O Cinema Made In Rússia

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 11/11/2005.

O Cinema Made In Rússia

Não é de hoje que os longas-metragens estrangeiros têm um espaço significativo no circuito cinematográfico brasileiro. Até pouco tempo atrás, cinema de verdade “só vinha dos Estados Unidos” – pensamentozinho meio besta, por sinal. Aos poucos, alguns países conseguiram firmar uma indústria de cinema tão atuante quanto Hollywood, embora menos glamurosa e não tão deslumbrante mitologicamente falando. Assim, lá pelos idos do final da década de 80/início de 90, uma avalanche de produções de fora dos EUA aportou nos cinemas brazucas. Hoje em dia, é comum conferir a programação das salas de exibição e notar fitas nacionais, norte-americanas e estrangeiras dividindo espaço em pé de igualdade – quer dizer, QUASE em pé de igualdade, né? :-P

O que poucas pessoas desconhecem é que, se o movimento cinematográfico mundial existe com esta força colossal que vemos hoje, isto se deve ao empenho de uma série de profissionais que nadaram contra a corrente no final do século XIX e início do século XX, quando o cinema ainda era um “luxo” ou um “sonho impossível”. Dentre este seleto grupo, um dos núcleos mais significativos e importantes diz respeito aos… russos. Mas… hein? Como é que é? Na Rússia existe cinema? :-D

Sim, sim, existe um movimento na Rússia. Um movimento que, embora não seja tão intenso por conta das dificuldades financeiras pelas quais o país passa, definiu uma série de conceitos na indústria cinematográfica. É comprovado que o cinema contemporâneo norte-americano é um resultado dos avanços obtidos exclusivamente pelos russos. Só para citar um exemplo, os longas da antiga União Soviética renovaram a linguagem com um pequeno detalhe chamado montagem: nos anos 10, a ausência de película nas faculdades de Moscou levaram os estudantes a improvisar para poder dar seguimento aos seus estudos. Assim, uniram trechos de fitas famosas em rolos únicos, gerando películas praticamente novas. Estava criada a edição de filmes.

É também do cinema russo que veio a idéia de usar o celulóide para discutir posições e pontos de vista sérios e investigativos – o que gerou um dos mais importantes gêneros cinematográficos: o drama. Infelizmente, a ditadura stalinista limitou a cultura em seu país; e com ela, as produções russas – o que diminuiu a demanda consideravelmente. Com a Revolução de 1917, porém, a censura evaporou e muitos cineastas sedentos por novidades surgiram na área, desenvolvendo temas sempre ligados à política e religião. Nomes como Sergei M. Eisenstein e Dziga Vertov, atualmente tidos como gênios, criaram longas que, mais tarde, ditariam regras seguidas mundialmente até hoje.

Quase cem anos depois, o mundo finalmente vê com respeito a chegada de um filme russo de sucesso ao circuito comercial: o épico bizarro Guardiões da Noite (2004) de Timur Bekmambetov, primeiro de uma trilogia sobre a eterna batalha entre o bem e o mal. Neste meio tempo, obviamente, muitas fitas foram lançadas – algumas discretamente, outras praticamente escondidas, mas nunca com tanto marketing e tanto falatório em cima. Só pode ser um bom sinal, certo? Bem, independente das qualidades de Guardiões da Noite, nós, os caras legais d’A ARCA, decidimos elaborar esta singela listinha com uma série de produções russas mais do que obrigatórias. Portanto, se você se interessou… chitajte i naslazhdajtes’!

• O ENCOURAÇADO POTEMKIN, de Sergei M. Eisenstein

Simplesmente um dos maiores e mais eletrizantes clássicos de toda a história da sétima arte, O Encouraçado Potemkin (1925) definiu muitos dos conceitos do cinema político de hoje. Feito sob encomenda para comemorar os 20 anos da Revolução Soviética, a fita muda narra o dramático desenrolar de um motim de um grupo de marinheiros que, em 1905, rebelam-se contra seus comandantes ao serem forçados a comer carne estragada e tomam para si o controle da embarcação de guerra chamada Potemkin. A atitude desesperada de um dos oficiais do navio desencadeia uma tragédia sem precedentes. A produção deu uma guinada na carreira de Sergei Eisenstein, que mais tarde dirigiu os também clássicos Outubro (1927) e Ivan, o Terrível (1944/58), dividido em duas partes. O longa, homenageado por Brian DePalma na cena mais significativa de Os Intocáveis (a cena do carrinho de bebê na escadaria veio daqui), ganhou em 2005 uma cópia totalmente restaurada (exibida com várias sessões lotadas na última Mostra de SP), com trilha sonora interpretada pelos caras do Pet Shop Boys e a tardia inclusão de uma seqüência nunca exibida antes: o discurso inicial de Leon Trótsky, cortado da montagem original por imposição do ditador Josef Stalin.

