Batman Eternamente

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 14/05/2005.

Batman Eternamente (Batman Forever)

…ou: O NEON INVADE GOTHAM CITY

No “volume 1” desta Bat-Trajetória do Morcegão no Cinema, aprendemos que, mesmo não realizando um trabalho definitivo na história das adaptações de HQs para o cinema, ainda assim Tim Burton até que se saiu razoavelmente bem: seus dois filmes, Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992), trouxeram um Michael Keaton milagrosamente bem, apresentaram a belíssima Michelle Pfeiffer como a marcante Mulher-Gato, ajudaram a deslanchar a hoje cultuadíssima carreira de Burton como cineasta e Danny Elfman como compositor de trilhas sonoras, e o principal: firmaram de uma vez por todas a era, hoje fundamental, dos blockbusters no cinema.

Pois bem, Tim Burton cresceu, amadureceu, gerou pérolas cinematográficas indiscutíveis, e a Warner Bros. não se cansou de explorar o tão rentável filão do Homem-Morcego nas telonas. Maaaaaassss… Tudo que sobe, um dia tem que descer, certo? Portanto, confira aí embaixo, na segunda parte deste artigo, um belo raio-x dos outros dois filmes da controvertida saga de Batman nas salinhas de cinema, os dois longas que quase enterraram de vez a carreira do notório Bruce Wayne e seu alter-ego Batman em Hollywood! Mas leia com cuidado, faz favor. Afinal, estamos falando do momento em que um certo indivíduo com sobrenome de piloto de Fórmula 1 assumiu as rédeas da situação! :-)

“Tudo na vida tem um lado A e um lado B”.

Este dito popular, óbvio, é uma metáfora para os lados bons e ruins de qualquer coisa. Por mais que não concorde com o uso desta expressão – já que, assim como todo fanático por rock alternativo, aprendi que as coisas boas da vida estão justamente no “lado B” -, sou obrigado a usá-la neste texto, por definir perfeitamente o que aconteceu com a cinessérie Batman: se as duas primeiras fitas formavam o “lado A” com louvor, as duas “pérolas” seguintes representam uma nova fase e uma mudança brusca no ritmo da série; o que não é um elogio de jeito algum. Esta mudança brusca (e suas conseqüências) é o resultado de um único fator: a saída de Tim Burton e a chegada de Joel Schumacher. E por que diabos isto aconteceu, afinal?

Se quiséssemos apontar um culpado, seria errado creditar toda a culpa a Schumacher, um cineasta que sabemos ser bom quando não é podado pelos grandes estúdios – vide seu trabalho em fitas como Os Garotos Perdidos, Um Dia de Fúria, 8MM e Por Um Fio, por exemplo. O que aconteceu foi apenas o resultado de uma série de fatores. Pra começar, Tim Burton sempre declarou que seu plano era realizar uma “Bat-Trilogia” que pudesse contar o nascimento do herói (o primeiro filme), o desenrolar de seus conflitos pessoais (Batman – O Retorno) e o momento em que Bruce Wayne finalmente exorciza seus fantasmas e encontra a paz (o que aconteceria no terceiro longa). Burton já tinha um esboço do roteiro e seus atores escolhidos: nesta terceira aventura, Bruce Wayne (Michael Keaton mais uma vez) se relacionaria com a psicóloga Chase Meridian (Rene Russo, de Showtime, uma ótima escolha para o papel), enquanto Batman enfrentaria aquele que, junto ao Coringa, ao Pingüim e a Mulher-Gato, completa o quarteto dos grandes vilões do herói: o Charada (que seria originalmente interpretado por Robin Williams).

Se Burton estava naturalmente confiante no desfecho da cinessérie, a Warner, por sua vez, estava satisfeita pero no mucho. Se por um lado os dois primeiros longas fizeram muito sucesso e encheram os cofres do estúdio, por outro lado os executivos acreditavam que a franquia era dark e macabra demais para conquistar uma fatia que corresponde à boa parte dos ingressos vendidos nas salas de cinema: as crianças – acho que esqueceram de dizer aos caras que o personagem é assim nas HQs… Enfim, o estúdio dispensou o roteirista dos outros longas, Sam Hamm, e contratou em seu lugar o casal estreante Lee Batchler e Janet Scott Batchler, além do péssimo Akiva Goldsman (Uma Mente Brilhante), para dar uma “animada” no personagem. Ao ler o roteiro final dos três indivíduos, Tim Burton desaprovou no ato e abandonou o cargo de diretor, assumindo a vaga de produtor executivo apenas para cumprir a cláusula contratual que previa sua participação em três filmes. E em seu lugar na cadeira de diretor, Joel Schumacher foi contratado, embora fique bem claro que somente na posição de “operário-padrão”.

