Batman – O Retorno

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 01/05/2005.

Batman - O Retorno (Batman Returns)

…ou: O MEIO-TERMO ENTRE O COMERCIAL E O ARTÍSTICO

Com o grande sucesso de Batman no cinema, a Warner obviamente não abandonaria este rentável filão tão cedo. E eis que, três anos depois da estréia do primeiro longa, mais exatamente em 19 de Junho de 1992, chega às telas Batman – O Retorno (Batman Returns, 1992), considerado por muitos o melhor filme do herói. Motivos para isso não faltam: o clima e o visual desta nova aventura é ainda mais gótico e dark que o primeiro – e conseqüentemente mais próximo do gibi -, graças à primorosa fotografia de Stefan Czapsky, de Imensidão Azul (que substitui o fotógrafo anterior, Roger Pratt), e os cenários de Bo Welch (Homens de Preto 2). Este mesmo visual também se tornaria uma marca registrada de Tim Burton, que a esta altura já se tornara um nome de destaque em Hollywood por conta de seu longa anterior, o fantástico Edward Mãos de Tesoura (1990).

A principal mudança, entretanto, veio no roteiro – escrito novamente por Sam Hamm, desta vez com o auxílio de Daniel Waters, do ultrabacana Atração Mortal -, muito mais fiel ao estilo das HQs do que o Batman anterior. Mas só o estilo; as alterações nas origens dos personagens continuam marcando presença aqui, e as origens são, mais uma vez, totalmente diferentes das criadas nas HQs. Na verdade, Batman – O Retorno deve ser visto mais como um exercício de estilo de Tim Burton do que um longa-metragem meramente comercial.

Inicialmente, a idéia do diretor era transformar Batman – O Retorno em uma seqüência direta de Batman, revelando detalhes do passado de Jack Napier (A.K.A. Coringa) e retomando a história de Bruce Wayne e Vicki Vale. Tim Burton desistiu da idéia imediatamente quando leu o roteiro de Hamm e Waters. Sai o Coringa, sai Vicki Vale, e entram dois importantíssimos vilões na parada: o malévolo Pingüim (estrela da história que deu origem ao enredo criado por Hamm, Pingüim: o Candidato, criada para o seriado dos anos 60) e a dúbia Mulher-Gato – esta última, em minha opinião, a grande sacada do filme. Além destes dois, há mais um maníaco, criado exclusivamente para o filme: o macabro empresário Max Schreck, talvez a grande mente ardilosa por trás da história desta fita.

As liberdades artísticas que o roteiro e a direção tiveram com o personagem não chegaram a incomodar tanto os fãs, que declaradamente consideram Batman – O Retorno o ponto alto do herói encapuzado no cinema. Até agora, claro! E pelo visto, o resto do mundo também gostou bastante de Batman – O Retorno, uma vez que a produção rendeu mundialmente mais de US$ 300 milhões; marca que não atingiu nem de longe a arrecadação da primeira produção, mas ainda assim é muito boa.

Aqui vai a história: o tenebroso Oswald Copplepot, mais conhecido como Pingüim (vivido por Danny DeVito, de Be Cool – O Outro Nome do Jogo, maravilhosamente amedrontador), vive nos esgotos depois de nascer deformado e ter sido abandonado pelos pais. Seu plano de vingança: assassinar todos os meninos de Gotham City. O inescrupuloso Max Schreck (Christopher Walken, de A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça), interessado em vender uma usina a Gotham, alia-se ao Pingüim e trama para que ele seja eleito prefeito da cidade. Batman (Michael Keaton), acusado de um crime que não cometeu e destinado à marginalidade, tenta deter Schreck e Copplepot, mas antes que isto aconteça, deverá enfrentar a sedutora Mulher-Gato (Michelle Pfeiffer, de Revelação, perfeita no papel e linda como nunca) – alter-ego da ex-secretária de Schreck, Selina Kyle, que sofreu uma fracassada tentativa de assassinato pelas mãos do empresário e agora quer justiça. A seqüência em que Selina quase morre e é salva por uma cambada de gatos é excelente, mas não conseguiu superar a antológica “cena da lambidinha” entre ela e Batman… Hehehe!

Além das mudanças já citadas (o clima mais pesado, a fotografia mais rústica), houve outras melhorias: Michael Keaton, reprisando seu(s) papel(éis) anterior(es), parece estar mais à vontade tanto como Bruce Wayne como interpretando Batman; seu uniforme está mais maleável – no outro filme, o cara parecia um robozinho!; a origem do Pingüim, por mais que seja totalmente nova, é muito mais interessante aqui; e a predominante trilha do Prince é finalmente esquecida, para que Danny Elfman possa reinar supremo. Ainda assim, há uma faixa bem legal no final da película, Face to Face, assinada pela ótima banda punk Siouxsie & The Banshees – se você curte punk rock inglês dos anos 70, como eu, também recomendo Dear Prudence, Cities In Dust, Peek-A-Boo e Make Up To Break Up, também do Siouxsie, além da clássica Fury Eyes (com a vocalista do Siouxsie, chamada Siouxsie Sioux, em sua outra banda, The Creatures). Mas isso é outra história. ;-D

