Entrando Numa Fria Maior Ainda

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/01/2005.

Mesmo tendo sido uma surpresa, não foi nem um pouco difícil entender os motivos que transformaram a despretensiosa comédia Entrando Numa Fria num dos maiores sucessos de bilheteria (e também de crítica) em 2000. Só pra se ter uma idéia, o longa custou US$ 55 milhões e rendeu exatamente três vezes mais só nos States – no total, mais de US$ 300 milhões arrecadados no mundo todo. Bem, como disse aí em cima, motivos não faltaram: uma história simples mas bem funcional, situações cômicas e embaraçosas que não ultrapassam os limites do bom-senso em momento algum… e Robert DeNiro provando de uma vez por todas que é um dos melhores atores em atividade nos EUA. Pois é, imaginem o cara humilhando Ben Stiller por quase duas horas e o pobre coitado se metendo em uma série de eventos hiper-constrangedores que só confirmam sua patetice! E só DeNiro falando “I am watching you! I… am… watching… you!” já vale o preço de quatro ingressos de cinema em pleno Sábado, ora essa!

Naturalmente, era só questão de tempo até que algum espertinho (leia-se: executivo de Hollywood) inventasse de querer rodar uma continuação. Por mais estranho que possa parecer, as primeiras notícias sobre a produção revelaram um enredo que prometia ser ainda mais nonsense e divertido que seu antecessor: se no primeiro filme temos um Zé Mané azarado que sofre o diabo para ser aceito pelo pai carrasco de sua noiva, que tal colocar o pai carrasco da noiva do Zé Mané para conhecer os pais do Zé Mané neste segundo filme? E se estes pais fossem um retrato fiel e ainda “piorado” de seu filho que só dá vexame? Quando o trailer do longa saiu, todo mundo adorou. E cá estamos em 2005, e lá estava eu na sessão de Entrando Numa Fria Maior Ainda (Meet The Fockers, 2004), faltando três minutos para o início, totalmente ansioso e esperando presenciar um clássico que, a meu ver, superaria numa boa o engraçadíssimo primeiro longa.

E então… TORTA NA CARA! O filme é chato. Muito chato. Tudo bem, não senti vontade de cometer atos horrorosos contra minha própria vida, e nem mesmo cheguei a cochilar durante a sessão. Mas deu vontade. E de cinco em cinco minutos, não conseguia deixar de olhar o relógio e pensar: “termina logo isso aí que eu quero ir pra casa!”. Mas… Carambolas, o que aconteceu? Tinha tudo pra dar certo! Robert DeNiro reprisando um de seus papéis mais bacanas, a presença sempre bem-vinda do ótimo Dustin Hoffman, a linha central bem bolada do enredo e principalmente o retorno às telas da “musa do South Park“, a bizarra Barbra Streisand, num papel tosco que prometia transformá-la numa das melhores personagens a aportar nas telonas neste ano. E tudo junto! Se tinha tudo isso, como é que o resultado é essa inhaca grudenta?

Antes de qualquer coisa, vamos à história: recapitulando o antecessor, o desastrado enfermeiro Greg Focker (ou Fornika, segundo a tradução da legenda), cujo verdadeiro nome é Gaylord Focker (!), vai passar um final de semana na casa dos papais de sua noivinha, para conhecê-los e também o resto da família (neste mesmo final de semana, a irmã mais velha da menina irá se casar). Greg (Stiller) come o pão que o diabo amassou quando descobre que o mal-encarado Jack Byrnes (DeNiro), pai de Pam (Teri Polo), não é um horticultor como todos pensam, e sim um agente da CIA aposentado – e está usando este detalhe a seu favor, para infernizar a vida do futuro genro e fazer com que a filha enxergue o “grande erro” que é firmar laços com um perdedor como Focker. Depois de destruir a urna com os restos mortais da mãe de Jack, sumir com o adorado gato de estimação da família, acertar uma bolada na cara da irmã de Pam, entupir a privada da casa perto do casamento e quase botar fogo na casa inteira, além de outras “bolas-fora”, Greg finalmente é aceito no “Círculo de Confiança dos Byrnes”.

Já nesta segunda fita, Greg ainda é enfermeiro e ainda não casou com Pam. Logo no início do filme, sabemos que os Byrnes viajarão a Miami para passar o final de semana com os pais de Greg – que Byrnes imagina ser um advogado e uma médica -, para que a família inteira possa se confraternizar e acertar os detalhes do futuro casamento dos pombinhos. Claro que Jack tem outros planos: investigar a origem de Greg para ter certeza, mais uma vez, de que ele é digno de carregar o sobrenome de seu clã. Quando Jack, Greg, Pam e Dina (Blythe Danner, a mãe da chata da Gwyneth Paltrow na vida real) chegam ao encontro dos Fockers, dão de cara com o abusado Bernie (Hoffman), o pai, e a avoada Roz (Streisand), a mãe.

Ele, um aposentado que passa o dia inteiro transando com a esposa, dando beijos nos outros e treinando capoeira – sim, o homem é mestre na “luta-dança brasileira”, como define o personagem de DeNiro. Ela, uma terapeuta sexual especializada em idosos, autora de um livro chamado A Vagina é Nossa Amiga e dona de uma vasta coleção de “estátuas eróticas” espalhadas pela casa. Os dois falam alto, contam histórias da infância de Greg capazes de fazer corar qualquer um, e ainda são extremamente “foguentos”, bolinando-se mutuamente em qualquer lugar que estejam, sem se importar com quem estiver ao redor. Ou seja, duas pessoas absolutamente constrangedoras, para desespero de Jack e total embaraço de Greg. Ou você gostaria de ter um pai que, além de te dar o terrível nome “Gaylord”, ainda só se refere a você pelo diminutivo “Gay”? Como se vê, o modo liberal de viver dos Fockers logo contrastarão com a rigidez dos Byrnes. E, como todo mundo sabe, até o final tudo se resolve, um ajuda o outro e todo mundo fica amiguinho! Êêêêêê, a vida é feliz! Eu sou alegre! Dãããã…

Pois é, esta é a história. Nas primeiras cenas, o longa é muuuito entediante, sem graça alguma. Tanto que muita gente não agüentou e foi embora com menos de vinte minutos de projeção. Quem resistir à falta de graça desta primeira parte pode até se divertir um pouco a partir do momento em que Byrnes & Cia. embarcam no hiper-ultra-super-mega trailer equipado de Jack, rumo à “Ilha Focker”. Quando os pais são apresentados, então, a coisa dá uma engrenada e você até consegue soltar um sorriso amarelo ou outro. Essa levantada rola até a cena que envolve a “meia circuncisão” de Greg. Mas em menos de vinte minutos, o caldo esfria de novo e as boas piadas se tornam cada vez mais raras. E olhem que ainda estamos lá pelos quarenta minutos de projeção. E a fita tem uma hora e cinqüenta e cinco minutos… Quanto aos atores, DeNiro está impecável como sempre, mas só porque ele faz exatamente o que fazia em Meet The Parents. Enquanto isso, Dustin Hoffman e Barbra Streisand… bem, eles até se esforçam e tentam tirar leite de pedra, mas seus papéis são muito rasos. Culpa do roteiro. Já o resto dos atores, incluindo aí o senhor Ben Stiller, são ruins mesmo. Principalmente Teri Polo (do extinto seriado Felicity), que consegue superar sua própria falta de talento na outra película.

