Batman

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 01/05/2005.

Batman (1989)

…ou: QUANDO O VILÃO ROUBA A CENA DO MOCINHO

Quando as primeiras notícias sobre o aguardadíssimo Batman Begins começaram a pipocar, isso lá pelos idos de 1998 (sim, faz tempo!), os fãs ficaram muito, mas muito preocupados. Não só os fãs, mas o planeta inteiro. Ok, o planeta inteiro não: minha vó provavelmente não ficou tão preocupada assim – mas é porque seu conceito de “herói” se resume somente ao Vigilante Rodoviário mesmo! Enfim, o temor todo em torno do novo longa-metragem live-action do Homem-Morcego não podia ser de forma alguma comparável ao caso das versões de carne-e-osso dos notórios X-Men ou do amigo da vizinhança, o Homem-Aranha; enquanto nestes dois casos, os fãs simplesmente aguardaram ansiosos e temerosos por um bom trabalho por parte da produção, o caso do morcego era mais delicado e temível. Afinal, Batman atravessou o final da década de 80 e boa parte dos anos 90 sofrendo uma terrível humilhação nas telonas.

Pois é, depois de 1997, podemos afirmar numa boa que o trauma maior do morcegão não é a morte dos seus pais, a morte do primeiro Robin ou o confronto com o grandalhão Bane, que resultou em uma espinha partida; é só pronunciar o nome Joel Schumacher perto de Bruce Wayne para que ele seja capaz de desistir de sua carreira de vigilante noturno para tornar-se padre! :-D

Brincadeiras à parte, os quatro filmes estrelados por Batman entre 1989 e 1997 podem até ter sido tremendos sucessos de bilheterias – à exceção, claro, do quarto e mais aterrador capítulo da saga. Entretanto, sabemos bem que rendimento gordo e qualidade nem sempre andam de mãos dadas, e a cinessérie do morcegão provou por A + B que, a favor do dinheiro, os executivos de Hollywood não pensam duas vezes em manchar legal a reputação de qualquer personagem que cruze seu caminho. Mesmo que este tal personagem seja um dos super-heróis mais amados e respeitados das HQs.

Só para se ter uma idéia da humilhação sofrida, os primeiros rumores sobre Batman Begins confirmavam a contratação de ninguém menos que Kurt Russell (Vanilla Sky) como Batman. É mole? Nada contra Russell, até gosto dele, mas alguém aí consegue imaginá-lo como o morcegão? O boato mais bizarro, no entanto, foi o que confirmou os nomes de Brad Pitt como o herói e Ben Affleck como o vilão Espantalho! O Pitt, até vai – ele é o Tyler Durden, pô! -, mas chamar o Affleck é sacanagem! Os caras querem revitalizar a série ou afundá-la de vez? Já não bastou o que ele fez com o ceguinho da Cozinha do Inferno? :-P

Passaram-se alguns anos e, para nosso total alívio, Batman Begins está bem perto de estrear e gerando ótimas expectativas – sem Kurt Russell no papel principal, e sim com um tal de Christian Bale (do excelente O Operário). E, graças aos céus, sem Joel Schumacher na direção; em seu lugar, um cara chamado Christopher Nolan, que dirigiu nada menos que o maluco Amnésia. Quer dizer, tudo bem que o projeto tem tudo pra dar certo, e o material revelado pela Warner até o momento realmente é empolgante, mas em se tratando de Batman, todo cuidado é pouco! Exagero? Não mesmo. Para que todos possam compreender este terrível frio na espinha que os fãs enfrentam sempre que alguém fala sobre Batman no cinema, aí vai um raio-x dos quatro longas-metragens em live-action protagonizados pelo herói. Confira a primeira parte deste artigo, onde dissecamos a “fase Burton”!

A visão do grande Tim Burton (Peixe Grande) para o Homem-Morcego chegou às telas ianques em 23 de Junho de 1989, cercado de expectativa e polêmica. Primeiro, porque Burton nem era tão conhecido assim, e seu único longa-metragem de destaque era uma comédia, Beetlejuice – Os Fantasmas se Divertem (88). Segundo, porque o filme era razoavelmente escuro (influência dos quadrinhos que revitalizaram a carreira do morcegão nas bancas, O Cavaleiro das Trevas e A Piada Mortal), o que poderia afastar boa parte do público-pipoca ianque – desde já, a platéia mais fresca e enjoada da face do planeta. Terceiro, porque o cineasta escalou para o papel central alguém chamado Michael Keaton (Vozes do Além), o que atiçou a ira dos fãs do morcegão, visto que o ator não possuía o perfil físico do personagem. Burton chegou a divulgar que escolheu Keaton, pois queria alguém vulnerável, com a qual o público pudesse se identificar, e não um “Super-Homem”. E pra piorar, as canções seriam assinadas por ninguém menos que Prince, ainda antes de trocar o nome por um símbolo intraduzível. E alguém conseguiria imaginar Prince compondo a trilha para um filme do atormentado vigilante mascarado?

Por outro lado, nesta primeira incursão séria do herói nas telonas, o cara enfrentaria ninguém menos que seu eterno arquinimigo: o Coringa, a ser interpretado pelo grande Jack Nicholson (Alguém Tem Que Ceder). Além do fator Nicholson, ainda há a excelente trilha sonora incidental de Danny Elfman, ex-Oingo Boingo, ainda no princípio de sua parceria de sucesso com Tim Burton. O roteiro de Sam Hamm (que depois viria a escrever o bizarro Monkeybone, com Brendan Fraser) e Warren Skaaren (falecido no ano seguinte, 1990) incomodou os fãs por modificar alguns pontos cruciais da história do personagem, como por exemplo a morte dos pais. E a identidade do Coringa – no longa, o alter-ego do marginal Jack Napier – não é a mesma das HQs. Aliás, a verdadeira identidade do Coringa nunca foi claramente revelada nos gibis.

No enredo de Batman (Idem, 1989), o pequeno Bruce Wayne presencia o assassinato dos pais pelas mãos de Jack Napier. Anos mais tarde, o milionário Bruce passa os dias em eventos de caridade e, durante a noite, assume sua segunda identidade e dedica sua vida a combater o crime. E eis que surge um grotesco vilão na parada, o demente e desfigurado Coringa, que quer dominar Gotham a todo custo. Batman precisa livrar a cidade do maníaco e ainda proteger a intrometida repórter Vicki Vale (Kim Basinger, de Celular – Um Grito de Socorro, aqui no auge da carreira), que só sabe gritar e é o alvo predileto do bandido. Ainda desfilam pela tela outros personagens bem conhecidos do universo do Homem-Morcego, como o Comissário Gordon (o ator de televisão Pat Hingle), o mordomo Alfred (Michael Gough, colaborador habitual de Burton) e o promotor Harvey Dent (Billy Dee Williams, o Lando Carlissian da primeira trilogia Star Wars), que mais tarde viria a se tornar outro importante vilão de Batman, o Duas-Caras. Além destes, há novos personagens criados especialmente para o cinema, como o jornalista Alexander Knox (o sumido Robert Wuhl, que atuou na bomba O Guarda-Costas), apaixonado por Vicki Vale e declarado detrator do Homem-Morcego.

O primeiro Batman de Burton tem suas falhas. Pra começar, o vigilante mascarado é totalmente apagado pela fantástica interpretação de Jack Nicholson como Coringa; o roteiro de Hamm e Skaaren ignora totalmente a cronologia das HQs; o morcegão parece não se importar muito em revelar sua identidade secreta, já que boa parte dos personagens descobre rapidamente que Batman é Bruce Wayne – o que acontece com freqüência, aliás, em toda a cinessérie; o herói tem movimentos robóticos demais – mas a culpa não é de Michael Keaton e sim, do uniforme; e o erro mais cruel de todos: Batman mata, o que não acontece nos quadrinhos de maneira alguma.

Entretanto, parece que o público pouco se importou com estes “poréms”, já que Batman rendeu, em sua passagem pelos cinemas, mais de US$ 250 milhões (quase US$ 500 milhões no mundo todo), um número bem generoso em 1989. Como se não bastasse, ainda inaugurou a onda de adaptações live-action de heróis de HQs e alçou o nome de Tim Burton ao seu devido lugar: o topo. Fora isto, Batman deu início a era dos “filmes-evento” – ou blockbusters, como conhecidos hoje -, cuja campanha de marketing é maior, mais cara e, em alguns casos, até mais competente que o próprio longa-metragem.

Na opinião geral do público, Batman é um bom filme. Mas uma ressalva deve ser feita: Jack Nicholson arregaça Michael Keaton em cena! Tanto que os fãs são categóricos em afirmar que o longa não deveria chamar-se Batman, e sim Coringa. Talvez até a equipe soubesse disso, visto que o nome de Nicholson é o primeiro dos créditos… E vamos concordar: Michael Keaton pode não ter sido a escolha mais perfeita para encarnar Batman, mas o ator é, sem dúvidas, o melhor de todos os escolhidos até agora! Quer dizer, excluindo aí um tal de Christian Bale… E uma coisa que poucos sabem: Keaton recebeu a aprovação imediata de ninguém menos que o próprio Bob Kane! Se o criador do herói gostou, porque nós, reles mortais, deveríamos odiar? :-D

