A Intérprete

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/04/2005.

Mesmo com elogiadíssimos exemplares para defender sua categoria – como, por exemplo, os ótimos Três Dias do Condor (1975), Rede de Intrigas (1976), Todos os Homens do Presidente (1976) e O Informante (1999) –, a verdade é que o thriller político, subgênero do suspense aclamado pela crítica em geral, ainda é ignorado pelo público. Muitas vezes injustamente, falando o português claro. Não tanto pela complexidade dos enredos, embora saibamos que boa parte da massa que freqüenta os cinemas está acostumada a receber tudo mastigado. O problema maior é que geralmente a expressão thriller político vem acompanhada de outra expressão: ausência de ação. Sim, a maioria é centrada em diálogos e pancadaria braba, que é bom, nada. Alguns fogem a esta regra, como é o caso do recente Sob o Domínio do Mal (2004). Outros fazem questão de assumir o lado verborrágico da coisa, mas os diálogos são tão bem construídos que conseguem ser mais tensos e nervosos do que qualquer Exterminador do Futuro da vida. Um exemplo? O próprio O Informante. Três horas de fazer o espectador roer as unhas dos pés, das mãos e, como se não bastasse, até as unhas de quem estiver sentado ao lado! :-D

O mais recente trabalho do diretor Sydney Pollack, especializado em filmes do gênero – vide o próprio Três Dias do Condor e também A Firma, com Tom Cruise –, está no meio termo. O suspense A Intérprete (The Interpreter, 2005) pode ser visto tanto como uma fita policial bem movimentada quanto como uma ácida e coerente crítica à paranóia com relação à segurança nacional pós-11/9, e ainda conta com a vantagem de trazer um enredo atual, importante e muito oportuno. Ainda mais numa época em que tanto se discute a importância da diplomacia, a necessidade de uma guerra tão estúpida e a injusta hierarquia que anda favorecendo um pessoal que nada faz pelo mundo, mas deveria estar fazendo por obrigação. Parece chato, não? Ao contrário: A Intérprete, apesar de algumas falhas, é um filmaço muito dos bão! :-D

A personagem central é Silvia Broome (Nicole Kidman, muito mais linda do que em seu último trabalho, Reencarnação). Silvia é tradutora e intérprete e trabalha no prédio das Nações Unidas, a ONU, em Manhattan. Uma particularidade faz com que os serviços da garota sejam freqüentemente requeridos: ela é uma das poucas pessoas no mundo que falam fluentemente Khu, um raro dialeto característico da minúscula e fictícia República de Matobo, na África. Descobre-se, mais tarde, que Matobo é o lugar onde Silvia passou praticamente toda sua infância e parte da adolescência – assim como também sabemos que o Presidente de Matobo, o ditador Edmund Zuwanie (o veterano ator Earl Cameron), anuncia que visitará a sede da ONU. A polêmica ronda Zuwanie, uma vez que ele é acusado mundialmente de se esconder por trás de uma imagem pacífica e preocupada com seu povo para instaurar o caos e causar um genocídio no país. Logo, vê-se que o cara não é nem um pouco desejado em solo ianque. Se alguém questionar Silvia sobre sua opinião com relação ao presidente de sua terra natal, ela dirá que não concorda com seu ponto de vista, por acreditar muito na força das palavras. E declarará que não sentiria falta alguma se o escroto presidente “batesse as botas”… Ainda assim, ela fica na dela.

A coisa pega fogo quando, ao entrar no prédio à noite para buscar alguns pertences pessoais, Silvia acidentalmente escuta um plano para assassinar Zuwanie em plena Assembléia Geral da ONU. O plano é sussurrado, o que dificulta a identificação da voz, e dito no mesmo dialeto Khu que apenas Silvia e alguns poucos ali dentro conhecem. Os suspeitos são os poderosos e perigosos nativos de Matobo, Kuman-Kuman (o bizarro George Harris, de Falcão Negro em Perigo) e Ajene Xola (Curtis Cook), inimigos declarados de Zuwanie e loucos para tomar o poder no lugar. A questão: se Zuwanie for executado em terras gringas, a culpa recairá ao governo estadunidense, o que pode causar uma crise internacional. Enfim, Silvia aciona a polícia e logo a paranóia se instala; em paralelo, são destacados dois agentes do Serviço Secreto para investigar o caso: a centrada Dot Woods (Catherine Keener, a inesquecível Maxine de Quero Ser John Malkovich, ótima como sempre) e o ríspido Tobin Keller (Sean Penn, oscarizado recentemente por Sobre Meninos e Lobos).

