Dia do Rock: o Rock no Cinema

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/07/2005.

No princípio, era o silêncio. Depois, veio o som. Em seguida, o cinema. Então, o som no cinema. Conseqüentemente, vieram os musicais. Logo depois, veio o rock. E então, veio o rock no cinema! :-D

Pois é, desde o momento em que o saudoso-ou-talvez-abduzido-por-ETs Elvis Presley deu um novo significado ao termo rock n’roll com sua voz macia e seu jeito todo particular de se “contorcer” – já que, até então, o gênero musical era apenas uma subdivisão do blues, marginalizado e denominado pela sociedade com a pejorativa nomenclatura de “músicas de negros” -, a indústria cinematográfica explora este rentável filão. Hoje, o rock está presente em pelo menos 80% das produções hollywoodianas e independentes, seja na exclusiva forma de trilha sonora, seja como parte fundamental da história.

E é justamente sobre isso que falaremos aqui! Aproveitando o embalo do Dia Mundial do Rock, que é comemorado nesta próxima quarta-feira, 13/07, nós aqui d’A ARCA elaboramos um guia bacaníssimo de 11 ótimos longas-metragens, alguns até meio desconhecidos, cujo centro nervoso é exatamente o mais popular de todos os gêneros musicais, o bom e velho rock n’roll, em todas as suas formas, cores, pesos e tamanhos! Tem pra todo mundo! :-D Ah, e antes que alguém pergunte… não, A Cinderela Baiana, aquele troço asqueroso estrelado pela Carla Perez e seu ex-príncipe encantado, o Alexandre Pires, não está na lista. Eu me recuso a assistir aquilo de novo! Sim, eu já vi. Tenham muita pena deste ser caído em desgraça… :-P

• THE ROCKY HORROR PICTURE SHOW (1975)

O enredo: O casal Brad (Barry Bostwick) e Janet (Susan Sarandon) vê a comemoração de seu recente noivado ir por água abaixo quando, durante uma viagem, um pneu fura. Ilhados numa estrada medonha durante a madrugada, e em plena tempestade, Brad e Janet resolvem pedir ajuda na primeira casa que encontram: uma sinistra mansão. O que começou como um aterrorizante longa de horror, toma ares de musical surreal com a entrada em cena do dono do castelo, o esquisitaço Frank N. Furter (Tim Curry, provavelmente no papel de sua vida), nativo do planeta Transexual. O louco tenta dar vida à sua mais nova criação: um rapazola de nome Rocky Horror, cuja principal função será servir de escravo sexual do afetadíssimo Frank N. Furter (!).

Veja no volume máximo: O mitológico The Rocky Horror Picture Show, dirigido por Jim Sharman, é simplesmente o musical camp mais visto desde sua estréia, em 1975. A fita, inspirada no espetáculo de Richard O’Brien, já arrecadou mais de US$ 150 milhões só nos EUA, e mantém-se em cartaz até hoje em alguns cineminhas de arte por lá. O musical também disseminou de vez a cultura dos cosplays e inaugurou a mania das “sessões malditas”, cujo início se tem à meia-noite em ponto e geralmente são concebidas com elementos da película a ser exibida, de modo que o espectador se sinta como parte do filme. Há muito, mas muito a se falar sobre esta jóia do cinema B, mas paro por aqui, já que The Rocky Horror Picture Show merece um artigo à parte. Mas… o que está fazendo aqui, nesta lista de fitas sobre rock? Bem, o filme é uma homenagem descarada às sci-fis dos anos 50, com muito glam-rock! Quer motivo melhor? :-D

Ouça com urgência: A clássica “Science Fiction Double Feature”, tema de abertura que contém referências à pelo menos 10 filmes de ficção-científica, e a contagiante “Sweet Transvestite”.

