltado e desmoralizado, resolve se suicidar em plena Noite de Natal. E eis que surge Clarence (Henry Travers), seu anjo da guarda, que na tentativa de fazer com que Bailey mude de opinião, lhe mostra como a vida teria sido ruim se ele não existisse.

Por que está nesta lista? Indicado a 5 Oscars em 1946, incluindo Melhor Filme, A Felicidade Não Se Compra (It’s a Wonderful Life) faz um enorme sucesso até hoje e é considerado por público e crítica a obra máxima do cultuado diretor Frank Capra (1897-1991), que dirigiu e escreveu nada menos do que 53 longas. Capra, que costumava lidar com temas bem humanos e politicamente corretos em seus filmes, realizou aqui uma história absolutamente agridoce que poderia acontecer em qualquer década, em qualquer lugar, mas que encontrou seu lugar na América pós-Segunda Guerra Mundial e na época de Natal. O final otimista é de cortar o coração – e fazer com que qualquer um saia sorrindo depois de uma sessão, por mais que esteja entalado de problemas.

• NATAL BRANCO, de Michael Curtiz

A história: Dois talentosos cantores-dançarinos (Bing Crosby e Danny Kaye), que acabaram de voltar da Segunda Guerra, conhecem duas irmãs também cantoras-dançarinas (Rosemary Clooney e Vera-Ellen). Apaixonados pelas duas, os dois amigos as seguem até Vermont, onde elas apresentarão um espetáculo de Natal. Lá, eles encontram seu antigo general (Dean Jagger), que agora está na miséria. Os quatro, então, farão o impossível para livrar o amigo da barra.

Por que está nesta lista? Natal Branco (White Christmas, 1954), musical clássico de Michael Curtiz (o homem que deu vida a Casablanca), é tido como um dos grandes exemplares do gênero. Com canções compostas pelo conceituado Irving Berlin, com destaque para a canção-título, e contando com o dançarino em ascensão Bing Crosby no elenco, o longa faturou muito bem nas bilheterias, e marcou o auge dos musicais no cinema. Apesar de ser inocente demais, é uma ótima pedida para toda a família: colorido, inteligente, engraçado e simplesmente dotado de magia.

• PARCEIRO DO SILÊNCIO, de Daryl Duke

A história: O bancário Miles (Elliot Gould) é tímido e desajeitado. Na véspera de Natal, o criminoso Reikle (Christopher Plummer), vestido de Papai Noel, tenta assaltar seu caixa, que tinha nada menos do que 50.000 dólares. Num acesso de esperteza, Miles engana o ladrão, entregando-lhe somente 2.000 dólares, fica com os outros 48.000 e ainda aciona o alarme no exato momento, dando a impressão de que Reikle, que fugiu, levou toda a grana. O problema é que Miles passa a ser perseguido por Reikle, que o trata como se este fosse um comparsa que lhe passou a perna. Para que seu plano particular dê certo, Miles precisa manter as aparências e despistar Reikle.

Por que está nesta lista? Mesmo não sendo exatamente um “filme de Natal”, Parceiro do Silêncio (The Silent Partner, 1978) é uma senhora fita de suspense, que fez bastante sucesso em sua terra natal (o Canadá) e também no resto do mundo, além de revelar o talento de Elliot Gould (presença constante no finado Friends, como o pai de Courteney Cox). O diretor Daryl Duke realizou uma bela homenagem a Alfred Hitchcock, usando as festas natalinas para mostrar que, quando uma pessoa é cruel e maquiavélica em sua essência, não há nada que desperte um sentimento bom em si, nem mesmo o Natal.

• GREMLINS, de Joe Dante

A história: O jovem Billy Peltzer (o desaparecido Zach Galligan) ganha de presente de Natal um Mogwai, uma espécie de “bichinho de estimação”. As recomendações do antigo dono do bicho, um velho chinês residente em Chinatown, são claras: 1) Nunca o exponha a luz forte; 2) Nunca o molhe e 3) De maneira alguma, por mais que ele implore, nunca, mas nunca mesmo, dê comida depois da meia-noite. Obviamente, as regras não serão respeitadas. Com isso, surgirão… os Gremlins!

