Coisa de Mulher

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 01/09/2005.

Coisa de Mulher

“Põe a sementinha no pomar da mamãe e rega gostoso.”
– Mayara

Alguém aí lembra da tagline daquela fitinha esquecível que atende pelo nome de Alien Vs. Predador? Se ninguém lembra, posso refrescar a memória dos caros usuários deste website: “Não importa quem vença, nós perdemos”. Pois é, esta frase ganha um novo significado com Coisa de Mulher (Idem, 2005), o mais recente troço nacional a explodir nas telonas do Brasil. O lance é que esta “coisa” que veio para nos atormentar é o fruto de uma disputa muito mais acirrada do que o eterno conflito entre os Aliens e os Predadores: a briga entre as majors brazucas Globo e SBT. Afinal, o filme é a primeira produção do Sistema Brasileiro de Televisão que, não contente em nos botar medo na TV, agora resolveu assombrar os cinemas.

O fato é que este horror está aí apenas para que o SBT possa competir de igual para igual com a desmoralizada Globo Filmes em mais uma área. Afinal, embora as produções da divisão cinematográfica do plim-plim estejam muito longe de ser chamadas de “boas” (à exceção de um ou outro, como Dois Filhos de Francisco), ninguém pode negar que os caras estão dominando o mercado do cinema nacional. Nada mais natural, porém, que o titio Silvio Santos, aquele do Baú, da Tele-Sena e dos CDs bizarros de historinhas, quisesse competir pau a pau mais cedo ou mais tarde. Quem perde com isto somos nós, meros humanos-espectadores-cinéfilos. Pois se a gente já sofre com a prepotência de fitas como Olga (que não passa mesmo de uma enorme novela das oito), imagine com os troços que logo sairão do bisonho canal dos folhetins mexicanos…

Isto, então, significa que Coisa de Mulher é ruim? Não. Significa que é PAVOROSO. Um horror, um furúnculo, um chute nas partes onde o Sol não bate. O pior do ano, sem pensar duas vezes. O tipo de filme que te faz querer sair da sala com 15 minutos de projeção. Só para se ter uma idéia do negócio, imaginem que eu jurei a Deus ver As Aventuras de Shark Boy & Lava Girl três vezes seguidas caso o projetor do cinema no qual eu assistia Coisa de Mulher milagrosamente pifasse e queimasse a cópia do filme – algo que não aconteceu, por sinal. E como películas ruins não param de pipocar, deduzo que até Ele me odeia! :-P

Exagero? Certamente não. Basta saber que esta pseudo-produção é dirigida por Eliana Fonseca (se você não sabe quem é, o que é absolutamente compreensível, esta é a mesma criatura que nos torturou com Eliana e o Segredo dos Golfinhos), e as estrelas principais são Evandro Mesquita (oi?) e Adriane Galisteu (oi??), com uma pequena participação de ninguém menos que a múmia televisiva Hebe Camargo (OI???), aquela cuja massa encefálica foi programada para dizer apenas “gracinha”. Aliás, uma dúvida: impressão minha ou aquela mulher foi embalsamada e ninguém sabe? :-P

Dora: “Não quero saber de pivete querendo me comer. Mulher com menino, só a mãe do menino.”
Graça: “Então adota ele. Assim, ele será um BEM-ADOTADO.”

A história (pffff…) de Coisa de Mulher é centrada em Murilo (Mesquita), escritor fracassado que aceita escrever uma coluna feminina numa revista de moda sob o pseudônimo de Cassandra. Assim, o cara muda-se para um edifício, onde vivem cinco amigas, cada uma delas representando o cúmulo do estereótipo babaca de programa de televisão: Catarina (Lucília de Assis) é a dona-de-casa insatisfeita com a esfriada no casamento; Mônica (Suzana Abranches) é a ingênua virgem que quer casar e ter dez mil filhinhos; Dora (Carmen Frenzel), que acabou de se separar e jura que não quer mais saber de homem, na verdade só quer sair por aí fornecendo mais do que xuxu na serra; Graça (Cláudia Ventura), interiorana que correu do altar, fugiu para a cidade grande e quer vencer profissionalmente – e inventa um vibrador chamado Ricardo III (?); e finalmente Mayara (Galisteu), que quer engravidar mas não consegue. Socorro.

Como todos devem imaginar, Murilo se envolverá com cada uma das moradoras do prédio, o que mudará a rotina das moçoilas e fará com que sua coluna na revistinha seja um sucesso. Mas como mentira tem perna curta, o lance todo causará muita confusão… afe. Ou seja: novelinha chumbrega com direito a piadinhas bem ao estilo A Praça é Nossa.

