A Lenda do Rei Arthur nas Telonas

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 19/09/2004.

A Lenda do Rei Arthur nas Telonas

Sou obrigado a admitir uma coisa, antes de mais nada: quando soube que o lendário Rei Arthur ganharia mais um longa-metragem, não fiquei nem um pouco animado. A coisa desandou de vez quando foi divulgado que este novo filme seria produzido por Jerry Bruckheimer, responsável por uma das piores fitas que já surgiram nos cinemas nos últimos anos (sim, estou falando de Pearl Harbor mesmo!). Pois é, tenho um “trauma” com os filmes do Bruckheimer. Não que eu seja um cara muito enjoado: a verdade é que, a meu ver, o Rei Arthur é um personagem já meio desgastado na indústria cinematográfica. O que eles têm a dizer agora?, este foi o meu pensamento. Afinal, tantos outros filmes já contaram esta mesma história, de maneira boa ou ruim. Bem, Rei Arthur (2004) está aí… Mas e o passado? Venha com a gente!

PARA QUEM NÃO CONHECE A LENDA…

Aqui vai um resuminho de leve: Arthur, rei dos Bretões, foi coroado aos 15 anos, em meados do século X. Diz a lenda que o monarca Uther Pendragon caiu numa emboscada armada por seus inimigos e, antes de morrer, fincou Excalibur, sua espada mágica, em uma rocha, proclamando que o próximo rei seria aquele que conseguisse retirar a espada da pedra. Assim, todos os guerreiros das redondezas passaram a participar de torneios organizados, para que pudessem ter a oportunidade de arrancar a tal espada mágica da pedra. Arthur, filho de Igraine (senhora de Avalon), neto do Mago Merlin e irmão da maligna Morgana, era pajem de seu irmão mais velho (de criação) Caí, que participava do torneio. Numa das batalhas, Arthur perdeu a espada de Caí e encontrou Excalibur, retirando-a com facilidade da pedra e sendo coroado Rei – a versão segundo o livro As Brumas de Avalon sugere que Arthur é filho legítimo de Uther, que prevendo sua má sorte, obrigou a jovem Igraine a deitar-se com ele para lhe dar um herdeiro.

Mais tarde, Arthur juntou um exército de amigos de sua inteira confiança para lutar contra os irlandeses, com o objetivo de livrar a Bretanha do jugo saxão. Criou também a Távola Redonda, uma espécie de “mesa de reuniões” em forma de círculo – para mostrar que todos ali eram iguais perante o Rei e perante Deus. Em seguida, Arthur casou-se com Guinevere (que tinha uma quedinha pelo líder do exército do Rei, Lancelot, um dos motivos que ocasionou a queda de Camelot). Depois de invadir a França, Arthur se preparou para lutar em Roma, deixando seu sobrinho Modred como regente. Ao retornar, descobre que Modred forçou Guinevere a casar-se com ele. Nisso, Arthur luta com Modred e é morto pelo sobrinho (mas não sem levá-lo junto).

Bom, esta é a lenda do Rei Arthur. Ninguém sabe o que é realmente verdade ou não, e ainda há muitos elementos históricos e fantásticos não citados aqui. O que se sabe é que o cinema se aproveitou, e muito, do cara. Dentre dezenas de obras, confira agora algumas das mais importantes:

O REI DA BRETANHA EM SEGUNDO PLANO

Um dos primeiros filmes a contar a história de Arthur foi o clássico Os Cavaleiros da Távola Redonda (1953), de Richard Thorpe (diretor de alguns trabalhos de Elvis Presley no cinema), e inspirado no livro Le Morte D’Arthur, de Thomas Malory. Na verdade, em sua primeira aparição nas telas, Arthur (interpretado por Mel Ferrer, dos clássicos Lili Marlene e A Volta do Capitão Nemo) ficou em segundo lugar: a trama deu uma importância muito maior ao caso de amor proibido entre Lancelot (Robert Taylor, mais conhecido por seu papel em Quo Vadis) e Guinevere (a maravilhosa diva Ava Gardner). Mas ninguém se importou muito com isso: na época, Os Cavaleiros da Távola Redonda foi vendido como a primeira produção da MGM em formato CinemaScope, para grandes épicos. Mas se tornou um fracasso de bilheteria por chegar depois do similar O Príncipe Valente, da 20th Century Fox, enorme sucesso também em CinemaScope e com uma qualidade de enredo e atuações bem superior. O longa de Richard Thorpe ganhou duas indicações técnicas ao Oscar em 1954, e está disponível em DVD no Brasil (o problema é encontrar, mas tudo bem!).

