O Amigo Oculto

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/02/2005.

O Amigo Oculto (Hide and Seek)

Quando você assiste a um filme como este O Amigo Oculto (Hide and Seek, 2005), você chega a várias conclusões: 1) O M. Night Shyamalan provavelmente está ganhando um dinheirinho extra dando aulas de “como escrever roteiros chulé para longas-metragens descartáveis de suspense”; 2) a menina Dakota Fanning caminha a passos largos para se tornar uma grande atriz no futuro; e 3) Robert DeNiro precisa, com muita urgência, trocar de agente. O ator não entrega um grande trabalho desde 1998, quando estrelou o maravilhoso Ronin. Só um péssimo agente mesmo pra justificar sua presença aqui nesta joça.

Mas espere um pouco: esta película dirigida por John Polson (Fixação… sentiu o drama?) é de fato tão ruim assim como andam anunciando? Bem, em partes. No saldo geral, é apenas regular. Você não sai da sessão dizendo maravilhas dele, mas também não foi dominado por aquela vontade de pular de um prédio alto em direção à morte certa. Só que a grande expectativa da platéia acaba transformando-o num lixo. Talvez a culpa desta expectativa seja do marketing feito em cima do trabalho: para quem não sabe, a 20th Century Fox divulgou à exaustão que O Amigo Oculto traz um surpreendente “final-surpresa” (bem, qual filme hoje em dia não tem?) e chegou inclusive ao cúmulo de distribuir suas cópias nos cinemas dos States com a ausência do último rolo, justamente aquele que contém o final – entregue separadamente para evitar spoilers e falsificadores. Isto justifica-se? Não. Porque o final de O Amigo Oculto é o troço mais constrangedor que já apareceu no cinema desde aquela conclusão de A.I., do titio Spielberg. Mas quem sabe o incômodo fosse menor se ninguém o exaltasse sem saber, né?

Tá, antes de qualquer coisa, aqui vai um apanhado geral da história: o psicólogo David Callaway (DeNiro) resolve sair da cidade grande e se mudar com a filha pequena Emily (Fanning) para uma “casinha no campo”, depois que ambos presenciam o violento suicídio de Alison (Amy Irving), esposa de David e mãe de Emily. O primeiro erro já começa por aí: qualquer um sabe que, quando uma criança traumatiza-se com algo, a última coisa que se deve fazer é afastá-la de tudo e isolá-la do mundo – isso porque David é psicologo, vai vendo bem.

Enfim, a decisão de David é irreversível, mesmo com a reação negativa de sua melhor amiga, a também psiquiatra Katherine (Famke Janssen… ai, ai, ai…) – que defende a teoria de que Emily deve enfrentar o trauma em seu “habitat natural”, digamos assim. O cara encontra então uma casa fantasmagórica no meio do nada e se muda pra lá. O problema é que a menina, a esta altura já com a maior cara de morta-viva, passa a apresentar um comportamento muito estranho. Ok, e o pai, que é psicólogo, acha normal a menina andar como um zumbi e cair moribunda pelos cantos, comportamento que se desenvolveu depois da mudança? Fora que as oscilações das atitudes de Emily sugerem coisas que não tem nada a ver – cortesia do “ótimo” tratamento que o roteiro dá a personagem, mas disso falamos daqui a pouco.

Ok, continuando: em certo momento, Emily conta ao pai que fez amizade com um tal Charlie. Este Charlie, na verdade, é um amigo imaginário. Ou “amigo oculto”, como diz o cartaz. A princípio, Charlie parece ser inofensivo e a menina apresenta até uma leve melhora (bem, pelo menos ela abre a boca a partir daí). Então David nem liga e se preocupa mais em fazer amizade com a vizinha totosa Elizabeth (Elisabeth Shue… ai, ai, ai…). O problema é que as “brincadeiras” de Charlie passam a tomar outro rumo… O tal “amigo imaginário” pode vir a ser real. Ou não.

Sinopse estimulante? É sim. Daria um belo dum filme de suspense. Só que inventaram de dar esta linha de enredo para ser desenvolvida pelo péssimo Ari Schlossberg – roteirista de Lucky 13, película até elogiadinha nos States. O roteirista Schlossberg não constrói personagens dignos, é lotado de erros de concordância, deixa um rastro de zilhões de furos no enredo e ainda gera “frases de efeito” bem risíveis. Putz, o que foi aquilo que a coitada da Famke Janssen foi obrigada a dizer na cena da caverna? :-P Uma pena que não posso comentar alguns dos erros, pois isto implicaria na entrega de um spoiler violento: o final do filme.

O que nos leva a outro fator preocupante: O TAL DO FINAL DO FILME. Sim: hoje em dia, qualquer filmeco tem um final-surpresa. Poucos são realmente assustadores e dignos de nota (como os clássicos Seven – Os Sete Crimes Capitais e Clube da Luta), e a maioria você adivinha logo nas primeiras cenas (como A Vila e Os Esquecidos). Incrível como o estilo desgastadíssimo pelo indiano M. Night Shyamalan é copiado por Deus e o mundo hoje em dia. Bem, O Amigo Oculto também tem seu final-surpresa que, de certa forma, é até difícil de se adivinhar. Só que, quando finalmente acontece, você não diz: “Caramba, então era isso?” – sua reação provavelmente será: “Putz, que ridículo”. Só pra se ter uma idéia, o lance é tão ruim que, quando você recapitula as cenas mais importantes, percebe que a situação revelada no final contradiz quase o roteiro inteiro! E só um comentário: o “estilo Shyamalan” que citei acima, na verdade, nem é do próprio Shyamalan, já que o fator “final surpresa” já existia no cinema desde os anos 20.