Pra piorar ainda mais as coisas, no primeiro encontro de Silvia e Keller, este último – que perdeu a esposa em um acidente há menos de duas semanas – é categórico ao declarar que, em sua opinião, há um terceiro suspeito e provável culpado, ainda mais perigoso que os outros dois: a própria Silvia Broome. Pois é, vocês acharam que surgiu um nó aí? Pois saibam que a resposta de Silvia a esta acusação é mais bizarra ainda! E até aqui, rolaram apenas 20 minutos de um filme com pouco mais de duas horas… Putz! :-D

Claro que a trama não estaciona aí. O roteiro de A Intérprete, escrito por três roteiristas em alta hoje em Hollywood – Charles Randolph (A Vida de David Gale), Steven Zaillian (A Lista de Schindler) e Scott Frank (Voltar a Morrer) –, abre um leque de possibilidades, e todas elas são bem exploradas e amarradinhas. Silvia diz a verdade? O que ela tem a esconder? E Keller, pode estar blefando para defender um bem maior? E quais os interesses do grudento chefe de segurança de Matobo, Nils Lud (o ótimo dinamarquês Jesper Christensen)? Qual a ligação de Silvia com o misterioso fotógrafo francês Phillipe (Yvan Attal, de Ghost World)? Nossa, e isso não é nem a metade…

Os atores representam outro trunfo da produção. Enquanto Nicole Kidman, bela como nunca, entrega uma boa atuação e prova que pode ser uma grande atriz quando é bem dirigida, Catherine Keener dá mais um indício, mesmo aparecendo pouco em cena, de que é uma das atrizes mais competentes e injustiçadas da atual safra hollywoodiana. Mas ninguém, eu digo, ninguém é páreo para um certo camarada chamado Sean Penn. O ator simplesmente rouba todas as cenas em que aparece, e não só engole sua freqüente parceira de cena, Kidman, como cospe e mastiga e engole de novo (!). Brincadeiras à parte, a atuação de Sean Penn, composta basicamente de expressões leves e olhares, é de assustar, e transmite numa boa todos os (turbulentos) sentimentos de seu personagem, que oscila entre manter o profissionalismo mergulhando no trabalho e escancarar suas emoções. E o cara faz tudo isso sem abrir mão de sutilezas! Como comentou o Fanboy: “Quem diria que o ex-espancador-de-Madonnas poderia se tornar um grande ator um dia?”.

Maaaas… Como disse lá em cima, há algumas falhas. E o ponto negativo vem justamente do fato de ficar em cima do muro e não tomar partido do lado político ou do lado pessoal. Se por um lado o roteiro acerta em cheio na crítica à forma com que boa parte dos dirigentes anda levando seus mandatos e também no retrato até fiel da política externa estadunidense pós-ataques terroristas, há uma leve queda quando o foco é centrado na esquisita relação de amor e ódio entre Tobin Keller e Silvia Broome. Independente de mandar bem em seus respectivos papéis, a química entre Sean Penn e Nicole Kidman não chega a ser tão marcante quanto a química do próprio Penn com sua outra parceira de cena, Catherine Keener. Bem que o montador William Steinkamp poderia ter deixado quinze ou vinte minutos de projeção na sala de montagem… E o final romanceado e burocrático demais faz com que o longa perca definitivamente a chance de fazer história e ser lembrado por algum tempo no cinema de suspense político.