• O HOMEM COM UMA CÂMERA, de Dziga Vertov

O título já diz tudo: O Homem com uma Câmera (foto, 1929), de Dziga Vertov, é apenas isto. E tudo isto. Explico: o longa mostra nada mais do que um homem qualquer com uma câmera de filmar, captando imagens do cotidiano pelas ruas de Moscou durante um dia inteiro. Com esta premissa, Vertov inaugurou a era do cinema experimental – carinhosamente apelidado de kino-glaz (cinema-olho) e kino-pravda (cinema-verdade) – ao realizar montagens extravagantes e, pela primeira vez na história, utilizar aceleração e retardamento da película para criar efeitos de câmera lenta ou acelerada. O Homem com uma Câmera é tido como o ápice da carreira de Vertov e o pioneiro do gênero documentário. E este que vos fala, que assistiu à fita há pouco tempo, pode dizer numa boa: é simplezinho, mas encantador.

• SOLARIS, de Andrei Tarkovski

Favor não confundir com a horrorosa versão gringa que o prepotente Steven Soderbergh cometeu recentemente – e que só é lembrada por mostrar a bunda pelada do George Clooney: estamos falando do aclamado longa dirigido por Andrei Tarkovsky (O Sacrifício), vencedor do prêmio especial do júri no Festival de Cannes do ano de 1972. A fita, inspirada no romance homônimo de Stanislav Lem e realizada como uma resposta de Tarkovsky a 2001: Uma Odisséia no Espaço (que o cineasta declaradamente nunca gostou), conta o martírio do psicólogo Kris Kelvin, enviado ao planeta Solaris para descobrir o que aconteceu com três tripulantes da estação orbital do planeta, que supostamente enlouqueceram ao mesmo tempo (!). Uma vez lá, Kelvin depara-se com uma série de fenômenos inexplicáveis, como o surgimento de sua esposa Hari, falecida há anos. O planeta, conclui Kris Kelvin, pode ter vida própria… Solaris é considerado o título mais nobre da safra de filmes de ficção-científica intimistas que infestaram as salas de projeção na década de 70 – basta saber que a produção teoricamente inspirou um certo Steven Spielberg a querer rodar seu Contatos Imediatos do 3.º Grau. Obrigatório para qualquer fã de sci-fi.

• VÁ E VEJA, de Elem Klimov

Este é um caso sério. A crítica é unânime em apontar Vá e Veja (1985) como um dos mais impressionantes, realistas, brutais e importantes dramas pacifistas já produzidos pelo cinema – para se ter uma idéia, muitos cinéfilos acusam Spielberg de ter plagiado várias idéias e maneirismos visuais de Vá e Veja em O Império do Sol (o que eu não duvido nada). Como filme, é também um fabuloso exercício de técnica, principalmente de som. O cineasta Elem Klimov, baseado em sua própria vivência no meio da 2.ª Guerra, conta a história do adolescente Florya (Alexei Kravchenko, numa atuação simplesmente genial), que, na Bielorússia de 1942, é seqüestrado por guerrilheiros anti-nazistas, perde-se de sua família em meio à guerra e, num curtíssimo espaço de tempo, perde a audição, descobre a chacina de seus familiares e presencia uma seqüência ininterrupta de atrocidades cometidas pelo regime nazista, o que o deixa cada vez mais perturbado. Um filme essencial na filmoteca de qualquer cinéfilo, mas um aviso: o negócio é pesado demais. Se você se impressiona fácil, não assista Vá e Veja DE FORMA ALGUMA. Bem, não dá pra esperar algo suave quando sabemos que o ator principal foi hipnotizado para interpretar boa parte das cenas, de modo a não sofrer danos mentais…

