O Casamento de Romeu e Julieta

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/03/2005.

Olha, para conseguir começar a escrever qualquer coisa sobre O Casamento de Romeu e Julieta (Idem, 2004), novo longa-metragem dirigido por Bruno Barreto (de Dona Flor e Seus Dois Maridos), demorou um bocado. Na verdade, demorou mesmo é pra conseguir escrever qualquer coisa sobre isto sem parecer negativista. Sabem como é, minha fama me precede… Hehehe! Enfim, digo desta maneira porque o filme é ruim mesmo. Não só ruim: é uma das fitas mais cruéis que o cinema nacional produziu nos últimos anos. Aliás, acho que não dá nem pra chamar O Casamento de Romeu e Julieta de “filme”, sinceramente. Mas vou tentar parecer amistoso. Afinal, não quero ninguém aí pensando que ando precisando de férias! Se bem que estou mesmo… :-D

Voltando ao assunto, o medo já tomava conta de mim antes mesmo de assistir a isso. Primeiro, porque não sou fã da obra de Mario Prata; para quem não sabe, a fita é inspirada num conto seu, chamado Palmeiras, um Caso de Amor. Segundo, não consigo engolir nada que venha do Bruno Barreto, sinto muito; seus trabalhos são fraquíssimos e cheios de pretensão. Ah, O Que é Isso, Companheiro foi bem ruinzinho! E como se não bastasse cometer gafes aqui no Brasil, o cara ainda pagou micos extraordinários como aquele instrumento de tortura chamado Voando Alto, com a Gwyneth Paltrow (pausa para o sinal da cruz). E ainda glorificam o homem como se ele tivesse o Toque de Midas! Acho hilário quando passa na TV a cabo um comercial falando que Bruno Barreto “já dirigiu grandes astros do cinema” e, ao fundo, mostra imagens dos tais “astros”: Stephen Baldwin, Chris Penn…

Outro fator que contou bastante para minha antipatia com O Casamento de Romeu e Julieta foi a produção ter sido assinada pela Globo Filmes. Todo mundo sabe que a produtora tem uma preocupação fora do comum em deixar seus longas bem mastigadinhos para que o espectador não precise se dar ao trabalho de pensar; além, claro, da irritante linguagem típica de novela. E, pra concluir, a protagonista do longa é ninguém menos que Luana Piovani, pelo amor de Deus! Pra resumir seu trabalho aqui, ela é tão expressiva quanto uma parede! Isso porque, na coletiva de imprensa para a divulgação da fita, a garota não parava da dizer que estudou nos mais conceituados colégios de atores dos Estados Unidos e blá blá blá… Sandália da Humildade nela! Deu vontade de perguntar se, durante as gravações, ela esqueceu a “experiência” em casa ou perdeu no meio do caminho.

Enfim, lá vou eu enfrentar uma exibição de O Casamento de Romeu e Julieta. Saí vivo, graças aos céus. Bem, o troço é sofrível. Não é ruim de fazer com que você sinta aquele desejo obscuro de deitar no meio da rua e esperar até que algum veículo faça a gentileza de passar por cima; é ruim de fazer com que você abaixe a cabeça, dê aquele sorriso amarelo e pense consigo mesmo: “Socorro, como isto é constrangedor”! Pois é, me senti como numa peça de teatro, em que o ator engasga e todo mundo percebe. Alguém já passou por isso? Eu já, e pelo fato de ser tudo ao vivo, a sensação é a de que VOCÊ está lá no palco, passando por esta humilhação junto com o ator. É terrivelmente embaraçoso. Tive esta mesma sensação de vergonha em determinados trechos da película: as piadas são tão fracas e amadoras que, se eu fosse um ator qualquer do filme, ficaria embaraçado só de ter que dizer uma delas…

Uma parte da culpa vem justamente disto: além do próprio Mario Prata, o roteiro do filme é assinado por Jandira Martini e Marcos Caruso, crias de teatro, e parece que a produção esqueceu de avisá-los que o texto não era para os palcos. Resultado: história e diálogos que até poderiam funcionar num sketch (*) de no máximo 15 minutos, mas que na telona não têm razão de existir. Quer ver só? Bem, Romeu e Julieta se apaixonam, mas há um problema: ele é corintiano e ela, palmeirense. Decidem namorar mesmo assim. Só que, para o relacionamento dar certo, o pai dela – um italiano esquentado e também torcedor do Palmeiras – não pode saber das “preferências” do genro. Então eles decidem fingir que o cara torce pro Verdão. Esta é a história INTEIRA! Vamos fazer o negócio na prática: dê uma busca aí na Internet e assista ao trailer. Porque o preview mostra o filme todo. Se você fizer isso, não gastará uma fortuna no cinema e ainda sofrerá menos. Vai por mim.

Assistiu o trailer? Agora imagine isso esticado em 90 minutos (!) e com aqueles diálogos certinhos, bem acentuados e típicos de peças teatrais. Fica pior quando notamos claramente que os roteiristas entendem patavinas de futebol; percebe-se que o tratamento dado ao esporte é o de um amador, e não de um especialista na área. O que é, diga-se de passagem, ridículo. É como ler um livro sobre HQs escrito por este Zarko aqui em parceria com a Srta. Ni.

