Guerra dos Mundos

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 25/06/2005.

Guerra dos Mundos (War of the Worlds)

Aqueles que lêem A ARCA há algum tempo estão mais do que carecas de ouvir falar da minha, bem, antipatia com o titio Steven Spielberg e sua visão todinha “particular” de Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005). Mas como temos uma freqüência bastante considerável de visitantes novos, explicarei o que acontece para que todos possam compartilhar do meu ponto de vista sem achar que sou um maluco: o fato é que este que vos fala talvez seja um dos maiores fãs de A Guerra dos Mundos, o ultra-clássico romance escrito pelo lendário H. G. Wells em 1898. O livro, que li pela primeira vez na minha infância e devo ter relido pelo menos umas vinte vezes até hoje, narra com detalhes uma brutal e sangrenta invasão de marcianos ao planeta Terra, mais exatamente na Londres do final do século XIX.

Até aí, tudo tranqüilo. Pelo menos até o consagrado diretor de E.T. entrar na parada. Primeiro, porque Spielberg é conhecidíssimo por conseguir transformar histórias bacanas em produtos fast-food para pessoas de todas as idades, suavizando conteúdos, eliminando sem pudor cenas mais “fortes” e deixando tudo com um gosto amargo de patriotismo e bom-mocismo estadunidense. Coisa que não tem absolutamente NADA A VER com o maravilhoso romance inglês de H. G. Wells. Nada contra o Spielberg, só acho que este projeto em particular não era pra ele. Como se não bastasse, o roteiro de Josh Friedman (M:I-2) e David Koepp (O Quarto do Pânico) ainda cometeu a heresia suprema de mudar o enredo da Inglaterra para os Estados Unidos, e o pior: ambientar a história nos dias de hoje.

Pombas, se a graça de A Guerra dos Mundos, o romance, era justamente mostrar os marcianos detonando tudo numa época em que os humanos sequer tinham inventado o avião, ou seja, não saberiam de forma alguma lidar com este infortúnio, o que impediria o Guerra dos Mundos de Spielberg de se tornar um mero Independence Day 2, já que em pleno ano de 2005 temos aviões, tanques de guerra, armamentos químicos e tudo que poderia ser utilizado contra os bastardos visitantes do nosso planeta vizinho? Enfim, eu protestei, queimei meu DVD de O Resgate do Soldado Ryan, botei o nome do Spielberg na boca do sapo (!) e fios de fumaça saíram das minhas orelhas sempre que meus queridos amigos d’A ARCA pronunciavam o nome do excelentíssimo senhor Steven – principalmente a gloriosa Srta. Ni, que parece sentir uma enorme satisfação em me ver surtando! Ô meu Deus, porque não ofereceram este projeto ao David Fincher? :-D

E como era de se esperar, finalmente chegou o dia da tal sessão especial de Guerra dos Mundos para a imprensa e o Fanboy tocou lá em casa, dizendo: “É melhor você sentar, pois tenho trabalho pra você…”. E alguém realmente duvidava que, depois de me fazer sofrer diversas vezes, os homens fortes deste site me poupariam do sacrifício supremo?

Antes de qualquer comentário sobre o filme, vamos à história: Ray Ferrier, personagem do atual sr. Katie Holmes, Tom Cruise, trabalha nas docas, é separado e um péssimo pai. Ainda no início, Ray recebe a visita de sua ex-esposa Mary Ann (Miranda Otto, a Éowyn da trilogia O Senhor dos Anéis), que desova os dois filhos do casal com o pai para poder fazer uma viagem a Boston. Os filhos: o adolescente rebelde Robbie (o canadense Justin Chatwin, de Roubando Vidas) e a garotinha Rachel (Dakota Fanning, O Amigo Oculto). Como era de se esperar, Robbie não está nem aí para Ray, um relapso por natureza. Em compensação, Rachel até alimenta algum respeito pelo cara, por menor que este respeito seja. Vale lembrar que estes personagens todos não existem no romance…

Neste mesmo dia, uma estranha tempestade aproxima-se da cidade. Cerca de 28 raios caem em seguida no mesmo ponto: o centro exato de uma encruzilhada. Além disso, a tempestade também pifa com todos os carros, corta a eletricidade, destrói todos os mecanismos de engrenagem (como relógios de pulso) e emudece os telefones. Intrigado, Ray deixa seus filhos em casa e corre ao centro para saber o que está acontecendo. Subitamente, uma cratera se abre no mesmo ponto onde os raios caíram. E uma série de máquinas da altura de um arranha-céu e que se movimentam em três pernas inicia uma destruição em massa, matando todos os habitantes da cidade com raios laser. Logo, descobre-se que o mundo está tomado pelas tais máquinas, que parecem não sossegar enquanto não assolar tudo o que vê pela frente.