• ANNA DOS 6 AOS 18, de Nikita Mikhalkov

Não tenho medo de parecer mais cult do que já sou (!) ao afirmar que, na minha visão, Anna dos 6 aos 18 (1993) é uma das películas mais bonitas que já assisti. E também uma das mais criativas: o diretor Nikita Mikhalkov (de O Sol Enganador, outro grande filme russo) retrata doze aniversários de sua filha Anna, a partir dos seis anos, de 1980 a 1991. Em cada aniversário, Nikita faz cinco perguntas à garota: a) o que você mais ama, b) o que você mais odeia, c) o que te dá mais medo, d) o que você mais quer neste momento, e e) o que você mais espera. A cada ano, as respostas de Anna tornam-se menos inocentes e mais pessimistas. Através da narrativa fornecida pela garota e a mudança na personalidade de Anna à medida que os anos avançam, o diretor reconta a derrocada e a dissolução da antiga União Soviética, a triste realidade da atual Rússia e o temor do povo soviético com relação ao futuro. De encher os olhos de lágrimas.

• TESTEMUNHA MUDA, de Anthony Waller

Para quebrar um pouco o clima com as fitas pesadas, nada como um suspensinho bem comercial, não é mesmo? Embora seja uma co-produção entre a Rússia, Inglaterra, Alemanha e EUA, o verdadeiro berço do divertidíssimo Testemunha Muda (1994), de Anthony Waller (Um Lobisomem Americano em Paris) é mesmo o berço do titio Gorbachev – o longa foi totalmente rodado lá, por razões econômicas. Curiosamente, os becos escuros de Moscou caíram como uma luva para a história de Billy (Marina Sudina), surda-muda norte-americana que trabalha como maquiadora nos sets de um longa ianque rodado na Rússia. Ao ficar trancada no macabro galpão usado como estúdio, Billy presencia as filmagens de um snuff-movie pornô e o conseqüente assassinato da atriz principal. Sem ter para onde correr – e sequer com quem se comunicar, já que fala através de sinais e ainda por cima em outra língua -, resta a Billy tentar manter-se viva. Um suspense nervoso e hiper-bacanudo, tanto que ganhará em breve um remake pelas mãos de James Mangold (o mesmo do ótimo Identidade). Ah, sim: para quem não sabe, snuff-movie é um gênero que ninguém sabe se existe mesmo, em que os atores são mortos de verdade em frente às câmeras. Credo! :-)

• LUNA PAPA, de Bakhtyar Khudojnazarov

Luna Papa (1999) é, na humilde opinião deste que vos fala, o título mais fraco desta seleção. Mas merece estar aqui, afinal, é uma ótima oportunidade de conferir como os russos comportam-se no terreno da comédia, ou melhor, da tragicomédia. Co-produção entre a Rússia, a Áustria e o Tadjiquistão, Luna Papa é uma alegoria colorida, cartunesca, metafórica e extremamente surreal dos efeitos da Guerra do Afeganistão nos civis – bem, o que dizer de uma casa que sai flutuando de repente? No enredo, a jovem Mamlakat, de 17 anos, quer ser atriz. O máximo que a garota consegue, entretanto, é uma gravidez. O pai da criança é um ator vagabundo de um mirrado grupo teatral que aportou no paupérrimo vilarejo próximo à Ásia Central, onde a jovem mora com o pai e o irmão deficiente e traumatizado pela guerra (Moritz Bleibtreu, o imbecil namorado de Franka Potente no fantástico Corra Lola, Corra). Assim, os três decidem sair pelo vilarejo à procura do tal ator, para vingar a honra da família. Só para se ter uma idéia de como Luna Papa é meio esquisito, basta dizer que sua narrativa lembra vagamente (eu disse “vagamente”) a minissérie global Hoje é Dia de Maria. Ou seja: a Srta.Ni vai adorar. :-D

