Dois Filhos de Francisco

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/08/2005.

Enquanto isso, na casa do Zarko…
Mãe do Zarko: Vai sair, filho?
Zarko: Vou ao cinema. Assistirei “Dois Filhos de Francisco”.
Mãe do Zarko: * engasga *

Não há um nerd brazuca que não tenha sentido um arrepio macabro quando estourou a primeira notícia sobre Dois Filhos de Francisco (Idem, 2005). Não preciso nem dizer o motivo, certo? Se alguém aí ainda não sabe, então vamos lá: esta nova produção tupiniquim é nada mais nada menos que a tão subestimada e supostamente aterradora cinebiografia dos “ídolos” nacionais Zezé Di Camargo & Luciano. Sim, a bizarra dupla sertaneja do comercial da loja de móveis. Pois bem, todo mundo aí ficou com medo (e não adianta dizer que não!). Principalmente este que vos fala, que, iluminado por um dom profético e divino, deduziu na mesma hora: “Pronto, agora ferrou, a história da vida de Zezé Di Camargo & Luciano é um pretenso filme ruim e EU serei o cobaia”.

Não é difícil entender o sentimento de horror que se instaurou no pobre coração deste ser chamado Zarko (sim, eu tenho um coração!). Afinal, não sou exatamente aquilo que pode-se dizer “fã” da dupla, embora tenha um enorme respeito por todos aqueles que gostam – até mesmo pelo meu vizinho que insiste em ouvir “Dou a vida por um beijo” às nove da manhã de domingo no volume máximo. Na verdade, dizer que não sou fã é modéstia, pois sinto uma vontade danada de enfiar um cabo de vassoura no ouvido e destruir meus tímpanos quando ouço uma música qualquer deles. Como vocês podem ver, a pessoa certa para conferir a película. :-P

Como se este único motivo não bastasse, ainda há a recente banalização do cinema nacional, dominado por pérolas como os filmes protagonizados por músicos, modelos, apresentadores e afins. Quando você sabe que a mais recente produção made in Brazil produzida pela Globo Filmes reconta a trajetória de dois ídolos da atual música pop verde-e-amarela, é impossível evitar a associação ao “material” cinematográfico já fornecido pelas nossos amigos Xuxa, Didi Mocó, Padre Marcelo e similares. Pois é, os brasileiros têm mania de jogar no cinema qualquer troço que faça sucesso na TV e na música – já fizeram isto até com a Carla Perez e seu horroroso Cinderela Baiana (pausa para o sinal da cruz), então só faltavam os dois! Imaginem só se os caras resolvem contar nos cinemas a carreira da “Barbie Girl” do mundo bizarro, a Kelly Key? Deus, perdoe os nossos pecados e nos livre disto.

Enquanto isso, na bilheteria do cinema…
Zarko (com uma camiseta dos Ramones): Um ingresso para “Dois Filhos de Francisco”, por favor.
Bilheteiro: Ahn… Er…
Zarko: Sim, eu sei. Por favor, não fale nada.

Por mais incrível, estranho, surpreendente e milagroso que possa parecer, Dois Filhos de Francisco é mesmo o excelente filme que a imprensa anda divulgando por aí – e este é o momento em que você, usuário, pensa: “Coitado do Zarko, eu sabia que tanta coisa tosca traria danos à massa encefálica deste infeliz” (!). Voltando: o trabalho, estréia do cinematógrafo Breno Silveira na direção de longas-metragens, contraria todas as (péssimas) expectativas e revela ser, até o momento, a melhor experiência brazuca do ano nas telonas. E não, eu não preciso urgentemente de um médico! :-)

O que acontece é o seguinte: como era de se esperar, Dois Filhos de Francisco foi recebido com um pé atrás por boa parte do público, preocupado por imaginar que o filme poderia ser apenas um enorme exercício de “massagem de ego” em forma de videoclip. O que não é o caso. Tanto que o foco do ótimo roteiro não é em cima da dupla, e sim de seu pai, Francisco Camargo, defendido com surpreendente garra e dedicação por Ângelo Antônio (provavelmente no papel de sua vida). Quem espera encontrar um “filme dos Beatles” protagonizado pelos irmãos cantores, cheio de canções mela-cueca, tipo aquele filminho velho chamado Menino da Porteira (com Sérgio Reis, lembra desse?), corre o risco de quebrar a cara.

