O Pesadelo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 18/04/2005.

O Pesadelo (Boogeyman)

Não é segredo pra ninguém que sou um dos caras mais enjoados da face da Terra quando o assunto é cinema. Qualquer coisinha já é motivo para que eu saia por aí querendo eliminar minha própria existência. Por outro lado, não tenho problema algum em admitir quando estou errado; e quando gosto de alguma coisa, sou o primeiro a tirar o chapéu e dar a mão à palmatória. Só pra citar como exemplo: se Guerra dos Mundos, do titio Spielberg, vier a ser um ótimo filme, admitirei sem crises, mesmo tendo que engolir a seco o ódio que proclamo da produção desde o anúncio de que o roteiro do longa centralizará a ação nos dias de hoje – ao contrário do livro, cuja trama ambienta-se no final do século 19 e corresponde ao maior atrativo do enredo, na humilde visão deste que vos fala. Quer mais um exemplo? Ladrão de Diamantes. Eu achei que seria um lixo e quebrei minha cara, porque a fita é diversão do começo ao fim.

Ironicamente, isso deixa minha própria profissão numa posição estranha. Porque os jornalistas que escrevem resenhas de filmes, músicas, livros, peças de teatro e afins, escrevem sobre o que gostaram e o que não gostaram. E ninguém é igual a ninguém. Logo, o que pode ser “A” para o crítico, pode ser “B”, “C” e “D” para o leitor. Portanto, se olharmos por este prisma, esta “subcategoria” dentro do jornalismo é desnecessária. Mas tenham calma! Não quero incitar ninguém a parar de visitar este glorioso site, se armar de tochas e flechas flamejantes e incendiar a central d’A ARCA (!). O que quero dizer é: se você está doente para assistir a um filme e só anda lendo opiniões negativas sobre ele, não se influencie. Vá e veja com seus próprios olhos. Você pode gostar. Salvo, claro, quando o assunto é O Filho do Máskara, pois conferir aquilo é masoquismo! :-P

Tudo bem, sei que, à primeira vista, este papo não tem conexão alguma com o verdadeiro assunto deste texto, que é a resenha de mais um filme de horror a chegar às telonas brazucas, O Pesadelo (Boogeyman, 2005). Decidi começar esta matéria deste jeito porque este filme me fez sentir um ódio profundamente mortal de alguns “pseudo-críticos de cinema” que andam à solta por aí. Vou explicar: tem gente que adora dar uma de “crítico-cabeça” e escrever textos cheios de palavras difíceis que talvez só eles entendam; também tem gente que adora descer a lenha nos blockbusters, só porque eles são blockbusters; e tem gente que é a junção das duas coisas. Ok, não é problema algum gostar de fitas indies e estrangeiras (eu, inclusive, sou um dos maiores defensores destas “categorias menores”…), e nada contra àqueles que preferem uma linguagem mais extravagante ao “curto e grosso” que nós aqui d’A ARCA escolhemos adotar. Só que alguns não são exatamente “sinceros” na hora de escrever uma crítica, e acabam por se esconder atrás de um texto mais, digamos assim, “profundo”.

Isto nunca acontecerá aqui. O que você lê nos textos assinados por mim é EXATAMENTE a minha opinião, sem frescuras. Não importa se estou falando do Spielberg, do François Truffaut, do Bruno Barreto ou do Papa. E ponto final.

Explicarei o motivo de tanta revolta: todas as resenhas que li até agora anunciaram este Boogeyman como uma das piores coisas a surgir nas telonas neste ano. Andam falando muito mal mesmo – imaginem o meu “ânimo” a caminho da sessão do longa, ainda mais sabendo que o diretor Stephen T. Kay é o mesmo de O Implacável, aquele que os britânicos elegeram recentemente a pior refilmagem de todos os tempos… Tá, o roteiro não é lá estas coisas. Cheio de buracos e com uma última meia-hora totalmente incoerente. Muitos deverão citar estes pontos, e concordo em gênero, número e grau.

Mas como disse um colega certa vez, “não devemos enxergar a metade vazia do copo, e sim a metade cheia”. Se por um lado Boogeyman não funciona como roteiro e diálogos, por outro lado funciona perfeitamente bem como o que é: um FILME DE TERROR. O clima do longa é absurdamente assustador e tem sustos a dar com o pau! Tanto que, em certo momento, desisti de disfarçar o quanto sou boçal e assisti à película com as mãos nos ouvidos (sim, eu faço isso!). E olhem que este clima tenso e carregadíssimo permanece do começo ao fim; quando as luzes se acendem e os créditos começam a subir, o espectador ainda fica meio receoso de tomar algum susto… :-D

Minha ira contida vem daí: alguns veículos com certeza se preocuparão mais em citar todos os pontos negativos de Boogeyman, expondo o ridículo de seu roteiro e tal, quando deveriam enxergá-lo como uma fita despretensiosa que cumpre exatamente o que promete: divertir. Ouso afirmar que, dentre as últimas produções de terror, é com certeza uma das mais bem-sucedidas. Tal qual um “trem fantasma” de um parque de diversões: você entra, morre de medo enquanto aquilo dura, leva alguns sustos e, quando termina, dá risada de tudo e vai pra casa numa boa. Mas isto, claro, se você ir ao cinema sem esperar muita coisa.

