Crash – No Limite

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 28/10/2005.

Crash - No Limite

É inacreditável como tem gente que realmente nasce para aquilo que faz. Fiz esta observação há alguns dias atrás, numa conversa com o pessoal d’A ARCA, ao falar de Brian Michael Bendis, autor da HQ Alias (um dos raros quadrinhos que li). É também o que penso sobre Damien Rice, músico bizarro cuja discografia me destrói por dentro. Sobre David Fincher, então, nem preciso falar – quem visita este site com freqüência sabe que sou um dos fãs mais doentes do cineasta. Enfim, não consigo imaginar estes três fazendo outra coisa além do que fazem naturalmente. E com maestria, diga-se de passagem.

O drama independente Crash – No Limite (Crash, 2005), que finalmente chega às telas brazucas depois de uma carreira de sucesso lá fora, inclui mais um nome nesta categoria: Paul Haggis. O diretor-roteirista canadense ganhou a atenção da crítica depois de assinar o excelente script do já clássico Menina de Ouro, um dos melhores filmes de toda a carreira de Clint Eastwood. E com Crash, que escreve e também dirige, prova definitivamente que não só merece todo o respeito que adquiriu com o trabalho anterior, como tem tudo para figurar na lista dos grandes roteiristas do cinema americano atual.

O que acontece é que, nas mãos de outras pessoas, a(s) história(s) de Crash tinha(m) tudo para transformar-se num folhetim novelesco amontoado de clichês. Haggis, que demonstrou em Menina de Ouro um talento sutil e fora do comum para lidar com questões polêmicas, comanda aqui um enredo complexo e espinhudo sem perder a mão em momento algum. E o que é melhor: sem tomar partido de ninguém. Se Crash é o ótimo filme que é, e se tem o poder de martelar na memória do público por um bom tempo, o mérito é exclusivamente de Haggis. Difícil aceitar que o cineasta, num passado não muito distante, criou o bisonho seriado Walker Texas Ranger (sim, aquele do Chuck Norris)… :-P

A partir de um pequeno acidente de carro (e da descoberta de um corpo nas proximidades do local do acidente), o longa acompanha uma infinidade de personagens em histórias paralelas que, ao melhor estilo Magnólia, acabarão colidindo mais cedo ou mais tarde. O foco, entretanto, é outro: enquanto a maravilhosa fita de Paul Thomas Anderson explora a incapacidade de comunicação, aqui discute-se o racismo. Afinal, estamos em Los Angeles, lugar característico por sua miscelânea de etnias. Brancos, negros, latinos, chineses, árabes… todos compartilham o mesmo espaço – o que dá uma margem enorme para conflitos de convivência que podem manifestar-se de maneira violenta. Não é preciso dizer que as pequenas tramas delineadas por Crash se entrelaçarão a custo de muito suor, sofrimento, lágrimas e, em alguns casos, sangue.

Assim, temos: um detetive negro (Don Cheadle) que alimenta um caso com sua parceira latina (Jennifer Esposito, de Taxi), mas prefere não mergulhar de cabeça para evitar problemas; um promotor branco (Brendan Fraser) que, às vésperas de uma candidatura política, não consegue conter o pânico e a arrogância de sua esposa (Sandra Bullock); um policial novato (Ryan Phillippe) com dificuldade em disfarçar o incômodo ao ter que trabalhar com seu parceiro (Matt Dillon), um veterano carrancudo e racista até o último fio de cabelo; um diretor de TV afro-americano (Terrence Howard, de Quatro Irmãos) e sua esposa (Thandie Newton), cujo casamento não anda lá muito bem das pernas; e dois ladrões de carros (Larenz Tate, de Ray, e o rapper Chris “Ludacris” Bridges) que acreditam que seu perdão vêm do fato de nunca assaltar negros.

As vidas destes habitantes começam a se cruzar quando os ladrões de carros roubam o Lincoln Navigator de Rick Cabot, o promotor; o incidente traumatiza Jean, a esposa, mas Rick está mais preocupado com o andamento de um caso de assassinato de um suposto detetive corrupto, investigado por George, o detetive negro; Cameron, o diretor de TV, vê seu casamento afundar quando é interceptado pela polícia em seu Lincoln Navigator (idêntico ao do promotor) e presencia, impotente, sua esposa Christine ser molestada e humilhada durante uma revista policial pelas mãos do policial Ryan, o racista; Hanson, o novato, pede para trocar de parceiro mas esbarra na indiferença de seu superior; enquanto isto, a falta de confiança na polícia faz com que um comerciante persa (o inglês Shaun Toub, do ótimo Terra da Fartura) sinta-se na obrigação de adquirir um revólver.

No meio disto tudo, o honesto chaveiro mexicano Daniel (o ótimo Michael Peña, de Menina de Ouro) faz o impossível para tentar proteger sua filhinha de cinco anos da violência e do caos que impera na cidade.

