Closer – Perto Demais

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 16/01/2005.

Perto Demais (Closer)

Eu sei. Sou mesmo um completo de um imbecil apaixonado. Sou daquele tipo de cara que se entrega em qualquer porcaria de relacionamento, e no fim das contas é passado pra trás e acaba se afundando na lama quando lê um livro qualquer do Manuel Bandeira, ouve uma música do Djavan ou assiste a um filme da Meg Ryan. Peraí, com relação a esta parte da Meg Ryan, não vamos exagerar! Bem, quem me conhece sabe que sou realmente um retardado quando o assunto é “relações pessoais”. Não rejeitando minha “nerdice”, mas os nerds também amam! :-) E quem conferiu nosso artigo dos melhores longas de 2004, sabe que sou assim mesmo (se você não viu, dê uma olhada lá na “minha” relação dos melhores).

Assim como aconteceu com o seu El Cid em Menina dos Olhos, será muito difícil pra mim ser imparcial ao falar do excepcional Closer – Perto Demais (Closer, 2004). Tudo isto porque o novo trabalho do veterano cineasta Mike Nichols me pegou de jeito. Aliás, eu confesso sem medo de questionar minha sexualidade (heheh…) que chorei mesmo durante o filme inteiro – não só eu como metade da sala de exibição também! Aliás, não só chorei como, ao final do filme, tive vontade de me jogar na frente do primeiro caminhão que estivesse passando ocasionalmente na rua.

E por que tudo isso? Simples. Porque assim como a grande maioria dos mortais, já passei pela terrível experiência de levar um belo dum chute na bunda. E Closer é um filme sobre pessoas que sofreram, sofrem ou ainda sofrerão esta mesma situação traumática. E se você também já foi rejeitado em algum momento da vida, a identificação é incrivelmente forte. Quando você se vê retratado de uma maneira tão sincera como neste trabalho, aí já era: você termina realmente deixando o controle escapar pelas mãos e a emoção toma conta do seu corpo. Se você entende o que eu digo, prepare-se para ficar tão atônito quanto eu fiquei.

E uma observação pessoal: o filme tem que ser muito bom mesmo para que eu consiga assistir numa boa sem me incomodar com a Julia Roberts (Doze Homens e outro Segredo) no elenco. Afinal, todos sabem que consigo gostar menos dela do que do Tom Hanks, outro que não sou chegado. Ah, ela não é tão grande atriz assim… e ainda roubou o Oscar da Ellen Burstyn, pô! (O quê? Você ainda não assistiu Réquiem para um Sonho? Sacrilégio!).

Mas um alerta importante: para gostar MESMO de Closer, é necessário ter um mínimo de afinidade com o gênero romance, ou pelo menos um mínimo de sensibilidade. Nada contra, mas se você é um sem coração que só se importa mesmo com sabres de luz ou coisas similares, acredita que filmes românticos são “para meninas” e não se sentiu tocado com Encontros e Desencontros e nem com Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, é melhor passar bem longe do cinema. Porque corre o risco de achar esta fita extremamente cansativa e verborrágica, justamente por se tratar de um longa cujo roteiro dá total atenção às palavras: não há cenas cheias de adrenalina, nem situações picantes. Só o bom e velho diálogo – e aqui, mais poderoso do que nunca.

A história é mais ou menos assim: em Londres, um incidente une Alice (Natalie Portman) e Dan (Jude Law). Ela é uma ex-stripper americana recém-chegada à Inglaterra. Ele é um jornalista que trabalha redigindo obituários e está tentando escrever seu primeiro romance. Algum tempo depois, Dan divide o mesmo teto com Alice, finalmente consegue concluir sua obra e está participando de uma sessão de fotos de divulgação para seu livro. As fotos são comandadas pela fotógrafa divorciada e obcecada por aquários Anna (Julia Roberts). Ele se sente atraído por ela (mesmo tendo certeza de seu amor por Alice), e ambos trocam um “selinho”, que é interrompido por Anna ao descobrir que Dan já é enrolado com alguém.

Para se vingar de Anna, Dan resolve se passar por ela em um chat de sexo, teclando com o primeiro que aparecer e marcando um encontro para sexo real. No caso, o primeiro que aparece é o médico Larry (Clive Owen). O problema é que Larry e Anna realmente se encontram pessoalmente, e não apenas sacam no ato que tudo foi uma armação como ainda se apaixonam e começam a sair…

Algum tempo depois (mais uma vez), o médico e a fotógrafa estão casados, o jornalista e a americana ainda moram juntos e mantém um relacionamento ativo, e os quatro personagens se cruzam numa galeria de arte, onde Anna expõe suas fotografias. Enquanto Larry e Alice conversam, descobrem afinidades e confidenciam suas desconfianças com relação aos respectivos parceiros, Dan e Anna finalmente explodem num tórrido caso de amor e sexo – e, por conseqüência, detonam diversos acontecimentos que unem e desunem os dois casais das mais variadas formas. No meio do fogo cruzado, discute-se abertamente amor, sexo, desejos, futuro, traição, redenção.

