Quase Dois Irmãos

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/03/2005.

Se alguém me pedir para resumir o cinema nacional de 2004 em uma única palavra, esta palavra seria SOCORRO. Porque as produções brazucas que chegaram às telonas neste último ano foram de doer a alma. Bem, tenho consciência de que posso ser apedrejado em praça pública por causa deste comentário, já que me refiro claramente a Olga, Cazuza – O Tempo Não Pára, Viva Voz e Sexo, Amor e Traição, fitas que até construíram uma carreira respeitosa no cinema, embora sejam bem ruinzinhas. E mesmo correndo o risco de ser acusado do contrário, já digo logo que não tenho preconceito algum com películas da nossa terra (dois dos meus longas preferidos, aliás, são os “100% tupiniquim” Lavoura Arcaica e Uma Vida em Segredo, dois clássicos), mas também não sou daqueles que proclamam que um trabalho é bom só porque é daqui. Qualquer um está propenso a fazer filme ruim, oras!

Continuando, a safra de 2004 doeu mesmo. Parece, contudo, que 2005 promete ser um ano generoso para nossas produções – excluindo-se, claro, as tragédias que normalmente se abatem em período de férias (Xuxa, Eliana e aquilo tudo que todos já conhecem). Tudo isso pra falar de Quase Dois Irmãos (Idem, 2004), o novo trabalho da cineasta carioca Lúcia Murat – mais conhecida pela direção do conceituado Que Bom Te Ver Viva (1986), que trata basicamente do mesmo tema. Não que Quase Dois Irmãos seja tão espetacular assim. Entretanto, é o mais bem escrito, dirigido e interpretado dos últimos nacionais. E de quebra, traz uma visão muito particular, mesmo que meio superficial, de um tema de importância histórica: a situação dos presos políticos na era da ditadura militar e o surgimento de uma das facções criminosas mais temidas do Brasil.

Mas não se engane: isto é apenas o pano de fundo de uma história sobre a amizade de duas pessoas distintas e ao mesmo tempo semelhantes, e sua sobrevivência através do tempo e a resistência da união contra a própria vida (falei difícil agora, né?). :-D

O roteiro de Murat e Paulo Lins – roteirista também de Cidade de Deus e da sitcom brazuca Cidade dos Homens – usa o manjadíssimo artifício de “ir e voltar no tempo” para explorar a relação entre dois amigos e antagonistas, Miguel e Jorginho – o primeiro, branco e de família rica e o segundo, negro, pobre e favelado -, em três épocas diferentes de suas vidas. Ao fundo, as transformações políticas e sociais do Rio de Janeiro em cerca de 50 anos. A amizade inicia-se em 1957, quando o pai de Miguel, um intelectual aristocrata, encanta-se com a malandragem dos sambistas do morro e faz amizade com o pai de Jorginho, o que desestrutura a família de ambos.

Os caminhos de Miguel (Caco Ciocler, quase um “Jude Law tupiniquim”, de tanto que aparece em filmes!) e Jorginho (o ótimo Flávio Bauraqui, de Madame Satã) se cruzam novamente em 1970, no auge da ditadura. Miguel, militante político, e Jorginho, assaltante de bancos, cumprem pena na mesma galeria da Penitenciária de Ilha Grande. Nesta época, os opositores do regime militar e os bandidos comuns tinham como destino o mesmo lugar, esta mesma prisão, sem direito à separação por nível social. Uma vez na cadeia, os guerrilheiros se organizavam baseados no princípio do direito coletivo, ou seja, era proibido fumar maconha e praticar pederastia e roubo. E qualquer conflito interno, por menor que fosse, jamais era resolvido com violência.

A metódica organização da classe média bate de frente com as transgressões e a marginalidade da classe baixa, e a convivência entre a elite (representada por Miguel) e a plebe (defendida por Jorginho), a princípio amistosa e até afetiva, se torna acirrada e de certa forma perigosa com o passar dos meses. O ápice deste conflito gera o distanciamento definitivo das classes e o nascimento de um grupo separatista que, mais tarde, seria chamado de Comando Vermelho.