Por que está nesta lista? Pelo amor de Deus! É um dos filmes mais legais da década de 80. Gremlins (1984) competiu com pesos pesados do porte de Indiana Jones e o Templo da Perdição e Os Caça-Fantasmas nas bilheterias, e ainda saiu lucrando. Dirigido por Joe Dante (responsável por trabalhos bem bacanas como Matinê e Joe Contra o Vulcão), a história usa a invasão dos endiabrados monstrinhos – uma bela duma sátira aos filmes B dos anos 60 – para retratar um dos mais importantes pontos do espírito natalino: o senso de união. E é hilário ver o Papai Noel passar correndo ao fundo de uma cena, desesperado, coberto de Gremlins psicóticos pendurados! :-D

• ESQUECERAM DE MIM, de Chris Columbus

A história: A numerosa família McCallister vai passar o Natal na França, mas devido a uma série de confusões na hora do embarque, esquece um pequeno detalhe: Kevin (Macaulay Culkin), o filho caçula. Sozinho em casa, o pivete de 8 anos a início adora a idéia e faz tudo o que sempre quis fazer, como tomar sorvete a qualquer hora, dormir até tarde e afins. No entanto, Kevin terá que deixar tudo isso de lado para defender sua fortaleza de dois ladrões, Harry (Joe Pesci) e Marv (Daniel Stern). A alegria se transforma em pesadelo… para os ladrões, claro.

Por que está nesta lista? Independente de Chris Columbus ser um bom diretor ou não, Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990) é um marco na indústria do cinema de entretenimento. Inaugurou o subgênero de comédias infantis de carne-e-osso inspiradas em desenhos animados (os ladrões sofrem o diabo nas mãos do moleque em situações típicas dos Looney Tunes), apresentou Macaulay Culkin ao mundo (que depois viria a se envolver com drogas, Michael Jackson e abraçaria o limbo cinematográfico) e entrou para o Guiness Book como a comédia mais rentável do cinema – US$ 533 milhões de dólares pelo mundo afora. Fora isso, é um exaltação pura e grandiosa do espírito natalino em estado bruto. Ganhou três continuações, todas muito sofríveis.

• O ESTRANHO MUNDO DE JACK, de Henry Selick

A história: Jack Skellington, o rei-abóbora da Cidade do Halloween, descobre a Cidade do Natal e se encanta com o evento. Sedento de novidades, Jack resolve trazer a festividade para a sua cidade, seqüestrando o Papai Noel e fazendo tudo a seu modo. O resultado? O Natal mais estranho, macabro e hilariante que já existiu!

Por que está nesta lista? Porque O Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas, 1993) veio da cabeça de Tim Burton. Só este motivo já basta. Ainda assim, é um espetáculo hilário e de visual arrebatador, que renovou a técnica da animação em stop-motion (leia-se: de massinha) e rendeu três vezes mais o que custou (seu custo, baratíssimo, foi de US$ 18 milhões). Uma excelente história que afirma os valores morais existentes na maioria ds longas natalinos dos anos 40: todos, sem exceção, têm direito a ser feliz. Encantador.

• VAMOS NESSA, de Doug Liman

A história: Véspera de Natal. Ronna, que trabalha como caixa de supermercado, está sem dinheiro pra pagar o aluguel e provavelmente será despejada assim que chegar em casa. Por dinheiro, ela aceita cobrir o turno de Simon, inglês que quer viajar a Las Vegas com seus amigos Singh, Marcus e Tiny. Para complementar o orçamento, Ronna decide trapacear o fornecedor de drogas de Simon, o perigoso Todd, a fim de revendê-las para os atores (e namorados) Adam e Zack, que por sua vez estão sendo chantageados pelo dúbio e insinuante policial Burke. Enquanto isso, em Las Vegas, Marcus e Simon vão a um prostíbulo de luxo em que é proibido “tocar nas garotas”. Mas…

Por que está nesta lista? Este é praticamente o mesmo caso de Parceiro do Silêncio, já citado nesta matéria. Vamos Nessa (Go, 1999), dirigido por Doug Liman (de Identidade Bourne e Sr. & Sra. Smith), une três histórias engraçadíssimas, com um excelente elenco, e indo e voltando no tempo a toda hora mas sem perder a mão em momento algum. Fora que a última frase, saída da boca do ator Nathan Bexton, é antológica. Bem, o Natal aqui serve mesmo somente como pano de fundo – e a imagem do bom velhinho surge exclusivamente na forma de uma estátua no meio de um galpão onde está acontecendo uma alucinante rave. Se é assim, por que está aqui? Porque é o maior filmaço e pronto!