O que o espectador encontrará aqui é apenas a sofrida luta de um homem para tentar dar uma vida melhor a seus filhos, que mistura-se de uma forma inesperada à história das tantas famílias paupérrimas que mal podem comer, o que dirá batalhar por seus sonhos. E para completar, dá um apanhado, mesmo que de leve, da situação do Brasil em termos políticos e sociais. Pois é, pois é, pois é! :-)

Se este motivo é pouco para justificar a produção de um filme, podemos incluir também a impressionante trajetória dos músicos até alcançar a fama. A infância e juventude de Zezé Di Camargo é bastante rica em detalhes cinematográficos, cheia de miséria, tristeza, morte e momentos marcantes. Pouco importa se estamos falando de Zezé Di Camargo & Luciano, e importa menos ainda se você curte a música deles ou não; o que conta mesmo é que os caras batalharam, passaram por poucas e boas e comeram o pão que o tinhoso amassou para chegar onde estão agora. De qualquer maneira, é uma senhora lição de vida que poderia ser protagonizada por qualquer um, seja roqueiro, seja forrozeiro, seja dupla sertaneja. E vou dizer uma coisa: embora meu cérebro esteja programado para reter qualquer canção do gênero que consagrou as figuras, Dois Filhos de Francisco aumentou, e muito, meu respeito pelo trabalho dos indivíduos.

Dias atrás, na central d’A ARCA…
Fanboy: Srta.Ni, temos dois filmes para resenhar. Escolha um deles.
Srta.Ni: Quais são as opções?
Fanboy: Um deles é “A Chave Mestra”.
Srta.Ni: O novo da Kate Hudson? Nhé. Não, obrigada. Não gosto dela.
Fanboy: A outra opção é “Dois Filhos de Francisco”.
Srta.Ni: Qual o horário do filme da Kate Hudson?

Respeito, aliás, era o último sentimento que Francisco despertava nas pessoas à sua volta: lavrador humilde do interior de Goiás e pai de nove crianças, o homem, apaixonado por música, vê nos dois filhos mais velhos, Mirosmar (Dablio Moreira) e Emival (Marcos Henrique), um enorme potencial para cantar, algo que pode render para a família um futuro melhor que o seu. Batendo de frente com sua esposa, Helena (Dira Paes), Francisco usa a colheita das terras de seu sogro (Lima Duarte) para investir na carreira dos meninos, comprando-lhes um violão e um acordeon e forçando-os a submeter-se a uma rígida e quase auto-didata educação musical. A rotina de Mirosmar e Emival incluía até uma bizarra dieta à base de ovos crus (!). Olha, se fosse eu no lugar destes garotos, já teria desistido só nessa parte do ovo. Perseverança decididamente não é pra qualquer um. :-P

Assim, Dois Filhos de Francisco acompanha a suada trajetória da família Camargo e de seus dois ilustres membros: os meninos adotam a alcunha de Camargo e Camarguinho e iniciam uma razoavelmente bem-sucedida carreira pelos vilarejos das redondezas, até que o clã é obrigado a devolver as terras do pai de Helena e aproveita-se disto para mudar-se para Goiânia, onde vivem em condições subhumanas num barraco caindo aos pedaços; para colocar comida em casa, já que o emprego de Francisco não anda adiantando muito, Camargo e Camarguinho decidem cantar e passar o chapéu na rodoviária, onde são abordados pelo empresário dúbio e picareta Miranda (José Dumont), que desaparece com os garotos por 3 meses e, mais tarde, causa inconscientemente uma tragédia que transforma-se no momento mais dramático da história dos caras e também do filme.

Em seguida, o enredo do longa percorre a ida do jovem Mirosmar (Márcio Kieling) para São Paulo, seu casamento com a tímida Zilú (Paloma Duarte) e as primeiras tentativas frustradas de fazer sucesso em carreira solo, já como Zezé Di Camargo, culminando na formação com seu irmão mais novo, Welson (Thiago Mendonça), mais tarde Luciano, e no nascimento daquele que talvez seja o maior sucesso dos dois, “É o Amor”.

Enquanto isso, no banheiro do cinema…
Zarko (no celular): Pichuebas, e agora? Me ajuda, cara!
R.Pichuebas: Onde você está?
Zarko: Escondido no banheiro do cinema. Estou gostando da fita!
R.Pichuebas: Que fita?
Zarko: “Dois Filhos de Francisco”.
R.Pichuebas: Nunca mais me ligue e esqueça que eu existo.
Zarko: Mas espere um pouq–
R.Pichuebas: * tu-tu-tu-tu… *

