Cartas de Iwo Jima

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 15/02/2007.

Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima)

Se você parar pra pensar em potenciais diretores com culhão suficiente para expor dois lados de uma mesma (e polêmica) moeda sem se deixar influenciar por posicionamentos políticos ou algo do gênero, não sobrarão muitos nomes. Até então, Clint Eastwood, um senhor cuja genialidade já foi provada há muito tempo, surgiria como uma possibilidade, ainda que sua irregular filmografia atrás das câmeras prevaleça. De qualquer forma, temos aí uma série de produções minimalistas e excepcionais, como Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro, para nos lembrar de que Clint Eastwood é, no mínimo, um cineasta que deve ser respeitado e jamais subestimado. Só o que faltava na carreira do eterno “Estranho Sem Nome” era se sobressair em algum trabalho inevitavelmente inclinado para um discurso patriótico, que até desse margem para uma visão inovadora, mas que pudesse perfeitamente cair na mesmice em mãos erradas.

Com Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2006), que complementa seu projeto anterior, A Conquista da Honra, dá pra se notar por qual razão Clint Eastwood merece todo o respeito que adquiriu com o passar do tempo. Nem tanto por suas muitas qualidades enquanto filme, mas sim por suas inúmeras qualidades quando se é comparado com sua contraparte norte-americana – até então, todo mundo já sabe que Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra contam uma mesma história de dois pontos de vista antagônicos: enquanto A Conquista da Honra retrata a Batalha de Iwo Jima, um dos marcos da 2.ª Guerra Mundial, do ponto de vista dos soldados ianques, Cartas de Iwo Jima expõe o mesmo ocorrido sob a ótica dos combatentes nipônicos. Se você não sabia disso, você certamente passou os últimos anos passeando pelo espaço sideral ou algo do gênero. :-D

O barato de tudo é ver que o grande “quê” de Cartas de Iwo Jima só é perceptível quando se assiste a este longa antes ou depois de sua parte gringa, A Conquista da Honra: é a naturalidade de Clint Eastwood em se manter imparcial e não apontar heróis ou vilões em um evento tão tendencioso quanto uma guerra, feito este que, até onde possa me lembrar, só foi evidenciado nos últimos anos por um certo Terrence Malick em um certo longa chamado Além da Linha Vermelha.

Sozinho, contudo, Cartas de Iwo Jima não deixa de ser parcial. E nada mais natural, já que o que vemos em tela é a história de um evento isolado em uma guerra, visto do ponto de vista de uma das nações combatentes.

Então tá. Enquanto em A Conquista da Honra o foco era o histórico momento em que soldados estadunidenses enfiam uma bandeira norte-americana no Monte Suribachi e criam o símbolo-mór da lendária batalha de Iwo Jima, em Cartas de Iwo Jima acompanhamos os momentos finais dos soldados japoneses, os rivais dos gringos, justamente em sua preparação para o confronto que se concluiria no hasteamento da bandeira e em uma das imagens mais poderosas da 2.ª Guerra Mundial. Como no primeiro longa, Eastwood não quer nos mostrar vencedores e perdedores, até mesmo porque não há vencedor em uma guerra. O cineasta não pretende apontar o certo e o errado, mas sim humanizar aqueles que, no fundo, nada tinham a ver com a história toda. Como no bacanésimo Soldado Anônimo, o foco é a história dos soldados que foram enviados ao front e perderam suas vidas em prol de algo que sequer entendiam bem. No meio disso tudo, não dá pra apontar quem é o mocinho e quem é o vilão.

Então, somos enviados à Ilha de Iwo Jima, junto com uma tropa de japoneses comandada pelo general Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe, excelente), que se prepara para a iminência da chegada dos soldados norte-americanos. A conquista de Iwo Jima representa um golpe importante do exército dos Estados Unidos na derrocada de Hitler. Os recrutas japoneses, por sinal, não estão preocupados com uma possível vitória, pois sabem que isto dificilmente acontecerá. Sofrendo da falta de armas e com um número pequeno de homens, Kuribayashi sabe que sua função ali, na verdade, é prolongar a vida de seus soldados e fazer com que a tomada dos ianques, donos de uma equipe melhor preparada, seja mais difícil e demorada do que o previsto. A morte é inevitável e todo mundo está careca de saber que os norte-americanos sairão dali vitoriosos; o esquema é tornar tudo mais difícil para o “inimigo”.

Ainda assim, o general se vira como pode, seja supervisionando a construção de um labiríntico esquema de túneis subterrâneos que servirão de bunker para os soldados japoneses, seja aplicando uma série de “inovações” em suas estratégias – o que desperta a desconfiança de seus superiores –, seja tentando injetar em seu desgastado exército um pouco de ânimo e esperança na sobrevivência, o que é aplicado através de cartas escritas pelos soldados, cartas que relatam os últimos momentos daquele batalhão até a chegada dos estadunidenses.

Cartas de Iwo Jima é um trabalho que cresce bastante com várias escolhas acertadíssimas de Clint Eastwood na direção. Mais uma vez, o centro da câmera não está na batalha em si, nem mesmo na guerra ou numa possível justificativa para ela, mas sim no que o evento representou para seus protagonistas. Enquanto A Conquista da Honra acompanha a derrocada pessoal e psicológica de cada um dos soldados envolvidos no hasteamento da bandeira no Surbiachi na trágica volta para casa, Cartas de Iwo Jima acompanha a quase forçada união dos combatentes japoneses que, longe de suas famílias, enxergam a si próprios como um clã. Nasce daí diversos sentimentos, que deverão ser suprimidos em prol da guerra. Sim, há inúmeras seqüências de pauleira – o primeiro ataque que abate o batalhão de Kuribayashi é espetacular no aspecto visual e também no emocional –, mas elas estão lá não só porque são inevitáveis em um longa-metragem de guerra, mas também porque exaltam justamente o sentimento de compaixão e camaradagem que o ótimo roteiro da estreante Iris Yamashita (em parceria com Paul Haggis) quer evidenciar.

Tais momentos conseguem emocionar ainda mais com a dedicada atuação do quase-desconhecido elenco, com destaque, claro, para a impressionante interpretação de Ken Watanabe (o Ra’s Al Ghul de Batman Begins) como o líder do pelotão. De verdade, como podem ter esquecido deste indivíduo no Oscar? Ah, bando de velhos caquéticos, estes membros da Academia. :-P

Por outro lado, há uma série de pequenos elementos que impedem Cartas de Iwo Jima de se transformar em um exercício definitivo sobre os horrores da guerra. A duração da fita é longa demais, e o excesso de estilo aplicado pela fotografia hiper-saturada, quase p&b de Tom Stern e pela montagem de Joel Cox chega a cansar em certo momento. O que mais me incomodou é o fato de o filme de Clint Eastwood não conseguir resistir por completo à velha mania de querer “inocentar” os EUA. Algumas pequenas cenas, como a que um comandante japonês lê uma carta de uma mãe de um soldado norte-americano, soam deveras forçadas e estão lá somente para mostrar o quanto os combatentes dos Estados Unidos são “vítimas”. Em A Conquista da Honra, não há uma cena sequer que nos diga que os soldados japoneses não são culpados pela guerra; já em Cartas de Iwo Jima, somos lembrados da inocência dos combatentes ianques a todo instante. Não precisava disso: todo mundo já entendeu que a culpa não deve recair sobre os soldados, e sim sobre os que estão no alto escalão.

Felizmente, Cartas de Iwo Jima não tem pretensões de apontar o dedo na cara de qualquer um. Só o que este belo trabalho quer é mostrar que, em uma guerra, não há nada além de vítimas. Ao dar voz, rosto e alma a cada um dos combatentes, seja japonês, seja norte-americano, Clint Eastwood quer nos fazer entender que a guerra não parece ter outro objetivo a não ser destruir os sonhos daqueles que morrem quase sempre em vão por uma pátria que parece pouco ligar para eles. Se Cartas de Iwo Jima, quando visto sozinho, parece glorificar demais aqueles que defendem o lado tido como inimigo, a lição de casa fica muito mais esclarecedora quando este é visto em seguida à sua contraparte ianque. Separados, Cartas de Iwo Jima e A Conquista da Honra não passam de bons filmes de guerra. Juntos, tornam-se um poderoso tratado anti-bélico e também uma experiência única em se tratando de produções deste gênero.

Não só isso: unidos, representam uma prova concreta de que Clint Eastwood é um sujeito deveras genial e que, mesmo com alguns tropeções em sua carreira como ator/diretor, justifica todo e qualquer aplauso. Como se ele ainda precisasse provar alguma coisa, não é mesmo? :-)

CURIOSIDADES:

• O título original de Cartas de Iwo Jima seria Red Sun, Black Sand (traduzindo literalmente, Sol Vermelho, Areia Negra), uma referência à cor da areia da praia de Iwo Jima.

• Embora tenha sido rodado simultaneamente a A Conquista da Honra, nenhum dos integrantes do elenco de Cartas de Iwo Jima aparece no outro filme, e vice versa. Contudo, há várias seqüências de um que remetem diretamente ao outro. Em certo momento de A Conquista da Honra, por exemplo, os soldados estadunidenses aproximam-se dos bunkers dos japoneses. Em Cartas de Iwo Jima, vemos a mesma cena da aproximação dos gringos do ponto de vista de seus inimigos, de dentro do bunker, a uma distância que nos impede de enxergar qualquer rosto.

• Como preparação para o filme, Ken Watanabe leu várias cartas escritas no front pelo verdadeiro general Tadamichi Kuribayashi à sua família.

LETTERS FROM IWO JIMA • EUA • 2006
Direção de Clint Eastwood • Roteiro de Iris Yamashita • História de Iris Yamashita e Paul Haggis
Baseado no romance Picture Letters from Commander in Chief, de Tadamichi Kuribayashi
Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Tsuyoshi Ihara, Ryo Kase, Shido Nakamura, Hiroshi Watanabe, Takumi Bando, Yuki Matsuzaki.
142 min. • Distribuição: Warner Bros.

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