• TOMMY (1975)

O enredo: Quando criança, Tommy Walker presenciou o assassinato do pai, um piloto veterano da 2.ª Guerra, pelas mãos de sua própria mãe (Ann-Margret) e do amante desta (Oliver Reed). O acontecimento causa um distúrbio psicológico em Tommy, deixando-lhe cego, surdo e mudo. Mais tarde, o rapaz, já crescido e vivido agora por Roger Daltrey, torna-se um brilhante campeão de fliperama. Aos poucos, ganha popularidade e ares de ídolo pop. A coisa perde o controle quando ele descobre ser seguido por uma legião de jovens, que acreditam cegamente que Tommy é uma espécie de “novo messias”. Cortesia da oportunista mãe, que fundou um culto em adoração ao sujeito…

Veja no volume máximo: trata-se da primeira Ópera-Rock adaptada para o cinema com sucesso. Para quem não sabe, o termo “Ópera-Rock” vem dos álbuns pop cujas canções, unidas, compõem uma única história. E claro que melhora muito quando sabemos que esta Ópera-Rock é composta por ninguém menos que Roger Daltrey e Pete Townsend, os homens-fortes do The Who! Tommy, dirigido por Ken Russell (Viagens Alucinantes), surgiu do lendário álbum de 1969 e tornou-se uma febre à época de seu lançamento, e boa parte deste sucesso se deve às participações especiais de músicos consagrados como Eric Clapton (como o pastor de um culto adorador a Marilyn Monroe), Elton John (como um rival de Daltrey no fliperama) e Tina Turner (estreando no cinema como a famigerada Rainha do Ácido, papel que seria originalmente de David Bowie). Alguns o acusam de ter envelhecido, mas a verdade é que Tommy ainda é um retrato bem-feito do psicodelismo e da adoração cega típicas dos anos 70. Obrigatório para os fãs de rock.

Ouça com urgência: “Acid Queen”, a bacana “See Me Feel Me”, e claro, a clássica “Pinball Wizard” (na voz de Elton John).

• SPINAL TAP (This Is Spinal Tap, 1984)

O enredo: O documentarista Marty DiBergi (Rob Reiner, também diretor do filme) pretende realizar um documentário sobre a cultuadíssima banda inglesa de heavy metal Spinal Tap, composta pelos malucos David St. Hubbins (Michael McKean), Nigel Tufnel (Christopher Guest) e Derek Smalls (Harry Shearer). Os músicos do Spinal Tap são considerados os melhores do mundo, e depois de 17 anos, preparam-se para retornar triunfantes aos Estados Unidos para um turnê. O que ninguém sabe é que o Spinal Tap está cada vez menos popular, e bem próximo de seu fim. O que era pra ser um simples documentário sobre um grupo de rock, transforma-se numa bizarra sucessão de desastres…

Veja no volume máximo: Se não é o melhor filme sobre rock, Spinal Tap com certeza é o mais divertido. Esta mistura de comédia de erros com fake-doc (falso documentário) idealizada por Rob Reiner (Harry & Sally, Feitos Um Para o Outro) foi tão bem-sucedida nos EUA que os atores chegaram a realizar alguns concertos. E lotados, diga-se de passagem! O fato é que, sem querer, Spinal Tap é um dos longas mais despojados e fiéis ao universo do rock, sem o falso glamour e a inocência de fitas como Quase Famosos (que eu adoro, mas não entrará nesta lista justamente por este motivo) e recheada de cenas antológicas, como a clássica seqüência da tarde de autógrafos, em que nenhum fã aparece… Filme muito do bacana, e não à toa, um dos maiores fãs declarados do Spinal Tap atende pelo nome de Bart Simpson. Motivo de orgulho, não?

Ouça com urgência: “Hell Hole”, “Rock and Roll Creation” e, óbvio, a hilária “Christmas With The Devil”!

• OS COMMITMENTS: LOUCOS PELA FAMA (The Commitments, 1991)

O enredo: Embora com sérios problemas financeiros e nenhum apoio, três amigos irlandeses iniciam o processo de organização e estruturação de uma banda de soul rock, a partir do ponto de vista de um deles, Jimmy Rabbitte (Robert Arkins), o mais empolgado dos três. Assim, surge o The Commitments, grupo formado por doze integrantes, cada um com seus sonhos e esperanças, que aos poucos começa a fazer sucesso. Junto com a consagração, porém, vem a crise, o que pode acelerar o processo de decomposição e morte dos Commitments.