• ELEGIA DE UMA VIAGEM, de Aleksandr Sokurov

Considerado pela crítica mundial como um dos mais significativos cineastas vivos em atividade, o siberiano Aleksandr Sokurov é dono de um currículo com mais de 30 títulos, muito elogiados em sua maioria. Dois deles, entretanto, merecem destaque. O primeiro, Elegia de uma Viagem (2001), é o nono e último trabalho, e também o mais aclamado, de uma série intitulada Elegias, que Sokurov iniciou em 1978 com a fita Maria, Elegia Camponesa. Aqui, o diretor narra a história de um homem que, movido por uma força maior que não consegue explicar, decide viajar sozinho a lugares aleatórios. Depois de cruzar o mundo, o homem encontra-se num museu em Roterdã, na Holanda, à frente de um quadro pintado no século XVII pelo pintor Peter Saenredam – só para descobrir que é a reencarnação de uma das pessoas retratadas na pintura (!?). Bizarrão! Com uma metragem de apenas 47 minutos, Elegia de uma Viagem é, como o próprio título sugere, beeeem viajado – mas estranhamente belo de se ver.

• A ARCA RUSSA, de Aleksandr Sokurov

A segunda película assinada por Sokurov é um exercício experimental que deixou muita gente encucada – e provavelmente fez Alfred Hitchcock revirar o pó no túmulo. A Arca Russa (2002) não conta nada além de um passeio no palacete de Hermitage, em São Petersburgo, um dos maiores museus do mundo. Nos quase 100 minutos de projeção, Sokurov passeia com sua câmera por todos os cômodos do lugar, revisitando as memórias de três séculos enquanto atores reencenam as passagens mais importantes da história. Tá, mas o que torna A Arca Russa tão importante assim? Duas coisas: primeiro, o longa utiliza mais de 3.000 figurantes. Segundo, toda a fita foi rodada num ÚNICO PLANO-SEQÜÊNCIA, ou seja, nada de cortes, tudo foi filmado em seqüência! Acha inacreditável? Bem, posso dizer (pois já conferi a fita) que nada consegue ser mais inacreditável e impressionante que o excelente resultado final da empreitada. Para assistir em sessão dupla e entender como foi o processo de criação, procure também o documentário One Take Movie, de Michael Bukojemski, que explica este negócio de louco tintim por tintim.

• O RETORNO, de Andrei Zvyagintsev

Para finalizar, um excelente suspense dramático: como não quero falar muito de O Retorno (2003) para não estragar as surpresas, só vou dizer que a história fala de um homem sem nome que, depois de mais de uma década desaparecido, surge numa cidadezinha. O homem sabe que tem dois filhos, Andrei, de 15 anos, e Ivan, de 12, mas ainda não os conhece. Decide buscá-los para uma pescaria, a contragosto da mãe. E então… ok, chega! O Retorno, estréia de Andrei Zvyagintsev na direção de longas-metragens, papou mais de dez prêmios internacionais, além de CINCO premiações no Festival de Veneza em 2003, incluindo o Leão de Ouro, e uma indicação ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro. Pena que não veremos outra fita do diretor tão cedo, já que o cara largou o cinema temporariamente por conta de um acontecimento trágico: o ator Vladimir Garin, intérprete de Andrei, morreu afogado no término das filmagens de O Retorno, no mesmo lago onde a ação da película ocorre.

Com tanta coisa boa assim, é realmente deprimente saber que temos acesso a tão pouco material vindo do cinema russo, por conta dos problemas sociais que o país enfrenta. Espero de coração que o sucesso de Guardiões da Noite abra mais portas para as produções estrangeiras em nossa terra. Afinal, não é só de Hollywood que vive o cinema, não é mesmo? Pois é. Depois ainda reclamo do statuscult de quinta” que o pessoal me eleva aqui. Em plena semana anterior à estréia do novo Harry Potter, estou aqui, falando de filmes russos. É por isto que eu me amo. :-)

UMA CURIOSIDADE BESTA: O meu nickname, Zarko, é um nome próprio original da Rússia. Êba. Eu sou feliz. Dã.

O CINEMA MADE IN RÚSSIA
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 11/11/2005
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem GUARDIÕES DA NOITE (Nochnoy Dozor).

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One Response to O Cinema Made In Rússia

  1. marina disse:

    Ei, Zarko, vc trocou as bolas aqui, ó: “O que poucas pessoas desconhecem (não é “conhecem”?)é que…”
    Cinema russo rules. A primeira escola de cinema do mundo também é russa, fica em São Petesburgo.

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