• O GRINCH, de Ron Howard

A história: O Grinch (Jim Carrey) sempre odiou o Natal. Aliás, ele sempre odiou todo mundo. Tudo isso porque ele nasceu verde e peludo na cidade dos Quem, que fica dentro de um floco de neve. Vivendo no alto de uma montanha, já que é temido pela população local, o Grinch agarra uma excelente oportunidade de se vingar de todo o povo de Quem quando é convidado por uma garotinha a participar do evento anual de comemorações natalinas. Mas as coisas não serão tão simples assim, e o Grinch aprenderá algumas lições muito importantes sobre o espírito humano.

Por que está nesta lista? O longa infantil de Ron Howard, O Grinch (How The Grinch Stole Christmas, 2000), inspirado no clássico livro de Dr. Seuss, ganhou um reforço que fez toda a diferença: Jim Carrey. O ator, irreconhecível com a maquiagem do Grinch, simplesmente deu um banho de interpretação, tornando seu Grinch mais elástico ainda do que o aclamado desenho de Chuck Jones de 1966, e mais uma vez provou o grande ator que é e sempre foi. Como se não bastasse, os efeitos especiais são muito bacanas, há uma narração emocionada de Anthony Hopkins (prefira sempre as versões legendadas!) e um importante mensagem: não importa se você é negro, branco, amarelo, azul, ou verde e peludo, dane-se as diferenças! É isso aí!

• SIMPLESMENTE AMOR, de Richard Curtis

A história: Um escritor britânico parte para o sul da França e lá acaba descobrindo o amor. Billy Mack busca retomar sua carreira como astro do rock. Karen desconfia que seu marido Harry a está traindo. Juliet, recém-casada, desconfia das intenções de Mark, o melhor amigo de seu marido. Sam tem por objetivo chamar a atenção e conquistar a menina mais difícil da escola. O novo Primeiro-Ministro inglês se apaixona por uma de suas funcionárias, Natalie. Sarah finalmente consegue sair com Karl, por quem nutre uma antiga paixão silenciosa. Aparentemente sem qualquer ligação, estas histórias se chocarão delicadamente e aos poucos.

Por que está nesta lista? Quem não gostaria de passar o Natal acompanhado de seu grande amor? Tudo bem, é um pensamento meio piegas (desculpem, meninas românticas de plantão). Mas o grande “quê” de Simplesmente Amor (Love Actually, 2003) é justamente usar o período de festas natalinas para retratar a busca incessante do ser humano pelo amor. Com um roteiro primoroso e atuações excelentes de todo o elenco, por sinal muito bem escolhido – e que conta inclusive com Rodrigo Santoro -, este divertido longa é daqueles que te faz sair da sessão com vontade de beijar a boca da(o) primeira(o) garota(o) que vir à sua frente. Pra assistir sem medo de se emocionar e ser feliz.

• PAPAI NOEL ÀS AVESSAS, de Terry Zwigoff

A história: O Natal é a época preferida do simpático meliante Willie (Billy Bob Thornton). Afinal, a cada final de ano, o indivíduo e seu comparsa, o anão Marcus (o excelente Tony Cox), disfarçam-se de Papai Noel e seu ajudante Elfo e empregam-se em lojas de departamento com o objetivo de limpar o lugar em plena noite de Natal. Um plano engenhoso e quase infalível, diga-se de passagem. Mas o que pode acontecer quando Willie, sujeito que não está nem aí pra nada, mergulha fundo na bebida e começa a comparecer no trabalho totalmente bêbado e cada vez mais boca-suja, dando umas escapadas para “degustar” a mulherada dentro de provadores e mandando “àquele lugar” qualquer um que lhe dirija a palavra – inclusive as crianças?

Por que está nesta lista? Vamos aos fatos: Papai Noel às Avessas (Bad Santa, 2003) é um dos filmes mais engraçados dos últimos dois ou três anos. Claro que esta produção, assinada pelo cultuado cineasta Terry Zwigoff (Mundo Cão), só funcionará se você for adepto das comédias de humor negro – e bota negro nisso: é hilário ver Willie xingando crianças e pais incrédulos dos mais variados “nomes bonitos” possíveis! Isto sem contar a presença da estonteante Lauren Graham (a Lorelai de Gilmore Girls), como uma garçonete com uma fantasia sexual bastante, ahn, esquisita… E Deus, de onde tiraram aquele engraçadíssimo gordinho chamado Brett Kelly, que atende pelas melhores sacadas da fita? Enfim, Papai Noel às Avessas mostra que o Natal pode transformar até mesmo o mais duro dos corações. Bonito, isso. :-)

Bem, aí estão algumas dicas bem interessantes para passar o Natal, o Ano Novo, a Páscoa, o Dia das Crianças… qualquer dia! Hehehe… Pois é, garanto que é beeeeeeem melhor do que enfrentar uma sofrida sessão daquela tosqueira natalina horrorosa chamada O Expresso Polar! Não! O expurgo deste filme seria um ótimo presente de Natal… E jingle bells pra todo mundo! :-D

CURIOSIDADES:

• Frank Capra, diretor de A Felicidade Não Se Compra, também comandou Aconteceu Naquela Noite (1934), um dos três únicos vencedores das cinco categorias principais do Oscar (para quem não sabe, são eles: melhor Filme, melhor Diretor, melhor Ator, melhor Atriz e melhor Roteiro). Os outros dois longas que conseguiram realizar esta façanha são Um Estranho no Ninho (1975) e O Silêncio dos Inocentes (1991).

A Felicidade Não Se Compra foi o primeiro trabalho do grande ator James Stewart (habitual colaborador de Alfred Hitchcock) depois da Segunda Guerra. Stewart, que serviu o exército na ocasião, ficou tão chocado com a guerra que chegou a cogitar abandonar o cinema. Ele só retornou às telonas depois que seu amigo de longa data Lionel Barrymore (que interpreta o vilão neste filme) lhe pediu, usando os mais baixos golpes de chantagem emocional…

Natal Branco seria originalmente protagonizado por Fred Astaire, que já tinha formado uma parceria com Bing Crosby muito bem-sucedida financeiramente em Duas Semanas de Prazer (1942). Contudo, pouco antes das filmagens, Astaire decidiu que iria se “aposentar”, dando lugar a Danny Kaye. Sua “aposentadoria” durou somente um ano. Vai entender estes astros de Hollywood…

• O roteirista de Parceiro do Silêncio é Curtis Hanson, que mais tarde viria a responder pela direção de elogiados longas como Los Angeles: Cidade Proibida, Garotos Incríveis, 8 Mile – Rua das Ilusões e o recente Em Seu Lugar.

• A versão original de Gremlins, que nunca foi filmada, contava com elementos bem macabros, como muitas mortes sangrentas e a tranformação do Mogwai bonzinho Gizmo no malévolo, calculista e homicida líder dos Gremlins. O digníssimo senhor Steven Spielberg, produtor da fita, alterou o conceito básico do longa para que pudesse ser acessível a todas as idades. Sempre ele cagando tudo…

• Muita gente não sabe, mas a famosa expressão de Macaulay Culkin em frente ao espelho em Esqueceram de Mim (imagem que também ilustra o cartaz original do filme) é uma referência clara ao quadro The Scream, de Edvard Munch, o mesmo quadro que inspirou a máscara de Pânico, de Wes Craven.

• Sarah Polley, estrela de Vamos Nessa, faria mais tarde o papel principal do ótimo Madrugada dos Mortos, refilmagem do clássico gore de George A. Romero.

• Em O Grinch, nas cenas em que as nuvens passam, se você olhar bem de perto conseguirá ver três inscrições: CH, JC e RH. São as siglas dos atores Clint Howard (o prefeito da cidade dos Quem), Jim Carrey e do diretor Ron Howard. A narração de Anthony Hopkins foi gravada em um único dia. Isso é que é ganhar dinheiro fácil…

Papai Noel às Avessas bateu um recorde para um filme natalino: durante sua projeção, há nada menos do que 147 usos daquela palavrinha odiada pelos americanos (aquela que começa com “f”…). O papel de Billy Bob Thornton foi disputado à tapa por dois pesos-pesados: Jack Nicholson e Bill Murray. Nicholson foi proibido de fazer o longa por já ter assinado contrato para rodar Alguém Tem Que Ceder, e Murray preferiu ir ao Japão para integrar o elenco de Encontros e Desencontros.

FILMES PARA EMBALAR O NATAL
Matéria publicada originalmente em A ARCA, em 30/11/2004
Complemento do especial de Natal de 2004 do website.

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