Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 07/08/2006.

Como dizia aquele conhecidíssimo comercial de cartão de crédito, tem coisas que o dinheiro não compra. Mesmo. Não consigo esquecer de forma alguma, por exemplo, um momento ultrabizarro que presenciei na pré-estréia de O Chamado 2 há um tempo atrás: um indivíduo gigantesco, de 2m x 2m, mega-marombado e cheio de tatuagens de tribais, daqueles que só sabem falar de academia e de carros tunados, ou seja, um autêntico pitboy mamãe-quero-ser-Vin-Diesel, teve um faniquito de fã em pleno trailer de Assalto à 13.ª DP e soltou um sonoro e afeminadíssimo “Aiiiiii, olhaaaaaaaa, é o Ja Rule, é o Ja Ruleeeeeeee!” (referindo-se ao rapper que faz parte do elenco do filme). Não pude evitar cair na gargalhada na hora do ocorrido, mas depois me senti tão deprimido e arrasado com o mundo que cheguei em casa e disse à minha mãe: “Por que a senhora me pôs no mundo? POR QUÊ???”. :-D

Juro que tenho PESADELOS com esse cara.

Enfim, o que isso tem a ver com Velozes e Furiosos: Desafio em Tóquio (The Fast and the Furious: Tokyo Drift, 2006), “esperadíssima” terceira seqüência da “cultuadésima” cinessérie que “finalmente” estréia em nossos cinemas? Muita coisa. O fato é que este filmeco-de-pitboy só existe para sanar os desejos orgasmáticos (sic) de sujeitos como o Sr. eu-amo-o-Ja-Rule, que não querem ver nada além de carangas possantes com luzes coloridas de neon e mulheres rebolativas com glândulas mamárias de 10 toneladas que só existem no mundo bizarro dos videoclipes da Beyoncé Knowles. Para este núcleo, Desafio em Tóquio certamente será o filme de suas vidas.

Para o resto do mundo – incluindo este que vos escreve, óbvio -, restará apenas uma fitinha horrorosa de tão ruim. Ah, e vai dizer que você achou que sairia algo legal daqui?

Pra começar, ninguém entendeu por qual razão Velozes e Furiosos ganhou não só uma, mas duas seqüências. O primeiro filme, datado de 2001, até que era quase regular (veja bem, quase regular não é BOM, é algo entre regular e ruim), ainda que traga uma história 100% plagiada baseada no bacana Caçadores de Emoção, aquele da gangue de surfistas assaltantes. Eu diria que é quase um remake, na verdade. O segundo longa já passou do estágio divertidinho e esquecível para o estágio equivocado e desnecessário, com uma traminha chula que só serviu para provar ao mundo o quanto Paul Walker é pavoroso como ator. Na boa, Paul Walker é um ATENTADO! Este terceiro praticamente não tem enredo; é somente e tão somente uma desculpa esfarrapada para mostrar veículos incrementados e perseguições ditas “espetaculares”. Deixando os automóveis de lado, não sobra história, não sobra direção, não sobra nada.

Acha que estou exagerando? Então vamos ao sub-enredo: fascinado por carros e com uma quedinha por rachas, Sean Boswell (Lucas Black) vive se enfiando em enrascadas por conta disso. O cara já começa o filme se metendo em uma encrenca das brabas ao disputar uma corridinha com um filhinho-de-papai, e o resultado do racha pode colocá-lo no xilindró por um bom tempo. Para evitar que o rapazola seja engradado, sua mãe – por sinal, o cúmulo do estereótipo de “mãe relaxada ianque”, com direito a cigarrinho no canto da boca, maquiagem de várzea e casaquinho de oncinha… – decide despachá-lo para morar com o pai militar em Tóquio, Japão. Ô castiguinho ruim, não? Se fosse MINHA mãe, me despachava para Israel sem pensar duas vezes. :-P

Voltando: chegando lá na terra do Sol Nascente, Sean rapidamente faz amizade com um americano, o contrabandista Twinkie (Bow Wow – sim, mais um maldito rapper no cinema…), que por uma enoooorme coincidência é infiltrado no submundo dos rachas e dos carros turbinados da cidade; assim, Sean envolve-se num pega-pra-capá com o poderoso D.K. (Brian Tee), mestre do drifting e ninguém menos que o sobrinho do chefão da facção Yakuza, Kamata (Sonny Chiba, o nosso amigo Hattori Hanzo). Pra piorar, flerta com a australiana Neela (a estreante peruana Nathalie Kelley), protegida do meliante. Ou seja: confusão na certa. E partir daí, nem preciso dizer mais nada. Você já sabe como termina o rolo todo.

Agora, me responda uma coisa: analisando o plot acima, quantos clichês você consegue imaginar? Uma cacetada, não é? Pois bem, TODOS os clichês deste tipo de filme estão aqui. Todos. Exemplos: quando o casalzinho formado por Sean e Neela resolve passear pra namorar em uma mítica estrada – cena, aliás, que carrega o batidíssimo momento-reflexão-dos-protagonistas no estilo venho aqui para pensar na minha vida e esta estrada me lembra minha infância (!) -, fica nítido que, mais tarde, esta mesma estrada servirá de palco para a corrida mais importante do filme; e quando o pai de Sean aparece em cena tentando dar um trato em uma lata-velha, fica óbvio que a “turminha do bem” conseguirá transformar esta lata-velha no carro mais foodeedaço da fita em tempo recorde e que o carrão será usado pelo mocinho para derrotar enfrentar seu perigoso oponente.