Veja no volume máximo: Os Commitments é considerado pela crítica especializada um dos pontos máximos na carreira do inglês Alan Parker (Evita). E isto não é pouco coisa, já que estamos falando simplesmente do homem que deu imagens ao bizarríssimo The Wall, do Pink Floyd (que é o maior legal, mas não falarei aqui por ser arroz-de-festa). Mesmo não tendo sido um grande sucesso financeiramente falando – nos EUA, arrecadou US$ 15 milhões na época -, Os Commitments logo tornou-se cult, assim como a própria banda-título fictícia. Só para se ter uma idéia, o álbum da trilha sonora do longa vendeu mais de 15 milhões de cópias! Tanto que os músicos, todos atores não-profissionais, decidiram manter a formação por mais algum tempo, mesmo com o término das filmagens. Infelizmente, foi pouco visto no Brasil. Vale a pena correr atrás de uma cópia para conferir este pequeno grande filme.

Ouça com urgência: “Mr. Pitful” e “Try a Little Tenderness”, interpretadas pelo líder dos Commitments e hoje cantor-solo Andrew Strong.

• THE DOORS (1991)

O enredo: Trata-se da cinebiografia de um das bandas mais importantes de todos os tempos, pelo ponto de vista do vocalista e líder, Jim Morrison (Val Kilmer, perfeito no papel). O espectador acompanha a conturbada trajetória de Morrison, desde seu destaque na Universidade de Cinema da Califórnia, onde conhece sua primeira esposa, Pamela Courson (Meg Ryan), até a ascensão, os dias de glória, a violenta passagem pelas drogas, o envolvimento dramático com a segunda mulher, Patricia (Kathleen Quinlan), e o declínio físico à frente dos Doors, culminando em sua misteriosa morte, em Paris, 1971.

Veja no volume máximo: Para muitos fãs, este é o último grande trabalho de Oliver Stone – não desmerecendo o controverso Alexandre, que até acho legal, mas nada muito além disso. A real é que o estilo anárquico e conspiratório de Stone coube muito bem à história de Jim Morrison, transformando The Doors num filme cruel, difícil e bastante tortuoso, o que não tira sua genialidade e seu lirismo. E só por ter realizado a façanha milagrosa de arrancar uma grande interpretação de ninguém menos que Val Kilmer (que aliás, é praticamente uma cópia xerox de Morrison), Stone já merecia dez Oscars! Bacana também para conhecer algumas das particularidades deste gênio da música sessentista, como por exemplo cantar de costas para a platéia, e a tal história do espírito indígena que o vocalista dizia acompanhá-lo – e que seria supostamente o responsável pela sua alma. The Doors ainda não ganhou um tratamento no disquinho, mas eu tenho fé! :-)

Ouça com urgência: “Riders on the Storm” (claro!), a deliciosa “When The Music’s Over” e a aterradora “The Severed Garden”. É só eu ou mais alguém aí adora esta música, mas tem medo dela?

• VIDA DE SOLTEIRO (Singles, 1992)

O enredo: Linda (Kyra Sedgwick) já cansou de se meter em enrascadas por se envolver amorosamente com os caras errados, mas ainda assim decide arriscar todas as suas fichas com Steve (Campbell Scott). Este, por sua vez, só quer saber de encontrar sua cara-metade, e parece que realmente encontrou em Linda. Enquanto isso, a garçonete Janet (Bridget Fonda) quer aumentar os seios para prender o namorado, o líder de banda Cliff (Matt Dillon), que nunca foi de ligar muito para a palavra “monogamia”. Já Debbie (Sheila Kelley), frustrada pela falta de um namorado, decide apelar para uma empresa especializada em encontros amorosos. Estes cinco personagens e mais alguns outros na faixa dos “20-e-alguma-coisa” compõem o núcleo de moradores de um conjunto de apartamentos em Seattle. Em paralelo, o nascimento e o auge de um dos subgêneros mais populares do rock, o grunge.

Veja no volume máximo: Embora boa parte dos cinéfilos e fãs de rock prefiram apontar Quase Famosos como o ápice da carreira do ex-jornalista Cameron Crowe – que, como afirmei acima, até acho muito bom mas inocente demais para a proposta de ser um “retrato fiel” dos bastidores do rock -, não há como negar que a comédia romântica Vida de Solteiro seja muito mais universal. Inspirado na morte do músico Andrew T. Wood e utilizando a ascensão do movimento que gerou bandas como Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden, Crowe conta várias histórias de amor e responsabilidade entrelaçadas que, juntam, formam um painel bacana da pós-juventude e início da vida adulta nos anos 90. E aproveita para apresentar ao espectador uma das bandas fictícias mais escrachadas do cinema, a Citizen Dick (formada basicamente pelos integrantes do Pearl Jam). E para a alegria geral, é fácil de encontrar em DVD! :-D Curiosidade: em Vida de Solteiro, há uma pontinha rápida de ninguém menos que Tim Burton.

Ouça com urgência: “Would?”, do Alice In Chains; “Dig For Fire”, dos Pixies (claro!); “The Battle of Evermore”, regravação até bonitinha dos Lovemongers para o ultra-clássico do Led Zeppelin; e uma nostálgica para variar: a viajada “May This Be Love”, de Jimi Hendrix.

• JOVENS, LOUCOS E REBELDES (Dazed And Confused, 1993)

O enredo: O último dia de aula em uma escola secundária do Texas, em maio de 1976, é apenas pretexto para que todos os alunos, veteranos e calouros, atletas e nerds, rapazes e garotas, esqueçam suas diferenças e unam-se numa grande festa para comemorar a finalização desta etapa da juventude, e a iminente entrada na fase adulta. Neste dia, todos tentam se embriagar, transar e usar drogas, e no meio disto tudo, o jovem Mitch Kramer (Wiley Wiggins), recém-saído das fraldas (!), tenta se dar bem de qualquer maneira. É bem provável que este dia único na vida destes adolescentes seja inesquecível… isto se eles conseguirem lembrar de alguma coisa.

Veja no volume máximo: Este é um caso muito bacana. Jovens, Loucos e Rebeldes, um dos primeiros longas-metragens do aclamado cineasta Richard Linklater (Antes do Pôr do Sol), é tido como um de seus melhores trabalhos, e não é pra menos: o enredo da fita, por mais que lembre uma pancada de outras produções, foge da estrutura padrão-hollywoodiana e evita cair no “estilo John Hughes de direção” para narrar uma história sobre a perda da inocência numa época em que esta expressão ainda significava alguma coisa. E além de revelar uma série de atores e atrizes legais, como Matthew McConaughey, Parker Posey, Marissa Ribisi, Cole Hauser e Milla Jovovich, ainda traz uma trilha sonora fenomenal! Por um incrível milagre da matureza humana, Jovens, Loucos e Rebeldes existe para locação no Brasil, mas por enquanto apenas em VHS. E quem tem TV a cabo, pode conferir a fita na atual grade de programação do canal Telecine.

Ouça com urgência: Eu diria a trilha inteira! Mas se é pra escolher algumas faixas, fico com estas: a excitante “Highway Star”, do Deep Purple (tema também do recente policial espanhol O Lobo), a deliciosa “Why Can’t We Be Friends”, do War, e sem dúvidas, “Free Ride”, a clássica da banda The Edgar Winter Group.

• VELVET GOLDMINE (1998)

O enredo: Em 1984, o jornalista britânico Arthur Smart (Christian Bale) é forçado a escrever uma matéria investigativa sobre o desaparecimento de Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers, perfeito), sumido há mais de 10 anos. Em 1971, Slade, líder do grupo Venus In Furs, influenciado por seu ídolo e amante, o americano Curt Wild (Ewan McGregor), ajudou a firmar a era do glam-rock, transformando-se num ícone do movimento e causando polêmica ao se maquiar e explorar sua bissexualidade no palco. Ao representar sua própria morte em público para fugir do personagem que criou, Slade é desmascarado e, com isto, reconhece que a única solução para deter o “monstro” que gerou é desaparecer. Ao investigar a suposta falsa-morte de Slade, Arthur Smart se vê obrigado a enfrentar um trecho traumático de seu passado, diretamente ligado à carreira do músico e à própria explosão do glam na Inglaterra.

Veja no volume máximo: Polêmicas e controvérsias à parte (pela forma quase caricata de explorar o filão), Velvet Goldmine, do diretor-roteirista Todd Haynes – o mesmo do ótimo Longe do Paraíso – e produzido por Michael Stipe (R.E.M.), não deixa de ser um retrato muito bem-feito do domínio do glam-rock, cujos maiores representantes atendem pelos nomes de David Bowie (na fase Ziggy Stardust, clara inspiração para o filme), Iggy Pop e, recentemente, The Cure e Placebo. Odiado por alguns, que insistem em acusá-lo de “apenas um filme gay” (?), Velvet Goldmine é sincero, profundo, engraçado (e a performance de palco de Curt Wild está aí para provar) e muito bem-feito em sua homenagem aos hoje decadentes artistas da divisão mais glamourosa do rock. Mas é também um trabalho para iniciados. Logo, se você não curte glam-rock, passe longe!

Ouça com urgência: “Needles In The Camel’s Eye”, de Brian Eno; “Hot One”, do Shudder to Think; e a belíssima “2HB”, interpretada pela banda de Brian Slade, Venus In Furs, com vocal do bizarro Thom Yorke (Radiohead).

• ALTA FIDELIDADE (High Fidelity, 2000)

O enredo: Rob Gordon (John Cusack) ganhou um belo de um chute-na-buzanfa de sua namorada, a sossegada Laura (a dinamarquesa Iben Hjejle). Mas isto não importa muito, já que Rob tem a companhia e o consolo dos seus zilhões de discos de rock, que jamais lhe trairão. O problema é que o fantasma de Laura e os muitos problemas financeiros começam a atormentar a vidinha medíocre do pacato dono de uma guerreira loja de vinis em Chicago. Viciado em “listinhas dos cinco mais” (alô, redação d’A ARCA!), Rob decide revisitar todas as mulheres que fazem parte de seu passado amoroso, na tentativa de entender o que aconteceu de errado entre ele e Laura – e, quem sabe, tentar recuperar a moça…

Veja no volume máximo: Alta Fidelidade não deveria estar nesta lista, pois não é um filme sobre rock. Mas é um filme sobre pessoas que amam rock. Aliás, um GRANDE filme sobre pessoas que amam rock, e só este pequeno detalhe já o credencia para estar aqui. Se Vida de Solteiro, citado acima, é uma fita sobre as atitudes dos jovens de 20-e-tantos-anos, este longa-metragem de Stephen Frears, inspirado no excepcional romance de Nick Hornby, funciona bem como uma espécie de continuação. Afinal, os problemas do trintão Rob Gordon são praticamente os mesmos da turminha da fita de Cameron Crowe. E além disso, Alta Fidelidade entrega uma visão bastante fiel dos circuitos indie e das rodinhas cult de Chicago, e também personagens hilariantes, como os funcionários de Rob, os estranhos Jack Black e Todd Louiso. Preparem-se para tentar não molhar as calças de rir com a participação de Tim Robbins! Mesmo com as milhares de mudanças com relação ao livro, é uma fita fascinante que merece ser descoberta.

Ouça com urgência: “You’re Gonna Miss Me”, do 13th Floor Elevators, que já abre a fita numa paulada só. E, sinceramente, a versão de Lisa Bonet para a terrível “Baby I Love Your Way”, do Peter Frampton, ficou extremamente necessária!

• HEDWIG – ROCK, AMOR E TRAIÇÃO (Hedwig and the Angry Inch, 2001)

O enredo: Hedwig (John Cameron Mitchell) é uma estranha cantora de rock. Ela nasceu homem na Alemanha Oriental, com o nome Hansel, e passou boa parte de sua infância e adolescência viciado no rock que ouvia de uma rádio das Forças Armadas. Quando adolescente, Hansel apaixonou-se pelo soldado americano Luther, que o promete levá-lo aos EUA. Para isto, Hansel submete-se a uma fracassada operação para mudança de sexo, que a deixa com uma polegada sobrando (!). Anos depois, já convertida para a infame Hedwig, cai de amores por um pirralho (Michael Pitt) que adota a alcunha de Tommy Gnosis e inicia uma carreira de sucesso como músico… usando as composições de Hedwig como se fossem suas. Assim, a cantora segue com sua banda formada por amigos do Leste Europeu, perseguindo Gnosis em sua turnê e cantando a história de sua vida em bares e restaurantes fuleiros, até que consiga enfrentar o garoto e tomar o que é seu por direito.