A relação entre a rainha da Bretanha e o primeiro cavaleiro também é o mote central de Lancelot, o Cavaleiro de Ferro (1963), dirigido e protagonizado pelo ator Cornel Wilde (que também atuou no clássico O Maior Espetáculo da Terra, do megalomaníaco Cecil B. DeMille). Esta película conta basicamente a mesma história de Os Cavaleiros da Távola Redonda, mas com dois diferenciais: desta vez, todo o lance é contado pelo ponto de vista de Lancelot. Além disto, enquanto o primeiro deu ênfase às batalhas, este já é mais um filme de romance do que qualquer outra coisa! A visão intimista de Wilde para a lenda incomodou a platéia, que simplesmente ignorou a obra. Mesmo assim, a crítica aplaudiu Lancelot, o Cavaleiro de Ferro como “uma obra apaixonada e fiel”. Nada desse filme em DVD aqui, aliás talvez nem mesmo em VHS.

ARTHUR E MERLIN… CANTANDO E DANÇANDO?

Ainda nos anos 60, mais dois filmes inspirados na história do rei bretão chegaram às telas, em gêneros bem distintos. O primeiro deles é a animação da Disney A Espada Era a Lei (1963), dirigido pelo animador Wolfgang Reitherman. Claro que os desenhos animados antigos da Disney dispensam apresentação – o que já não é o caso da fase recente do estúdio, ou seja, cada um pior que o outro -, e este caso não é diferente: só nos EUA, A Espada Era a Lei rendeu na época US$ 22 milhões, uma marca bem generosa. Ainda assim, é um dos trabalhos menos conhecidos do titio Walt. No enredo, que se passa na época medieval, o mago Merlin conhece um pivete chamado Wart e o treina para se tornar um grande guerreiro, sem saber que o pentelho é o futuro Rei Arthur. O divertido longa tem em tudo quanto é canto, tanto em VHS como em DVD.

Com certeza, o mais estranho de todos os trabalhos já realizados é Camelot (1967), de Joshua Logan (diretor de Nunca Fui Santa, a comédia que lançou Marilyn Monroe como protagonista) e inspirado na peça teatral de Alan Jay Lerner (responsável pelas letras e roteiros dos clássicos Gigi e My Fair Lady). Estranho porquê? Bem, está tudo lá, as estratégias de Arthur (o saudoso Richard Harris), o amor impossível de Guinevere e Lancelot (interpretados respectivamente por Vanessa Redgrave, cultuada atriz que já trabalhou em mais de 80 filmes, entre eles Missão: Impossível, e o italiano Franco Nero, o vilão de Duro de Matar 2), a sabedoria de Merlin (Laurence Naismith), as artimanhas de Modred (o estranho David Hemmings) para tomar o trono… mas em forma de musical (!). A prepotente superprodução de 3 horas se tornou um tremendo fiasco nas bilheterias, arrecadando somente US$ 14 milhões, não conseguindo cobrir seus gastos (que foram de aproximadamente 17 milhões) e acabando com a era dos musicais nos anos 60. Mas o trabalho não é de todo ruim, principalmente no que diz respeito aos cenários. Camelot ganhou uma refilmagem para o canal HBO em 1982 e foi um dos primeiros filmes lançados no Brasil em DVD, mas alugue por sua conta e risco!

PRESTÍGIO MESMO SÓ NA DÉCADA DE 80!

No final dos anos 60, os executivos dos estúdios acreditavam cegamente que a personagem definitivamente não tinha um apelo popular. Afinal, nada rodado sobre a Távola Redonda deu certo (a não ser A Espada Era a Lei, mas não podia se considerar por ser uma animação, e animações têm seu público garantido). Bastou alguns anos – e um punhado de filmecos – para que a teoria dos caras fosse por água abaixo, com dois grandes longas: a obra-prima da comédia Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975), e um dos melhores longas dos anos 80, Excalibur (1981), de John Boorman (criador do clássico À Queima-Roupa), que contou com detalhes impressionantes a trajetória do Rei Arthur (Nigel Terry, de Tróia) desde a sua juventude, os acontecimentos envolvendo o monarca Uther (o fantástico Gabriel Byrne numa participação muito legal), o resgate da espada mágica, a busca pelo Santo Graal, seu envolvimento com Merlin (Nicol Williamson, o Cogliostro de Spawn) e seu destino a partir daí. Excalibur se saiu bem nas bilheterias no mundo todo e foi indicado a vários prêmios, faturando inclusive uma premiação especial em Cannes pela sua contribuição artística. Além de tudo isto, a extraordinária Helen Mirren (de Assassinato em Gosford Park) transformou sua Morgana numa das mais aterrorizantes vilãs do cinema.