A história é qualquer nota: o garoto Tim, de oito anos e filho de um casamento prestes a ruir, vê seu pai ser cruelmente assassinado e sugado para dentro do armário de seu quarto. O algoz é o tal do Boogeyman, mais conhecido aqui no Brasil como “O Bicho-Papão”. Traumatizado, ele até tenta contar aos outros o que realmente aconteceu. Obviamente, ninguém acreditará e a versão aceita pela sociedade afirma que o pai simplesmente desistiu do casamento e fugiu no meio da noite. Quando o moleque insiste obsessivamente na história, é enviado para “morar” numa instituição psiquiátrica. Tim sabe que é questão de tempo até que o bicho-papão volte para buscá-lo, já que na noite em que seu pai morreu, o verdadeiro alvo era ele.

O filme começa pra valer com Tim (Barry Watson) já na fase adulta. Com vinte e três anos, o cara tem um emprego invejável, uma namorada linda chamada Jessica (a bela Tory Mussett) e vive num apartamento bacana na cidade grande. Porém, o trauma ainda está lá: desde o fatídico dia da morte do pai, Tim sobrevive eliminando todos os cantos escuros do ambiente. O cara não tem armários e sua cama, na verdade, é somente um colchão no chão – o Boogeyman pode surgir em qualquer lugar, desde que este lugar esteja escuro. O rapaz até conseguiu viver assim durante um tempo, mas de uns tempos pra cá, Tim anda num crescente de medo. Seu trauma manifesta-se cada vez mais, e o cara já está prestes a perder o controle sobre si mesmo. Quando ele recebe a notícia da morte da mãe, volta à sua cidade natal e decide que a única forma de acabar com seu medo é enfrentando o bicho-papão de uma vez por todas. Tim resolve passar uma madrugada inteira em sua antiga casa, uma construção abandonada e caindo aos pedaços bem no meio de uma floresta (NEM FERRANDO!) para levar um “papinho” com o monstrengo…

O roteiro escrito a seis mãos – por Eric Kripke (do seriado Tarzan) e a dupla estreane Juliet Snowden e Stiles White – é mesmo recheado de furos. Tem cada um que você não imagina. E se os roteiristas até tentaram caprichar na composição do próprio Tim, interpretado com certa dedicação por Barry Watson (de Onze Homens e um Segredo), isto já não aconteceu com outros personagens, que desaparecem do nada, da mesma forma que surgiram. Duas, em particular, mereciam mais destaque: a amiga de infância e potencial namorada Katie (Emily Deschanel, de Cold Mountain) e a misteriosa menina Franny (a talentosa Skye McCole Bartusiak, de O Patriota e Refém do Silêncio). Esta última, aliás, é o pivô de alguns dos maiores buracos do roteiro – não posso dizer muito, para não entregar o jogo. Vocês entendem, né? :-D

O roteiro perde-se de vez quando esquece da idéia central (Tim enfrentando o Boogeyman) para criar uma desnecessária subtrama que questiona a própria sanidade do rapaz. Aquilo realmente aconteceu? O bicho-papão existe ou é apenas uma invenção da cabeça do rapaz? O pai morreu ou de fato abandonou a família? Além de mal desenvolvida, a trama é esquecida em seguida (!). E pra finalizar, a conclusão do filme é um caso sério: dá a impressão de ter sido rodada às pressas e sequer se preocupa em explicar as origens do Boogeyman ou qualquer outra ponta desamarrada. Em compensação, a fotografia escura e a direção acelerada de Stephen Kay garantem o climão de suspense e terror. Dá um borraço do caramba quando Tim aproxima-se de qualquer armário ou cantinho escuro da tela… Afe! E não é o que realmente importa numa fita de terror? Fazer a platéia ficar assustada? Então pronto!

Pois é, agora vem a questão: Boogeyman é bom ou não é? Bem, é uma rua de duas mãos. Você pode se surpreender, se decepcionar, se divertir ou odiar. Como cinema de verdade? Fraco. Como roteiro? Horrível! Como fotografia? Dentro do aceitável. Como diversão-pipoca? Um dos melhores já lançados neste ano. Achou confuso? Como saber se o filme é bom mesmo ou não? Tire a prova, oras! Assista, e depois comente aí embaixo n’A Voz dos Nerds – já que nós aqui d’A ARCA somos tão sinceros que não temos receio de dar a cara a tapa! E por favor, não tenha medo de parecer bobo colocando as mãos nos ouvidos pra não levar susto. Metade do cinema provavelmente fará o mesmo… :-D

CURIOSIDADES:

Boogeyman é o segundo longa-metragem produzido pela Ghost House Pictures, produtora de Sam Raimi e Robert Tapert. O primeiro filme produzido pela empresa foi O Grito, de Takashi Shimizu e com a eterna Buffy, Sarah Michelle Gellar.

• O Bicho-Papão é “interpretado” pelo ator e bailarino Andrew Glover. Glover atuou em frente a um painel verde, e sua imagem foi totalmente maquiada, distorcida e invertida (!) através de efeitos visuais. A empresa dos efeitos – muito bons, por sinal – é a neozelandeza Oktobor. A empresa respondeu por alguns efeitos da trilogia sagrada O Senhor dos Anéis e também por boa parte das seqüências marinhas do excelente Encantadora de Baleias, de Niki Caro.

BOOGEYMAN • EUA/ALE/ZEL • 2006
Direção de Stephen T. Kay • Roteiro de Eric Kripke, Juliet Snowden e Stiles White
Elenco: Barry Watson, Emily Deschanel, Skye McCole Bartusiak, Lucy Lawless, Tory Mussett, Robyn Malcolm.
86 min. • Distribuição: Screen Gems/Sony/Europa Filmes.

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