Pra complicar ainda mais, os roteiristas John Hamburg e James Herzfeld (curiosamente, os mesmos do primeiro Meet The Parents) não fazem nada além de reciclar as idéias já expostas no longa anterior – conseguindo deixá-las sem graça alguma. Como se não bastasse, surgiram novos personagens que não acrescentam nada, como o insuportável filho da irmã de Pam, o Pequeno Jack (um bebê tratado “como adulto” que se comunica por linguagem de sinais), e a empregada Isabel (Alanna Ubach), com quem Greg perdeu a virgindade no passado e que serve de plot para uma subtrama totalmente babaca e mal desenvolvida. E também não podemos esquecer, é claro, da rápida participação de Owen Wilson, retomando o personagem do longa anterior na coisa mais embaraçosa (no mau sentido) e sem nexo do roteiro. Por falar em subenredo, isso é um problema sério aqui: tanto a gravidez de Pam quanto o tal “rolo todo” envolvendo a empregada são muito mal desenvolvidos, e parecem que estão ali somente pra encher lingüiça, por falta de boas situações.

O que mais irrita, contudo, é a inevitável presença da insuportável “lição de moral” do final do filme, aquele negócio de que “todos somos iguais e devemos nos amar e ter carinho um com outro” e blá-blá-blá. De uma hora pra outra, em três segundos, tudo se resolve, tudo fica bem, cada um vai para o seu canto e as luzes da sala se acendem. E a platéia sai do cinema com aquela sensação de “dinheiro jogado fora”. Mas veja bem: não estou dizendo que o longa é de causar nojo. Apenas é fraquinho, BEM fraquinho. O que é mesmo uma pena, já que Meet The Fockers tinha tudo para se tornar um clássico da comédia – só parece mesmo que esqueceram de desenvolver melhor um pequenino elemento sem importância chamado ROTEIRO. Bem, com isto aprendemos que determinados projetos, por mais que possam render muita bufunfinha, devem morrer únicos, sem continuação. E ponto final.

Aliás, um último comentário: o gosto dos americanos com relação a filmes de comédia realmente anda lastimável! Só isso pra justificar o enorme sucesso que este filme está fazendo lá fora – em quase quatro semanas, já arrecadou mais de US$ 247 milhões nas bilheterias ianques. Ah, bota logo um inglês pra escrever esse roteiro e vocês vão ver o que é rir de verdade, pô! Bom, pelo menos tem o Robert DeNiro falando “I am watching you” de novo! Não é o suficiente pra compensar o valor do ingresso, mas ao menos a gente fica um pouco aliviado! :-D

CURIOSIDADES:

• Alanna Ubach, que interpreta a ex-babá de Ben Stiller, é uma conceituada atriz no círculo de cinema independente americano, perdendo somente para Parker Posey em nível de popularidade. A atriz atuou no cultuado Denise Está Chamando, longa pelo qual ficou conhecida, e depois disso trabalhou em filmes como Legalmente Loira e Johns. Aliás, Denise Está Chamando (uma comédia dramática em que todos os personagens se falam somente pelo telefone durante o filme inteiro) é justamente um dos longas que despertou o interesse dos americanos com relação às fitas de baixo orçamento. Ela também já participou da famosa série O Mundo de Beakman.

• O ator Tim Blake Nelson (de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? e Por um Sentido na Vida) faz uma pontinha muito estranha neste filme, como um guardinha que resolve atrapalhar a vida dos Fockers.

• Barbra Streisand não atuava há oito anos. Seu último trabalho nas telonas foi O Espelho Tem Duas Faces, em 1996.

• Caso você esteja interessado em assistir Meet The Fockers, mesmo depois deste artigo, recomendamos que alugue o primeiro filme para relembrar algumas coisas. Algumas (poucas) piadas bem legais escondidas neste aqui fazem referência a pequenas situações do longa anterior.

MEET THE FOCKERS • EUA • 2004
Direção de Jay Roach • Roteiro de John Hamburg e James Herzfeld
Elenco: Robert DeNiro, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Barbra Streisand, Blythe Danner, Teri Polo, Owen Wilson.
115 min. • Distribuição: Paramount Pictures.

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