Fora de Rumo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/02/2006.

Fora de Rumo (Derailed)

Já disse em algum canto deste esplendoroso website que sou um exímio fanzoca de filmes de suspense. Sim, eu adoro! Assim, ficou muito claro para o pessoal aqui d’A ARCA que seria eu, e ninguém mais, o escolhido para falar de Fora de Rumo (Derailed, 2005), novo longa-metragem do bacaníssimo Clive Owen (aquele que deu um trato em Natalie Portman no glorioso Closer – Perto Demais). E eu seria mesmo capaz de amaldiçoar eternamente aquele que tentasse tirar esta tarefa da minha pessoa, já que a fita é co-estrelada por uma de minhas musas, Jennifer Aniston. Mas… hein? Um filme de suspense estrelado pela Rachel Green de Friends?

Parece estranho, mas não é. Muito não sabem, mas experiência fora do gênero comédia a senhorita Aniston tem de sobra. Por sinal, um de seus últimos filmes, o ótimo drama intimista Por um Sentido na Vida (onde ela tem um caso com Jake Gyllenhaal), lhe rendeu alguns importantes prêmios por aí. Portanto, vê-la num papel deste tipo não é exatamente uma novidade… mas que é esquisito, ah, isto é! E ao final, o ingresso gasto com Fora de Rumo acaba valendo mais por esta curiosidade, mesmo…

Não que Fora de Rumo seja um filmeco horroroso, embora a crítica internacional ande totalmente impiedosa com a estréia do aclamado cineasta sueco Mikael Håfström em solo gringo. É até divertido e climático. Mas possui problemas, sim – só que falaremos disso mais tarde.

Antes de qualquer coisa, o enredo: Charles Schine (Owen) é um executivo de uma empresa de publicidade, casado com a bela Deanna (Melissa George, a totosona que recentemente pagou mico em Horror em Amityville) e pai da pré-adolescente Amy (a atriz teatral Addison Timlin, novata no cinema). O casamento de Charles e Deanna visivelmente não existe mais, e ambos parecem ser unidos apenas pela desagradável condição de Amy, vítima de diabetes. Somando a esta situação seu emprego estressante e os problemas psicológicos que enfrenta com a condição da menina, concluímos que o cara está na m$#%@. :-P

Certo dia, Charles casualmente conhece num trem a sensualíssima Lucinda Harris (Aniston). Lucinda é economista, também tem uma filha e também sofre com um casamento problemático, já que o marido viaja muito a trabalho e só consegue vê-la praticamente em dias festivos. Charles e Lucinda conversam, trocam fotos de seus filhos, confidenciam suas frustrações. Pinta um clima. Tentados pela idéia de fugir um pouquinho só da rotina, decidem ir a um hotel. Uh babe. :-)

Aí é que o couro come: quando vão começar a “suadeira”, Charles e Lucinda são surpreendidos pelo perigosíssimo bandidão francês Philippe LaRoche (Vincent Cassel, Irreversível), que não só rouba todos os pertences do casal adúltero como ainda espanca Charles e estupra Lucinda. Traumatizados e temendo a possibilidade de ver suas vidinhas destruídas, decidem não dar queixa e tentar esquecer tudo. Mas o inferno astral de Charles não está nem começando: ele passa a ser perseguido por LaRoche, que exige uma “pequena contribuição” de dez mil doletinhas em troca de seu silêncio. Ou Charles paga ou o bandido abre o bico. Aos poucos, o francês invade o cotidiano do executivo, e seu preço fica mais caro, assim como as ameaças tornam-se mais violentas…

E pronto! Não conto mais nada, para não estragar. Sim, há uma reviravolta surpresa em Fora de Rumo. Entetanto, se eu contasse aqui, não faria diferença alguma; e é justamente aí que reside a big-falha do roteiro de Stuart Beattie, o mesmo indivíduo responsável pelo fabuloso script de Colateral. O causo é que a história de Fora de Rumo é tão clichêzenta e tão previsível que qualquer fã de suspense mata as charadas do longa só de ler seu resumo. Sério! Se você prestar bastante atenção na sinopse, ela por si só entrega os rumos do enredo e aquilo que deveria ser o fator-surpresa.