Só pra relacionar rapidamente as principais qualidades de Closer: o roteiro de Patrick Marber é excelente e não precisa mostrar “órgãos sexuais expostos” e nem vulgarizar os diálogos para ser extremamente amoral, dúbio e sexualmente forte – mesmo jogando o eufemismo na lata do lixo e usando frases diretas e “sem papas na língua”. A direção de Mike Nichols e a estrutura narrativa do roteiro é a mais tradicional possível, não se importando com pirotecnias ou extravagâncias visuais. A montagem avança e retrocede no tempo sem aviso prévio, mas não fica confuso em momento algum. E a trilha sonora é muito boa, com destaque para a ótima e sensível The Blower’s Daughter, de Damien Rice, canção que abre e fecha o longa e, falando de amor, contrasta bem com o clima puramente sexual do enredo.

Quanto ao elenco: Jude Law (Capitão Sky e o Mundo de Amanhã) é competente e segura seu personagem num boa. E Julia Roberts, independente de gostar dela ou não, não está ruim mas também não está excelente. Aliás, é bem curioso ver a “linda mulher” num papel bem diferente do habitual, afinal, aqui ela está mais “várzea” do que nunca, fornecendo mais do que xuxu na serra. Mas ainda assim poderia ser muito melhor, num personagem que se daria bem nas mãos de Laura Linney ou Carrie-Anne Moss, por exemplo.

Mas os donos absolutos de Closer atendem pelos nomes de Natalie Portman (a Rainha Amidala de Star Wars) e, principalmente, Clive Owen (Rei Arthur). Owen dá um banho em todo o elenco com sua caracterização imponente e moderadamente sacana do médico taradão, enquanto Portman, além de se entregar com firmeza em seu papel, nunca esteve tão linda e sensual como aqui. Desafio qualquer marmanjão a não se apaixonar por ela em sua última cena – aliás, em qualquer cena. Só a seqüência do sofrido e tenso diálogo entre Larry e Alice na sala privada da boate já é o suficiente pra justificar qualquer prêmio concedido aos dois atores.

E agora você se pergunta: como confiar numa crítica escrita por alguém que declaradamente deixou o profissionalismo de lado e embarcou de coração aberto na trama? Eu respondo: não tem como confiar. Tire a prova. Abra uma concessão. Esqueça por alguns momentos dos morcegões atormentados, das guerras intergalácticas e dos quartetos de heróis que dominarão as telonas neste ano. Enfrente uma sessãozinha mais calma e deixe-se emocionar com as dúvidas e os desencontros destes quatro personagens. Afinal, eles só querem amar e ser amados. Quer adrenalina maior do que esta? E se você não se sentir tocado em momento algum… você é um coração de pedra! :-D

CURIOSIDADES:

• O diretor Mike Nichols é responsável por importantes obras como Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (1966), o oscarizado A Primeira Noite de um Homem (1967) e a recente minissérie Angels In America (2003).

• A peça teatral Closer, escrita por Patrick Marber e que serviu de base para este filme, estreou em Londres em 1997 e, desde então, foi traduzida para mais de 30 idiomas e apresentada em mais de 100 cidades em todo o mundo.

• O papel de Anna foi oferecido inicialmente a Cate Blanchett, que não pôde aceitar por estar grávida na ocasião das filmagens.

• Formado no conceituado Royal Academy of Dramatic Art, da Inglaterra, o excelente Clive Owen começou a ser notado no ótimo e subestimado suspense Crupiê, de Mike Hodges (disponível em DVD no Brasil). Para quem não se lembra, Owen também foi o astro daquela série de mini-filmes da BMW veiculados na Internet, sendo dirigido por nomes como Ang Lee (Hulk), David Fincher (O Quarto do Pânico), John Frankenheimer (Ronin), Wong Kar-Wai (Amor à Flor da Pele) e Guy Ritchie (Snatch).

• Clive Owen e Natalie Portman receberam, respectivamente, os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante na última edição do Globo de Ouro por este filme. Owen ainda saiu vitorioso pela Associação de Críticos de Toronto, Associação de Críticos de Nova York e pela Sociedade de Críticos de Las Vegas, além de conquistar o segundo lugar na preferência dos Críticos de Boston (atrás de Thomas Haden Church, por Sideways). Natalie Portman foi eleita Melhor Atriz Coadjuvante também pela Sociedade de Críticos de San Diego.

CLOSER • EUA • 2004
Direção de Mike Nichols • Roteiro de Patrick Marber, baseado em sua peça teatral
Elenco: Natalie Portman, Jude Law, Julia Roberts, Clive Owen.
98 min. • Distribuição: Columbia Pictures.

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