Réquiem Para Um Sonho

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 22/11/2006.

Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream)

A empolgada recepção da crítica ao excelente thriller independente Pi, de 1998, gravou o nome do cineasta “quase-de-primeira-viagem” Darren Aronofsky naquela maravilhosa listinha de diretores cujos filmes são obrigatórios para qualquer um que se diz fã de cinema. De “ilustre desconhecido” a “grande promessa” em tempo recorde, Aronofsky tomou de assalto o circuitinho alternativo ao transformar, com recursos precários, um enredo tão bizarro e desconexo em um eletrizante suspense, daqueles de fazer qualquer ser humano passar a noite em claro (digo por mim, tá? ;-D). Enfim, quando sabemos que Pi bota um medo do cacete ao falar de coisas tão “nada a ver” como economia, matemática, religião e teoria do caos, dá pra entender porque cargas d’água os cinéfilos simplesmente pararam de respirar de tanta emoção ao anúncio do projeto seguinte do sujeito.

Ao contrário do esperado, entretanto, a segunda aventura do cineasta na direção de longas não era, a princípio, tão anormal… muito menos original, justamente o fator que fez toda a diferença em Pi. Ou você realmente acredita que há algum traço de originalidade em uma trama centrada em um grupo de pessoas que embarcam em uma viagem sem volta pelo mundo das drogas? Negócio simplezinho, né? Tão simplezinho que quase chega a ser banal.

De banal, porém, o drama barra-pesada Réquiem Para Um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) tem só o ponto de partida mesmo. Se em Pi o diretor mostrou ser capaz de extrair um trabalho inteligente e de fácil compreensão de um tema aparentemente tão complexo, é com Réquiem que Aronofsky comprova uma das máximas do bom cinema: qualquer historinha besta e vazia, por mais chula que possa parecer, pode render um filmaço daqueles de encher os olhos e de deixar os nervos do público em frangalhos… mas só se estiver nas mãos das pessoas certas. Trocando em miúdos, pouco importa se a trama é banal… se o cabeça do projeto souber contá-la, tá safo. :-)

E só para corrigir, não estamos falando de um longa batido. Réquiem Para Um Sonho tem sim um plot já visto nas telonas inúmeras vezes. O que é original aqui é o FOCO e a ABORDAGEM. Nunca um filme sobre viciados foi tão perverso, tão impactante. E quando citamos o termo vício, definitivamente não estamos falando apenas de substâncias ilegais. Mais do que um exercício de estilo, Réquiem Para Um Sonho é uma gloriosa aula de cinema.

Na verdade, seria até pejorativo classificar este filme como um drama, como muitos veículos e as próprias distribuidoras teimam em rotulá-lo. Réquiem é tão pesado e tão atordoante que quase poderia ser classificado como um filme de terror; é um horror muito mais profundo, visceral e amedrontador do que aquele que conhecemos de produções como Jogos Mortais e Viagem Maldita, um terror realista e absolutamente próximo de nós. Mais correto seria dizer que, tal qual a trajetória dos personagens centrais de Réquiem, a estrutura narrativa é cruel ao extremo, quase insuportável, a ponto de fazer o espectador não agüentar mais e sair da sessão chupando o dedão e pedindo por um terapeuta (!).

O diferencial é que Réquiem Para Um Sonho é um tremendo MAL NECESSÁRIO. Mas isto, eu explico mais tarde. Por ora, vamos ao enredo. ;-)

Inspirado nos cultuados romances Requiem for a Dream e Last Exit to Brooklyn, de Hubert Selby Jr. (este último rendeu também o controverso Noites Violentas no Brooklyn, com Jennifer Jason Leigh), Réquiem Para Um Sonho é dividido em três segmentos: Verão, Outono e Inverno. Uma tirada fácil, mas extremamente funcional – a divisão por estações serve também como referência explícita ao processo de “descida ao inferno” dos personagens. No verão, acompanhamos a “parte boa” do vício, onde tudo é festa. No outono, os efeitos colaterais começam a surgir. E no inverno, finalmente somos forçados a testemunhar e aceitar a degradação daquelas criaturas que aprendemos a amar há duas estações atrás. É tudo tão violento que jamais conseguimos pensar em condená-los por mergulhar em um troço que não poderia acabar bem. O estrago foi feito, e dá uma vontade ducacete de entrar na tela e tentar fazer algo para salvá-los. Mais prático, impossível.

Então, temos Harry Goldfarb (Jared Leto, em papel desenvolvido especialmente para Giovanni Ribisi, que não pôde aceitar por conflitos de agenda), indivíduo na casa dos 20 anos que não tem emprego e precisa dar seus pulos para bancar seu vício em heroína. Para se satisfazer, Harry e seu melhor amigo Tyrone (Marlon Wayans, em papel surpreendentemente sério) roubam constantemente a velha TV da mãe do primeiro para penhorá-la. Mas Harry tem um plano maior. Ele e Tyrone decidem entrar para o lucrativo mercado do tráfico de drogas, adquirindo uma quantidade “x” e adulterando-a de modo que consigam vender muito mais do que compram e ainda sobre um pouco para consumo próprio. Harry pretende enriquecer e ajudar sua bela namorada, a patricinha Marion Silver (Jennifer Connelly, mais linda do que nunca), viciada em cocaína, a montar um negócio no ramo de moda.