E não é só isso. Leve em consideração que estamos falando de um longa-metragem norte-americano ambientado no Japão. Logo, todos os clichês de filme dos EUA no Japão estão lá. Temos o velhinho babão e bizarro que aparece com a boca cheia de macarrão pendurado para dar um tchauzinho, temos os figurantes que aparecem filmando as corridas com seus celulares, temos o glorioso Japa com cabelo colorido (sempre tem um)… Até mesmo a questão da Yakuza é de se pensar: por que raios todo longa estadunidense ambientado no Japão precisa dar um jeitinho de incluir a máfia nipônica na história? Céus! Quem souber a resposta, por favor aproveite e me responda por qual razão todo filme gringo passado no Brasil precisa obrigatoriamente ter índios ou mulatas sambando. :-P

Tá, até então, ter zilhões de clichês e estereótipos estourados não é sinônimo de um péssimo trabalho, conforme aprendemos aqui. O caso é que os clichês de Desafio em Tóquio estão longe de representar os grandes problemas da película. O fraco roteiro de Chris Morgan (por incrível que pareça, o mesmo do ótimo Celular – Um Grito de Socorro), recheadíssimo de diálogos toscos e infantilóides, é uma boa amostra – é de ferrar ter que ouvir um personagem qualquer dizendo coisas do tipo “a vida é simples, basta você fazer as escolhas certas”. Ugh! A pseudo-direção de Justin Lin (Annapolis) também não ajuda em nada. E o elenco é um capítulo à parte: enquanto Lucas Black consegue ser tão apavorante quanto seu antecessor Paul Walker, o elemento que interpreta o vilão, Brian Tee, dá náuseas só de aparecer em cena. Sério, a concepção de “vilania” do cara é direcionar o rosto pra baixo e o olhar pra cima, e só! Ele fica assim o tempo inteiro, parece até que tá com torcicolo! Afe!

E as cenas de corrida? Bem, elas não são tão bem filmadas assim. Na verdade, parece que o diretor Justin Lin acredita que basta tremer um pouquinho a câmera para se ter uma boa seqüência de perseguição. Num saldo geral, as corridas até são legaizinhas, mas iguais a tantas outras que vemos por aí. O único momento realmente bacana no sentido estético é quando, em um pega-pega em plena cidade, os pilotos são surpreendidos por uma rua lotada de civis por todos os lados – mas também não é nada espetacular; corrida de carros por corrida de carros, John Frankenheimer e Peter Yates fizeram muito melhor em seus respectivos filmes, os maravilhosos Ronin e Bullitt, e olhe que nem precisaram de orçamentos inflados e câmeras com mal de Parkinson para fazer a platéia sentir uma vertigem do cacete.

Pra resumir a questão, Desafio em Tóquio consegue ser tão trágico quanto os outros longas da franquia, com o adendo de que este aqui nem história tem pra contar; o sub-enredo é apenas desculpa para mostrar uma pá de carrões hiper-ultra-mega-turbinados fazendo acrobacias pra lá e pra cá. Não que isto importe muito, já que só vai gastar dinheiro para assistir a ISTO os pitboys fanzoquinhas de carros tunados. Estes com certeza assistirão a fita até mais de uma vez. Se bem que até eu assistiria de novo, mas só se o Sr. eu-amo-o-Ja-Rule estivesse presente na sessão. Eu daria uma perna pra ver o cara tendo chiliques a cada cena. Imagine só: “Aiiiiii, olhaaaaaaaa, é o Bow Wow, é o Bow Woooooooow!”.

Eu devo ter cometido algum pecado GRAVE, não é possível.

CURIOSIDADES:

• Para quem não sabe, drifting é uma manobra automobilística que consiste em derrapar sem perder o controle do veículo. Ou algo assim. Não que eu me importe, mas…

• Se você olhou a carinha feliz do protagonista Lucas Black e teve a sensação de tê-lo visto em algum lugar, não se desespere. É que o ator ficou conhecido dos nerds ao viver, num passado não muito distante, o garoto que caiu no buraco e tornou-se a primeira vítima da gosma alienígena no longa-metragem do Arquivo X; Black também atuou no papel central de Loucos do Alabama, a consagrada estréia de Antonio Banderas na direção.

• Não me pergunte quais são os modelos de carros que aparecem em Desafio em Tóquio. Aparecem muitos, é verdade, mas como diria a Srta.Ni em seu momento-E-O-Vento-Levou: “francamente, meu querido… eu não dou a mínima”. :-P

• Sim sim sim, Vin Diesel dá as caras no filme. Não não não, ele não salva o filme. Sim sim sim, sua participação é inexplicavelmente tosca. Sim sim sim, ele só aparece para soltar meia dúzia de frases vergonhosas e para tentar criar um elo com o resto da franquia, justificando assim o uso do título Velozes e Furiosos. Não não não, você não perdeu nada.

THE FAST AND THE FURIOUS: TOKYO DRIFT • EUA • 2006
Direção de Justin Lin • Roteiro de Chris Morgan
Elenco: Lucas Black, Bow Wow, Nathalie Kelley, Brian Tee, Sung Kang, Leonardo Nam, Brian Goodman, JJ Sonny Chiba, Zachery Brya.
104 min. • Distribuição: Paramount Pictures.

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