A Profecia

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 29/05/2006.

Afinal, para quê serve um remake? Será uma forma de apresentar uma grande história do passado a uma nova geração de espectadores? Será uma forma de propiciar ao grande público uma releitura de uma obra qualquer por outra equipe e, por conseqüência, outro ponto de vista? Ah, pode até ser. Enxergar a existência dos remakes desta forma pode até ser bacana, mas não deixa de ser uma maneira absurdamente ingênua e distorcida de encarar as coisas.

Vamos aos fatos: Hollywood mergulhou numa espiral de falta de criatividade, e de lá não conseguirá sair tão facilmente. Ponto final. Tanto que, se você abrir o jornal na seção de cinemas e conferir o que está em cartaz, certamente só encontrará refilmagens, adaptações de HQs, adaptações de livros populares e/ou seqüências de sucessos do passado – isto, claro, se deixarmos de lado as películas quase sempre originais que entopem o circuito indie, mas ele não faz parte de Hollywood, então não conta; quando digo Hollywood, digo cinema comercialzão, cinema-pipocão, blockbuster. É por causa desta falta de criatividade, desta falta de talento das “estrelas” do mercado atual, que tem tanta história das antigas estourando nas telonas em versões recauchutadas e com os astros da vez.

Enfim, falando o português claro, salvo uma ou outra exceção (como nosso amigo King Kong, aquele macacão safado), nada me tira da cabeça que os famigerados remakes existem mesmo é para provar por A + B que a enorme crise que aflige a Meca do cinema é real. Ou será que realmente há alguém na face do nosso querido planeta que faça questão de conferir novas leituras de troços que já não eram lá tão bons (leia-se: na verdade, eram bem ruinzinhos) em seu formato original, como Soltando os Cachorros e Os Seus, os Meus & os Nossos? Socorro, hein.

Considerando estes fatores, não dá pra entender o caso de A Profecia (The Omen, 2006), cuja existência por si só já é um pecado (hehehe). Refilmagem do longa dirigido por Richard Donner em 1976, tido por muitos como um dos grandes clássicos do horror psicológico, a nova fita não carrega razão de existir por um único motivo: ela não traz novidade alguma. A exemplo da tenebrosa releitura de Psicose, cometida por Gus Van Sant em 1998, A Profecia não pode ser categorizada como “uma nova visão da história”, pois é uma versão quase quadro-a-quadro do arrepiante filme de 76. Se você assistiu A Profecia versão original, é só imaginar Julia Stiles (a amiga do Jason Bourne) e Liev Schreiber (diretor do ótimo Uma Vida Iluminada) nos papéis outrora defendidos por Lee Remick e Gregory Peck. Imaginou? Pronto, você acabou de assistir a nova versão deste filme! Só para se ter uma idéia, o roteiro aqui é o mesmo texto de David Seltzer utilizado na versão original. Ou quase, como explicarei mais tarde.

Mas devo dizer: mesmo não passando de uma cópia xerox de seu antecessor, A Profecia versão 2006 está razoavelmente distante de ser um filme ruim. Ao contrário. Se o espectador não levar a sério demais, a produção mostra-se climática e legalzinha e, analisando o péssimo currículo de seu diretor John Moore (responsável pelos fracos Atrás das Linhas Inimigas e O Vôo da Fênix), certamente representa seu melhor trabalho. Em comparação à película original, entretanto, perde totalmente sua credibilidade. E o que pega é que esta nova produção cai no erro dos filmes de terror de hoje em dia e, além de manter a história imersa num clima exageradamente soturno, explicita demais aquilo que seria muito mais assustador se ficasse apenas na sugestão. O que poderia ser um grande longa de horror psicológico transformou-se em mais um filmequinho de terror como tantos outros, enfraquecido por situações estereotipadas e nojentas.

Aí é que está: John Moore disse numa entrevista que a motivação para refilmar A Profecia veio do aniversário de 30 anos da obra e também por sua relevância em nossa época, já que incidentes como o Tsunami na Ásia, o ataque terrorista ao World Trade Center, a guerra do Iraque e a recente morte do Papa João Paulo II remetem diretamente à idéia da chegada do Anticristo prevista na produção – tanto que, no novo filme, somos lembrados destes acontecimentos reais o tempo todo. Sendo assim, se A Profecia é tão relevante, não seria melhor relançar o original nos cinemas em cópia remasterizada do que perder tempo refazendo tudo passo-a-passo para inevitavelmente entregar um produto bem inferior?

O enredo de A Profecia é bastante promissor, é verdade: Robert Thorn (Schreiber) é um diplomata americano residente na Itália que descobre que sua esposa, Kathryn (Stiles), perdeu o bebê no parto – que aconteceu, por sinal, às 6 horas do dia 6 de junho de 2001. Antes que Kathryn tome consciência da morte prematura de seu filho, Robert é aconselhado por um padre da maternidade a adotar outra criança – nascida no mesmo dia e na mesma hora, cuja mãe morreu no parto – como se fosse sua. Preocupado com a sanidade de Kathryn, que já sofrera outros abortos antes, Robert consente.

O que o diplomata não faz idéia é que há uma profecia descrita no Livro das Revelações da Bíblia, que prevê o nascimento de uma criança que trará em sua anatomia a marca da besta (para quem não sabe, a seqüência numérica 666), herdará seus poderes diretamente de Satanás e, em sua idade adulta, instaurará um reinado de horror na Terra; evento este que dará início ao Armageddon. Vixe! :-P

Cinco anos depois, Damien (o estreante Seamus Davey-Fitzpatrick) é uma criança saudável – aliás, uma criança que NUNCA ficou doente durante seus cinco anos de vida, o que é bastante incomum – e seu pai, antes um mero diplomata, agora é embaixador norte-americano na Inglaterra. Tudo corre bem para a família Thorn, até que bizarros e medonhos incidentes começam a surgir com o quinto aniversário do garoto – incidentes que parecem estranhamente ligados a Damien. A chegada de uma esquisita babá, a macabra Sra. Baylock (Mia Farrow), desperta a desconfiança de Robert. Com a entrada em cena de outros personagens, como o desesperado Padre Brennan (Pete Postlethwaite, O Jardineiro Fiel) e o sagaz fotógrafo Jennings (David Thewlis, Instinto Selvagem 2), Robert passa a enfrentar uma aterrorizante verdade: Damien pode ser o Anticristo, o filho do Tinhoso enviado à Terra com a missão de desencadear o Apocalipse.

A trama, para quem conhece bem a fita original, não muda em absolutamente nada, à exceção da seqüência de abertura, que explica a profecia e detalha os sinais da chegada do Anticristo (utilizando, para isto, imagens reais dos últimos acontecimentos mundiais). Há, claro, a atualização do contexto da obra para os dias atuais, como por exemplo o uso de computadores e a eventual substituição de um triciclo por um patinete numa das cenas mais nervosas do filme. As poucas alterações significativas não dizem respeito à história, mas à forma com que ela é mostrada, principalmente no caso das mortes que ocorrem durante a projeção – os assassinatos aqui são visivelmente mais viscerais e realistas, com destaque para a aterrorizante cena da primeira babá (a minha predileta do longa-metragem anterior) e a seqüência dos trabalhadores no telhado (assista e você saberá do que estou falando). ;-)

Eu particularmente gostei bastantão da visão da verdadeira “mamãe” do Damien. Medo.

Se há alguns pontos positivos na película, como a ótima trilha sonora de Marco Beltrami – que bebe na fonte das composições de Bernard Herrman para trabalhos de Hitchcock, mas não chega a ser marcante como a fantasmagórica trilha de Jerry Goldsmith no primeiro filme –, o mesmo não se pode dizer de elementos como a escalação dos atores: enquanto as contratações de Liev Schreiber e Pete Postlethwaite foram bem acertadas (ambos até que estão bem em seus papéis), a atuação de Julia Stiles não é tão bacana quanto deveria; não por culpa da atriz, mas ela não tem a maturidade física e emocional que o papel pede. E Mia Farrow, como a babá do inferno, prova mais uma vez que só conseguiu trabalhar em vários longas do excelentíssimo senhor Woody Allen por que era, afinal, esposa do sujeito. :-P

O problema maior de A Profecia, entretanto, é Seamus Davey-Fitzpatrick. Sigam minha linha de raciocínio: o mais assustador na fita de 1976 era a presença totalmente meiga, dócil e angelical do ator-mirim Harvey Stephens – saber que aquela criança linda e inocente era a encarnação do demônio já fazia todo mundo usar fraldinhas. E este ar angelical, que contrasta numa boa com a natureza demoníaca do personagem, perde-se de vez em Fitzpatrick. O garoto só sabe andar feito um zumbi e fazer aquela cara de eu-sou-mais-louco-do-que-Dakota-Fanning-e-Cameron-Bright-juntos! Sério, não sei como os pais do Damien conseguiram passar cinco anos ao lado daquela criança sem ter medo de ver o pivete pulando em suas jugulares com uma faca. :-)

Então, num saldo geral, vale a pena conferir? Sim, até que vale sim. Como eu disse lá em cima, A Profecia não é um filme tão ruim e rende uma sessão tensa e recheada de sustinhos fáceis. Mas dado à suma importância de sua origem, decepciona bastante. O ideal é vê-lo somente como um filme de terror divertidinho e nada mais. Agora… Se você quer profundidade e horror de verdade, daqueles de tirar o sono durante quatro dias, é melhor dar uma passadinha na vídeo-locadora e alugar a versão original. Porque afinal de contas, o conceito dos remakes continua injustificável.