Com a saída de Burton, muitas mudanças aconteceram: os produtores decidiram transformar o produto em algo mais colorido e atraente para a molecada, esquecendo Michael Keaton, Rene Russo e Robin Williams – atores considerados “velhos demais” para atrair a molecada – e contratando atores de maior prestígio com os jovens; mais dois personagens foram inclusos no enredo: o Duas-Caras e Robin, o menino-prodígio; a ação é a mais mastigada possível, de modo que ninguém precise pensar muito; o cenário, a fotografia e os figurinos se tornam mais detalhados, robotizados e coloridos, graças à fotografia do recém-contratado Stephen Goldblatt (Closer) e aos cenários de Barbara C. Ling – e os mais prejudicados com isso são o Bat-Móvel (com detalhes de neon, mais “xabuzento” impossível) e a Bat-Caverna; a trilha incidental ficou mais “feliz”, depois que o compositor Elliot Goldenthal (Colateral) assumiu o cargo de Danny Elfman; e os personagens, outrora atormentados e cheios de conflitos e desvios psicológicos, se tornam pessoas alegres, bonitas e divertidas, coisa que jamais poderia acontecer com um filme de Batman. Os vilões, então, só fazem dar pulinhos de gazela e soltar gargalhadas tão assustadoras quanto a de bandidos de desenhos da Hanna-Barbera. :-P

Isso sem contar, claro, o tenebroso uniforme do Homem-Morcego, um emborrachado com mamilos salientes (!) que só ajudou a fomentar aquela velha lenda urbana sobre a “ligação” entre Batman e Robin… Diz a lenda que, nos sets de filmagem, Bob Kane andava de um lado a outro, arrancando os cabelos e berrando a quem quisesse ouvir que jamais imaginou viver para ver seu personagem com mamilos em relevo! :-D

Enfim, em 16 de Junho de 1995, chega aos cinemas ianques Batman Eternamente (Batman Forever, 1995), com um enredo no mínimo descartável: Batman/Bruce Wayne (Val Kilmer, de Crimes em Wonderland, o pior ator a encarnar o herói até agora) deve livrar a cidade do maníaco saltitante Duas Caras (Tommy Lee Jones, Caçado). O sonho do maníaco é, um dia, poder destruir o Homem-Morcego, a quem julga responsável pelo acidente que o desfigurou. Durante uma apresentação circense, o Duas Caras assassina o casal Grayson, os trapezistas do circo; e seu filho, o revoltadinho Dick Grayson (Chris O’Donnell, de Kinsey – Vamos Falar de Sexo, pavoroso como sempre), se une a Batman na busca por justiça, transformando-se assim em Robin. Enquanto isso, Duas Caras une forças ao louco Edward Nygma, vulgo Charada (Jim Carrey, Desventuras em Série), para tentar descobrir de qualquer forma a identidade secreta do herói mascarado. E para isso, os dois miram no “amor da vez” de Bruce Wayne, a bela psicóloga Chase (Nicole Kidman, A Intérprete), que só está ali para ocupar espaço mesmo. Uma história qualquer nota, que traz de brinde cenas que fizeram os pesadelos de todos os fãs do morcegão (sim, me refiro ao close na bunda do herói!) e comete furos inacreditáveis como o tal diálogo em que Batman protesta contra o ato de matar… Logo depois de ter assassinado vários capangas do Duas Caras! Vixe…

Apesar dos pesares, Batman Eternamente rendeu absurdos US$ 340 milhões e dividiu opiniões. Enquanto os fãs racionalmente repudiavam a película, o público em geral aprovou o visual extravagante (leia-se: carnavalesco) e, principalmente, a atuação de Jim Carrey como Charada. O ator, no auge da fama com o sucesso de O Máskara e Ace Ventura, foi escolhido a dedo pelos produtores, por possuir a elasticidade que o bandido pedia. Como resultado, por mais que a atuação de Carrey não tenha sido nem um pouco fiel à HQ, o Charada engoliu praticamente TODOS os outros personagens em cena. Até os fãs concordam que era necessário apenas remover os excessos da interpretação de Carrey para que o cara conseguisse entregar o melhor vilão da cinessérie. Claro que, para isso, seria bom também dar uma melhoradinha no roteiro! Na minha opinião, como fã absoluto do trabalho de Jim Carrey, devo dizer que o cara deixa o filme assistível. E nada mais.

