Flores Partidas

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/11/2005.

Ao assistir ao excepcional Feitiço do Tempo, saí por aí alardeando que o notório senhor Bill Murray daria um excelente ator dramático. Ok, a fita era comédia, aliás uma pusta duma senhora comédia, mas alguns maneirismos de Murray me fizeram notar que, por trás daquela máscara de comediante, havia um talento nato para dramas intimistas. Pode ter sido a cara de triste do cara, sei lá. Mas tive esta sensação.

Então vieram películas como Ed Wood, Rushmore, Os Excêntricos Tenenbaums, Encontros e Desencontros e A Vida Marinha com Steve Zissou. Todos, por sinal, considerados grandes trabalhos por boa parte da crítica – e também do público. Bill Murray finalmente se descobriu e papou um Globo de Ouro e até uma indicação ao Oscar por isto. Mais do que merecido, não preciso nem dizer. :-)

Flores Partidas (Broken Flowers, 2005), o novo filme do megacultuado cineasta indie Jim Jarmusch – o mesmo diretor dos excelentes Uma Noite Sobre a Terra, Ghost Dog e Sobre Café e Cigarros -, chega às telas para provar que Murray não só tem um dom natural para interpretar personagens complexos e profundos emocionalmente como também está se especializando em tipos calados, misteriosos e depressivos. Não seria exagero afirmar que Flores Partidas é até o momento o melhor trabalho de Bill Murray enquanto ator dramático. Afinal, devo dizer, ele é a alma e o coração do filme.

Murray é Don Johnston – favor não confundir com o bizarríssimo astro do seriado Miami Vice (!) -, aposentado do ramo da informática, rico e solteirão por opção que tem o hábito de usar mulheres e jogar fora sem nenhum pudor. Mal começa a história e Don leva um belo de um chute de sua namorada Sherry (Julie Delpy, Antes do Pôr do Sol). Detalhe este que, pra falar a verdade, não chega a incomodar tanto, uma vez que a palavra monogamia e a expressão relacionamento duradouro não constam no dicionário de Don. O que o incomoda é a carta anônima que recebe no mesmo instante em que é abandonado: seu conteúdo, datilografado por uma velha máquina de escrever, revela que Don tem um filho de 19 anos que fugiu de casa e está perdido por aí.

É a partir daí que vemos a maestria com que Murray conduz seu personagem. Don Johnston é um homem sem uma gota de expressividade, incapaz de sentir emoção – ou pelo menos tão controlado a ponto de conseguir escondê-las lá no fundo, sem externá-las em momento algum. Sua frieza reflete em sua casa, suas roupas, em suas relações, e chega ao ponto de fazer com que Don esconda até seus sentimentos com relação a esta descoberta.

É preciso um empurrãozinho de seu hiperativo vizinho etíope Winston (Jeffrey Wright, de Ali, fabuloso), viciado em romances policiais e obcecado por “pistas”, para que Don embarque numa intimista viagem à procura do filho e das mulheres com a qual se relacionou, para descobrir qual delas é a misteriosa mãe do garoto. E é a partir deste ponto que, sozinho e sem o equilíbrio que sua vidinha medíocre ao lado da adorável família do vizinho lhe proporcionava, Don reavalia sua existência e aprende que esse lance de sentimento é mesmo um troço de doido que ninguém será capaz de explicar, muito menos domar.

Boa parte da metragem de Flores Partidas é centrada na odisséia de Don e no reencontro do personagem com suas ex-namoradas, que permanecem pouquíssimo tempo em cena. Atrizes como Frances Conroy (O Aviador), Jessica Lange (Peixe Grande), Tilda Swinton (Constantine) e Chloë Sevigny (Melinda e Melinda) passeiam pelo passado do indivíduo – destaque para o ótimo trabalho de Sharon Stone, bela como há muito não se via. Acho um pouco demais afirmar que as atrizes, assim como Jeffrey Wright, roubam a cena de Bill Murray: eu diria que todos fazem excelentes trabalhos e atuam de igual para igual. Ainda assim, não dá pra negar que, sem Murray, Flores Partidas não existiria com a mesma intensidade.

O mérito, claro, vem da genialidade de Jim Jarmusch como diretor. Deixando os maneirismos visuais de lado e tendo a seu favor apenas um bom roteiro, uma fantástica trilha sonora, personagens tridimensionais e o básico de técnica, Jarmusch consegue injetar ânimo e sutileza numa história simples, parada e que tinha tudo para se transformar num filme monótono, arrastado e melancólico. Ao final, Flores Partidas resulta num road-movie tocante, divertido (sim, divertido!) e bem singelo que converte Bill Murray ao status de melhor ator em atividade no cinema estadunidense. Emocionalmente falando, Flores Partidas pode deixar o espectador com um baita sorrisão de orelha a orelha, e com aquela vontadezinha de encontrar aquela pessoa que você mais gosta só pra dar-lhe um abraço e dizer o quanto gosta dela. :-)

Na verdade, pessoalmente fiquei com muita, mas muita vontade de cruzar com o Bill Murray por aí, para sentar numa mesa de bar e conversar durante horas sobre os mais variados assuntos. Então, eu aproveitaria e pediria o telefone da Scarlett Johansson. Hehehe… ;-D

CURIOSIDADES:

Flores Partidas levou o Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes. Foi indicado à Palma de Ouro, mas perdeu para o elogiadíssimo belga L’Enfant, de Jean-Pierre e Luc Dardenne.

• Jim Jarmusch declarou recentemente que escreveu Flores Partidas com o único objetivo de trabalhar com Bill Murray, de quem é fã absoluto e com a qual fez um dos segmentos de Sobre Café e Cigarros. O cineasta planejara outro roteiro como desculpa para dirigir Murray, mas descartou-o por acreditar que o texto anterior não era bom o suficiente para explorar a veia dramática do ator. Isso é que é moral!

• O roteiro de Flores Partidas foi escrito em duas semanas e meia.

• O nome da personagem Sun Green é uma referência a uma garota citada numa das canções do álbum Greendale, de Neil Young, cantor que é um dos preferidos de Jim Jarmusch. A desconhecida Pell James, intérprete de Sun Green, prepara-se para entrar para o primeiro time de Hollywood com um papel de destaque no futuro Zodiac, novo suspense de David Fincher.

BROKEN FLOWERS • EUA/FRA • 2005
Direção de Jim Jarmusch • Roteiro de Jim Jarmusch
Elenco: Bill Murray, Jeffrey Wright, Frances Conroy, Sharon Stone, Julie Delpy, Tilda Swinton, Mark Webber, Chlöe Sevigny, Jessica Lange, Christopher McDonald.
106 min. • Distribuição: Europa Filmes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: