A Marcha dos Pingüins

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/01/2006.

Bem, na humilde opinião deste que vos fala, resenhar um documentário é algo bastante relativo, conforme eu comentei na resenha do hilário Trekkies 2 (desculpe, mas não pude evitar usar o mesmo “parágrafo de início”). O fato é que gostar ou não de um doc não depende só da qualidade da fita, mas sim da familiaridade e do pendor do espectador com o tema tratado – tanto que nem pretendo me prolongar muito nesta crítica. Um exemplo: se você não curte música cubana, obviamente não curtirá assistir um Buena Vista Social Club da vida, por mais que este seja um filmaço indiscutivelmente belo.

Embora os docs de hoje tentem fugir um pouco deste estigma para atrair público, como os gloriosos e controversos trabalhos do titio Michael Moore, devo dizer que A Marcha dos Pingüins (La Marche de L’Empereur, 2005), que finalmente estréia em solo brazuca, não foge muito à regra. Veja meu caso: tenho uma simpatia confessa pelos programas do Discovery Channel e do Animal Planet; adoro filmes com bichinhos (*), desde que os cachorrinhos não morram no final, claro (matem qualquer um, menos eles e os bebês!); e afirmo que uma das experiências mais líricas que já tive nos cinemas corresponde ao magistral Microcosmos – Fantástica Aventura da Natureza (aquele dos insetos, cujos trechos eram exibidos esporadicamente no Fantástico, lembra?), que tive o prazer de conferir na tela grande e encheu meus olhos de lágrimas. Chorão, eu? :-D

Pois é. Visto que simpatizo com bichinhos fofuchinhos em filmes, não preciso dizer que vibrei com cada seqüência de A Marcha dos Pingüins. Mas esqueçamos esta parte. O fato é que, gostando ou não, é impossível negar que este pequeno doc francês, dirigido com maestria pelo renomado biólogo Luc Jacquet, é simplesmente arrebatador. Não à toa, a fita transformou-se em um fenomenal sucesso de bilheteria, arrecadando nada menos que US$ 80 milhões só nos Estados Unidos (marca impressionante para um longa-metragem do gênero): o diretor consegue fugir totalmente do rótulo de documentário e, em apenas 80 minutos, entrega uma aventura viva, belíssima em termos visuais, comovente e, dadas as devidas proporções, eletrizante. Sim, eletrizante! Por que não?

Ok, calma lá que eu explico: A Marcha dos Pingüins não é apenas uma fita maçante “sobre pingüins”, em que uma tediosa narração acompanha os animaizinhos em seu habitat natural, comendo, dormindo e brincando de papai-e-mamãe para botar seus ovinhos (!). Na verdade, está bem longe disto. A câmera de Jacquet retrata um período claustrofóbico e aterrorizante da vida da raça dos pingüins-imperadores, uma história carregada de heroísmo e perseverança. E tem mais: os animaizinhos são muito bonitinhos! :-)

O enredo justifica tudo isto por si só: a história tem início quando um batalhão de pingüins-imperadores, entre machos e fêmeas, abandonam o oceano e sobem para a superfície congelada da Antártica, dando partida em uma caminhada em fila indiana rumo ao interior, em direção ao terreno onde realizam seus rituais de acasalamento. O objetivo da maratona: gerar os novos filhotes. Não seria algo tão extraordinário se não estivesse falando de MESES de caminhada debaixo de gelo, gelo e mais gelo (!). Ao chegar ao local, as fêmeas permanecem lá apenas o tempo suficiente para gerar os ovos, retornando ao mar em seguida para buscar comida. Encarregados de guardar os ovos e chocá-los, os machos passam até quatro meses sem se alimentar… Vixe!

É neste momento que a fita torna-se mais tensa: a partir do nascimento dos filhotes, as fêmeas precisam retornar ao habitat de nascimento com comida, enfrentando 200 quilômetros de gelo e frio no prazo máximo de 48 horas. Caso contrário, os bebês-imperadores não sobrevivem. Esta última parte dá um nervoso dos diabos: não há como não torcer para que as fêmeas cheguem logo para que aquelas bolinhas de pêlo com olhos e bicos não partam desta para melhor… :-)

Enfim… Este é o enredo do longa. Como disse lá em cima, fica tudo mais fácil quando o espectador curte o tema. Ainda assim, o roteiro de Luc Jacquet traz alguns atrativos para agradar as massas. Uma das saídas para tornar A Marcha dos Pingüins menos didático e mais ficcional foi utilizar a narração para dar voz aos “pensamentos” dos imperadores – recurso este que não fui muito com a cara, para falar o português claro (como diria o Fanboy, ficou “Disney demais” para o meu gosto), mas não chega a comprometer o resultado final. Sim, dói muito ver o pingüinzinho andando e pensando “veja só, estou dando meus primeiros passinhos”, bem ao estilo Olha Quem Está Falando, mas fazer o quê?

Outra saída foi “musicar” a trajetória dos animais com a intimista trilha sonora de Emilie Simon, simplesmente linda. Sério, dá vontade de comprar o CD na saída do cinema! :-)

Sinceramente? Nem precisava romancear a coisa deste jeito. A batalha dos pingüins pela sobrevivência comove com uma facilidade tremenda, e os “diálogos”, embora ajudem o público a se situar, não são necessários para a total compreensão da rotina dos animais. As grandiosas paisagens frias da Antártica e as impressionantes e emocionantes atitudes quase humanas dos “personagens” centrais encantam qualquer um, não importa se o espectador é simpatizante ou não de documentários e/ou dos programas de TV do National Geographic. São bichinhos, pô! Qualquer um gosta de bichinhos bonitinhos! E é justamente aí que reside o grande charme de A Marcha dos Pingüins: provar que a vida real pode ser tão cruel e cativante quanto qualquer trabalho de ficção espalhado por aí. Para ver de novo, e de novo, e de novo… E sentir uma vontade tremenda de viajar até a casa do chapéu só pra roubar aquele filhotinho de pingüim e levar pra casa! Ô meu Deus, que coisinha mais bilu-bilu… :-D

CURIOSIDADES:

A Marcha dos Pingüins é o segundo documentário mais rentável da história do cinema. Rendeu mais de US$ 80 milhões só nos Estados Unidos, ficando atrás apenas de Fahrenheit 11 de Setembro, o libelo anti-Bush de Michael Moore.

• A produção foi premiada como o melhor documentário de 2005 pelo National Board of Review.

• O longa-metragem possui duas versões: a original francesa, narrada pelos atores Charles Berling, Romane Bohringer e Jules Sitruk (que fazem as “vozes” do casal central e seu filhote, respectivamente), e a versão norte-americana, que dispensa os comentários dos pingüins e é narrada por Morgan Freeman. Freeman gravou sua narração em apenas um dia.

• A versão dublada em português conta com as vozes de Patrícia Pilar, Antônio Fagundes e Matheus Perissé.

• (*) Sim, eu tenho uma quedinha por fitas bobinhas estreladas por animais. Morro de rir. E o Fanboy, quando soube desta, explodiu num revoltadíssimo “COMO ASSIM? VOCÊ É O ZARKO! VOCÊ ODEIA TUDO!”. Pois é, minha fama me precede… :-P

LA MARCHE DE L’EMPEREUR • FRA • 2005
Direção de Luc Jacquet • Roteiro de Luc Jacquet e Michel Fessler
Narração: Charles Berling, Romane Bohringer, Jules Sitruk (original em francês), Morgan Freeman (versão norte-americana).
88 min. • Distribuição: Versátil Filmes.

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