Na real, o que dá medo em A Profecia versão 2006 é saber que a primeira versão é a primeira parte de uma trilogia; logo, tenho quase certeza de que os executivos de Hollywood já estão pensando em refilmar as outras duas partes! E se isto acontecer, Deus nos livre de ver algum executivo de estúdio pensar na idéia de chamar Hayden Christensen para viver o “fiote do cabrunco” na adolescência… Isto seria o apocalipse, sem sombra de dúvidas. :-D

PARÁGRAFO SPOILERENTO PARA QUEM JÁ VIU O PRIMEIRO FILME
(Leia por sua própria conta e risco!)

Ainda acho que o mais legal desta nova versão de A Profecia são suas mortes horrorosas. Elas não trazem muita novidade, mas ainda assim são extremamente chocantes. Reparem na morte do Padre Brennan e principalmente na decapitação do fotógrafo. Esta última é uma das coisas mais legais que eu já vi! Se você não gosta de coisas nojentas, prepare-se para fechar o olho – aliás, se você se impressiona fácil, aproveite para sair da sala e beber uma água ou ir ao banheiro na seqüência em que Robert e Jennings descobrem o túmulo da verdadeira mãe de Damien. O enforcamento da primeira babá do pivete (induzida por Damien a cometer suicídio sorrindo e feliz durante a festa de aniversário do garoto), também é de fazer o espectador não esquecer a cena tão cedo. Um efeito bem legal está na queda de Kathryn enquanto ela rega as plantas. E a morte de Robert é apresentada de uma forma bem legal – insisto que o poder da sugestão é muito mais arrepiante do que qualquer efeito visual. :-D

CURIOSIDADES:

• Numa entrevista, o diretor puxa-saco John Moore declarou que Julia Stiles era sua escolha desde o início da pré-produção. Mentira. O papel de Kathryn Thorn foi oferecido exclusivamente a Rachel Weisz, que recusou por estar grávida na ocasião das filmagens. Outras atrizes foram então sondadas, como Hope Davis, Alicia Witt e Laura Linney. Stiles só foi contratada por insistência de Mia Farrow, que na época trabalhou com a jovem atriz no espetáculo teatral Fran’s Bed.

• Aliás, a escalação de Mia Farrow foi proposital. Afinal de contas, ela própria já deu a luz a um rebento do demo no maravilhoso O Bebê de Rosemary (1968), o macabro (até hoje) longa-metragem de Roman Polanski.

• Segundo divulgação do estúdio, vários acontecimentos bizarros marcaram as filmagens de A Profecia: Liev Schreiber foi realmente atacado por um Rottweiler na cena do cemitério, o que lhe custou uma costela quebrada; numa seqüência que mostra corvos ao fundo, um aparelho medidor do supervisor de efeitos visuais Matt Johnson insistia em mostrar o mesmo número… 666; um refletor de luz no alto do set explodiu durante a filmagem de uma cena, e por pouco os estilhaços de vidro não atingiram a equipe técnica presente nesta cena; e no sugestivo dia 6 de outubro, mais da metade do elenco e da técnica sofreu uma misteriosa intoxicação alimentar.

• O mais aterrador, entretanto, aconteceu com o fotógrafo Vince Valiutti. Ao revelar as fotos tiradas nos sets de filmagem, o fotógrafo descobriu um borrão em várias fotografias de Pete Postlethwaite, em forma de uma lança que sugestivamente atravessava seu corpo. Sai fora!

• Curiosamente, vários acidentes também assolaram as filmagens do longa-metragem original: o astro Gregory Peck cancelou de última hora um vôo que o levaria aos sets, só para descobrir mais tarde que este avião caiu e matou todos os seus tripulantes; o avião do roteirista David Seltzer também sofreu um acidente, mas seus passageiros escaparam ilesos; o hotel onde o diretor Richard Donner estava hospedado foi bombardeado pelo IRA; alguns principais membros da equipe técnica e do elenco sobreviveram a um terrível acidente de carro quando seguiam a uma locação; e o produtor Harvey Bernard simplesmente desapareceu.

• Harvey Stephens, o Damien da versão de 1976, faz uma aparição cameo na versão 2006 como um repórter.

• Lembra quando eu disse lá em cima que o roteiro usado neste A Profecia é quase o mesmo da versão original? Pois bem, vamos às explicações. Sim, há um roteiro novo para esta versão de A Profecia, e ele não foi escrito por David Seltzer. Na verdade, o script é assinado pelo estreante Dan McDermott, mas por um probleminha com a Writers Guild of America (o tal Sindicato de Roteiristas), seu nome não pôde ser creditado. Como o roteiro é assumidamente uma cópia Ctrl+C e Ctrl+V do original – inclusive com alguns diálogos 100% intactos –, David Seltzer autorizou o crédito em seu nome.

THE OMEN • EUA • 2006
Direção de John Moore • Roteiro de Dan McDermott e David Seltzer
Baseado no longa-metragem The Omen, escrito por David Seltzer e dirigido por Richard Donner
Elenco: Liev Schreiber, Julia Stiles, Mia Farrow, Pete Postlethwaite, David Thewlis, Michael Gambon e Seamus-Davey Fitzpatrick.
110 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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