O gozado é que, de uma hora pra outra, palavrões gratuitos surgem e dominam os diálogos de uma maneira impressionante! É um festival de “PQP”, “PM”, “C******”… Nada contra palavrões, eu acho até engraçado quando alguém pronuncia alguma “palavra de baixo calão” em filmes, principalmente nacionais (nesse ponto, sou como o R.Pichuebas: enquanto ele defende a tese de que uma flatulência pode salvar qualquer longa-metragem inteiro, eu concordo que um palavrão bem dito soa mais engraçado que muita piada classuda por aí). Mas aqui fica demais, e o lance é de repente mesmo! O pai da Julieta, então, solta uma “palavrinha bonita” a cada três segundos! É como se, a partir de um ponto qualquer, o script fosse psicografado pelo Costinha – com o diferencial, claro, de que o humorista teria sido muito mais feliz no resultado final.

Se apenas o roteiro estivesse fora de lugar, até que o lance seria suportável. Mas o elenco também está horrível: Marco Ricca, como Romeu, só sabe fazer caretas. E olhem que eu considero o cara bastante acima da média; Luís Gustavo, como Alfredo Baragatti – pai de Julieta -, até dá a partida bem, sutil e contido, mas depois de meia hora de filme, se entrega ao estereótipo do “fanático por futebol”, exagera na caricatura e passa a impressão de que seu personagem ficou gagá de uma hora pra outra. Isso porque o cara começa a ficar vermelho constantemente, e parece que sua cabeça irá explodir a qualquer momento, ao melhor estilo Scanners!

O restante do elenco, então, é pavoroso: a esposa de Baragatti é interpretada por Martha Mellinger – uma mistura bizarra de Marta Suplicy e a mãe do Greg naquele seriado da Jenna Elfman -, ruim que só ela. O filho de Romeu e sua namorada são vividos respectivamente pelos rostinhos-bonitos-porém-inexpressivos Leonardo Miggiorin e Mel Lisboa, que só estão aqui para atrair o público adolescente e devorador de Malhação ao cinema – seus personagens não têm sentido algum (por mais que Mel seja responsável por uma das duas ou três boas tiradas do filme).

E, por último, a avó de Romeu, uma corintiana mais do que roxa, é interpretada por Berta Zemel e corresponde à pior coisa da fita inteira. Sim, além de a atriz ser insuportavelmente chata, seu papel não convence e ainda responde pela frase mais medonha, bizarra e sem sentido dos últimos tempos! É sério. Nem vou comentar aqui, pois os heróis que se aventurarem a assistir O Casamento de Romeu e Julieta identificarão o momento no ato. Acha que o negócio não pode ficar mais bisonho que isso? O que pensar, então, de uma ponta do Matusalém José Vasconcelos, pagando um mico vergonhoso na seqüência final – outro momento altamente tosco do filme?

Mas o problema maior mesmo é a direção. Os atores até poderiam ter se saído melhor se fossem melhor dirigidos. E o Bruno Barreto ainda diz, numa entrevista, que preocupa-se mais com os atores do que com as histórias dos seus longas… Tá bom! Se você estiver num ótimo dia, num daqueles momentos mágicos em que nada consegue te irritar, pode ir assistir sossegado. Nem que seja só pra dar risada da desgraça alheia (!). Mas ao final, o placar é o mesmo. Tanto que afirmo, com todas as letras, que a partir de agora só um milagre me faz assistir a qualquer filme assinado pelo Bruno Barreto. Bem, como disse no início desta matéria, tentei ser o mais amistoso possível, pra ninguém achar que sou ranzinza. Acho que fui bem-sucedido! É, também costumava acreditar no Coelhinho da Páscoa… :-P

CURIOSIDADES:

• Em algum trecho deste artigo, citei o termo sketch. Para quem não conhece, sketch é uma micro-peça de teatro, cujo tempo de duração geralmente não ultrapassam dez minutos. Como se fosse um curta-metragem. Os quadros de um programa como Zorra Total, por exemplo, não passam de sketchs filmados.

• Perto do final do filme, há uma pontinha muito divertida da apresentadora e deusa Marina Person, como uma repórter que não consegue conter as gargalhadas por conta da ridícula notícia que deve transmitir; por falar em Marina Person, seu conhecimento sobre cinema vem de berço: a VJ é filha do falecido cineasta Luiz Sérgio Person, responsável por muitas das mais influentes obras do cinema brazuca dos anos 60 e 70, como São Paulo S/A (1965), O Caso dos Irmãos Naves (1967) e o clássico da sacanagem Cassi Jones, o Magnífico Sedutor (1973).

O CASAMENTO DE ROMEU E JULIETA • BRA • 2004
Direção de Bruno Barreto • Roteiro de Jandira Martini, Marcos Caruso e Mario Prata
Baseado no conto Palmeiras, um Caso de Amor, de Mario Prata
Elenco: Luana Piovani, Luís Gustavo, Marco Ricca, Martha Mellinger, Mel Lisboa, Leonardo Miggiorin, Berta Zemel, Renato Consorte, Cybele Jácome, José Vasconcelos, Marina Person.
90 min. • Distribuição: Buena Vista International/Globo Filmes.

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Uma resposta para O Casamento de Romeu e Julieta

  1. […] caro leitor, não poderia me poupar das gélidas e pavorosas lembranças deste troço e clicar neste link aqui para descobrir a razão do meu asco por si só? Obrigado pela […]

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