Herbie: Meu Fusca Turbinado

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 14/07/2005.

Olha, não pensei que viveria para ver o simpático Herbie dando as caras nos cinemas novamente. Quer dizer, nem poderia dizer “novamente”, pois não desci neste planeta a tempo de conferir qualquer um dos longas protagonizados pelo simpático fusquinha dotado de personalidade na tela grande. Aqueles que, assim como eu, foram crianças e/ou pré-adolescentes felizes na saudosa década de 80, com certeza se lembrarão das piradas e inocentes aventuras do Volkswagen Bug 1963 exibidas na TV, que estreou nas telonas em 1968 (Se Meu Fusca Falasse), atravessou os anos 70 (As Novas Aventuras do Fusca, Um Fusca Enamorado) e estacionou pelo México nos idos de 1980 (A Última Cruzada do Fusca). Herbie chegou a ganhar um obscuro remake em 1997, exibido somente na TV americana e dificílimo de achar. Nada que possa ser levado em consideração, diga-se de passagem.

Enfim, de fato não pensei que a falta de idéias em Hollywood chegaria ao estágio de os executivos pensarem em ressuscitar até mesmo o pobre coitado do Herbie. E eis que esta falta de criatividade nos presenteia, 36 anos depois de sua estréia nos cinemas, com uma “quase” refilmagem do primeiro filme: Herbie: Meu Fusca Turbinado (Herbie: Fully Loaded, 2005). Obviamente, se você é alguém que não teve a oportunidade de conhecer o 53 na telona mas vibrou com suas aventuras na saudosa era de ouro da Sessão da Tarde, como eu, certamente reconhecerá neste novo trabalho toda a espinha dorsal do Herbie das antigas. E não se importará com mais nada além disso.

Na seqüência de abertura, conhecemos o destino trágico do fusquinha depois de suas peripécias nos outros longas: um ferro-velho. Herbie parou lá, pois não consegue mais vencer corridas. A “nova casa” de Herbie é visitada pela jovem Maggie Peyton (Lindsay Lohan, Sexta-Feira Muito Louca), filha do ex-piloto da NASCAR Ray Peyton (Michael Keaton, Vozes do Além). Maggie adora pilotar, mas seu pai é contra esta prática, preferindo despachá-la para a faculdade e deixando a parte divertida com o irmão desta, Ray Jr. (Breckin Meyer, Garfield), um completo “braço” – não à toa, seu apelido entre os colegas de equipe é Ray Roda Presa… Voltando, Maggie vai ao ferro-velho à procura de um carro-esporte (!) e acaba ficando com o fusquinha (!!) pela bagatela de US$ 75 (!!!).

Como forma de gratidão, Herbie revela seus “dons” para Maggie, transformando-os numa dupla inseparável. Olha, eu nem imaginava que seria assim. :-P

O resto do filme é previsível: Maggie, louca para correr na NASCAR, contará com a ajuda do simpático Volkswagen e também do mecânico Kevin (Justin Long, Com a Bola Toda), que acumula as duas únicas funções de modernizar o visual do carrinho (sim, ele está quase tunado) e servir de interesse romântico para a garota; uma vez lá, Maggie encontrará o maior obstáculo da sua vida no vilão Trip Murphy (Matt Dillon, Vida de Solteiro), o ultra-campeão com o ego do tamanho do mundo, que é tomado pela raiva após perder uma corrida de rua para o fusca, então pilotado por um corredor misterioso chamado Maxx, e busca vingança a qualquer custo; e por aí vai…

Bem, a história é visivelmente uma releitura do primeiro Herbie, com certas alterações, claro. E talvez aí esteja o seu maior problema: na singela e humilde visão deste que vos fala, Herbie não é um personagem com carisma suficiente para segurar a criançada acostumada aos heróis imperfeitos e tramas-infantis-cabeça de hoje em dia. Sinceramente, não há nenhuma outra razão para o ressurgimento de Herbie nos cinemas a não ser mesmo a problemática ausência de idéias originais. Então, foi só ressuscitar um personagem bacana (e rentável) do passado, dar uma nova roupagem, contratar um diretor em ascensão – no caso, Angela Robinson, do chatíssimo D.E.B.S. -, acrescentar meia-dúzia de co-personagens descartávies e pronto!

Só que Herbie acaba tornando-se uma produção assistível apenas por causa do carrinho. A produção é tão descompromissada, tão despretensiosa, que mostra-se relaxada. Relaxada no roteiro (escrito a OITO MÃOS, surpreendentemente) e relaxada nas interpretações – o elenco não está nem aí, a ídolo teen e junkie nas horas vagas Lindsay Lohan é a mesma gostosa-porém-porta de sempre, e os canastrões Michael Keaton e Matt Dillon (que como o vilão, só sabe fazer “boquinha sexy”) recitam seus diálogos com a mesma “competência” de sempre mas só estão se divertindo por filmar na NASCAR. Até mesmo as peripécias do 53 não chegam a ser tão empolgantes assim – e o uso horroroso de CGI numa seqüência em que Herbie “faz careta” para Trip Murphy é lamentável! Vixe, aquilo conseguiu ser pior do que os “maravilhosos” efeitos de Van Helsing… :-P

Entretanto, Herbie: Meu Fusca Turbinado conta com algumas sacadinhas. A trilha sonora altamente anos 80 (Van Halen? Yeah!) e momentos bem sacados – como a paixão de Herbie por um New Beetle ao som de Hello, a “crássica” do Lionel Ritchie – divertem sem maiores problemas; e as muitas gargalhadas da molecadinha na sala de projeção em que assisti o filme comprovam que, mesmo com todas as falhas, os produtos da Disney ainda funcionam quando são vistos da maneira que devem ser: um diversão rasteira para as crianças, que finalmente têm oportunidade de conhecer um dos ícones dos tempos de infância de seus pais. Nisso, Herbie é altamente bem-sucedido, embora não chegue a justificar o dinheiro gasto no ingresso. Melhor esperar pra ver em DVD. :-)

Mas devo confessar: durante aquela uma hora e meia em que estava na sala de cinema, não pude evitar adorar este filme. Quando as luzes apagaram e os créditos de abertura, feito de colagem de cenas dos longas antigos, revelaram um majestoso e engraçadíssimo Herbie pulando, correndo e fazendo graça, voltei imediatamente aos tempos de Sessão da Tarde, quando sonhava em ter um fusquinha branco com o indefectível número 53 em seu capô, de preferência com a mesma personalidade doentia do astro. E a coisa torna-se muito mais prazerosa quando sabe-se que tempos assim não voltam mais. Infelizmente, não será diferente com Herbie.

CURIOSIDADES:

• Um dos vários modelos de Fusca utilizados em Herbie: Meu Fusca Turbinado é nada menos do que o carro original do primeiro filme, Se Meu Fusca Falasse. O proprietário atual do conceituado veículo é um morador de Ohio, um colecionador que também cedeu para as filmagens o modelo Volkswagen Bug 63 com teto-solar.

• Muitas das cenas rodadas na California Speedway aconteceram durante a Target House 300 e a Pop Secret 500, duas modalidades da NASCAR.

• Alguns dos carros utilizados na seqüência da corrida de demolição também vieram de Se Meu Fusca Falasse.

HERBIE: FULLY LOADED • EUA • 2005
Direção de Angela Robinson • Roteiro de Thomas Lennon, Robert Ben Garant, Alfred Gough e Miles Millar
Inspirado no personagem criado por Gordon Buford
Elenco: Lindsay Lohan, Michael Keaton, Matt Dillon, Breckin Meyer, Justin Long, Cheryl Hines, Jimmi Simpson, Jill Ritchie.
101 min. • Distribuição: Walt Disney Pictures/Buena Vista International.

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