Estes pequenos erros, no entanto, não estragam o prazer de assistir ao filme. Um bom trabalho como diversão-pipoca e ainda melhor quando se levado a sério. Aliás, é fundamental que A Intérprete seja visto, já que, mesmo discutindo pontos importantes da política mundial, tem apenas uma única e simples mensagem: é preciso, acima de tudo, paz. Ou seja: muito barulho para, no final de tudo, se tornar apenas um suspense bacana, divertido e bem simples, mas cheio de qualidades. Vamos ver se desta vez o subgênero consegue chamar a atenção do público em geral, e quem sabe assim o povo larga de engordar a bilheteria de alguns filmecos que andam por aí… Não adianta, não consigo deixar de ser amargo! ;-)

CURIOSIDADES:

A Intérprete é o primeiro longa-metragem da história a ter cenas rodadas dentro da sede das Nações Unidas, a ONU. As locações incluem a Assembléia Geral e o Conselho de Segurança, além de corredores e outros ambientes do complexo. As filmagens aconteceram entre Abril e Agosto de 2004. A equipe rodou as cenas aos finais de semana, para não atrapalhar as atividades regulares da organização. Nas seqüências mais importantes do filme, elenco e equipe chegaram a passar mais de 60 horas dentro do edifício, sem poder sair.

• As filmagens aconteceriam originalmente num galpão em Toronto, Canadá. O problema foi o orçamento astronômico; só para reconstruir a Assembléia Geral da ONU, o orçamento de US$ 80 milhões ganharia mais 1/3 de seu valor.

• Funcionários da sede da ONU serviram de figurantes para boa parte das cenas. Imagine esse pessoal xingando por ter que voltar ao seu local de trabalho e “representar” seus próprios papéis em pleno Sábado e Domingo, quando poderiam tirar uma pestana… :-D

• Durante uma cena em que tiros são disparados dentro do prédio, não foi permitido sequer o uso de balas de festim, para não causar um caos generalizado dentro do edifício. Os efeitos de tiros foram inseridos posteriormente, através de CGI.

• O ator Earl Cameron, que vive o ditador matobano Edmund Zuwanie, é nativo de Pembroke, Bermuda, e é mais conhecido no cinema americano pelo papel que viveu em 007 Contra a Chantagem Atômica (1965). Faz tempo, hein?

• O excelente dinamarquês Jasper Christensen, que dá vida ao ambíguo Nils Lud, conquistou os EUA com sua performance no divertidíssimo Italiano Para Principiantes (2000), 12.º longa do polêmico Manifesto Dogma 95 e um sucesso no circuitinho Rio-SP. Para quem nunca ouviu falar no termo, o Dogma 95, já extinto, pregou uma nova forma de fazer cinema; foi criado pelos cineastas Lars Von Trier (Os Idiotas) e Thomas Vintenberg (Festa de Família), e dispõe de pelo menos 39 produções conhecidas mundialmente. Os principais tópicos do manifesto pregavam filmagem apenas com câmera de ombro, sem uso de luz artificial, sem trilha sonora, temas polêmicos e inaceitáveis pela sociedade, entre outras coisas.

• Poucos repararão neste fato curioso, mas ele está lá: a cada mudança de seqüência, o som da cena a seguir entra segundos antes da cena em si. A justificativa deste estilo, segundo os produtores, é o fato de A Intérprete valorizar muito o trabalho de som e de vozes dos protagonistas.

• As filmagens de A Intérprete foram paralisadas durante dias. O motivo: Nicole Kidman foi convocada para refazer cenas de Mulheres Perfeitas (2004), depois que a produção foi vaiada numa exibição-teste. Eu, hein? Se ainda fosse um teste de Reencarnação… :-P

• Pra encerrar, um troço altamente inútil: o sobrenome do personagem de Sean Penn, Keller, é o mesmo sobrenome da maravilhosa Naomi Watts em O Chamado (o nome dela no filme é Rachel Keller). E os dois já trabalharam juntos, interpretando amantes, no aclamado 21 Gramas, de Alejandro González Iñarritú, e estão escalados para viver em breve marido e mulher no drama The Assassination of Richard Nixon. É, eu sei, é uma bobeirinha. Mas uma daquelas bobeirinhas que todos adoram saber, não é não? :-D

THE INTERPRETER • EUA/ING • 2005
Direção de Sydney Pollack • Roteiro de Charles Randolph, Steven Zaillian e Scott Frank
Elenco: Nicole Kidman, Sean Penn, Catherine Keener, Jesper Christensen, Yvan Attal, Earl Cameron, George Harris.
128 min. • Distribuição: Paramount Pictures.

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