A história sempre paralela de Miguel e Jorginho encontra um último capítulo em 2004, quando o primeiro, agora um respeitado deputado (interpretado por Werner Schünemann, de Olga), procura o segundo (agora vivido por Antônio Pompêo, veterano das novelas da Globo), o perigoso líder do CV – atuante através de um telefone celular -, para sugerir a implantação de um projeto social nos morros do Rio. Mas Miguel tem outros motivos pra se preocupar com a violência da favela: sua filha adolescente, Juliana, assim como o próprio pai em sua juventude, é fascinada pelas semelhanças dos dois mundos e namora um conhecido traficante, protegido de Jorginho. Mais uma vez, os dois mundos se chocam e testam a amizade entre os dois homens, que deveria estar acima de tudo.

Como qualquer um pode notar, o enredo de Quase Dois Irmãos é ótimo e bem oportuno. Alguns pontos negativos, porém, atrapalham bastante o resultado final: os diálogos são falsos e carregados de discursos moralistas – culpa de Paulo Lins que, na minha visão, carrega este problema em todos os roteiros que escreve. É tudo muito certinho, muito bem acentuado (chega a ser bizarro ver os bandidões usando um linguajar tão cheio de acentuações e pontos finais) e formuladinhas demais. Ninguém na vida real usa diálogos daquele jeito!

Os únicos que conseguem imprimir um pouco de naturalidade a seus personagens são Maria Flor, como Juliana, e Renato Souza, que interpreta Deley, o traficante protegido de Jorginho. Quanto ao restante, ninguém se salva – à exceção do cantor Luiz Melodia, dando as caras pela primeira vez no cinema com uma pontinha bem bacana (mas sem falas, portanto não conta) e Marieta Severo, competente como sempre no papel da mãe de Miguel, na segunda fase do filme – mas que aparece muito pouco em cena, ou melhor, na tela.

As interpretações também compõem outro ponto negativo, em particular no caso de Werner Schünemann e Antônio Pompêo, cuja “química” em cena só é comparável ao “entrosamento” entre Jennifer Lopez e Ben Affleck em Contato de Risco (ugh!). Por outro lado, é interessante notar que, ao melhor estilo Traffic, a fotografia do bom Jacob Solitrenick (de Durval Discos) e até mesmo a direção de Murat muda a cada época. É como se estivéssemos assistindo a três filmes sem ligação. E a trilha sonora de Naná Vasconcelos é um espetáculo à parte.

Porém, todos os pecados da fita poderiam ser perdoados, se Lúcia Murat não optasse por dar um tratamento tão vago ao excelente enredo do longa. O que é de se estranhar, já que a cineasta viveu na pele o que revisita em cena: ex-militante do MR-8, ela foi torturada e passou três anos na prisão de Bangu. Parece que Murat sentiu medo de se aprofundar nas questões e, com isto, tomar partido. O que vemos, então, é um longa-metragem que, ao final, assim como seus próprios personagens, encantou-se com dois mundos – no caso, o cinema para o povo e o cinema para os intelectuais – e não conseguiu decidir-se entre um e outro. O que não tira totalmente o brilho da produção.

Sim, eu sei que muitos veículos deverão exaltar Quase Dois Irmãos como um excelente filme. Sabe como é: alguns veículos adoram encher lingüiça com palavras difíceis. Se isto acontecer, não se engane: no início deste artigo, falei sobre os péssimos trabalhos de 2004. Não é que esse aqui é ótimo. É só o melhorzinho deles! :-P

CURIOSIDADES:

Quase Dois Irmãos fez parte da Seleção Oficial dos visados Festivais Internacionais de Toronto, Montreal e Biarritz.

• O longa recebeu os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator (Flávio Bauraqui) no Festival do Rio 2004, além do prêmio da Federação Internacional de Críticos (Melhor Filme Latino-Americano). Foi eleito o Melhor Filme do Festival do Amazonas e abocanhou dois troféus no conceituadíssimo Festival de Havana: Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora.

• O músico Naná Vasconcelos é muito conhecido lá fora e já tocou com caras como B. B. King e Paul Simon. E não é de se estranhar: Vasconcelos realmente é ótimo.

QUASE DOIS IRMÃOS • BRA • 2004
Direção de Lúcia Murat • Roteiro de Lúcia Murat e Paulo Lins
Elenco: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Werner Shünemann, Antônio Pompêo, Maria Flor, Marieta Severo, Luiz Melodia.
102 min. • Distribuição: Imovision.

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