Sunshine – Alerta Solar

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 10/04/2007.

Sunshine - Alerta Solar

Bem, vamos lá. Se você está aqui, é porque é um cinéfilo ou, na menor das hipóteses, fã de cinema com um certo conhecimento. E se você é um cinéfilo ou, na menor das hipóteses, fã de cinema com um certo conhecimento, com certeza você tem aquela gloriosa listinha de diretores cujos longas-metragens você assiste só por ter seus nomes lá nos créditos, correto? Aqui n’A ARCA, por exemplo, temos o El Cid que vê qualquer coisa do Sam Raimi (bem, pelo menos qualquer coisa que traga um herói aracnídeo no meio :-D), o Fanboy que vê qualquer coisa do John Lasseter, o Machine Boy que vê qualquer coisa do Guillermo Del Toro, o Benício que vê qualquer coisa dos Irmãos Coen…

E temos o Zarkolino aqui que vê qualquer coisa do Tarantino, do Fincher, do Iñarritú, do Spike Jonze, do Gondry, do Polanski, do Aronofsky, dos Coen, da Coppolinha, do Michael Mann, do Neil Jordan, do Woody Allen, do Christopher Nolan, da Eliana Fonseca… bem, qualquer coisa MESMO, no sentido mais amplo da palavra (e mesmo que não queira, sou forçado a assistir o que aparecer pela frente, bom ou ruim, pelos lazarentos cabeças deste website que me pagam aquele suado punhadinho de moedas no final do mês). ;-)

Aquele inglês psicopata que atende pelo nome de Danny Boyle marca presença nesta minha relação pessoal desde que conferi em 1995, em uma surradíssima VHS, o macabro pacto de sangue entre Kerry Fox, Christopher Eccleston e um novato e ainda desconhecido Ewan McGregor no ótimo Cova Rasa. Só precisou de mais um ano para que Boyle conquistasse público e crítica ao colocar o mesmo McGregor em disparada, totalmente alucinado e ao som de Lust for Life, do Iggy Pop, no neo-clássico Trainspotting – Sem Limites, e desde então o cineasta tornou-se figurinha premiada para muitos viciados em cinema. Claro que ninguém é perfeito, e mais tarde, Boyle cometeu algumas gafes (A Praia, Por Uma Vida Menos Ordinária), mas também entregou fitas deliciosas e absolutamente excêntricas (Extermínio, Caiu do Céu). Irregular, mas genial quando quer.

A boa notícia é que a esperadíssima incursão de Danny Boyle no terreno da ficção-científica, Sunshine – Alerta Solar (Sunshine, 2007), pode figurar sem maiores crises na parte boa do currículo do diretor. Há, porém, alguns pormenores que precisam ser expostos para evitar que o espectador desavisado quebre a cara e saia da sessão espalhando aos quatro cantos que o filme é uma droga, já que o ritmo dos 50 minutos iniciais é meio lento mesmo. Em contrapartida a estes pormenores, afirmo numa boa que muito da graça de Sunshine – Alerta Solar está em não saber quase nada a respeito da película – digo com conhecimento de causa que, por não ter visto um único trailer sequer ou por não fazer idéia do que era a história, a experiência de assistir a Sunshine não foi apenas divertida, mas também de certa forma surpreendente.

Portanto, eis o bom e velho aviso: não revelarei nada neste texto além do que é naturalmente divulgado pela distribuidora numa sinopse. Pra ser sincero, falarei muito pouco para não correr o risco de soltar alguma coisa importante para o decorrer da trama, mas se ainda assim você achar melhor descobrir o enredo por si mesmo, fique apenas com estes primeiros parágrafos e…

CAI FORA!!! PARE DE LER AGORA MESMO!!! Volte depois de assistir ao filme, ok? A ARCA agradece e tenha um ótimo dia. Disponha.

