Quanto Dura o Amor?

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 02/10/2009.

Ninguém pode negar que, independente da qualidade de nossas produções, o cinema nacional está com tudo. Arrisco-me a dizer que esta é provavelmente sua melhor fase. Alguns anos atrás, ninguém diria que as produções brazucas chegariam aos cinemas com tanto gás como chegam hoje: nossos filmes têm espaço garantido nas salas de exibição e competem pau a pau com o melhor do que vem de fora; o número de produções tupiniquins cresce vertiginosamente a cada ano; e não é difícil encontrar vários made in Brazil entre os grandes sucessos de bilheteria – Se Eu Fosse Você 2, por exemplo, fez o absurdo número de mais de 6 milhões de espectadores em sua breve carreira nas telonas e arrecadou mais de R$ 49 milhões em ingressos, tornando-se o longa-metragem nacional mais visto após a Retomada. E olha que nem é filme da Xuxa! Afe. :-D

Isto é bom? Sim… e não. O que acontece é que, ao melhor estilo Hollywood, a arte está dando lugar à indústria, ou seja, mais quantidade e menos qualidade. Com isso, somos obrigados a engolir uma variedade enorme de fitas bem fraquinhas, para não dizer “horrorosas” (!), e é preciso garimpar com muita atenção para encontrar alguma coisa realmente BOA no circuito. Por outro lado, o número excessivo de comediazinhas-descartáveis-qualquer-nota e dramas-pretensiosos-e-vazios está, aos poucos, forçando os profissionais da área a “desbravar outros mares”. Não se espante se, em breve, surgir por aí um “núcleo independente” também em nosso cinema, fazendo uns filmes mutcholocos e virando o conceito de “cinema comercial” de cabeça pra baixo.

Quanto Dura o Amor? (Idem, 2009) traz um pouco destes dois mundos. Este drama intimista dirigido pelo mesmo Roberto Moreira que comandou o controverso Contra Todos em 2004, ganha muitos pontos porque centra seu poder de fogo em um conceito que foge dos estereótipos determinados pelo nosso cinema: o cotidiano da juventude autoproclamada “Geração X”, que cai no mundo em busca de seus sonhos e, muitas vezes, dá com a cara na porta. Como se não bastasse a premissa quase original nas produções de nossa terra, a fita ainda apresenta uma técnica e um acabamento impressionantes, dignas de qualquer grande produção estadunidense.

O grande problema está nas péssimas escolhas do enredo desenvolvido por Moreira e Anna Muylaert (de Durval Discos, um dos melhores longas nacionais dos últimos anos). A idéia central do roteiro, que abre um leque de possibilidades – no caso, uma garota do interior que se muda para a cidade grande para tentar a vida e acaba engolida, humilhada e estraçalhada por ela -, rende-se fácil a um punhado de subtramas bem arrastadas sobre identidade sexual e relacionamentos complicadinhos. E eu, que achei ter finalmente encontrado o primeiro Hora de Voltar tupiniquim, acabei quebrando a cara na primeira meia-hora dos 83 minutos de duração. Melhor ficar com o Hora de Voltar original mesmo, que além de ser fenomenal, tem a Natalie Portman para embelezar nossas vidas. :-P

E olha que o começo disso aqui até engana, viu? Na primeira cena, conhecemos rapidamente o casal de namorados Marina (Silvia Lourenço, do magnífico O Cheiro do Ralo) e Caio (Sergio Guizé), que apresentam Chapeuzinho Vermelho para um grupo de crianças em uma escola da cidade do interior não-identificada onde vivem. Em seguida, Marina pega o carro e deixa o namorado para trás – é que a moça está de mudança para São Paulo, onde dividirá um apartamento com uma amiga de infância de Caio no coração da cidade, em plena esquina da Av. Paulista com a Av. Consolação, e fará um teste para um papel em uma montagem teatral de Tio Vanya, de Tchecov. A despedida do namorado e a estrada ao som de High And Dry, clássica do Radiohead, rende um plano-sequência de créditos de abertura de encher os olhos de lágrimas – cortesia da magistral fotografia de Marcelo Trotta (de O Signo da Cidade).

O caldo começa a entornar quando, já em São Paulo e bem acomodada no apartamento da advogada Suzana (Maria Clara Spinelli), Marina decide explorar a cidade e acaba em uma boate, onde conhece e apaixona-se pela cantora Justine (Danni Carlos), mulher do dono do lugar, Nuno (Paulo Vilhena). Daí para partir para um complicado romance a três é um pulo. Enquanto isso, Suzana começa a sair com um colega de fórum, Gil (Gustavo Machado, do bacana Nome Próprio), mas uma “questão pessoal” ameaça atrapalhar o relacionamento dos dois. E para terminar o grupinho, o escritor Jay (Fábio Herford), vizinho de porta de Marina e Suzana, tenta a todo custo conquistar o grande amor de sua vida, a prostituta Michelle (Leilah Moreno, integrante da banda Altas Horas de Serginho Groisman). Enfim, três personagens que aprenderão na marra o quão difícil é esse lance de inter-relacionamentos.

Boa história? Mais ou menos. A idéia, sim, é boa. Já o desenvolvimento… O que acontece é que a promissora meia-hora inicial de Quanto Dura o Amor? lapida o espectador para uma espécie de história, e em seguida entrega OUTRA história, bem diferente daquilo que se propôs a entregar. Explico: quando Marina chega ao apartamento de Suzana, esta impõe imediatamente as “regras” da casa, o que dá a idéia de que, mais cedo ou mais tarde, as duas personagens entrarão em conflito – conflito este que nunca acontece… e quando Marina conhece Jay, imaginamos que estas personagens serão cruciais uma para a outra no decorrer da projeção, só que elas nunca mais se encontram…

Aliás, a subtrama focada em Jay é bem fraquinha, tanto pela absoluta falta de empatia pelo personagem muito mal interpretado por Fábio Herford quanto pela banalidade da história. Não à toa, sequer existe um final para o sujeito, ele simplesmente some e pronto! Não que sintamos sua falta, mas seria bom pelo menos dar um sinal do que pode ter acontecido… Quando o foco é Suzana e Gil, entretanto, o negócio vai longe, graças sobretudo ao ótimo desempenho da novata Maria Clara Spinelli, mais conhecida como a irmã-gêmea-separada-no-nascimento da Paula Lavigne (!). A atriz rouba todas as cenas e, embora o “elemento chave” de sua trama seja meio desnecessário, o entrosamento destes dois atores e a sinceridade imposta por Maria Clara em seu papel nos fazem esquecer de qualquer falha.

Já na história central, o buraco é bem mais embaixo. Embora a atuação de Silvia Lourenço seja bastante crível, o mesmo não se pode dizer do casal interpretado por Paulo Vilhena e Danni “A Fazenda” Carlos. Enquanto Vilhena não se esforça nem um pouco para fugir de sua atuaçãozinha-de-novela-da-Globo que conhecemos tão bem, Danni Carlos prova com sua Justine que, como cantora e atriz, é uma ótima participante de reality show (?). Sério, ela é muito ruim! Danni não consegue transparecer em momento algum o aspecto exótico e sedutor que sua personagem deveria ter, seus diálogos são ditos com a emoção de uma Super Vicky (!) e, nas seqüências em que canta, dá umas boas desafinadas. Se o Thom Yorke ouve o cover da moça para High And Dry, ele seria capaz de vir ao Brasil a pé só pra tomar os direitos autorais da música de volta! :-P O pior é que ela costumava cantar bem, o que será que aconteceu?

Bem, com tantos pontos positivos e negativos expostos aqui, você deve se perguntar: afinal, Quanto Dura o Amor? é bom ou é ruim? Respondo: é uma rua de duas mãos. Tecnicamente falando, é um dos melhores longas nacionais dos últimos anos, sem dúvidas. É bem montado e muito bem fotografado – São Paulo está mais linda e encantadora do que nunca. É possível perceber a cada fotograma a intenção do diretor Roberto Moreira em nadar contra a corrente e entregar um trabalho que fuja do que já é padrão no cinema brasileiro, e isto é ótimo. Infelizmente, o desenrolar de seu projeto enquanto história não fez jus à esta intenção, e se a fita não é ruim a ponto de fazer qualquer um querer tentar contra sua própria vida (?), também deixa no ar certa frustração por ter iniciado de forma tão cativante e não ter mantido este padrão de qualidade até sua (maravilhosa) cena final. De qualquer forma, Roberto Moreira já é, para mim, um nome a se guardar com carinho.

Vejamos pelo lado bom: pelo menos não é com a Xuxa. :-P

QUANTO DURA O AMOR? • BRA • 2009
Direção de Roberto Moreira • Roteiro de Roberto Moreira e Anna Muylaert
Elenco: Silvia Lourenço, Danni Carlos, Paulo Vilhena, Maria Clara Spinelli, Gustavo Machado, Fábio Herford, Leilah Moreno.
83 min. • Distribuição: Pandora Filmes.

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