Exorcista: O Início

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 29/10/2004.

Exorcista: O Início (Exorcist: The Beginning)

Ainda me lembro como se fosse ontem da primeira vez em que assisti a O Exorcista. Foi em 1997, numa pequena sala de exibição de menos de 50 lugares, num ciclo de retrospectiva dos clássicos da Warner Bros. Era uma sessão maldita (para quem não sabe, o nome que se dá a uma sessão de cinema que começa exatamente à meia-noite), e a noite chuvosa e de vento contribuía ainda mais para o clima de terror – e também para o meu desespero! Hehehe… Quando a sessão começou, a platéia tinha milhares e milhares de três pessoas (incluindo eu), e depois de duas horas de um turbilhão de medo e comoção, saí do cinema aterrorizado, com os cabelos em pé e a sensação de ter presenciado um trabalho de gênio. No mesmo instante, O Exorcista entrou na minha listinha pessoal dos melhores filmes da história do cinema. Sem exageros.

Quando soube que Exorcista: O Início (Exorcist: The Beginning, 2004) realmente sairia do papel, odiei a idéia. Principalmente depois de todos os problemas na produção (mais detalhes no final deste artigo), que resultaram na demissão do diretor Paul Schrader (A Marca da Pantera) e contratação de Renny Harlin (Risco Total). Aí é que o negócio fedeu de vez: me revoltou a idéia dos executivos da Warner passarem a bola para um cara que até então só tinha feito filminhos de ação. Pombas, como que este Zézinho daria o tratamento que qualquer filhote do primeiro O Exorcista merece? Ainda mais que este novo longa voltaria no tempo e dissecaria o notório primeiro encontro do Padre Lancaster Merrin – imortalizado pelo grande Max Von Sydow e, desde já, o meu personagem favorito – com o demônio, encontro este apenas citado em O Exorcista.

De qualquer maneira, todos sabiam que os produtores só queriam mesmo um caça-níqueis. Mesmo sabendo disso (na verdade, com um fio de esperanças de que o trabalho fosse assistível), fui conferir este novo longa e devo dizer: ô fitinha ruim do cacete.

Vamos rapidamente à história: em 1949, o arqueólogo Merrin (o sueco Stellan Skarsgård, de Dogville), que abandonou a batina e perdeu a fé em Deus depois de uma aterrorizante experiência num campo de concentração na 2.ª Guerra, é convocado para auxiliar numa escavação na África. O que Merrin não sabe é que trata-se da descoberta de uma Igreja enterrada em pleno deserto. A Igreja, datada de 1.500 anos antes da chegada do catolicismo na região, está praticamente intacta e não apresenta nenhum sinal de desgaste do tempo.

Com o auxílio do padre Francis (James D’Arcy, Mestre dos Mares) e da médica Sarah (Izabella Scorupco, a Bondgirl do bem de 007 Contra GoldenEye), Merrin também toma conhecimento da crença da população local, que acredita que o local é amaldiçoado por maus espíritos, e descobre que os responsáveis pela descoberta sumiram misteriosamente. A coisa piora quando um dos dois filhos de um habitante local apresenta clássicos sinais de possessão demoníaca. Mais manifestações macabras acontecem e Merrin passa a desconfiar que a Igreja foi construída no exato local em que Lúficer caiu na Terra depois da guerra travada no Paraiso. Eu, hein?

Os defeitos da película não são poucos: pra começar, Renny Harlin, o diretor, acredita fielmente que o conceito do “terror” se resume a sustos previsíveis. De fato, tem muitos sustos. Sangue, então, nem se fala. É pra todo lado. Mas é só o que tem. Harlin trata Exorcista: O Início não como um exercício de medo (bem, medo você não sente em momento nenhum) mas sim como filme de ação. Esta é a idéia de “filme de horror” do cara, que acaba esquecendo de um pequeno detalhe: o clima. Aquela ambientação fantástica de sugestão do primeiro filme foi jogado pra escanteio e o que se vê aqui é um festival de escatologia, com direito a muitos animais estripados, recém-nascidos cobertos de larvas e crianças partidas em vários pedaços por hienas raivosas – cenas, aliás, que incomodarão muita gente mas não chegam nem aos pés da histórica “virada de cabeça” da menina Regan. Fora que a platéia já sabe no começo o que acontecerá no final.

Outro ponto negativo é que Renny Harlin não se decide em momento algum entre as saídas criativas e datadas d’O Exorcista original e efeitos especiais moderninhos – a tão esperada aparição do Cabrunco incorporado no corpo de alguém, depois de quase duas horas de projeção, é risível.

Além disso, o elenco é terrível, à exceção do ótimo Stellan Skarsgård, que se sai muito bem como Merrin e se mostra uma escolha perfeita para o papel. Já o resto… James D’Arcy é muito canastrão e a ex-modelo Izabella Scorupco, pior ainda. Os caras simplesmente não conseguem criar uma empatia com a platéia, e isso prejudica e muito o andamento da fita. Remy Sweeney, o ator-mirim que carrega uma responsabilidade considerável no papel de Joseph, a criança possuída, é terrível de tão péssimo. Além do próprio Merrin, o único personagem digno de nota é Jeffries, interpretado com respeito e seriedade pelo engraçadíssimo inglês Alan Ford (para quem não sabe, o perigoso Tijolo do hilário Snatch, de Guy Ritchie), mas não considero muito por ter sido muito mal aproveitado.

Outro problema grave é o excesso de clichês. Todos os chavões de filmes de terror estão lá, desde as tribos estranhas da África até os “figurantes caolhos e cheios de cicatrizes” que passeiam pelos cenários de qualquer filme cuja ação se passa em regiões pobres.

Mas o maior problema de Exorcista: O Início, além da história mal desenvolvida, é seu antecessor. Talvez este longa fosse apenas “regular” se não carregasse nas costas a enorme responsabilidade de honrar a qualidade e o prestígio do primeiro filme da série. Este fator não evita que o espectador compare esta fita com a original durante boa parte do tempo. E vamos concordar: é impossível superar o horror sentido com a primeira aparição de Regan já convertida no Tinhoso. Os caras esperavam fazer isso com o Renny Harlin dirigindo? Pelo amor de Deus!

Bem, quer um filme de terror? Alugue O Exorcista original e bom divertimento. Quer levar uns sustinhos e esquecer que viu o filme assim que sair da sessão? Pode ficar com este mesmo. Mas vai na sessão mais barata, pra não sair xingando depois! Pelo menos serviu pra uma coisa: agora a gente sabe e tem certeza de que, em matéria de medo, nada é pior do que a ganância dos executivos dos estúdios de Hollywood… Vade retro, coisa ruim! :-D

CURIOSIDADES:

• Dentre zilhões de problemas que a produção de Exorcista: O Início enfrentou, o mais notório foi, sem sombra de dúvidas, a substituição do diretor original, o estranho Paul Schrader, pelo “operário-padrão” Renny Harlin. A produtora, Morgan Creek, demitiu Schrader depois de ver o copião da primeira versão e não gostar nada do que viu. Segundo o estúdio, Schrader rodou “um drama psicológico sem um traço de escatologia”. Após a demissão do cineasta, o longa foi rodado praticamente do zero: mais de 90% do copião foi refeito, sendo que dois personagens da primeira versão foram eliminados por Renny Harlin. A Morgan Creek divulgou que, na ocasião do lançamento em DVD, as duas versões estarão no disco, e então poderemos conferir qual delas é a melhor (ou a menos ruim).

• O fantástico John Frankenheimer foi contratado para comandar as filmagens antes de Paul Schrader, mas abandonou o projeto misteriosamente. Exatamente um mês depois, o diretor faleceu, de causas naturais. Liam Neeson, o Qui-Gon Jinn de Star Wars: Episódio I, foi o primeiro cotado a interpretar o padre Merrin, mas se recusou quando soube que Frankenheimer tinha tirado o seu da reta.

• As tentativas de atores Ryan Phillipe (de Studio 54) e Kerr Smith (do seriado Dawson’s Creek) eram as escolhas iniciais para o papel do Padre Francis – mas deu na mesma, uma vez que James D’Arcy também é muito ruim.

• A produção enfrentou ainda um outro problema além dos já relatados aqui: a atriz Linda Blair, intérprete da menina Regan no primeiro filme da cinessérie, ficou chocada e ameaçou processar o estúdio por ter usado imagens suas na promoção de Exorcista: O Início, sem solicitar permissão nem pagar direitos autorais. Não se sabe a quantas anda esta história.

• Em pelo menos duas cenas de Exorcista: O Início, é possível enxergar de relance aquela arrepiante carinha branca muito usada no primeiro longa da série. Fique atento!

EXORCIST: THE BEGINNING • EUA • 2004
Direção de Renny Harlin • Roteiro de Alexi Hawley
Inspirado nos personagens criados por William Peter Blatty
Elenco: Stellan Skarsgård, Izabella Scorupco, James D’Arcy, David Bradley, Alan Ford, Remy Sweeney.
114 min. • Distribuição: Warner Bros.

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