Em Boa Companhia

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 09/07/2005.

Em Boa Companhia (In Good Company)

É estranho assistir à comédia dramática Em Boa Companhia (In Good Company, 2004) e lembrar que seus diretores, os irmãos Paul Weitz e Chris Weitz, debutaram na indústria cinematográfica com aquilo que atende pelo nome de American Pie – A Primeira Vez é Inesquecível (1999). Convenhamos: é inegável que a franquia adolescente fez um enorme sucesso nos States, mas o troço é tão vulgar e sem graça que chega a doer a alma! E ninguém poderia imaginar que os “gênios” criadores de American Pie seriam dotados de tal sensibilidade a ponto de comandar trabalhos tão sutis quanto o ótimo Um Grande Garoto (2002), inspirado no excelente romance de Nick Hornby, e agora este Em Boa Companhia. O caso de Um Grande Garoto não pode ser levado em consideração, já que os Weitz assumiram o projeto praticamente pronto. Mas Em Boa Companhia é uma criação deles.

Não que esta nova produção estrelada por um incrivelmente envelhecido Dennis Quaid (O Dia Depois de Amanhã) seja tão excepcionalmente marcante assim. Diria até que a fita decepciona um pouco em comparação ao seu ótimo enredo. Mas é louvável e deve ser levado em consideração que os irmãos Weitz amadureceram bastante. Digo numa boa que, a meu ver, os cineastas estão no caminho certo e, independente de ter de certa forma desperdiçado um material bacana, não precisam mais provar que são muito mais do que aquilo que mostraram com as grotescas situações vividas pela turminha de Jason Biggs – e é neste momento que os fãs de American Pie começam a surtar e enviam dezenas de mensagens “malcriadas” para o meu mailbox! :-)

Ok, então vamos ao que interessa, que é a crítica deste que vos fala para Em Boa Companhia, novo trabalho de Paul e Chris Weitz que, assim como os notórios Irmãos Coen, revezam-se no roteiro, na produção e na direção. Antes de continuar, dois esclarecimentos: a) se você, a meu exemplo, decidir enfrentar a sessão apenas por causa do nominho lindo da senhorita Scarlett Johansson estampado no cartaz, você poderá se decepcionar, como explicarei mais tarde, e b) se você ficou tentado pela sinopse divulgada pelo estúdio, que vende a fita como “uma análise profunda, satírica e lírica dos conglomerados corporativos”, esquece. O tratamento dado ao cotidiano das grandes corporações de mídia americanas é o mais superficial possível. Só o que temos aqui é um drama “bonitinho e nada mais” sobre dois antagonistas que estranham-se a princípio e, mais pra frente, descobrem que precisam um do outro para levar as coisas e tornam-se fundamentais na vida de cada um.

Um destes antagonistas é Dan Foreman (Dennis Quaid), chefe de vendas publicitárias de uma revista chamada Sports America. Prestes a completar 52 anos de idade, Foreman não está vivendo o melhor dia de sua vida, por três pequenos motivos: sua esposa (a bela Marg Helgenberger, de C.S.I.) descobre estar grávida, e num momento não muito bom financeiramente para a família; sua filha mais velha, Alex (Johansson), recebe a notícia de sua admissão na conceituada Universidade de Nova York, o que aumentará ainda mais os gastos; e Dan acaba de ser rebaixado e pode até perder o emprego, pois a revista de esportes foi comprada pela esmagadora e impiedosa multinacional Globecom. Embora estas três “agradáveis” notícias caiam sobre Dan com o peso de uma bigorna, o simpático executivo tenta levar tudo numa boa, pois acredita em seu potencial e sabe que, assim como fez com todos os obstáculos que enfrentou na vida, saberá lidar com a(s) situação(ões) sem maiores traumas. O que não o impede de alimentar uma declarada repulsa ao seu novo chefe, aquele que ocupou seu cargo…

O outro lado do ringue é ocupado por Carter Duryea (Topher Grace). O jovem executivo de 26 anos parece ter acordado com o pé direito. Por ser extremamente competente no que faz e uma estrela em ascensão na empresa onde trabalha, a Globecom, Carter é designado para chefiar as vendas publicitárias da mais nova aquisição da Globecom, a revista de esportes Sports America, o que representa um salto importantíssimo em sua carreira. O fato de transformar em seu subordinado o antigo chefe da revista, cujo tempo de carreira é basicamente o seu mesmo tempo de vida (!), não chega a preocupar Carter tanto assim. O que o abala emocionalmente é saber que foi chutado por sua esposa Kimberly (Selma Blair, a amada do Hellboy), justamente por viver em função de sua profissão. Carter está sozinho, e não faz idéia do que significa a expressão “ter uma família”. Mas tudo bem, pois Carter está novamente apaixonado, e a pessoa que despertou o amor do jovem executivo chama-se Alex Foreman…

É exatamente neste ponto que Em Boa Companhia enfraquece. Embora o roteiro de Weitz acerte em centrar o longa nos embates, na convivência e na inevitável ligação de amizade entre Dan e Carter, o desenrolar das situações narradas no filme deixam um pouco a desejar. Boa parte da culpa recai sobre a insistência em incluir um romancezinho desnecessário no meio da película. É só pra isso que serve aqui a personagem bastante mal-desenvolvida de Scarlett Johansson: ela não faz nada além de ser apenas o “interesse romântico” de Carter Duryea, o que é um desperdício total do ilimitado talento da atriz. Como se não bastasse, os momentos entre os dois é bastante prejudicado pelos diálogos bobos e pela falta de química entre os dois atores. O romance entre Alex e Carter poderia simplesmente não existir, que não faria diferença alguma. :-)

A verdadeira força do longa-metragem está mesmo na quimícia bacana entre Dennis Quaid e Topher Grace. Enquanto o primeiro demonstra sua competência habitual num papel até incomum em sua carreira, Grace não chega a entregar um “show de interpretação”, mas segura as pontas numa boa e mostra que pode muito bem interpretar bons personagens sem render-se aos tiques de seu Eric Forman no hilário seriado That’s 70’s Show – coisa que seu colega de trabalho Ashton Kutcher não seria capaz de fazer de forma alguma. :-P Enfim, os dilemas morais dos dois personagens rendem ótimos momentos e mantém o interesse do espectador preso durante a fita inteira, embora o roteiro insista em entregar-se a alguns velhos clichês, como o chefe direto de Carter, um maligno e puxa-saco executivo sem-coração da Globecom.

Não que estes clichês sejam exatamente um problema. Em Boa Companhia é um trabalho bonitinho, divertido, bastante emotivo em certos momentos, dono de uma ótima trilha sonora composta por Stephen Trask e canções belíssimas de David Byrne (marcando presença com Glass, Concrete and Stone, que abre o filme), Damien Rice (autor da ótima Cannonball) e da “banda de um homem só” Iron & Wine (que encerra a fita com a depressiva The Trapeze Swinger). Acima de tudo, a prova de que certos diretores não podem ser julgados por seu passado trágico – a não ser, claro, quando este diretor é um certo Tim Story… Mas Em Boa Companhia deve ser visto como o que é: apenas uma produçãozinha água-com-açúcar, para se assistir sem muitas pretensões, só para dar uma aliviadinha nos zilhões de blockbusters espalhados pelas salas de cinema. :-)

CURIOSIDADES:

• O lendário Malcolm McDowell, astro do controverso Laranja Mecânica, faz uma pontinha interessante e muito macabra aqui, como o temido dono da Globecom.

• O papel de Carter Duryea seria originalmente interpretado por Ashton Kutcher. O “ator” desligou-se do projeto e não quis comentar sobre o assunto, enquanto o estúdio simplesmente limitou-se a alegar “diferenças criativas”. Pois eu acho que o cara foi é demitido, isso sim! Alguém aí duvida que Kutcher faria o papel de Kelso pela milionésima vez?

• Topher Grace assumiu o papel depois de convencer os produtores que era a pessoa certa para interpretá-lo, pois a profissão de Carter Duryea é exatamente a profissão de seu pai. Se não fosse ele, seria Danny Masterson (o Hyde) ou Vilmer Valderrama (o Fez), já que uma cláusula contratual do longa previa que o papel deveria ser interpretado por qualquer ator de That’s 70’s Show, como forma de promover a série… Que coisa, não?

• As fotos de Dennis Quaid pregadas na geladeira do dormitório de Scarlett Johansson são fotogramas de outro longa protagonizado pelo ator, O Vôo da Fênix.

• Os spots de TV de Em Boa Companhia utilizam canções do Franz Ferdinand.

IN GOOD COMPANY • EUA • 2005
Direção de Paul Weitz • Roteiro de Paul Weitz
Elenco: Dennis Quaid, Topher Grace, Scarlett Johansson, Marg Helgenberger, David Paymer, Selma Blair, Philip Baker Hall.
109 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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