Veja no volume máximo: Simplesmente um dos musicais contemporâneos mais engraçados, criativos e bem-sucedidos do circuito off-Broadway, que ganhou uma adaptação indie para as telonas igualmente hilária pelas mãos de seus autores originais, John Cameron Mitchell e Stephen Trask, que estréia no cinema com esta produção. Aliás, tanto esta versão para os cinemas quanto o CD com as canções da peça foram exigidos pelo próprio público, que lotou todas as sessões da curta temporada do espetáculo nos States. Uma homenagem ao glam e, ao mesmo tempo, uma ácida crítica à indústria fonográfica americana, Hedwig – Rock, Amor e Traição tornou-se objeto de adoração cult nos States ao misturar comédia, melodrama e animação (sim, animação) num único pote, e ainda serviu para levantar a carreira do bom Michael Pitt, que em seguida estrelou o ótimo Os Sonhadores e o fraco Cálculo Mortal. Uma fita capaz de deixar o espectador sorrindo durante o dia inteiro. Ok, eu ficaria mais feliz que estivesse disponível em DVD por aqui, mas só tem mesmo o VHS… :-P

Ouça com urgência: A bela “Wicked Little Town”, apresentada no filme em duas versões distintas; e a hilária “Angry Inch”, que descreve a origem da “polegada raivosa” de Hedwig. Putz! :-)

• A FESTA NUNCA TERMINA (24 Hour Party People, 2002)

O enredo: Inspirado por um momento histórico – no caso, o lendário primeiro show dos Sex Pistols em Manchester, com uma platéia de apenas 42 pessoas -, o jornalista Tony Wilson (Steve Coogan) lidera um movimento cultural que seria mais tarde conhecido como Madchester, e de onde saíram o selo de vinil Factory, a casa de shows Hacienda e históricas bandas inglesas pós-punk como Joy Division, A Certain Ratio, The Jam, Siouxsie and the Banshees e a psicótica Happy Mondays. Só havia uma coisa maior do que a genialidade de Wilson para com a música: seu talento incomum para cometer as maiores idiotices da face da Terra, como não assinar contrato com os artistas; idiotices estas que subitamente enterraram este movimento com a mesma rapidez que ele surgiu.

Veja no volume máximo: Retrato fiel, embora surreal, da história do cenário musical de Manchester, tido como o berço de muitos dos subgêneros do rock, A Festa Nunca Termina resulta num divertidíssimo trabalho do britânico Michael Winterbottom (que mais tarde viria a se envolver novamente com o rock no ótimo 9 Canções), que fez bastante sucesso no circuito alternativo de SP e do Rio. Aqui, não há tempo para subtramas: a única função da câmera é acompanhar, num ritmo quase documental, a guinada e a descida aos infernos de figuras conhecidíssimas do rock como o produtor Martin Hannett, interpretado com maestria por Andy Serkis (o Gollum), e o vocalista do Joy Division, Ian Curtis, que suicidou-se no auge da carreira e em breve ganhará uma cinebiografia. E por falar nisso, o Jude Law que me desculpe, mas será praticamente impossível superar a fantástica atuação do quase-desconhecido Sean Harris como Ian Curtis, que é nada menos que perfeita! :-)

Ouça com urgência: “Digital” e a clássica “Love Will Tear Us Apart”, do Joy Division; as duas maiores pérolas do Happy Mondays, “Tart Tart” e “Kinky Afro”, além, óbvio, da música-título, “24 Hour Party People”.

DIA DO ROCK: O ROCK NO CINEMA
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 10/07/2005
Complemento do especial para a comemoração do Dia Internacional do Rock (13/07).

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