O Grito

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 13/01/2005.

O Grito (The Grudge)

De certa forma, eu não era o cara mais indicado pra escrever sobre este filme. Primeiro, porque sou uma pessoa que simplesmente detesta remakes. Não consigo entender a necessidade que os americanos têm de querer refazer aquilo que já foi feito, e de maneira bem competente, por algum outro país. Seria inveja? Bem, não sei. Só sei que tenho uma aversão ferrada a refilmagens. Até mesmo porque, geralmente, os caras conseguem mesmo é estragar aquilo que era bom – vocês já assistiram ao Psicose do Gus Van Sant? Aquilo é pavoroso! Enfim, eu não era o mais indicado para fazer esta matéria porque odeio remakes e também porque não sou tão fã assim da Sarah Michelle Gellar, mais conhecida de nós, os brazucas, como a gatinha-caçadora-de-vampiros-gostosa Buffy. Então já viu: chegue para um cara que odeia a Buffy e remakes, e faça-o assistir a um remake estrelado pela Buffy. Que maravilha…

Então lá vou eu assistir a O Grito (The Grudge, 2004), refilmagem americana (claro!) de um longa de horror japonês – agora é moda, né… – chamado Ju-On, dirigido pelo também japonês Takashi Shimizu. E já comecei a xingar logo na entrada: pô, que raio de título é esse que o pessoal aqui do Brasil me coloca no filme, já que a tradução literal do termo grudge é rancor, mágoa? Coisas de nossa querido país. Fora que a menina com o cabelo no rosto e aquele olho macabro saltado pra fora lembrou muito O Chamado, por sinal também uma refilmagem. Mas pensei também nos pontos favoráveis da produção: a história não se passa nos States, e tanto o diretor do remake quanto boa parte de sua equipe técnica também fizeram parte da equipe original. Entrei na sala sem medo de ser feliz. E não é que O Grito é um longa-metragem até bacana? Aliás, bem acima da média! Bem, quando a primeira cena de um filme é um dos atores centrais cometendo suicídio, dá pra dar uma liberada, né? :-)

O tal suicídio em questão – que não vou revelar de quem é, pois não sou estraga-prazeres – é deixado um pouco de lado em seguida para que o roteiro centre as atenções (por enquanto) em Karen Davis (Sarah Michelle Gellar), estudante norte-americana em regime de intercâmbio no Japão. A menina namora um cara bacana chamado Doug (Jason Behr, o Max do divertido seriado Roswell) e trabalha num serviço de assistência social. Num certo dia, Karen é enviada por seu supervisor Alex (Ted Raimi… irmão de Sam Raimi!) para uma casa qualquer na periferia de Tóquio, onde ela deverá substituir uma garota que não apareceu para trabalhar. O serviço: cuidar de uma velha senhora doente (Grace Zabriskie, a mãe da Laura Palmer em Twin Peaks – praticamente uma irmã gêmea da Ellen Burstyn no clássico Réquiem para um Sonho).

Assim que dá as caras na casa, Karen percebe que há algo errado. O lugar, que a senhora divide com o filho Matthew (William Mapother, de Minority Report: A Nova Lei) e a nora Jennifer (a ótima e quase sempre desperdiçada Clea DuVall, de Identidade), está uma zona e não se sabe onde os dois, filho e nora, possam estar. A velha senhora não diz uma palavra, e mantém seus olhos assustadoramente abertos e paralisados. E um barulho estranho assola a parte de cima do pequeno sobrado. Quando Karen resolve subir as escadas e conferir o que está acontecendo… acontece um negócio que eu não vou contar! E aos poucos, uma maldição causada por um espírito rancoroso e vingativo domina e mata qualquer um que ouse colocar os pés na casa. Mas por quê? Como assim? Cabe à nossa heroína resolver o mistério, que pode (ou não) estar ligado a um professor chamado Peter Kirk (o sempre competente Bill Pullman).

