A Ficção Científica Segundo Isaac Asimov

Matéria de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/08/2004.

Isaac Asimov

Se Eu, Robô (2004), é um bom filme, só poderemos tirar a prova nesta sexta-feira, data em que o filme de Alex Proyas (O Corvo) estreará nas telas do Brasil. A trama gira em torno de um policial (Will Smith), que investiga um crime que pode ter sido cometido por um andróide. Bem, como disse há pouco, (ainda) não sei se o trabalho é bom. De resto, só há a certeza de uma coisa: Isaac Asimov, autor da coletânea de obras em que o filme foi baseado, era um cara ferrado!

Naturalizado americano, Asimov nasceu na Rússia em 1920 e migrou aos Estados Unidos ainda bebê. Formado em Bioquímica pela Universidade de Columbia, começou a escrever com apenas 18 anos. A carreira de escritor, curiosamente, foi a única realmente bem sucedida (o cara foi Químico e Bioquímico na mesma universidade que estudou). Asimov se tornou hoje um nome histórico por, assim como H. G. Wells – criador do clássico A Guerra dos Mundos -, prever um mundo tecnológico que, em sua época, nem sonhava existir.

Em seus manuscritos, Asimov criou universos assustadoramente reais em que humanos e máquinas de inteligência artificial convivem num mesmo plano. As idéias do escritor bateram de frente com os conservadores, que consideravam a até então impossível hipótese da criação de robôs inteligentes um passo dado para uma era apocalíptica. Asimov pregava que, para os humanos e os robôs co-existirem em harmonia, eles deveriam ser tratados não como máquinas, e sim como seres providos de inteligência. Para isso, criou as Três Leis da Robótica, que geraram muita polêmica. Eis as leis:

1. Um robô nunca deve fazer mal a um ser humano, ou permitir que um ser humano sofra qualquer mal;

2. Um robô deve obedecer a qualquer ordem dada por um ser humano, desde que essa ordem não bata de frente com a execução da Lei número 1;

3. Um robô deve proteger a sua existência, desde que essa proteção não interfira nas Leis número 1 e 2.

Na verdade, nos trabalhos de Isaac Asimov, toda a tecnologia é apenas pano de fundo para histórias que tratam de um assunto tão (ou até mais) complexo do que qualquer maquinaria: as inter-relações pessoais. Tanto em Eu, Robô, coletânea de contos, quanto em O Homem Bicentenário e Fundação, este último um de seus mais conhecidos romances, as questões principais são: até que ponto nós, seres humanos, somos capazes de agir tão mecanicamente quanto uma máquina? Até onde deixamos de ter sentimentos a ponto de sermos comparados a robôs? Claro que, com idéias como estas, o envolvimento de Asimov com o cinema era só uma questão de tempo.

O primeiro trabalho de Isaac Asimov a ser adaptado para a tela grande foi Viagem Fantástica (1966), dirigido por Richard Fleischer (diretor de 20.000 Léguas Submarinas e da versão original de Doutor DoLittle). Na história, um diplomata sofre uma tentativa de assassinato, e uma equipe de médicos é miniaturizada (!) e inserida no corpo do cara. Um sabotador a bordo tenta acabar com a pioneira aventura. No elenco, os atores muito populares nos States, Stephen Boyd e Raquel Welch. O livro de Asimov também serviu de base, mesmo que sem créditos, para a divertida produção sessão-da-tarde Viagem Insólita (1987), de Joe Dante e com Dennis Quaid e Meg Ryan no elenco. Os dois trabalhos são facilmente encontrados em DVD no Brasil.

Além de algumas produções para a TV e do filme russo O Fim da Eternidade (1987), do diretor Andrei Yermash, inédito no Brasil, também saiu do papel Eu, Robô, deste ano, e O Homem Bicentenário (1999), enorme abacaxi do diretor Chris Columbus (dos dois primeiros filmes da franquia Harry Potter, A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta). Nesta produção, o andróide Andrew (Robin Williams) começa uma jornada para se tornar um homem comum, e essa jornada dura 200 anos. No elenco, Sam Neill, de Jurassic Park, e a linda Embeth Davidtz, do cultuado Possuídos. O Homem Bicentenário se tornou um fracasso monumental de bilheteria e quase afundou a carreira de Robin Williams, além de atiçar a fúria de seguidores do escritor em todo o planeta, que acusaram Columbus de destruir o conto de Asimov. O filme existe em DVD, mas alugue por sua conta e risco.

Isaac Asimov escreveu até o fim de sua vida, em 1997, quando morreu devido a um ataque cardíaco. Seu legado influenciou quase cem por cento de todos os filmes de ficção científica lançados após a publicação de seu primeiro romance. O que nos resta saber é, se algum dia, alguém se prestará a honrar a memória deste grande cientista fazendo um filme que preste. Se bem que eu gosto do Alex Proyas, mas… o Will Smith? Ei, por que não deram este projeto pro David Fincher dirigir? :-D

CURIOSIDADES:

• O apelido de Issac Asimov era “A Máquina de Datilografar Humana”, trocadilho com a rapidez com que escrevia e também com o fato de escrever somente sobre civilizações convivendo com máquinas. Asimov detestava viajar, tinha um medo enorme de altura e só se sentia seguro trancado em casa. Recentemente, sua viúva Janet Asimov divulgou que Isaac havia adquirido HIV numa transfusão de sangue em 1983 (mas, segundo ela, esta não foi a causa de sua morte).

• Os modelos de carros futuristas usados em O Homem Bicentenário são os mesmos utilizados no filme O Demolidor (1993), aquele negócio que o Sylvester Stallone cometeu em parceria com Wesley Snipes. Vai ver foi por isso que não deu certo…

• Considerada uma das melhores atrizes de sua geração, Embeth Davidtz foi revelada no oscarizado A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg.

• Em um determinado momento de Eu, Robô, surge em cena um motorista chamado Harold Lloyd. É uma referência ao notório comediante do cinema mudo, Harold Lloyd, que na vida real, passou por uma situação semelhante à que o personagem de Will Smith passa nesta mesma cena. Não vou dizer o que é pra não estragar a surpresa!

A FICÇÃO CIENTÍFICA SEGUNDO ISAAC ASIMOV
Matéria publicada originalmente em A ARCA em 06/08/2004
Complemento do especial para a estréia do longa-metragem EU, ROBÔ (I Robot).

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