Eu Quero Um Cinema Só Pra Mim

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 31/10/2005.

Na minha listinha pessoal de “coisas que preciso fazer antes de morrer”, há coisas bastante interessantes, como: escrever uma HQ totalmente subversiva, lotada de palavrões e com desenhos do Machine Boy; assistir a um show do Simon & Garfunkel, embora eles não toquem mais juntos; trabalhar como assistente de direção de um filme dirigido por David Fincher e estrelado por Naomi Watts e Rachel McAdams; assistir pelo menos um Harry Potter na minha vida (nem que seja pra falar mal – hehehe); e finalmente, claro, roubar toda a fortuna acumulada da santa tríade d’A ARCA, deixando-os na sarjeta junto com todo o mundo nerd, e fugir para a Alemanha na companhia da gloriosa Srta.Ni – e uma vez lá, matá-la e roubar também sua parte, para investir na minha futura carreira de documentarista de bichos selvagens nos confins do Alaska. :-)

Antes que possa colocar todos estes planos de dominação mundial em prática, entretanto, tenho uma prioridade, que é tirar do papel uma de minhas idéias mais ambiciosas – já patenteada, deixo bem claro – e entregar um importante legado à humanidade: o Cinema Unitário (?). Além do fato de nunca exibir filmes do Tom Hanks e/ou da Eliana Fonseca (!), o projeto, também conhecido como “Cinema Individual para Anti-Sociais”, mesmo carregando todas as características de qualquer sala de exibição existente por aí, traz um atrativo extra: nela, é terminantemente proibido o acesso de duas ou mais pessoas ao auditório ao mesmo tempo. Ou seja: somente UM INDIVÍDUO POR VEZ poderá assistir ao filme exibido! Bacana, né não? – favor não confundir com as infames “cabines individuais” presentes nas sex-shops da vida, per favore. :-P

• CINEMA UNITÁRIO: UMA SOLUÇÃO!

Não, não. Não surtei de vez (ainda). Não bolei este projeto por pura insanidade, e sim por uma razão bastante especial: o fato é que está cada vez mais difícil e insuportável ir ao cinema e dividir a sala com o público médio, que ultimamente sofre de um mal terrível chamado falta de SEMANCOL. Convenhamos: de uns tempos pra cá, tornou-se corriqueiro e extremamente aborrecedor ir aos filmes e dar de cara com pessoas inconvenientes que conversam alto, passeiam e falam ao celular durante a projeção. Quem sofre com isto somos nós, cinéfilos e/ou não-cinéfilos que entendem que, para se apreciar uma boa película, é necessário um mínimo de concentração e atenção. O Cinema Unitário seria uma ótima alternativa para acabar de vez com este problema, já que teria apenas uma pessoa na sala: você.

Vejo o problema como um só: o público que bate cartão nas salas de cinema está subdividido em duas categorias. De um lado, vemos o núcleo das pessoas que estão lá porque curtem a sétima arte e/ou porque estão interessados no que será exibido. Do outro lado, encontra-se o núcleo dos espectadores que vêem o lance como um hobby. Enquanto o grupo número um encara a ida aos filmes como um rito quase espiritual, cheio de magia e respeito, o grupo número dois só está lá porque é um programa bacana para se fazer com os amigos quando a grana está curta, com a(o) namorada(o) quando dá aquela vontade de dar uns “fights”, ou com a família naquele domingão à noite, quando as opções de diversão estão escassas. O grupo número dois não está lá por amor ao cinema; logo, não trata a situação com o respeito que nós, cinéfilos e não-cinéfilos interessados, tratamos e queremos que todos tratem. Para resumir: esse povo tá lá pra encher os nossos pobres saquinhos, mesmo!

Intolerante, eu? Quer saber? Com relação a isto, sou mesmo! Para mim, assim como todo e qualquer cinéfilo, ir ao cinema envolve uma atmosfera toda especial. Atitudes como estas dentro de um cinema, que quebram este clima por completo, são típicas de pessoas sem um pingo de educação e que jamais poderiam ser soltas para conviver em sociedade. Pronto, falei! :-/

• IDENTIFIQUE AS RAÇAS!

Pra piorar ainda mais a situação daqueles que só querem um pouquinho de paz e sossego, estas malas ambulantes ainda dividem-se em diversas subcategorias. Tem chato de tudo quanto é tipo, mas com uma única filosofia de vida: torrar nossa paciência. Conheça cada uma das espécies deste núcleo, para que você possa mantê-los longe!