Bem, segundo os produtores, a proposta de Coisa de Mulher é traçar um retrato bem-humorado do universo todo particular dos gloriosos exemplares do sexo feminino. Só o que eu posso dizer é que, embora a cabeça das mulheres continue para mim tão misteriosa e aterradora quanto o gosto musical do Emílio Elfo (afe…), não há nada nesta tentativa de filme além de piadinhas chulas, vulgares e totalmente sem-graça. As piadas são tão batidas, recicladas e mal ditas que só conseguem causar constrangimento. Sério, não dá pra rir em momento algum! A não ser, claro, que alguém aí adore as coisas que são exibidas nos macabros sketchs do Zorra Total. Neste caso, será fácil gostar desta tragédia.

A culpa é do roteiro imbecil e amador escrito a dez mãos (!!!), pela própria Eliana Fonseca – alguém por favor enfie esta mulher num foguete e despache para o Sol! – e as atrizes que compõem o núcleo de habitantes do edifício (à exceção de Adriane Galisteu), que também formam o fraquíssimo grupo humorístico O Grelo Falante, um grupo realmente muito engraçado (sarcasmo mode on). O texto criado pelas cinco senhoras é composto de frases de efeito idiotas e diálogos vergonhosos, sujos e desnecessários, como se fosse lei em fitas brazucas apelar para o humor grosseiro e escatológico para fazer rir. Não é difícil ver mulheres passeando pela tela e dizendo: “Hoje eu preciso dar!”. Hm, isto não é tão pesado assim? E que tal Adriane gritando para o marido: “Eu quero isso duro, faz este pinto ficar duro, eu preciso deste pinto duro”? Como você pode ver, um nível altíssimo de classe, sutileza e inteligência nas frases. :-P

“Virgindade é assim. Trepou, se estrepou!”
– Dora

O maior barato é ler pelos veículos de imprensa os comentários das integrantes do tal Grelo Falante, afirmando que, em sua visão, o texto de Coisa de Mulher é riquíssimo. Nota-se, sim, que o roteiro é uma tentativa de mesclar o “nonsense brazuca” (leia-se: piadas com sexo) com o estilo sutil e anárquico das sitcoms americanas – tanto que, em certo momento, um personagem qualquer diz em alto e bom som que quer apenas sentar e “falar sobre o nada”! Será que elas acham que são as únicas que possuem TV a cabo em casa?

Olha, se o humor habitual destas criaturas é igual ao que vi aqui, é melhor que o Grelo fique calado. :-P

As interpretações, então, são de fazer qualquer um passar vergonha! Não dá pra saber quem é o pior em cena: Evandro Mesquita continua o mesmo mala insuportável de sempre, com aquele sotaque carioca forçadíssimo; o quarteto de pseudo-atrizes-comediantes não serve nem pra animar festinha infantil (além de concentrar um alto índice de feiúra por metro quadrado); Eliana Fonseca, como a redatora-chefe da tal revista, disputa acirradamente consigo mesma o posto de pior atriz e pior diretora; e Adriane Galisteu prova mais uma vez que, como atriz-apresentadora, é uma ótima “depiladora de virilha” (!). E olhem que eu nem cheguei na tosquíssima seqüência que envolve Hebe e Evandro Mesquita… travestido. E ninguém percebe que aquele ser peludo e tentando fazer voz fina sem sucesso é um homem! Medo. E por falar nisso, a Galisteu chorando é tão talentosa quanto o Cigano Igor.

As atuações pífias, o roteiro deplorável e o final incrivelmente sem nexo não chegam a doer tanto. O problema maior de Coisa de Mulher é mesmo seu descaso com o espectador. Certamente os executivos do SBT imaginam que o público que dá audiência para troços como o programa do Gugu e afins é o mesmo que freqüenta as salas de projeção – uma idéia equivocada, diga-se de passagem. E nisto, o plim-plim e o seo Silvio estão empatados! Quando estes caras aprenderão que o público tupiniquim têm cérebro e pelo menos boa parte dele gosta de usá-lo de vez em quando? E depois nós ainda somos obrigados a agüentar a Adriane Galisteu reclamando em rede nacional que a imprensa está metendo o pau num filme que não deve ser levado a sério. Pois eu levei meu sofrimento naquela sala de cinema MUITO A SÉRIO! Ok, depois mando a conta do terapeuta a ela. Hunf!

O que dói na cabeça é ter a sensação iminente de que esta coisa deverá ter até um boa bilheteria – já que o público é masoquista e paga mesmo pra assistir uma ofensa dessas – e gerará filhotinhos cruéis. Afinal, o SBT está apenas começando… Que medo imaginar um cinema qualquer exibindo Meu Cunhado: O Filme. Todo mundo aí fazendo o sinal da cruz, por favor. :-)

“Ah, vá chupar uma pleura!!!!”
– Murilo

Mas o que DIABOS é uma “pleura”, pelo amor de Deus???

COISA DE MULHER • BRA • 2005
Direção (oi?) de Eliana Fonseca • Roteiro (oi?) de Eliana Fonseca e O Grelo Falante
Elenco: Evandro Mesquita, Adriane Galisteu, Carmen Frenzel, Cláudia Ventura, Lucília de Assis, Suzana Abranches, Eliana Fonseca, Hebe Camargo.
97 min. • Distribuição: Globo Filmes.

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