Duas coisas tornam Crash uma experiência singular: a primeira delas é a direção de atores. Desde já, a fita constitui um milagre por arrancar ótimas interpretações de atores canastras como Ryan Phillippe (O Terceiro Olho), Matt Dillon (do novo Herbie) e Thandie Newton (M:I-2). Não me arrisco a discutir o talento de Brendan Fraser, pois o ator já provou com o fantástico Deuses e Monstros que pode ser competente quando bem dirigido (embora não faça muito aqui). Mas o diretor realmente precisa ser fera para extrair uma atuação convincente da bonitinha-mas-péssima Sandra Bullock (o ódio se deve a isto). Alguém canoniza este cara! :-D O restante do elenco é igualmente dedicado, com destaque, óbvio, para Don Cheadle, indiscutivelmente um dos grandes atores da atualidade – o quê? Você ainda não viu Hotel Ruanda? Sacrilégio!

O outro ponto favorável da produção diz respeito à cautelosa construção dos personagens e os excelentes diálogos do script. Incrível como está tudo no lugar, como cada personagem é fundamental à trama e como cada frase tem um sentido. Certamente, Paul Haggis e seu co-roteirista Bobby Moresco (Millennium) devem ter trabalhado muito no texto, raciocinado cada linha com o máximo de cuidado para não cair na armadilha de tomar partido de qualquer um dos lados. Sem dúvidas, o melhor roteiro do ano.

O mais importante, contudo, não é a forma com que as tramas são contadas, e sim como elas são construídas. A princípio, somos apresentados aos personagens de forma bem direta. Em suas primeiras cenas, todos surgem manifestando uma forma qualquer de racismo. E quando digo “todos”, digo “todos” mesmo, não só os brancos: há o latino que odeia chineses, os chineses que odeiam árabes, os árabes que odeiam brancos, e por aí vai. Assim, o espectador já tem uma idéia de “mocinho e bandido”, e automaticante simpatiza com alguns personagens da mesma forma que passa a detestar outros.

Aí é que está: no desenrolar de Crash, percebemos que não existe um “vilão”. Embora NADA justifique nenhuma espécie de atitude racista, seja contra quem for, entendemos que cada um tem seus motivos para agir da maneira que agem à medida que nos aprofundamos nos personagens e conhecemos seus traumas. Aos poucos, uma série de tensas e aterrorizantes seqüências entregam que as reações de cada um não têm nada a ver com raça, e sim com CARÁTER – aliás, alerto que muitos ficarão com um terrível nó na garganta em dados momentos. Crash dá um tremendo tapa na cara do espectador ao mostrar que ninguém tem o direito de julgar ninguém, pois somos todos humanos, logo, passíveis de erros. E as pessoas não erram por que estão tentando acertar? Como diz um dos personagens: “Acho que sentimos tanta falta de toque que colidimos uns nos outros só para sentir alguma coisa”.

Ao final, assim como Magnólia, Crash até oferece uma chance de redenção às vidas retratadas. Alguns aproveitam, outros não. Mas de nada adianta, pois a cena que fecha a fita deixa bem claro que o problema não será sanado assim tão fácil. Pelo menos Paul Haggis fez sua parte esfregando isto na nossa cara – e entregando um pusta dum senhor filmão como conseqüência. É inacreditável como tem gente que realmente nasce para aquilo que faz. :-)

CURIOSIDADES:

• Quando Ryan Phillippe assinou contrato para viver o atormentado policial Hanson, ele atropelou Heath Ledger (a melhor coisa de Irmãos Grimm), que queria o papel mas estava indeciso por ter vivido um personagem parecido em A Última Ceia, aquele que deu o Oscar à “ótima” Halle Berry. E o “ótima” foi irônico, caso alguém não tenha entendido. ;-)

• O papel de Terrence Howard, o diretor de TV, seria interpretado pelo excelente Forest Whitaker (do bacaníssimo Ghost Dog), que não pôde assinar contrato por estar envolvido nas filmagens do sem-graça A Filha do Presidente.

• Segundo consta, Sandra Bullock ficou tão chocada ao ler o script de Crash que, numa atitude desesperada para fazer parte do elenco, pagou sua ida aos sets de filmagem na Califórnia do próprio bolso. Para Paul Haggis, a escalação de Bullock foi uma forma de desculpar-se com a atriz por tê-la rejeitado para o papel de Maggie Fitzgerald em Menina de Ouro. Ele fez isso pelo nosso bem.

• A residência de Paul Haggis foi usada como locação para as cenas passadas na casa dos Cabot.

Crash custou aproximadamente US$ 6,5 milhões, e já rendeu mais de US$ 55 milhões desde seu lançamento nos cinemas gringos, uma marca ótima para uma fita independente.

• Em Crash, há uma ponta de ninguém menos que Arnold Schwarzenegger, o Mr. Freeze preferido da molecada (!). Mas o indivíduo não aparece como ator, e sim como político: há uma foto do governador na parede do escritório do promotor Rick Cabot, personagem de Brendan Fraser. Ainda bem que é só uma fotografia. Assim, ele não corre o risco de nos brindar com seus ilimitadíssimos talentos interpretativos. :-D

CRASH • EUA/ALE • 2005
Direção de Paul Haggis • Roteiro de Paul Haggis e Bobby Moresco
Elenco: Sandra Bullock, Don Cheadle, Matt Dillon, Jennifer Esposito, William Fichtner, Brendan Fraser, Terrence Howard, Chris “Ludacris” Bridges, Thandie Newton, Michael Peña, Ryan Phillipe, Larenz Tate, Keith David, Loretta Devine, Tony Danza.
113 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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