A raça filho de vidraceiro também conhecido como “espelho sem aço” ou “transparente”, é o mané que adora levantar-se no meio da sessão para ir ao banheiro, comprar pipoca e todas aquelas pequenas coisas que deveria ter feito ANTES do início do filme e não fez por alguma razão não esclarecida. Quando você menos espera, lá vem o filho de vidraceiro para atrapalhar sua concentração com o seu indefectível “dá licença?”. Isto quando pede licença, pois este povo costuma mesmo é sair atropelando.

A raça cabeção similar ao filho de vidraceiro, o cabeção é aquele mala que, mesmo com a sala lotada de lugares vazios, senta-se justamente na poltrona à sua frente, instalando seu crânio gigante bem no meio do caminho entre sua visão e as legendas. E não adianta você se ajeitar para tentar enxergar alguma coisa por cima do cabeçudo; o “Fantástico Mundo de Bobby” à sua frente certamente dará um jeito de cobrir sua visão em seguida…

A raça vamos conversar e dane-se o resto um dos núcleos mais incômodos na opinião deste que vos fala é representado pelas turminhas de amigos que acreditam que uma sala de cinema é o melhor lugar para bater papo, gargalhar, tirar sarro dos colegas e soltar piadas infames, e não estão nem um pouco preocupados com aqueles que pagaram ingresso e estão tentando ver a fita em paz. Se alguém reclama, é dor de cabeça na certa – além de ter que agüentá-los, eles ainda usarão o reclamante como alvo da zoeira, como se fossem eles os certos. Geralmente estão entre a pré e a pós-adolescência, e quanto mais numerosos, mais difícil de conter. Afe. Este problema também pode assolar outras faixas etárias, como um casal de namorados na casa dos 20-e-tantos-anos que, na sessão de O Chamado 2 não parava de conversar. O mais legal foi ver o cara, um elemento de 2m x 2m, soltar um histérico e feminino “Olha, é o Ja Rule!” quando viu o trailer de Assalto à 13.ª DP

A raça viu como sou inteligente? é representada por aquele sujeito que, não contente em apenas ver o filme de bico fechado, precisa comentar toda e qualquer cena num volume considerável, para provar ao resto da platéia que entendeu tudo direitinho. Se um homem é atropelado na cena seguinte, o crânio diz “Olha, o homem foi atropelado”. Se um segredo é revelado, ele repete qual é o segredo, para mostrar a quem quiser ouvir que é espertalhão e captou a mensagem do roteiro. E por aí vai… Por sinal, este é um mal que pode assolar até mesmo os mais empolgados dos nerds: quando assisti Star Wars – Episódio III: A Vingança dos Sith, por exemplo, mais da metade dos espectadores eram fãs fervorosos preocupadíssimos em mostrar aos mais leigos o quanto sabiam sobre o universo do titio George Lucas, citando nomes, lugares, situações e referências quase aos gritos assim que cada elemento surgia na tela. Nada contra os fãs, mas haja paciência!

A raça motel é muito caro • é o jovem casalzinho que vai ao cinema com a desculpa de assistir a um filminho, mas está lá apenas para fazer bom uso dos cantinhos escuros para beijos, abraços e coisas mais… er… bem… cê sabe (!). Em sua maioria, não chegam a incomodar tanto. Mas há casos em que os pombinhos empolgam-se, fazem barulho e conseqüentemente tiram a concentração do povo. Tanto mato e tanto cantinho por aí pra dar uns tapas, e olha onde os caras vão se enfiar (literalmente)…

A raça joelho mala, também conhecida como formiga na fureba enquanto o cabeção enche o saco à sua frente, o joelho mala cutuca na sua traseira (hmmmm…). Malícias à parte, o indivíduo que representa esta categoria é totalmente inquieto e não consegue manter-se na mesma posição em sua poltrona por mais de cinco minutos, ajeitando-se de um lado a outro e torrando as burras com o horroroso “barulho de couro”. Geralmente instalam-se bem atrás de você, e conseguem realizar a proeza de passar a sessão inteira cutucando o encosto de sua poltrona com os joelhos ao mudar de posição – isto quando não inventam de querer colocar os pés de gambá para o alto (e ao lado de sua cabeça). Se o joelho mala estiver à sua frente, pode contar que ele acenderá a maldita “luz azul” do seu relógio de pulso a cada cinco minutos, no mínimo.

A raça ceticismo é meu segundo nome em todo filme com elementos de realismo fantástico é batata. Lá está o cético, que a cada cena exclama para todo mundo ouvir: “mentira”! Pois é. Os integrantes deste núcleo não acreditam em nada, e vivem de protestar contra as inverdades disseminadas pelos longas hollywoodianos ou não hollywoodianos, principalmente os de ficção, aventura, ação e fantasia. Um pé no saco ouvir o mala do fundão exclamando o tempo todo: “até parece que isto é verdade”… O curioso é que os gêneros preferidos do cético, aqueles cujas produções o sabichão é sempre o primeiro da fila para conferir, são justamente… ficção, aventura, ação e fantasia. Parece que faz de propósito! :-P

A raça eu sou feliz o indivíduo feliz dá risada de qualquer coisa. Não importa qual seja o gênero: terror, ação, suspense… O meliante ri das coisas mais improváveis. Ele pode estar numa sessão de um clássico do terror como O Exorcista e, na cena mais assustadora, pode contar que o cara cairá na gargalhada. Isto se deve ao fato de achar que tudo é tão falso e tão ridículo que se torna risível. Embora não seja tão escandaloso, incomoda pelo simples fato de acabar com o clima de qualquer um que esteja imerso na história do longa. Imagine aquela cena hipertensa, e o boçal bem atrás de você rindo feito uma hiena… Ironicamente, o feliz costuma ficar sério em filmes de comédia.

A raça herdeiros de Chuck Norris para entender as figuras que integram esta raça “valente”, basta um exemplo: sessão lotada de O Resgate do Soldado Ryan, última seqüência de batalha, e o personagem de Jeremy Davies (o cabo Upham, tradutor que nunca esteve numa guerra e sequer sabia empunhar um rifle) congelado de medo, correndo de um lado a outro. Um elemento, duas fileiras à frente da minha, berrou indignado: “Bunda mole! Eu já tinha matado todos estes malditos alemães na base do soco!”. Ah… ok. O cara só falou isto porque provavelmente nunca esteve num campo de batalha e jamais sentirá o horror da possibilidade de morrer fuzilado a qualquer instante. E matar centenas de alemães armados até os dentes somente com… SOCOS? Praticamente um Steven Seagal da vida. Falô, falô. O pior foi ver a cara da figura ao término do filme: um irmão gêmeo do glorioso Jack Skellington. Olha, eu até gostaria de ver o cara numa situação como a do filme. Ele certamente faria tal qual o pai do Chicken Little: gritaria feito uma menininha.

A raça comprei meu primeiro celular ontem com o advento dos telefones-celulares, quem leva no esfíncter somos nós. Pois não adianta o aviso ao início da sessão: sempre há um JUMENTO que não desliga o aparelho durante o filme e, pra variar, o negócio toca (e é sempre aquela musiquinha “diferente”) e o mané, na maior cara de pau, começa a papear como se estivesse em casa. E mais: os novos aparelhos, totalmente iluminados, cheios de cores e dotados de câmera, fazem a alegria da molecada que resolve gravar vídeos e brincar com o trambolho no meio da sessão. Vontade de mandar o indivíduo pegar o celular e enterrar lá no centro do…

A raça não sei o significado da palavra “censura” compõem esta categoria aqueles que simplesmente ignoram a classificação indicativa das salas e carregam seus pimpolhos para o cinema, independente do que irão assistir – alguns chegam ao cúmulo de levar crianças de colo para ver coisas como O Grito (sim, experiência própria). É realmente animador estar compenetradíssimo numa sessão de uma fita tão adulta e introspectiva como Encontros e Desencontros e ver que um casal trouxe uma criança de 8 anos que, por não entender pilombas do que está rolando, começa a chorar com meia hora de filme e pede aos prantos para ir embora. E o casal NÃO SAI. Bem, este caso é até compreensível. Eu também levaria um filho meu para assistir uma produção qualquer da Sofia Coppola, para aprender desde cedo o que é coisa boa. :-D

A raça Pepe Le Pew, ou simplesmente peidão sim, ele existe! Imagine-se num cinema lotadíssimo. De repente, sobe aquela “fragrância agradável de flores do campo” (!). Protegido pelo anonimato, o ser maldito que pratica a arte da flatulência em salas de exibição não tem dó. Para descobrir quem é, basta gritar bem alto “Tem gente que só deveria sair de casa com um Gleid Sachet grudado na bunda!”. O primeiro que sair de fininho é o culpado.

• DICAS PARA EVITAR CONTATO

Há quem não se incomode tanto assim com qualquer uma destas figuras. Se você decididamente não é uma destas pessoas (como eu), não se desespere. Há como fugir! Veja algumas dicas para driblar os malas-sem-alça e desfrutar de paz no escurinho do cinema:

Saiba escolher seus horários • se você dispõe de tempo, dê preferência à primeiríssima sessão – que geralmente inicia-se às 13 ou 14h. Não é uma regra, mas os espectadores que freqüentam o horário diurno são tranqüilíssimos. Se houver a possibilidade de ir durante a semana, melhor ainda. Outros horários bastante sossegados são os últimos de domingo (já que muitos não gostam de sair do cinema tarde por trabalhar no dia seguinte) e as famigeradas “sessões malditas” (aquelas que começam à meia-noite).

Evite sessões disputadas • por experiência própria, os grandes lançamentos só costumam lotar aos sábados e domingos. Se você está tão ansioso para ver aquele filmão badalado a ponto de morder sua própria testa, vá no dia da estréia mesmo (geralmente sexta-feira). Se não está tão ansioso assim, espere o primeiro final de semana passar. Se aquela superprodução hollywoodiana estrear ao mesmo tempo que aquele drama independente que você também quer ver, prefira sempre a segunda opção.

Cuidado com as pré-estréias para convidados • alguns jornais e revistas têm o costume de distribuir convites para pré-estréias exclusivas para assinantes ou algo do gênero. Pelo amor de Deus, EVITE estas sessões com todas as suas forças, a não ser que você conheça o tipo de público que estará presente. Não houve uma única vez em que estive em projeções assim e não me arrependi: os espectadores, que sequer faziam idéia do que assistiriam, comportavam-se como se nunca tivessem ido ao cinema. Pergunte ao Machine Boy sobre o dia em que o pobre coitado resolveu conferir O Clã das Adagas Voadoras numa pré-estréia assim, e entenderão o que quero dizer.

Escolha locais estratégicos na platéia • enquanto o tipo “motel é muito caro” prefere os cantinhos mais escondidos, a turminha de adolescentes sempre senta no fundão. Um bom lugar para se acomodar e ficar bem longe da zona é o centro da sala, não tão próximo do fundo e não tão perto da tela.

Amigos pra quê? • Se você possui um extenso círculo de amizades que costuma sair com freqüência, evite pegar um cineminha com eles – ao menos quando VOCÊ quiser assistir ao filme. Por mais que todos estejam loucos para conferir a produção a ser exibida, é quase impossível segurar uma turma inteira calada. É por isto que eu nunca vou ao cinema com o pessoal d’A ARCA reunido. Afinal, não quero passar pelo mico de ver o Fanboy emocionado como na sessão de Spawn, o Soldado do Inferno (onde ele soltou um altíssimo “Olha, é a Ângela!”, retrucado com um “cala a boca, nerd!” vindo do fundão da sala).

Não tenha pena de seu dindim • escolher dias promocionais, como quarta-feira (dia em que o preço do ingresso cai quase pela metade em alguns casos), costuma ser sinônimo de dor-de-cabeça. O cinema lota, qualquer um paga entrada, ninguém está nem aí e o circo está armado. Prefira sempre pagar um pouco mais caro. Compensa.

Use o lanterninha • afinal, ele está lá pra isto. O cara pode e deve ser acionado caso aconteça qualquer coisa que possa deturpar a paz dentro da sala. Na ausência do lanterninha, procure o gerente mais próximo. E seja ríspido: exija uma solução imediata ou você nunca mais pisará lá. Dá resultados.

Faça bom uso do “cale a boca” • não é sempre que funciona, mas funciona. Como dita a boa educação, um “shhhhh” ou “poderia desligar o celular, por gentileza” não faz mal a ninguém, e geralmente você só precisa dizer uma vez. Se não funcionar e ainda assim o chatão ou a chatona insistir no blá-blá-blá, não tenha medo de soltar um sonoro e agressivo “CALA ESSA P***A DESSA BOCA, C*****O!” quando alguém começar a narrar a fita. Você está no seu direito de consumidor! :-)

Leve um “Bom Ar” • este é para o caso do “peidão”. Dispensa explicações. :-D

Pois é. Espero realmente que este pequeno desabafo (pequeno?) possa ajudar os cinéfilos-nerds sofredores que já não agüentam mais o martírio que é ir ao cinema e dar de cara com estas malinhas. E se não ajudar, não esquenta: quando inaugurar o meu gloriosíssimo Cinema Unitário, mando um convite pra você. :-)

EU QUERO UM CINEMA SÓ PRA MIM
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 31/10/2005.

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