No saldo geral, Batman Eternamente não chega a ser tão grotesco assim, até mesmo porque o CD com as músicas do longa – visivelmente gerado apenas para vender os artistas da Warner, já que apenas duas das 14 canções aparecem no filme – conta com a excelente Hold Me, Thrill Me, Kiss Me, Kill Me, do U2. Também, é a única que vale qualquer coisa ali… :-P

CURIOSIDADES:

• Esta é só pra se ter uma idéia de como executivo de Hollywood não entende porcaria nenhuma: alguns executivos da Warner queriam Tom Hanks como Batman e Scott Speedman (Anjos da Noite: Underworld) como Robin! Deus, que pavor! Independente de gostar ou não dos atores, alguém aí consegue imaginar o Forrest Gump como Batman? Sai fora! Se isto tivesse acontecido, pode contar que esta matéria não existiria, pois eu teria cometido suicídio faz tempo. :-P

• O pior é saber que, durante alguns dias, o papel de Robin foi oficialmente de Leonardo DiCaprio… Para se decidir entre os dois finalistas, DiCaprio e Chris O’Donnell, os produtores foram a uma convenção de quadrinhos e abordaram um grupo de garotos-nerds entre 11 e 13 anos (os alvos do projeto) com a seguinte questão: Numa briga entre O’Donnell e DiCaprio, quem venceria? Adivinhe a resposta…

• Quer mais uma prova de que a equipe toda deveria ser demitida? Então lá vai. Quando soube da demissão voluntária de Tim Burton, ninguém menos que Sam Raimi se ofereceu para produzir o longa. A Warner não aceitou, por afirmar claramente que “Raimi nunca seria um nome quente o suficiente”. Então, veio um certo projeto, envolvendo um certo super-herói aracnídeo…

• O roteiro previa uma rápida aparição do Espantalho, mas os produtores descartaram a idéia, devido ao grande número de vilões que aparecem aqui.

• Antes de Jim Carrey assinar contrato para interpretar o Charada, os atores Brad Dourif (o eterno dublador do brinquedo assassino Chucky) e Mark Hammil (o eterno Luke Skywalker) foram sondados para assumir o personagem. Hammil já é familiarizado com o universo do Homem-Morcego: ele dublou o Coringa no seriado Batman: The Animated Series (1992).

• Numa das dezenas de piadas babacas que infestam o roteiro de Batman Eternamente, Dick Grayson reclama que acha seu nome bobinho demais, e sugere outro nome: Asa Noturna. Outra tiradinha besta envolveu a dra. Chase Meridian e um comentário do tipo “para conquistá-lo, eu precisaria usar um chicote e roupas de couro”. Dããããã…

• Como dizia aquele antigo e notório provérbio Klingon (!), “Vingança é um prato que se come frio”: quando os produtores de Batman Eternamente procuraram Robin Williams para lhe oferecer o papel de Charada, Williams não deu uma resposta exata; o ator simplesmente refrescou a memória dos representantes do estúdio sobre um episódio que ocorreu durante a produção do primeiro Batman, acontecimento já citado na matéria sobre o primeiro longa da série, e bateu a porta em seguida.

• Ao conferir a performance de Jim Carrey neste filme, o produtor musical George Martin imediatamente convidou o ator para interpretar a doentia faixa I Am The Walrus, dos Beatles, no álbum-tributo In My Life. Carrey aceitou no ato.

BATMAN FOREVER • EUA/ING • 1995
Direção de Joel Schumacher • Roteiro de Lee Batchler, Janet Scott Batchler e Akiva Goldsman • Baseado nos personagens criados por Bob Kane
Elenco: Val Kilmer, Tommy Lee Jones, Jim Carrey, Nicole Kidman, Chris O’Donnell, Michael Gough, Pat Hingle, Drew Barrymore, Debi Mazar, Jon Favreau.
121 min. • Distribuição: Warner Bros.

 

BATMAN: O MORCEGO NO CINEMA – FASE SCHUMACHER
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 14/05/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem BATMAN BEGINS.

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