A quem ficou e assumiu o risco, continuemos. Antes de mais nada, não espere em Sunshine uma sci-fi ultra-agitada bem aos moldes de aventuras espaciais como Star Wars, e este item corresponde ao primeiro grande acerto da direção de Danny Boyle. Na verdade, o clima construído pelo esperto roteiro de Alex Garland (o mesmo de Extermínio) aproxima-se mais da atmosfera soturna do primeiro Alien, da versão soviética de Solaris e, para ser um pouco mais ousado, do 2001 de Stanley Kubrick (veja bem, esta comparação não é a nível de qualidade artística, e sim de construção climática). Então, temos uma viagem espacial retratada através de uma atmosférica silenciosa e bem desoladora, o que transmite imediatamente ao espectador a idéia de solidão, isolamento e loucura na qual os protagonistas são mergulhados. Desde o primeiro Alien o espaço não parece tão assustador e desesperançoso quanto aqui.

É até interessante analisar Sunshine como uma mescla das produções citadas acima. De 2001, herda a discussão (ainda que superficial) de questões filosóficas/religiosas, de Solaris carrega o equilíbrio (ou a falta de equilíbrio) entre lucidez e insanidade ante uma situação extremista, e de Alien pega emprestado a claustrofóbica e angustiante luta pela sobrevivência, não na forma de uma criatura de outro planeta, mas sim na forma de uma surpresa que… bem, é melhor parar por aqui para não entregar nenhum detalhe. Foi mal, tá? :-D

Ok, ok, agora a história: em 50 anos no futuro, o Sol está morrendo. A Terra está cada vez mais gelada e a iminência da extinção da humanidade nunca esteve tão próxima. Numa tentativa de reverter a situação, um grupo de astronautas e cientistas embarca no Icarus I, uma nave que carrega toneladas de bombas atômicas que serão atiradas ao Sol e podem (ou não) “reacender” o astro-rei. Algo dá errado, a Terra perde contato e a Icarus I simplesmente desaparece faltando pouco tempo para concluir sua missão.

A fita começa pra valer sete anos depois destes eventos, com a partida da Icarus II, espaçonave um pouco mais preparada que assume a tarefa de terminar o que a Icarus I começou. A experiência anterior alerta os tripulantes da segunda nave para a hipótese de fracasso e também para a enorme possibilidade de a missão não deixar sobreviventes – e a tensão em levar na bagagem zilhões de bombas nucleares é grande. Ainda assim, a competência e a determinação do Capitão Kaneda (Hiroyuki Sanada, O Último Samurai) funciona como estímulo para seus subordinados, que não hesitam em arriscar suas vidas para salvar a humanidade, principalmente o categórico Mace (Chris Evans, o Tocha Humana, em atuação surpreendentemente séria). O temor surge na pele do físico Capa (Cillian Murphy, Ventos da Liberdade, ótimo como sempre), que entende sua importância mas não se sente confortável com a idéia de um provável encontro com a morte no final da odisséia.

Tudo corre sem maiores problemas, até que o rádio transmissor operado pelo segundo-capitão Harvey (Troy Garity, Ladrão de Diamantes) capta um sinal que revela-se mais tarde um pedido de socorro vindo da Icarus I. Surge a dúvida: deve-se arriscar o sucesso de uma missão que pode salvar milhões de vidas para desviar-se da rota e resgatar as vidas de menos de uma dezena de pessoas? Bem, será que há algum resquício de vida na primeira nave depois de sete anos à deriva? O que a Icarus I encontrou que atrapalhou sua tarefa? Obviamente, esta é apenas a primeira pedra de várias no caminho da Icarus II… Muita coisa ainda vai rolar a partir daí.

A idéia é bacana, não? Sim, sim. Mas claro que não dá pra dizer que Danny Boyle foi totalmente feliz na transposição deste enredo para as telas. O grande problema de Sunshine, a meu ver, é a quebra de ritmo nos quarenta minutos finais, quando a tal “surpresa” toma forma, o que ocasiona uma subtrama que não é ruim mas não parece tão necessária e, em alguns momentos, até segura a produção em um nível pop-comercial que destoa do tom intimista construído no início do filme. Resumindo, a primeira hora é um pusta drama-suspense psicológico bem aos moldes de Blade Runner – O Caçador de Andróides e o u-turn da história quase joga tudo isso por terra para transformá-la em algo tipo O Enigma do Horizonte (lembra deste terrorzinho?).