Vamos direto ao ponto: O Grito não é um filme que cause medo. Tampouco é uma produção que vá mudar a vida das pessoas. Nossa, bem longe disso. Mas é divertido pacas! É extremamente eficiente e bem-sucedido naquilo que se propõe: dar sustos. Cortesia do ótimo e envolvente clima criado pelo diretor Takashi Shimizu, que deixa a molecada tensa numa boa. Além disso, Shimizu teve a boa sacada de contar sua história de uma maneira diferente, indo e voltando no tempo a toda hora, sem seguir uma ordem cronológica mas não confundindo o público em momento algum. Então prepare-se para ver cenas interrompidas de repente, dando lugar a outras seqüências que podem parecer desconexas a princípio. Isso acontece o tempo todo em O Grito. Vamos ver: dá sustos, deixa tenso… Tá, é tudo que um bom filme de terror deve cumprir, certo?

Quanto às interpretações… ah, não é um filme de atores. É apenas uma diversão rasteira, um filme para se ver numa noitada de terror, levar uns sustos e sair da sala com aquela sensação de dinheiro bem gasto. Então, sendo assim, a gente perdoa o talento (ops, a falta dele) de Sarah Michelle Gellar. E quem se importa? Alguém realmente esperou um drama shakesperiano digno de Oscar aqui? Pois é, vá ao cinema, divirta-se adoidado e depois vá comer uma pizza – manda ver na de sabor muzzarella mesmo, que é a mais baratinha.

Se eu perdi meu ódio por remakes? Hmmm… Não. Mas toda regra tem sua exceção, não é? E sim, a tradução do título foi uma tremenda bola-fora. Afinal, não tem grito nenhum no filme (só um barulho parecido com um arroto…). Aliás, o único grito que teve na sala de exibição foi o de um entusiasta nerd na fila de trás que bradou, revoltado: “Será que ninguém nesse filme anda acompanhado? Fica todo mundo andando sozinho pelos cantos, e quando morre, ainda reclama!”. E não é que é algo a se pensar? :-D

CURIOSIDADES:

O Grito é uma refilmagem do longa de horror Ju-On: The Grudge, de 2003. O filme original, lançado no ano passado nos States, rendeu em pouco mais de duas semanas sete vezes mais o que custou, só na terrinha do Tio Sam! Ju-On ganhou uma seqüência no mesmo ano. O que poucos sabem é que Ju-On: The Grudge é a terceira parte de uma franquia muito bem sucedida no Japão, que se iniciou com duas fitas lançadas direto em vídeo: Ju-On e Ju-On 2, de 2000.

• Os produtores de O Grito optaram por utilizar os mesmos cenários já usados em Ju-On: The Grudge na produção deste novo filme. Segundo eles, não foi uma questão de economia, mas sim de manter os dois trabalhos basicamente iguais, só separando as platéias: um dos longas é voltado ao público americano, enquanto o outro é direcionado ao público japonês. Nossa, eu queria muito saber porque os gringos não podem de jeito nenhum assistir a filmes estrelados por atores estrangeiros…

• Os três “donos japoneses” da casa amaldiçoada de O Grito são interpretados pelos mesmos atores da versão original.

• A versão americana conta com a produção executiva de Sam Raimi. Seu irmão, Ted Raimi, que interpreta o supervisor Alex, sempre atua nos filmes dirigidos e/ou escritos pelo irmão. O ator William Mapother, que interpreta o filho da senhora doente, é primo de Tom Cruise.

• Uma informação altamente inútil: o babá de Ted Raimi, quando criança, era ninguém menos que o master Bruce Campbell. Por isso que cresceu com aquela cara de louco…

O Grito foi uma das grandes (e gratas) surpresas do ano passado, rendendo absurdos US$ 39 milhões em seus três primeiros dias de exibição, quase quatro vezes mais o que custou.

THE GRUDGE • EUA/JAP • 2004
Direção de Takashi Shimizu • Roteiro de Stephen Susco
Baseado no roteiro do longa-metragem Ju-On: The Grudge, de Takashi Shimizu
Elenco: Sarah Michelle Gellar, Jason Behr, Clea DuVall, William Mapother, Kadee Strickland, Bill Pullman, Grace Zabriskie, Takako Fuji, Yuya Ozeki, Ted Raimi.
96 min. • Distribuição: Europa Filmes.

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2 Responses to O Grito

  1. […] se divertiram a valer com O Grito (como você pode ler na crítica da película – não leu, clica aqui e seja feliz). Tudo bem, a história é chinfrim, terror não tem nenhum e as pseudo-atuações de Sarah […]

  2. Andreia disse:

    Até que enfim que encontrei alguém que concora comigo com o nome do filme: “O ARROTO”

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