As Loucuras de Dick e Jane

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 13/01/2006.

As Loucuras de Dick e Jane (Fun With Dick And Jane)

Parece que nossos amigos estadunidenses finalmente começaram a entender que um bom filme de comédia não se resume a piadinhas chulas e escatológicas envolvendo sexo, flatulências e pré-conceitos. Já não era sem tempo! Tudo bem, eles ainda precisam entender que remakes não prestam pra nada, que Julia Roberts jamais será uma “linda mulher” (ah, ela é feia que dói!) e que Orlando Bloom não é bom ator nem aqui e nem na Conchinchina, mas isto é uma outra história, então deixa pra lá. Uma coisa de cada vez, não é mesmo? :-)

Bem, o causo é que os longas mais recentes têm deixado de lado a grotesca “verve cômica” (sic) popularizada pelas pseudo-produções estreladas por tentativas de humoristas como Martin Lawrence, os Irmãos Wayans (que agora resolveram aterrorizar o mundo dos quadrinhos) e até Eddie Murphy (O Professor Aloprado na visão do indivíduo é uma singela porcaria, vamos concordar) para investir em histórias leves e sem uma gota de apelação. Este é o ponto crucial de As Loucuras de Dick e Jane (Fun With Dick And Jane, 2005), novo e divertidíssimo trabalho estrelado por ninguém menos que Jim Carrey: a fita, cujo mote central veio de um obscuro e fraquinho longa de 1977, chamado Adivinhe Quem Vem Para Roubar? e estrelado por George Segal e a nossa eterna Barbarella Jane Fonda, é tão leve, tão estúpida e em certos momentos tão ingênua que não dá para não se divertir. Sabe quando aquele seu amigo mala conta uma piada tão idiota que você não se agüenta e molha as calças de tanto rir? Basicamente isso. :-D

Dizer que isto torna As Loucuras de Dick e Jane um clássico da comédia é um bruta de um exagero. A produção, dirigida por Dean Parisot (diretor do bacana Heróis Fora de Órbita) a partir de um roteiro co-escrito pelo mesmo Judd Apatow que comandou o recente O Virgem de 40 Anos (que eu não sou lá muuuito fã, cá entre nós, mas muita gente gosta), é mais um daqueles longas curtinhos e descompromissados que divertem bastante durante sua projeção e são esquecidos 15 minutos depois da saída da sessão, mas ganha muitos pontos se compararmos com seus escatológicos predecessores. E sem apelar em momento algum. :-)

Na trama, Jim Carrey é Dick Harper, executivo em franca ascensão da empresa Globodyne. Carrey é casado com a bela Jane Harper (Téa Leoni, de Espanglês, simplesmente hilária), que trabalha numa agência de viagens, e vive numa bacaníssima casa na companhia de sua esposa, seu filho viciado em cultura hispânica (detalhe que rende algumas das melhores piadas do filme), seu cachorro e sua empregada. Dick, que está prestes a receber uma promoção que espera há 15 anos, leva uma vidinha pacata e tranqüila, embora sinta uma pontinha de inveja quando seu vizinho surge majestoso com luxos materiais que ele ainda não pode ter, como o Mercedes que obedece a comandos de voz. Ah, e tem como não sentir inveja? :-D

Então, finalmente a tal promoção chega para Dick. O cara fica todo feliz, manda a esposa pedir demissão, gasta por conta… até que, depois de um único dia como vice-presidente da Globodyne (!), vê a empresa afundar em uma série de fraudes fiscais e seu dono, o hiper-ultra-mega-inescrupuloso Jack McCallister (Alec Baldwin, de O Aviador, horroroso de tão estereotipado), se mandar numa boa. À medida que o tempo passa, Dick não consegue arrumar emprego e a situação do casal piora. Assim, Dick e Jane decidem que a única saída é começar a roubar…

E só. Nada mais que isto: se dissecar a história mais um pouco, estarei enchendo lingüiça. Mais simples impossível. E claro que o enredo pouco importa, já que o lance todo é mera desculpa para que Jim Carrey possa exercitar sua veia cômica, inativa desde o mediano Todo-Poderoso, de 2003. Aí é que está a diferença: enquanto filmes como Ace Ventura: Um Detetive Diferente, O Mentiroso e o próprio Todo-Poderoso são declarados veículos para o ator e nada mais, As Loucuras de Dick e Jane segue o caminho inverso. Afinal, Carrey não está tão caricato como em seus trabalhos anteriores, ainda que exagere em um ou outro momento (aqui ele até chora, veja só!). As piadas de Carrey são realmente BOAS e não se resumem a caretas. E o roteiro não trata Dick como o “centro do mundo”, deixando que Jane e outros hilários personagens, como por exemplo o bizarríssimo filho do casal, brilhem na tela tanto quanto o ator principal. Devo dizer, aliás, que Téa Leoni está engraçadíssima! Não imaginaria outra atriz para este papel.

Quanto ao roteiro… bem, não é um clássico. Mas consegue um feito quase raro quando estamos falando de comédias norte-americanas: é engraçado do começo ao fim. Filmes do gênero tendem a amontoar piadas em cima de piadas em sua primeira metade, para depois maneirar e resolver a história com um pouco de seriedade. Em As Loucuras de Dick e Jane o espectador ri o tempo todo; os momentos engraçados são muito bem distribuídos, mesmo que a conclusão da trama seja tão original quanto final de novela das oito. :-P E pessoalmente falando, gostei muitão do clima de sitcom dos anos 60 aplicado na estética do longa, na montagem, em certos trechos da trilha e sobretudo na nostálgica e bem-sacada apresentação dos personagens no primeiro plano-seqüência. :-)

Então… a película é excelente? Não, não mesmo, nem pensar. Está longe de ser uma obra-prima da sétima arte, e nem é o que pretende. As Loucuras de Dick e Jane é apenas uma comédia rasteira, inofensiva, cheia de piadas estupidamente deliciosas, feita para fazer rir e ser esquecida em seguida. Mas leva muitos pontos por não ofender a inteligência do público, não extrapolar os limites do bom-gosto e por ter total consciência de que é apenas uma produção-pipoca. É, parece que os caríssimos ianques estão aprendendo!

Ou não. Tenham medo. Vovó… Zona 2 vem aí. Cruz-credo. :-P

CURIOSIDADES:

As Loucuras de Dick e Jane seria originalmente dirigido por Barry Sonnenfeld (o mesmo de A Família Addams e MIB – Homens de Preto), que chegou a assinar contrato mas desistiu em seguida, alegando “razões pessoais”. O papel de Jane estava nas mãos da gloriosa Cameron Diaz (que já atuou ao lado de Carrey no fantástico O Máskara), mas a atriz não pôde aceitar o trabalho por conflitos de agenda.

• Na época das filmagens, a Paramount Pictures pagou cerca de US$ 100.000 à Sony Pictures para que esta interrompesse temporariamente as filmagens de As Loucuras de Dick e Jane. O objetivo era liberar Jim Carrey para a campanha promocional do bacana Desventuras em Série, de Brad Silberling.

• Sim, o tombaço da Téa Leoni na cena do assalto ao Starbucks foi de verdade. É por ser tão autêntica que é tão engraçada… hehehe! :-)

FUN WITH DICK AND JANE • EUA • 2005
Direção de Dean Parisot • Roteiro de Judd Apatow, Nicholas Stoller e Peter Tolan
Elenco: Jim Carrey, Téa Leoni, Richard Jenkins, Angie Harmon, Stacey Travis e Alec Baldwin.
90 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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