Por outro lado, alguns mais exaltados chegaram a acusar Tim Burton de deixar de lado a verdadeira essência do personagem para realizar apenas “mais um produto com a marca Tim Burton”. Bem, a realidade é que, na minha humilde opinião, Batman – O Retorno não apenas é o melhor dos quatro filmes como também é um ótimo exercício cinematográfico e uma homenagem ao próprio cinema, já que sua fotografia remete diretamente ao expressionismo alemão, mais exatamente aos clássicos O Gabinete do Dr. Caligari (1920), M, O Vampiro de Dusseldörf (1931) e principalmente Nosferatu: O Vampiro da Noite (1922). Ah, e sejamos sinceros: alguém aí conseguiu não babar pela Michelle Pfeiffer como a Mulher-Gato? E por falar em Michelle Pfeiffer, sua atuação como a maluca Mulher-Gato foi tão avassaladora que alçou a vilã à condição de anti-heroína e acabou gerando uma das piores pragas da década de 2000. Acho que todos aí sabem do que estou falando, não? Ah, Halle Berry de loló é pirulito! :-)

OBS.: Pausa para o riso, pois acabei de me lembrar daquela cena em que a Mulher-Gato invade uma loja, decepa quatro manequins com seu chicote e ainda sai pulando corda! :-D

Enfim, esta foi a “fase Burton” de Batman nas telonas. Sentiu medo? Bem, nem tanto, não é mesmo? Afinal, o medo em seu estado bruto invade Gotham City no “volume 2” desta Bat-Trajetória do Morcego nos Cinemas. O medo, que vêm na forma de muitas cores, fantasias, carros-alegóricos e… biquinhos de peitos! Cuidado… :-D

CURIOSIDADES:

• A maquiagem de Danny DeVito levava cerca de 2 horas para ser concluída. O esquema de segurança foi redobrado no estúdio, e ninguém além da equipe técnica tinha permissão para visitar os sets. Diz a lenda que o prepotente Kevin Costner tentou visitar as filmagens com aquele velho papo de “Você sabe com quem está falando?”, e ainda assim não pôde entrar. Danny DeVito foi proibido de comentar sobre o visual do Pingüim com qualquer um, até mesmo com sua família. Se fosse hoje em dia, isso não funcionaria de jeito algum! ;-D

• A primeira escolha para o papel de Mulher-Gato era Annette Bening (Beleza Americana), que não pôde aceitar por estar grávida. Cogitou-se a possibilidade de entregar o papel à atriz Lena Olin (Alias).

• Olha ela de novo: Sean Young, que declaradamente queria muito interpretar a Mulher-Gato, chegou a invadir o escritório da Warner vestindo um uniforme feito por ela mesma, na tentativa de convencer os produtores que ela era a melhor escolha para o papel. Comenta-se que Tim Burton escondeu-se da atriz (que possui uma antiga fama de, ahn, “pirada”) não só uma, mas várias vezes. Eu, hein…

• Nos primeiros rabiscos do roteiro de Batman – O Retorno, o personagem Max Schreck seria o promotor Harvey Dent. Dent, interpretado por Billy Dee Williams no primeiro filme, teria uma participação maior aqui; uma explosão na suposta seqüência final do filme atingiria Dent, deixando-o desfigurado e prevendo seu retorno já convertido no obcecado Duas-Caras no que seria o último filme da série, Batman Eternamente. Tim Burton descartou a idéia quando percebeu que as aspirações políticas de Harvey Dent não fariam sentido no roteiro de Batman – O Retorno. Billy Dee Williams foi dispensado quando os produtores preferiram usar o personagem Max Schreck e optaram por utilizar um ator mais conhecido no papel do vilão no terceiro filme.

• Nesta mesma versão do roteiro, o segundo longa da cinessérie contaria com uma pequena participação de Dick Grayson, já convertido no sidekick Robin. O menino-prodígio seria interpretado por Marlon Wayans (da pavorosa cinessérie Todo Mundo em Pânico), que chegou até a assinar contrato para trabalhar neste e no terceiro filme, Batman Eternamente. Sorte dele: quando o roteiro foi descartado e os produtores preferiram ceder o papel a Chris O’Donnell, Wayans lembrou os executivos para uma cláusula contratual que previa o pagamento de seu cachê com filme ou sem filme. Resultado: Wayans ganhou dinheiro sem trabalhar! Eu não tenho uma sorte dessas…

BATMAN RETURNS • EUA/ING • 1992
Direção de Tim Burton • Roteiro de Sam Hamm e Daniel Waters
Baseado nos personagens criado por Bob Kane
Elenco: Michael Keaton, Danny DeVito, Michelle Pfeiffer, Christopher Walken, Michael Gough, Michael Murphy, Pat Hingle.
126 min. • Distribuição: Warner Bros.

 

BATMAN: O MORCEGO NO CINEMA – FASE BURTON
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 01/05/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem BATMAN BEGINS.

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