O que dói mais é saber que o trabalho conta com nomes bem legais: Famke Janssen (como todos sabem, a Jean Grey da franquia cinematográfica dos X-Men) é boa atriz, além de linda; Elisabeth Shue (de O Homem sem Sombra) também já cansou de provar que tem talento, como no dilacerante Despedida em Las Vegas; Dakota Fanning, intérpreta da menina Emily e estrela de Guerra dos Mundos, em breve nas telonas, é considerada o maior nome infantil no cinema atualmente, superando até o meio-sumido Haley Joel Osment (que deu vida ao promissor moleque perturbado de O Sexto Sentido); e Robert DeNiro dispensa apresentações, mesmo passando por uma má fase – alguém aí já assistiu O Enviado? Pois é. Bons nomes, que infelizmente não conseguem salvar o barco.

Mesmo com todos estes pontos contra, O Amigo Oculto ainda é uma fita que, se o espectador não criar nenhuma expectativa, torna-se assistível. Primeiro, porque o clima que o diretor John Polson criou funciona bem – pelo menos até os 20 minutos finais, o momento em que tudo desaba. Segundo, porque Robert DeNiro é sempre um grande ator, não importa o que faça – por mais que visivelmente não se esforce muito e mostre que só quer mesmo pagar suas contas. E terceiro, porque Dakota Fanning faz um trabalho que muito ator ou atriz maduro jamais conseguiria fazer – por mais que já estejamos de saco cheio das “crianças malvadas com cara de loucas” que infestam o cinema de suspense de hoje.

Resumindo: quer assistir, vai fundo. Mas depois não diga que eu não avisei! Sinceramente, para assistir ótimas histórias envolvendo “amigos ocultos”, prefiro ficar em casa vendo o fabuloso desenho da Mansão Foster para Amigos Imaginários, que estreou há pouco no Cartoon Network. Ei, aquele animado é, como diria o El Cid, “maior bom”! :-P

CURIOSIDADES:

• A atriz Amy Irving, que interpreta a esposa suicida de Robert DeNiro, já foi casada com Steven Spielberg durante quatro anos (de 1985 a 1989) e atualmente é mulher do cineasta brazuca Bruno Barreto. Ela debutou no cinema no clássico do terror Carrie, a Estranha, e desde então já participou de mais de 40 filmes.

• Ainda sobre Amy Irving, é ela a voz da curvilínea Jessica Rabbit nas músicas interpretadas pela personagem em Uma Cilada para Roger Rabbit (1988), de Robert Zemeckis. A dubladora desta mesma personagem nos diálogos é Kathleen Turner.

• A 20th Century Fox, além de montar todo o esquema de distribuir O Amigo Oculto sem o último rolo, também jogou cópias com um final alternativo em salas de exibição pré-selecionadas nos States. Sua idéia, com isto, é fazer com que o espectador assista a fita diversas vezes, na tentativa de descobrir este “outro final”. Espertos, não? Eu espero passar na TV mesmo – isso, se não tiver nada melhor pra fazer, como dormir, por exemplo. :-D

HIDE AND SEEK • EUA • 2005
Direção de John Polson • Roteiro de Ari Schlossberg
Elenco: Robert DeNiro, Dakota Fanning, Famke Janssen, Elisabeth Shue, Dylan Baker, Amy Irving.
101 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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2 Responses to O Amigo Oculto

  1. Adilio disse:

    Olá! Eu estava vendo algo sobre este filme na net, pois comecei ver e não pude ir até o fim. Tinha que acordar cedo e sabe era o tava passando na Globo. Fiquei mais curioso só pelo grande no de DAKOTA FANNING. E estava agora mesmo tentando ver se encontrava para assistir on-line, até ver esta sua crítica que por sinal me deixou bastante interessado. Eu nem estava com saco para qualquer tipo de leitura, todavia quando se acha algo interessante, a leitura torna-se agradável em qualquer momento. Gostei muito mesmo do seu artigo e confeço que por um lado fiquei sem vontade de ver o filme novamente, ou seja, todo. Mas por outro me despertou uma certa curiosidade para tirar minhas próprias conclusões, não que as suas não sejam boas. Mas sabe, a partir de um ponto de vista você formular o seu. Resumindo eu gostaria de saber onde eu posso ver mais críticas do autor deste artigo, eu ficaria bastante grato se respondessem meu pedido. E caso queiram, podem enviar qualquer informação para o meu e-mail fornecido na solicitação do comentário. Desde já muito obrigado!

  2. Marina Silva disse:

    Crítica interessante, contudo um percentual considerável de pessoas que assistem filmes de suspense gostaram do filme. Inclusive verifiquei que muitos esperavam um “amigo oculto 2”. Certamente não foi produzido devido aos críticos do cinema que cansados de roteiros parecidos, cuja criatividade é inexistente em pleno ano de 2014, quase dez anos de estreia do suposto filme. Ressalto que assisti e gostei do filme, acredito ser compatível com os filmes do gênero.. Agora se quiser ver um filme com roteiros não previsíveis, cujos finais não tenham efeito surpresa, basta assistir filmes baseados em fatos reais. Até hoje os melhores filmes não são feitos por roteiristas pré-moldados de instituição da indústria do cinema, que convenhamos deixam falhas críticas em cada capítulo apresentado.

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