E preciso fazer um comentário pessoal: todo mundo adora descer a lenha na trilha sonora do Prince, mas todos têm o vinil em casa, eu aposto! Bem, não tenho medo de assumir, então lá vai: eu até acho legal! Sim, principalmente as faixas Partyman, Scandalous e Vicki Waiting. Pronto, falei! :-)

CURIOSIDADES:

• A primeira versão do roteiro de Batman foi escrita em 1980 por Tom Mankiewicz (co-roteirista de Superman), e narraria as origens de Batman e Robin. Além do Coringa, o Pingüim estaria envolvido no enredo. Batgirl também teria uma participação especial, como Barbara Gordon. Este tal roteiro seria originalmente rodado em 1985, com um orçamento de US$ 20 milhões. Mas os produtores originais, Michael Uslan e Benjamin Melniker, não confiaram no possível sucesso da produção e pularam fora do barco. O projeto só andou depois que os produtores Peter Guber e Jon Peters se interessaram pelo personagem. Com o roteiro reescrito e Tim Burton na direção, os ex-produtores Melniker e Uslan retornaram ao projeto, desta vez como produtores executivos.

• A primeira versão do roteiro foi disputada por dois diretores bastante conhecidos: Joe Dante (Gremlins) e Ivan Reitman (Os Caça-Fantasmas). Caso o primeiro roteiro fosse mantido, os produtores teriam escolhido um desconhecido para interpretar Batman, e o papel do Comissário Gordon teria sido entregue ao grande William Holden (do ultra-clássico Crepúsculo dos Deuses). Antes de Tim Burton assinar contrato, o projeto foi oferecido aos notórios Irmãos Coen (Matadores de Velhinha, O Amor Custa Caro). Ficaria no mínimo bastante bizarro! Até imagino como seria o lance: John Turturro como Coringa, John Goodman como Pingüim, Frances McDormand como Mulher-Gato, Steve Buscemi como Charada… :-D

• O papel da repórter Vicki Vale seria originalmente da sumida Sean Young (a Rachel do maravilhoso Blade Runner – O Caçador de Andróides), que chegou a rodar algumas cenas. Young precisou abandonar o papel ao cair de um cavalo e quebrar a clavícula, numa cena em que Vale e Bruce Wayne perseguem o Coringa. A cena foi removida do roteiro, e o personagem Alfred chega a citar esta perseguição num diálogo.

• Tim Curry (Rocky Horror Picture Show) era a primeira escolha de Tim Burton para viver o Coringa. Em segundo lugar, vinha Jack Nicholson. Quando Nicholson mostrou-se indeciso em aceitar participar do projeto, os produtores ofereceram o papel de Coringa a Robin Williams. Diz a lenda que Jack Nicholson aceitou o papel somente quando disseram que Robin Williams tencionava aceitá-lo. Comenta-se em Hollywood que Williams ainda guarda rancor pela Warner, por ter sido “usado como isca”.

• Michael Keaton era a última escolha de Tim Burton para viver Batman. O primeiro nome cogitado foi o de Mel Gibson, que chegou a aceitar o convite verbalmente, mas não pôde assinar contrato por estar envolvido nas filmagens de Máquina Mortífera 2. Outros atores convidados a assumir o papel: Alec Baldwin, Charlie Sheen e o mais bizarro de todos, Bill Murray. Um novato chegou a fazer testes e ganhou o aval de Burton, mas foi rejeitado pelos produtores. Seu nome: Pierce Brosnan.

• A maquiagem do Coringa foi mantida em segredo até a estréia do longa-metragem. O sobrenome do maníaco, Napier, é uma homenagem ao ator Alan Napier, que interpretou Alfred no hilário seriado dos anos 60 e faleceu dois meses antes do início da produção de Batman.

• O cenário criado pelo cenógrafo Anton Furst chegou a ser incorporado nas HQs no início dos anos 90, e foi removido no arco Terra de Ninguém. O set da Fábrica de Produtos Químicos (em que Jack Napier sofre o acidente que o transforma em Coringa) foi usado em Aliens, o Resgate.

• As músicas seriam interpretadas originalmente por Michael Jackson. Que medo!

BATMAN • EUA/ING • 1989
Direção de Tim Burton • Roteiro de Sam Hamm e Warren Skaaren
Baseado nos personagens criado por Bob Kane
Elenco: Michael Keaton, Jack Nicholson, Kim Basinger, Robert Wuhl, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Michael Gough e Jack Palance.
126 min. • Distribuição: Warner Bros.

 

BATMAN: O MORCEGO NO CINEMA – FASE BURTON
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 01/05/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem BATMAN BEGINS.

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