Outro elemento negativo é a fraca direção de atores: o cast central até que dá conta do recado, principalmente Clive Owen, que praticamente é o centro da história e mostra que pode carregar um filme nas costas sem reclamar. Quanto a Jennifer Aniston… bem, ela não fica pelada – o que é ODIOSO! Hehehe -, mas é muito bacana saber que a atriz tem potencial para se arriscar em diversos gêneros, caso seja bem-dirigida.

O problema mesmo vem do núcleo secundário, que é bem fraquinho (Vincent Cassel, por exemplo, exagera um pouco na caricatura), destacando-se aí a insuportável presença do rapper RZA, como Winston, colega de trabalho de Charles. Meu, o cara é péssimo! Alguém precisa avisá-lo que ele não está num palco “cantando” suas “músicas”! Eu só queria saber quem é o responsável por esta mania dos estadunidenses de colocar rappers para atuar… afe.

Ainda assim, Fora de Rumo tem lá seus pontos favoráveis. A trama, mesmo previsível até a alma, é divertida e mantém o interesse do público (embora o início da fita, mais exatamente seus 20 minutos iniciais, seja altamente desinteressante e não prenda a atenção). E aos distraídos de plantão, peço desde já que preparem-se para UM PUSTA DE UM SENHOR SUSTO que acontece durante a projeção! Se o som da sala de projeção estiver no talo, então, certamente você ficará como eu, com o chifre grudado lá no teto e o coração tentando saltar pela boca. :-D Olha, só este susto já vale a ida ao cinema, até mesmo porque ela culmina com um favor à humanidade – que eu não contarei, claro.

Enfim, mesmo não sendo um fantástico exemplar do cinema de suspense (aliás, não chega nem perto), Fora de Rumo não é tão pavoroso quanto dizem por aí. É apenas uma produção descartável que não machuca e até vale a pena se você enfrentar uma sessão sem esperar muito. E serve para provar três coisas: a) o Clive Owen realmente manda muito bem, b) a Jennifer Aniston não é somente a Rachel Green, embora precise urgentemente escolher projetos mais contundentes ou trocar de agente, e c) o Vincent Cassel é um dos caras mais manés do mundo do cinema. Pô, além de o cara catar e encoleirar a tentação Monica Bellucci, ele ainda invade o quarto bem na hora que a Jennifer Aniston se preparava para arrancar suas vestimentas! Maldito bastardo. :-D

CURIOSIDADES:

• O cineasta sueco Mikael Håfström é muito popular em sua terra natal, tendo assinado elogiadas produções para a TV e para o cinema. Seu filme mais conhecido é o ótimo Raízes do Mal, que fez relativo sucesso no circuito alternativo em SP e já existe em DVD por aqui. Raízes do Mal, que conta a história de um garoto rebelde que enfrenta o autoritário código de ética de uma escola particular, concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2004, perdendo para o excelente As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand.

• Poucos sabem, mas Vincent Cassel dublou o suspeitíssimo senhor Robin Hood em Shrek. O ator também é o protagonista de um dos longas mais violentos e fascinantes dos últimos anos, o francês O Ódio (1995), dirigido por ninguém menos que Mathieu Kassovitz, o Nino de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

• O rapper RZA, que corresponde a uma das coisas mais tenebrosas de Fora de Rumo, é amigo pessoal de ninguém menos que Quentin Tarantino e assinou as poucas faixas da trilha incidental do clássico Kill Bill: Vol. 1.

• Há um erro engraçadíssimo de continuidade em Fora de Rumo: em certa seqüência, o vidro lateral de um carro é destruído. Em seguida, o mesmo aparece intacto…

DERAILED • EUA • 2005
Direção de Mikael Håfström • Roteiro de Stuart Beattie
Baseado no romance Derailed, de James Siegel
Elenco: Clive Owen, Jennifer Aniston, Vincent Cassel, Melissa George, Giancarlo Esposito, Xzibit e RZA.
107 min. • Distribuição: Miramax.

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