Pronto! O enredo é este. Claro que, a partir daí, Ray terá que fazer das tripas coração para proteger seus pimpolhinhos e levá-los vivos e em segurança até Boston, onde está a mãe dos indivíduos. Como esperado, tem todo aquele lance do cara tentar conquistar os filhos no caminho, e a princípio os dois até resistem, e depois… ah, todo mundo já sabe o que vai acontecer. Então vamos ao que interessa: O FILME É RUIM! Não, isto não foi um ódio puro de um fã xiita revoltado, até mesmo porque enfrentei a sessão já consciente de que não veria a verdadeira história de A Guerra dos Mundos nas telonas, mas sim um cinema de entretenimento cujo único objetivo é divertir. Não digo que a película é ruim por ser um fã do romance de H. G. Wells. Tanto que Guerra dos Mundos, a produção cinematográfica, possui uma série de pontos positivos, e admito isto tranqüilamente.

O maior destes acertos do filme é sua primeira parte. Os 40 minutos iniciais de Guerra dos Mundos são simplesmente geniais, de prender o espectador na poltrona e fazer o coração pular pela boca. É neste início que ouvimos, pela primeira vez, a excepcional narração de Morgan Freeman (Menina de Ouro) – por sinal, idêntica à abertura do livro – e a climática e bacaníssima (mas não marcante) trilha incidental de John Williams, colaborador habitual de Spielberg. Os momentos que antecedem o ataque estão a anos-luz das situações descritas no livro (que é APENAS sobre uma invasão alienígena à Terra e nada mais), mas ainda assim rendem um bom drama. E os créditos iniciais são bonitinhos, por mais que pareçam ser um plágio violento dos créditos de Clube da Luta, mesmo que de uma maneira diferente.

Mas não adianta. Ninguém irá ao cinema para ver o relacionamento do titio Cruise com seus rebentos. Então, o negócio só esquenta mesmo na primeira aparição dos Tripods – as tais máquinas de guerra que movimentam-se em três pernas maleáveis e têm altura de um prédio gigantesco. As máquinas extraterrestres, além de serem lindas visualmente e possuírem o mesmo desenho descrito no romance, são tão assustadoras quanto o ED-209, aquele truculento e perigosíssimo robô adversário do primeiro RoboCop (alguém aí lembra daquele cara?). Desenho este, aliás, que também é fiel no que concerne aos aliens. É praticamente impossível achar qualquer falha no CGI dos robôs, dos prédios sendo destruídos e das vítimas dos raios de calor. A cena da Igreja (assista e saiba do que falo) é de deixar qualquer um boquiaberto. E sim, há mortes. Mortes violentas, mortes grotescas. Mas sem um pingo de sangue, embora este pequenino detalhe não diminua a força dramática de Guerra dos Mundos até esta seqüência. Eu confesso: quando o primeiro Tripod surgiu majestosamente do chão, impondo respeito e mostrando quem é que manda, pensei comigo mesmo: “Céus, eu estava errado!”. :-P

O pior é que não estava errado, não.

Depois do primeiro ataque das máquinas bestiais, Guerra dos Mundos cai vertiginosamente e torna-se um trabalho de altos e baixos. O roteiro deixa a invasão em segundo plano e dá total atenção à convivência entre Ray, Robbie e Rachel. As cenas em que estão somente o trio central não chegam a ser tããão ruins assim, por mais que os diálogos a la novela mexicana insistem em dar as caras. Quando estas cenas começam, até que não é tão deprimente assim. Mas gradativamente o negócio vai ficando tão insuportável que o espectador sente uma vontade terrível de levantar da poltrona e sair andando. Mas o titio Spielberg é esperto. Quando a história aperta e o público começa a ficar incomodado, ele põe os Tripods pra trabalhar novamente – seja na destruidora seqüência da balsa (já revelada no trailer) ou na comovente cena do ataque na planície – para que possamos desfrutar de mais um espetáculo de efeitos visuais e não sentir ganas de cair fora! :-(

As atuações correspondem a outro problema. Enquanto o quase novato Justin Chatwin interpreta tão bem quanto os dedinhos do El Cid pintados com caneta BIC (!), Tom Cruise demonstra ser realmente muito competente. O problema está no conflito entre Cruise e a genial Dakota Fanning. Explico: apesar de Cruise atuar bem, nos momentos iniciais Dakota simplesmente ENGOLE o cara em cena. A personagem da garota é bem construída, tem diálogos legais e uma carga dramática bem considerável. Só pra se ter uma idéia, quando Rachel toma consciência do que está acontecendo, sofre uma crise nervosa que por si só justificaria qualquer prêmio dado à menina. De repente, seu personagem esfria, e Dakota Fanning limita-se a correr, chorar e gritar. Bem, certamente Tom Cruise deve ter percebido que não podia competir com a piveta e tratou de cobrar do titio Spielberg que ele cortasse as asinhas da atriz-mirim… Fazer o quê, né? O astro é também o produtor. Ele é quem manda, oras! :-P