Um dos grandes trunfos de Dois Filhos de Francisco é o seu acertadíssimo elenco, do qual destacam-se Dira Paes, cuja tristeza e humildade em nada lembram sua hilária Solineuza do seriado global A Diarista; o próprio Ângelo Antônio, numa interpretação digna de qualquer prêmio de ator; e o excelente Thiago Mendonça, que rouba a cena como o impagável Welson, apagando totalmente a atuação meio devagar (mas não ruim) de Márcio Kieling, ex-Malhação (só podia ser). Incrível como os dois estão idênticos ao Zezé e ao Luciano! Praticamente irmãos gêmeos separados no nascimento. O trabalho dos atores nunca cai na enjoativa estética teatral que assola 9 entre 10 filmes brasileiros. Se o seu medo é ter que agüentar mais uma “novela no cinema” a la Olga, não se preocupe. Que humilhação, hein tio Monjardim? :-P

A trama também conta com uma série de seqüências particularmente inspiradas. É impressionante como o diretor utilizou de expressões e atos minúsculos para fazer com que seus atores demonstrassem muito: quando Zezé e Zilú se conhecem, por exemplo, nota-se que é algo muito forte somente pela respiração levemente ofegante de Paloma Duarte. Momentos como este, de pequenos detalhes, constróem diversos significados e emocionam qualquer um.

Obviamente, de nada adiantaria um bom elenco se não fosse o impressionante roteiro, desenvolvido a quatro mãos pela jornalista Patrícia Andrade e a documentarista Carolina Kotscho – cheio de diálogos bem-escritos, situações anos-luz do “padrão Globo” e com total ausência de exageros dramáticos -, além da sensível direção de Breno Silveira. O que torna Dois Filhos de Francisco tão singular nesta última safra de fitas nacionais é o carinho e o respeito que os realizadores imprimem à sua história. A trajetória de Francisco e seus dois filhos nunca é estereotipada ou banalizada, embora seja a mesma história de milhares de famílias pobres e sem perspectivas espalhadas pelo Brasil. Torna-se praticamente impossível não comover-se com a vida de esforços, sonhos e tragédias dos Camargo. Se mesmo depois deste texto, você ainda está com um pé atrás, não tenha medo. Vá numa boa.

Olha, quem me dera se as produções de nosso país seguissem o padrão deste aqui. Seria bom que certos cineastas tupiniquins conferissem este trabalho, para entender que um bom cinema não se faz com piadinhas ofensivas e/ou toneladas de pretensão. Engraçado como Olga, por exemplo, precisou suar a camisa para tentar causar a mesma sensação que o personagem de Ângelo Antônio brincando com uma lâmpada conseguiu em um minuto.

DEUS, EU NÃO ACREDITO! ESTE FILME É BOM! Não podia! Tinha que ser ruim! Parecia ser muito ruim! Não podia ser bom! Não podia ser o melhor nacional do ano! Ok, eu gostei mesmo. E admito que, a partir de agora, tentarei evitar criar expectativas boas ou más, pois posso quebrar a fuça. Não, não virei fã dos caras e não vou sair comprando a discografia dos elementos. Mas confesso que, depois de assistir ao filme, ouvir as músicas de Zezé Di Camargo & Luciano não doem mais como antes. Fica tolerável, até. Mas isto não significa que eu enfrente de bom grado uma suposta cinebiografia da Kelly Key, viu? Aí já é exigir demais da minha sanidade. :-)

Enquanto isso, na saída do cinema…
Criança (apontando para Zarko): Mamãe, mamãe!
Mãe: O que foi, filho?
Criança: Por que aquele moço tá chorando?
Mãe: Porque ele saiu do cinema. Deve ter visto um filme muito triste.
Criança: Ah, tá… Mas mamãe, mamãe!
Mãe: O que é?
Criança: E por que o céu tá vermelho e milhares de bolas de fogo estão caindo em direção à Terra?

DOIS FILHOS DE FRANCISCO • BRA • 2005
Direção de Breno Silveira • Roteiro de Patrícia Andrade e Carolina Kotscho
Elenco: Ângelo Antônio, Dira Paes, Márcio Kieling, Thiago Mendonça, Paloma Duarte, Dablio Moreira, Marcos Henrique, Lima Duarte, Natália Lage, José Dumont, Jackson Antunes, Maria Flor, Pedro e Thiago, Zezé Di Camargo & Luciano.
132 min. • Distribuição: Globo Filmes.

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One Response to Dois Filhos de Francisco

  1. Diego Ferreira da Silva disse:

    Há alguns anos, quando o site A Arca ainda estava no ar, fuçando em criticas antigas escritas pelo Zarko achei esta critica.
    Sem sombra de duvida, é a melhor critica de filme que já li, e foi ela que me fez perder o preconceito e assistir a este belo filme.
    Parabens Karko e por favor, se vc ainda escreve hj em dia, me diga onde para que eu possa acompanhar seu trabalho.
    um abraço

    Diego

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