Em 1995, o diretor Jerry Zucker, consagrado no mundo inteiro com o fênomeno Ghost – Do Outro Lado da Vida, meteu os pés pelas mãos ao rodar o ruinzinho Lancelot: O Primeiro Cavaleiro, narrando a história de amor entre Guinevere e Lancelot (de novo…) com locações na Inglaterra e no México e contando com um elenco estelar, que incluía Richard Gere, Sean Connery e Julia Ormond. O resultado da empreitada: US$ 75 milhões de custo, US$ 34 milhões de renda (não chegou nem à metade do que gastou), críticas negativas por todos os cantos e total ausência de química entre seus protagonistas. Outro trabalho muito cultuado é a minissérie As Brumas de Avalon (2001), inspirado no best-seller de Marion Zimmer Bradley, que, apesar de não ter sido exibido em cinemas, fez muito sucesso nas locadoras ao contar a trajetória das mulheres por trás do monarca da Bretanha, incluindo aí sua mãe Igraine (Caroline Goodall, de Invasão de Privacidade) e as irmãs Morgana (Julianna Margulies, de ER) e Viviane, a Dama do Lago (a fabulosa Anjelica Huston). Com direção de Uli Edel – que cometeu a tragédia Corpo em Evidência, da Madonna -, o seriado está disponível em DVD no Brasil.

E ENTÃO…

Pois é. Estes são alguns dos trabalhos mais importantes nas telonas envolvendo a figura histórica de Arthur, rei dos bretões. Depois de tantas produções contando praticamente a mesma trama, é de se questionar a necessidade de mais um filme falando do cara. Moral da história? Não importa se uma história é contada várias e várias vezes, o importante é saber contá-la! :D

CURIOSIDADES:

• O nobre inglês Thomas Malory (1420-1471), autor do livro Le Morte D’Arthur, escreveu a obra na prisão. Aprisionado depois de lutar na famosa Guerra das Duas Rosas, pegou gosto pela escrita depois de ler a vasta coleção de livros que seu colega de cela possuía. Le Morte D’Arthur é considerado o trabalho mais completo e mais importante sobre a Távola Redonda.

• Richard Thorpe, o diretor de Os Cavaleiros da Távola Redonda, também era produtor, ator, roteirista e montador. Thorpe possui a impressionante marca de 186 longas-metragens (!) dirigidos entre 1923 e 1967. O cineasta faleceu em 1991, aos 95 anos.

• Em Lancelot, o Cavaleiro de Ferro, dá pra perceber que o forte de Cornel Wilde não era a direção: em um cena importantíssima (a primeira batalha do filme), é possível perceber ao fundo um ator caracterizado de guerreiro que, provavelmente imaginando que estaria fora de enquadramento, senta-se, larga seu arco e flecha num cantinho, dá uma “ajeitadinha” nas “partes baixas” e acende um cigarrinho… e isto consta na montagem final do longa até hoje!

• A canção If Ever I Would Leave You, da trilha sonora do musical Camelot, foi indicada a Melhor Canção Composta Originalmente para um Longa-Metragem, no Globo de Ouro de 1968. No ato da premiação, no entanto, foi anunciado que a música não poderia ganhar o prêmio, por ter sido composta para a peça na qual o filme se baseia, e não direto para o filme. Este detalhe não foi declarado pelos produtores da película. É, mentira tem perna curta…

• A produção de Excalibur quase levou o diretor John Boorman à loucura por conta do relacionamento turbulento entre Helen Mirren e Nicol Williamson, que tinham muitas cenas juntos como Morgana e Merlin. Os dois atores não se bicam na vida real, desde que participaram juntos de uma desastrosa montagem da peça teatral Macbeth. O problema é que Boorman não queria abrir mão de Mirren e a United Artists, estúdio responsável pelo projeto, não queria outro ator como Merlin a não ser Williamson.

• John Boorman aceitou trabalhar em Excalibur depois de não conseguir os direitos de uma obra que o cara queria filmar a todo custo. A obra? Ah, uma minúscula coleção de três livrinhos chamada O Senhor dos Anéis, mas acho que ninguém nunca ouviu falar…

• Segundo o diretor Jerry Zucker, as coisas eram bem avançadas na Bretanha em Lancelot: O Primeiro Cavaleiro. Tanto que, em uma cena, é fácil perceber um telefone público ao lado de um castelo!

A LENDA DO REI ARTHUR NAS TELONAS
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 19/09/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem REI ARTHUR (King Arthur).

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3 respostas para A Lenda do Rei Arthur nas Telonas

  1. anderson disse:

    pois é, gostei muito de todos os seus comentários. cada um deve se expressar conforme a sua visão. no seu proximo trabalho fale um pouco de star trek desde a serie antiga até o filme atual. abraços.

  2. Carina disse:

    Legal! Gostei só que eu queria a diferença entre a lenda e o filme!

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