Quanto aos outros atores… de Miranda Otto nem dá pra se dizer muito, pois suas cenas juntas não chegam a somar cinco minutos. E o sempre ótimo Tim Robbins dá um show no papel de Ogilvy, homem que ficou maluco depois que perdeu a família e acredita que os humanos devem enfrentar os homenzinhos feios do espaço no “mano a mano”. Por mais que Robbins apareça em cena por pouco mais de quinze minutos, e ainda assim bem depois de uma hora de projeção, seu trabalho é muito bacana.

E então, chegamos ao final. Não ao final deste artigo (!), mas o final do filme. Pois é, o final. Até aqui, todo mundo já sabe que o início de Guerra dos Mundos é um trabalho excepcionalmente fabuloso, e que o negócio cai numa boa durante seu percurso, melhorando esporadicamente com a aparição dos tais Tripods e também dos alienígenas em si (muito mal aproveitados, por sinal). A seqüência final, entretanto, consegue botar por terra o filme IN-TEI-RO! A conclusão da película, por mais que traga uma ou outra semelhança com o romance, é tão brega e inexplicável que infelizmente nos faz esquecer todas as coisas bacanas que Guerra dos Mundos proporcionou até este derradeiro momento. Além de ser absolutamente clichê, o troço consegue ser tão emotivo quanto as fitas made for TV da Lassie… Ugh! :-P

No saldo geral, a impressão que ficou é a de que Guerra dos Mundos só existe para massagear o ego de Steven Spielberg. Assim como em O Terminal, filminho até bonitinho que só existe porque o diretor queria mostrar que podia construir um terminal de aeroporto inteiro em estúdio, parece que Spielberg decidiu realizar Guerra dos Mundos apenas por ser capaz de realizar aquelas façanhas pirotécnicas que sabemos que o cara faz muito bem, como colocar destroços reais de um gigantesco avião no meio do cenário – por mais que a cena da kombi, em que a câmera dá piruetas do lado de fora do carro em movimento, seja totalmente falsa (David Fincher fez bem melhor no passeio pela casa de O Quarto do Pânico). Então fica a pergunta: para quê dizer que se baseou na obra de H. G. Wells, já que não há quase nada do livro ali, pelo amor de Deus? Por que não realizar somente um filme sobre a chegada de ETs ao nosso planeta? O que poderia ser apenas uma boa produção de efeitos visuais pra se ver no cinema, com a cobrança de honrar a memória de Wells acaba tornando-se um belo de um abacaxi. :-P

Olha, não que eu me importe muito. De qualquer forma, dei uma de Joel Barish e já iniciei o processo para apagar esta coisa de minha memória. E enquanto isto, estou relendo A Guerra dos Mundos, o romance. Sabe como é, para me purificar. :-P

CURIOSIDADES:

• Inicialmente estimado para estrear em 2007, a pré-produção de Guerra dos Mundos foi acelerada em agosto de 2004, para estréia em junho de 2005. Segundo divulgado, esta aceleração se deve ao fato de Steven Spielberg e Tom Cruise ganharem vagas em suas agendas coincidentemente. Dizem as más línguas, porém (e eu creio muito nisso), que a antecipação do projeto aconteceu depois de Spielberg soube do outro filme inspirado no livro, um drama independente dirigido pelo obscuro Timothy Hines, que conta a história do jeito que ela é. Ter poder é um lance complicado, não? :-P

• Durante a filmagem da seqüência dos corpos boiando no rio, que aconteceram no rio Connecticut, dois bonecos de borracha usados como corpos escaparam aos olhos da equipe e desapareceram no rio. A equipe de segurança do rio realizou uma busca, mas não conseguiram encontrar os bonecos. Antes que a equipe pudesse alertar a polícia, porém, populares já tinham ligado ao DP de Connecticut, para reportar que viram cadáveres no lago…

• O personagem Ogilvy, de Tim Robbins, existe e não existe na romance. Na verdade, ele é uma junção de dois personagens do livro.

Guerra dos Mundos custou US$ 128 milhões.

WAR OF THE WORLDS • EUA • 2005
Direção de Steven Spielberg • Roteiro de Josh Friedman e David Koepp
Inspirado no romance The War of the Worlds, de Herbert George Wells
Elenco: Tom Cruise, Dakota Fanning, Justin Chatwin, Tim Robbins, Miranda Otto, David Alan Basche, Morgan Freeman.
117 min. • Distribuição: DreamWorks.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: