Viagem Maldita

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 20/06/2006.

Viagem Maldita (The Hills Have Eyes)

Engraçado como são as coisas. Sempre preguei que os remakes em si não são nada além de o resultado da falta de criatividade em Hollywood, e agora sou obrigado a me retratar publicamente (ou mais ou menos isso). Não que isto seja um problema: não me sinto humilhado em baixar a guarda e assumir quando estou errado; não é vergonhoso, é nobre – ou pelo menos quero acreditar que seja (hohoho). Enfim, me retrato publicamente pois digo a quem quer ouvir que odeio refilmagens. E Viagem Maldita (The Hills Have Eyes, 2006) é uma refilmagem. E indiscutivelmente, sem exageros, é o filme de horror mais legal do ano. Acredite, a hipérbole aqui chega a ser necessária.

Tá, mas antes de entrar em detalhes, vamos dissecar um pouco este lance de remakes: não que agora eu pense que eles são fundamentais, não é isso. Refilmagens continuam sendo uma prova concreta de que Hollywood anda deveras carente de mentes criativas. E nada, eu digo, NADA justifica a existência de coisas como A Profecia (que até consegue ser climático, mas nada além disso), A Pantera Cor de Rosa (um pavor) e Soltando os Cachorros (por favor, cometa suicídio antes de pensar em assistir a ISSO).

Só que o problemão todo não reside na idéia de que são remakes. A questão crucial, o ponto que fitas como King Kong, O Massacre da Serra Elétrica, As Loucuras de Dick e Jane e agora Viagem Maldita fazem questão de provar, é que não importa se a história já foi contada, e sim COMO ela é contada novamente. Como já cansei de falar em outras resenhas, tudo é mesmo uma questão de roteiro, e da forma com que este roteiro é conduzido. Se antes eu afirmava que boa parte dos remakes são horrorosos apenas por existir, hoje digo que até mesmo uma aberração da natureza como a nova versão de A Pantera Cor-de-Rosa poderia converter-se em um clássico, caso contasse com um roteiro melhor escrito e com uma equipe técnica menos equivocada.

Felizmente, Viagem Maldita está longe de ser uma “aberração”, ao menos no sentido de “qualidade”. Refilmagem de um dos mais mitológicos trabalhos de Wes Craven, o bizarro Quadrilha de Sádicos, de 1977, este trabalho comandado com um gás impressionante pelo francês Alexandre Aja (do elogiado Alta Tensão) acerta na mosca em três pequenos quesitos: primeiro, o script de Aja e Grégory Levasseur respeita seu antecessor, não alterando seu conceito drasticamente e nem eliminando o tenebroso aspecto de “realidade” imposto pela fita de 77 – justamente o elemento que causou medo nos muitos fãs da fita original. Não à toa, o próprio Wes Craven, produtor da nova versão, mostrou-se extremamente satisfeito e empolgado com o resultado final e até planeja uma seqüência. A meu ver, certamente Viagem Maldita não será lembrado apenas como uma mera refilmagem – rótulo que acomete a grande maioria dos remakes.

Segundo, Viagem Maldita é, de fato, uma produção de terror que cumpre o principal objetivo de um filme de terror: dá MEDO. Ponto. Dá medo, assusta, deixa todo mundo tenso, deixa todo mundo nervoso e acaba com as unhas das mãos de qualquer um – e no meu caso, das mãos e dos PÉS também, pois precisei de dois pacotinhos de Pampers Extra Forte Noturno só por ver que a história mete um bebê de colo e dois cachorrinhos lá no meio… Ai céus! Por favor, façam o que for necessário, arranquem as tripas de quem for necessário, devorem qualquer um… mas não matem os bebês e os cãezinhos! :-P

O terceiro fator é… bem, vamos antes ao enredo: uma rápida introdução em texto – que por sinal antecede uma ÓTIMA seqüência de créditos de abertura, bem aos moldes de outro filmão, Madrugada dos Mortos – explica que, lá pelos idos dos anos 40, o governo dos EUA evacuou uma área do deserto do Novo México para realizar testes nucleares. Alguns mineiros, entretanto, recusaram-se a deixar seus lares – o que não foi empecilho algum para a realização dos testes. Com o lixo radioativo espalhado pela região, os poucos indivíduos que ficaram por lá foram contaminados e, com o passar dos anos, geraram descendentes infestados de horríveis mutações genéticas… Afe!

Então, pulamos alguns anos no tempo para chegar aos dias de hoje e conhecer a família Carter. Os Carter são de Cleveland e seguem para a Califórnia em um velho trailer, para comemorar as bodas dos patriarcas, o ex-policial Big Bob (Ted Levine, o Buffalo Bill de O Silêncio dos Inocentes) e a ex-hippie Ethel (Kathleen Quinlan, do seriado Family Law). Por que passar dias num trailer imundo e caindo aos pedaços quando se poderia ir de avião? É o que se pergunta o genro de Big Bob, Doug Bukowski (Aaron Stanford, nosso amigo Pyro), casado com a bela Lynn (Vinessa Shaw, Melinda e Melinda) e pai de uma bebêzinha muito bonitinha. Já a irmã de Lynn, Brenda (Emilie de Ravin, a Claire de Lost), só quer voltar o mais rápido possível para suas amiguinhas teen em Cleveland e esquecer que tem família e um irmão pentelho, Bobby (Dan Byrd, de A Nova Cinderela).

Enfim, seria mais uma viagem normal na vida da família Carter, se um estranho acidente não os isolasse em pleno deserto do Novo México, a milhas de distância de qualquer espécie de ajuda e sem qualquer contato com o resto do mundo. O desespero em estar preso nas colinas transforma-se em horror quando o clã é atacado por um sádico e selvagem grupo de mutantes deformados pela radiação, formado pelos descendentes dos mineiros; isolados do mundo e esquecidos por todos, os habitantes das colinas foram forçados a recorrer ao canibalismo para não morrer de fome. Agora, querem os Carter como almoço… :-P

A partir daí, prepare seus nervos. E seu estômago. Ai. :-D

Claro, a coisa não é tão simples quanto aparenta. Bem, na verdade é sim. Não há reviravoltas ou troços do gênero, o que não quer dizer que o roteiro não seja bem elaborado, e esta é a terceira razão pelo qual Alexandre Aja merece aplausos. Explico: mesmo com um enredo simplório e direto ao ponto, o script tem um notável cuidado, mesmo que relativamente superficial, com o desenvolvimento tridimensional de cada um dos personagens – e isto inclui até o casal de cães pastores-alemães da família Carter, que têm um papel decisivo no desenrolar da trama. Então, quando eles finalmente sofrem o primeiro ataque (numa seqüência crua e apavorante, no sentido mais nervoso da palavra), o espectador sente na pele cada baixa, cada mutilação, cada grito de desespero; afinal, já está familiarizado e já simpatizou (ou não) com os personagens centrais.

Um adendo: por falar em seqüências cruas, um dos momentos mais tenebrosos da fita envolve Big Bob e uma certa árvore – se você não é chegado em sentir o coração sair pela boca e parar na sua mão, aproveite esta cena para sair da sala de projeção e ir beber uma água ou ir ao banheiro, tá? Tô avisando. ;-)

Voltando, além de não poupar tempo para mergulhar a platéia no universo dos Carter (e como conseqüência, não poupar nosso sistema nervoso com o pavoroso destino deles), o roteiro merece créditos por trabalhar todas as características do cinema de horror e equilibrar estas características em doses certas, quase homeopáticas: há espaço para uma competente construção de suspense e horror psicológico por conta da iminência da aparição dos mutantes (sim, é tenso o negócio!), há espaço para vários sustos de deixar qualquer um com os cabelos do braço em pé (alguns sustinhos são fáceis, outros nem tanto), e para finalizar, há as boas e velhas cenas nojentas regadas a muito sangue, órgãos expostos e criaturas horrendas, como o melhor das películas gore que fizeram a alegria dos fãs do gênero nos anos 70 e 80.

Não, não, nem tudo é perfeito, claro: alguns personagens, como a menina Ruby (Laura Ortiz), mereciam um pouco mais de destaque na trama; durante a projeção, há alguns erros grotescos de continuidade e falhas que não poderiam ter passado em branco (é possível, por exemplo, notar a respiração de quase todos os mortos); e embora tente fugir deste estigma a todo custo, não consegue deixar de cair no velho erro de transformar indivíduos comuns em seres letais e engenhosos num piscar de olhos – bem, nunca vi um ser humano de carne e osso numa situação extremista destas, vai saber…

Enfim, Viagem Maldita não é mesmo um clássico que ficará marcado para sempre nos anais da indústria cinematográfica. Porém, leva imediatamente os gloriosos títulos de melhor filme de terror do ano até agora e pusta de um senhor filmaço com “F” maiúsculo por honrar a produção original com méritos e por ser absurdamente bem-sucedido em sua proposta; é nojento, é tenso, é muito assustador – tanto que faz o espectador torcer para que o longa acabe logo de uma vez e aquela barbárie toda finalmente tenha um fim. Quantos pretensos longas de horror chegaram aos cinemas em 2006 e realmente deixaram o público… com medo? Putz, e o pior é que estamos falando de um remake. O que vou ser aloprado por causa deste pequenino detalhe… :-)

Ah, sim: Pelo amor de Deus, não façam nada com o bebê! E nem com os pobres cachorrinhos! Afe!

CURIOSIDADES:

• As imagens apresentadas durante a apavorante seqüência de créditos de abertura de Viagem Maldita não são de mutações atômicas, mas sim de aberrações causadas pelo uso do Agent Orange na Guerra do Vietnã. O “Agent Orange” (agente laranja) é um desfolhante à base de dióxido usado como arma química, que dizimou milhares de soldados e civis durante a guerra.

• O roteiro original de Wes Craven baseou-se na lenda urbana da família Sawney Bean, grupo de canibais que supostamente matou dezenas de pessoas na Escócia do século 17. A tal família, que chegou a contar com 48 membros – todos eles nascidos de casamentos consangüíneos e cheios de deformações – atacava viajantes de estradas desertas, assassinava-os com requintes de barbárie indescritíveis e, finalmente, alimentava-se de seus restos. Os Sawney Bean, que escondiam-se em cavernas, foram capturados por 400 soldados enviados pelo rei escocês James I e executados da mesma forma que costumavam executar suas vítimas.

• Um dos membros do clã mutante, Pluto, é vivido por Michael Bailey Smith, o tenebroso “ator” que pagou mic… ops, “interpretou” o Coisa/Ben Grimm no tal Quarteto Fantástico de Roger Corman.

THE HILLS HAVE EYES • EUA • 2006
Direção de Alexandre Aja • Roteiro de Alexandre Aja e Grégory Levasseur
Baseado no roteiro do longa-metragem The Hills Have Eyes, de Wes Craven
Elenco: Aaron Stanford, Ted Levine, Kathleen Quinlan, Emilie de Ravin, Vinessa Shaw, Dan Byrd, Robert Joy, Billy Drago, Tom Bower, Desmond Askew, Michael Bailey Smith, Ezra Buzzington, Laura Ortiz.
107 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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