Além disto, confesso que não curti o desenrolar da seqüência final tanto quanto poderia ter curtido caso o roteiro desse uma enxugadinha nos excessos. A conclusão é longa demais, arrastada demais, com efeitos visuais e pirotecnia demais. Tudo bem, quando se assiste à fita, entende-se que a conclusão da história serve não só para nos revelar o resultado da missão, mas também para exorcizar os fantasmas de um dos personagens principais e para responder algumas perguntas surgidas anteriormente, porém… ficou falso. Muito videoclipe, muito “edição vertiginosa” e muito “câmera-com-Mal-de-Parkinson” para o meu gosto.

Entretanto, os pequenos pontos negativos de Sunshine simplesmente somem quando analisa-se a produção como um todo. É impossível não se deslumbrar com os excelentes planos-seqüência da trajetória da Icarus II, principalmente na belíssima cena onde os tripulantes vêem o planeta Mercúrio pela primeira vez – sério, esta cena em especial encheu meus olhos de lágrimas -, assim como é difícil não se contorcer na poltrona do cinema diante da construção extremamente tensa de algumas seqüências-chave, como a do conserto do escudo da Icarus II e o destino do azarado Trey (Benedict Wong). A extraordinária fotografia do alemão Alwin H. Kuchler (o mesmo de Código 46) casa perfeitamente com a ótima trilha sonora composta por John Murphy e pelos caras do duo de música eletrônica Underworld (favor não confundir com o horroroso pseudo-filme da vampirinha poser). E o elenco foi tão bem escolhido que até dá pra esquecer a superficialidade de alguns personagens que só estão lá pra ocupar espaço, como é o caso da piloto Cassie, vivida por Rose Byrne (de Maria Antonieta).

Num saldo geral, Sunshine – Alerta Solar é uma pedida perfeita para os amantes dos filmes de ficção-científica com boas doses de pé-no-chão. Não é a melhor pedida para quem procura uma fita mais dinâmica, que aborde o fim do mundo como é abordado em produções como O Dia Depois de Amanhã, por exemplo. Mas oferece uma experiência espetacularmente MÁGICA, no sentido lírico da palavra, para quem curte um cineminha mais cabeça – desde já, digo que eis um longa para se ver NO CINEMA, no telão. Ao final, as imagens construídas como poesia por Danny Boyle servem para afirmar aquela máxima de que “não importa o destino da viagem, mas sim o trajeto”.

E devo dizer que o mais legal do filme todo foi o trailer do Zodíaco no começo. :-P

CURIOSIDADES:

• Para quem não sabe, o termo u-turn, que literalmente significa reviravolta, é uma denominação para o ponto do roteiro onde uma revelação ou um acontecimento causa um giro de 180º e altera drasticamente os rumos da história. Isto não mudará sua vida, mas tudo bem. :-)

• O ator Hiroyuki Sanada, intérprete do Capitão Kaneda, é um popularíssimo astro no Japão. Um de seus filmes mais populares é Ringu, a versão original de O Chamado.

Sunshine – Alerta Solar também entrará para a história como o primeiro crossover cinematográfico entre a Marvel e a DC. Afinal, o Tocha Humana e o Espantalho atuam juntos! (…) Ok, a piada foi péssima. Culpe o infame Vítor Barril, autor da pérola. :-P

• Repare que não tinham muitas curiosidades a respeito desta película… :-D

SUNSHINE • ING • 2007
Direção de Danny Boyle • Roteiro de Alex Garland
Elenco: Cillian Murphy, Chris Evans, Rose Byrne, Michelle Yeoh, Troy Garity, Hiroyuki Sanada, Mark Strong, Benedict Wong.
107 min. • Distribuição: Fox Searchlight.

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One Response to Sunshine – Alerta Solar

  1. Daniel disse:

    Já faz um tempo em que foi escrito, mas o texto foi ótimo! Eu assisti o filme e por curiosidade do tal “u-turn” que se deu no filme, comecei a caçar críticas na internet que me esclarecessem o que aconteceu e qual o objetivo daquele personagem confuso no final.
    Não deu pra responder, mas parabéns pelo texto! Das críticas que eu li foi a melhor.

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