Mas o foco central da história, na verdade, não é Harry, Marion ou Tyrone. É Sara Goldfarb (Ellen Burstyn, entregando aqui uma das melhores atuações dos últimos anos). Sara, uma solitária viúva, sofre com a falta de afeto do filho e só vê conforto nos papos que leva com a turma de senhoras que também são suas vizinhas, no consumo desenfreado de chocolate… e na TV – mais especificamente no programa de auditório do carismático Tappy Tibbons (Christopher McDonald), especializado em construir vencedores. “Você é um vencedor”, diz Tappy, apontando para a câmera. Sara gostaria de acreditar que é também uma vencedora. Mas não há muito de vitória em uma mulher que mal tem coragem de encarar o filho e que conforma-se em “comprar” sua TV de volta da loja de penhores pelo menos uma vez a cada semana…

A coisa complica para Sara quando ela recebe uma iluminada ligação. É que a depressiva senhora foi selecionada para aparecer no programa de Tappy Tibbons em um futuro próximo – uma injeção de ânimo em sua medíocre vida. Empolgada, Sara tira do armário seu elegante vestido vermelho, o vestido que usou na formatura de Harry e que tanto fazia a alegria de seu falecido marido. Só que o vestido não lhe serve mais: ela está meio acima do peso. Mas como emagrecer sem abandonar seu melhor amigo, o açúcar? Bem, nada que uma visitinha ao médico e algumas pílulas de emagrecimento não resolvam. De fato, Sara emagrece… como conseqüência, entretanto, adquire um violentíssimo vício em anfetaminas.

A estrutura de Réquiem Para Um Sonho é construída somente em cima do processo de autodestruição pelo qual os protagonistas passam, sem qualquer espécie de trama paralela. O espectador só tem tempo de conhecer estes indivíduos e, em seguida, enxergar seus destinos pavorosos sem poder fazer nada. O sonho, a felicidade… a ruína e o fim. Ponto.

Não pense, entretanto, que estamos falando de um dramalhão aos moldes dos filmes sérios de Spielberg ou coisa que o valha. A violenta câmera de Darren Aronofsky leva às últimas conseqüências todos os maneirismos apresentados a nós em Pi. Então, temos zilhões de tomadas em zoom, freqüentes divisões de telas em duas ou três partes, closes em coisas aparentemente insignificantes (mas com vários significados para a trama), uma trilha sonora de Clint Mansell ainda mais insana do que no longa antecessor (não à toa, sua trilha é usada freqüentemente em trailers) e um ritmo ultra-acelerado – só para se ter uma idéia, Réquiem Para Um Sonho tem mais de 2.000 cortes de câmera, quando um longa-metragem padrão de duas horas costuma ter, no máximo, 700 cortes. Tais maneirismos deram à película o inglório apelido de filme MTV, ainda que haja aqui muito mais consistência do que jamais existiu no canal de música que já foi bom e hoje é só um punhado de m… ah, deixa pra lá. ;-)

O fato é que é inconcebível imaginar Réquiem Para Um Sonho sem estas características. O choque causado pela projeção vem justamente da criatividade de Aronofsky no retrato do vício. As seqüências na qual os personagens usam as drogas, somadas aos insanos efeitos sonoros, são de deixar o queixo caído. Os efeitos das drogas são mais malucos ainda: nos momentos mais aterrorizantes da película, Sara Goldfarb é atacada por sua própria geladeira (!). Em outra seqüência, Tappy Tibbons, dançarinas e espectadores de seu programa de auditório saem da TV e invadem o apartamento de Sara, dando início a uma transmissão que mais se assemelha a um freak-show e incitando a senhora a encher as burras de coisas que engordam. MTV demais? Tudo bem, mas quem se importa? O resultado final é embasbacante do mesmo jeito – e a magnífica interpretação de Ellen Burstyn (que concorreu ao Oscar por este papel mas foi preterida por Julia-Argh-Roberts, em uma das maiores injustiças já cometidas pelo evento), é somente a cereja do bolo.

Sério, não dá pra ficar inteiro com a Sara de Ellen Burstyn.

Tá, mas o que o Zarko quis dizer, afinal, com a expressão MAL NECESSÁRIO? Bem, o que acontece é que precisa mesmo ter um estômago e um sistema nervoso muito forte para enfrentar Réquiem Para Um Sonho sem desabar. Só que, embora seja permeado por momentos terrivelmente incômodos, visto que Darren Aronofsky não pensa duas vezes em escancaram cada milímetro do sofrimento de seus personagens, trata-se de um longa extremamente fiel à sua proposta de “manifesto anti-drogas”. A cada seqüência pesada, a direção nos entrega um momento sublime, como as passagens de Marion no pier, que nos faz pensar automaticamente em tudo aquilo que ocasionalmente preterimos a favor de coisas que não valem à pena. Debaixo das grossas camadas de angústia e dor, há uma bela, triste, poética e poderosa mensagem de luta e esperança – não à toa, muitos críticos afirmaram que a exibição de Réquiem Para Um Sonho em instituições de ensino é quase obrigatória. Sua conclusão não nos deixa apenas atordoados, mas também nos faz questionar o que fazemos para tentar mudar este quadro. Obrigatório como mensagem, mais obrigatório ainda como cinema.

Resista ao choque, se você for capaz.

REQUIEM FOR A DREAM • EUA • 2000
Direção de Darren Aronofsky • Roteiro de Darren Aronofsky e Hubert Selby Jr.
Inspirado nos romances Requiem for a Dream e Last Exit to Brooklyn, de Hubert Selby Jr.
Elenco: Ellen Burstyn, Jared Leto, Jennifer Connely, Marlon Wayans, Sean Gullette, Christopher McDonald, Mark Margolis, Louise Lasser.
102 min. • Distribuição: Artisan/Europa Filmes.

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