Desventuras em Série

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 18/01/2005.

Desventuras em Série (Lemony Snicket's A Series of Unfortunate Events)

Logo na primeira cena do empolgante Desventuras em Série (Lemony Snicket’s A Series of Unfortunate Events, 2004), o narrador Lemony Snicket (Jude Law) avisa: ainda há tempo de abandonar a sala de cinema e procurar algo mais alegre e interessante para se assistir. Como o próprio Snicket adverte a seguir, “o filme que você está prestes a assistir é extremamente desagradável e misterioso, então sinta-se à vontade para correr desta sala e procurar o cinema onde é exibido o desenho do elfozinho feliz!”. O aviso do narrador é justificável, já que, nos próximos 100 minutos, quem se atrever a ficar na sala de exibição testemunhará uma seqüência ininterrupta de atos completamente insanos, cruéis, doentios e injustos. As vítimas inocentes? Três crianças. Mas espere aí: atos insanos, cruéis, injustos, contra crianças… num filme de férias infanto-juvenil protagonizado por Jim Carrey e produzido pela Nickelodeon?

É, a coisa é basicamente essa mesmo. E também mais um pouco. Em Desventuras em Série, novo longa do diretor Brad Silberling (de Gasparzinho, Cidade dos Anjos e Vida Que Segue) inspirado na coletânea de livros de sucesso de Daniel Handler (que assina com o pseudônimo de Lemony Snicket), você também poderá encontrar atentados criminosos, vilões gananciosos, insetos asquerosos, sanguessugas devoradoras de humanos, cobras gigantes e muito mais. No entanto, a direção de Silberling sauviza consideravelmente este conteúdo macabro e subversivo, que poderia afastar seu público-alvo. Quer dizer, mais ou menos. Afinal, estamos falando de uma geração movida aos Harry Potters da vida que, diga-se de passagem, não é tão infantil assim.

As tais vítimas inocentes da história são os ricos e doces irmãos Baudelaire: Violet (Emily Browning, de Navio Fantasma e No Cair da Noite), Klaus (Liam AikenEstrada para Perdição) e Sunny (as gêmeas Kara e Shelby Hoffman), cada um deles com um dom específico: Violet é uma astuta inventora, capaz de construir engenhosas maquinarias com qualquer material em questão de segundos; Klaus adora ler, e memorizou em sua mente palavra por palavra dos milhares de livros que já leu – sim, mais de mil. E Sunny… Bem, ela morde. MORDE MESMO. Qualquer coisa. Seus dentes são mais afiados do que os de Christopher Walken em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça. E aos 2 anos de idade, é dona de um senso de humor irônico que bota o Monty Python no chinelo.

Enfim, o infortúnio das três crianças começa já nos primeiros instantes do filme: seus pais morrem tragicamente num incêndio que destrói a luxuosa mansão em que vivem. Como desgraça nunca vem sozinha, os órfãos são enviados para morar com o parente mais próximo dos Baudelaire, o estranhíssimo Conde Olaf (Carrey, engraçadíssimo como sempre), péssimo ator de teatro que mora numa pocilga, passa o dia inteiro se auto-intitulando “o mais lindo, o mais belo, etc” e está mais interessado em obter a guarda das crianças para se apossar de sua fortuna.

O problema é que, mesmo sendo tutor legal dos pequenos, Olaf só poderá mexer na fortuna dos Baudelaire quando Violet, a mais velha dos três, atingir a maioridade – e ela só tem 14 anos. É aí que o circo pega fogo: o impaciente e ardiloso Conde Olaf não está nem um pouco afim de esperar quatro anos para ver seu cofrinho cheio (oi?), e decide trilhar pelo caminho mais fácil: matar os três. Como ninguém acredita neles, resta aos órfãos Baudelaire usar de todos os seus dons para se livrar das amadilhas do terrivelmente maluco Olaf, que não poupará esforços e se converterá nos mais bizarros personagens para concluir sua tarefa.

Mesmo que o enredo aparente ser sinistro demais para a garotadinha mais nova, Desventuras em Série tem elementos de sobra para agradar tanto às crianças quanto aos adultos. O sinistro e belíssimo visual do filme, cortesia do grande trabalho do fotógrafo mexicano Emmanuel Lubezki (E Sua Mãe Também, Ali) e do cenógrafo Rick Heinrichs (colaborador habitual de Tim Burton e dos Irmãos Coen em filmes como Planeta dos Macacos e O Grande Lebowski), é bem parecido com a ambientação dos filmes do bruxinho inglês. Já para nós, os marmanjos, será muito fácil identificar elementos típicos dos trabalhos de Burton e Terry Gilliam, o que é ótimo. O enredo é bem interessante e prende a atenção, assim como a fantástica trilha sonora meio circense de Thomas Newman (Procurando Nemo) e as animações dos créditos finais, muito bonitinhas.

O elenco foi acertadíssimo. Jim Carrey, mesmo sendo acusado por alguns de estar “caricato demais”, é a exata tradução em imagens do Conde Olaf do livro – e os exageros do ator são muito bem-vindos, até mesmo para deixar mais leve o caráter distorcido do personagem, o que poderia assustar a criançada. Os atores-mirins que dão vida aos órfãos Baudelaire também são ótimos, com destaque para Sunny, que rouba o filme sempre que aparece, graças à bela sacada do roteiro de “traduzir” as falas da bebê. Fora que as gêmeas que interpretam a personagem são muito carismáticas.

E a direção de casting escolheu bem os atores secundários, cujos personagens conseguem ser ainda mais malucos que o próprio Olaf. Duvidam? Então dêem uma olhada: Billy Connoly (O Último Samurai) interpreta o amável Tio Monty, obcecado por cobras; Catherine O’Hara (a matriarca de Esqueceram de Mim) é a Juíza Strauss, vizinha do Conde; Timothy Spall (o Peter Pettigrew de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) é o Sr. Poe, encarregado de despachar as crianças ao seu tutor; o master Luiz Guzmán (Traffic) interpreta um dos capangas/artistas da ridícula trupe teatral de Olaf; e, por fim, a excelente Meryl Streep dá vida à hilária Tia Josephine, que morre de medo de qualquer coisa, principalmente de corretores de imóveis (!).

Por fim, é um trabalho muito bacana, que diverte bastante e deixa a molecadinha (e os adultos) presa à poltrona do cinema numa boa, além de passar uma mensagem que emociona sem apelar à sacarina. Se depois desta crítica você ainda está com medo de deixar seu priminho ou seu sobrinho traumatizado, só o que posso fazer é assumir a manta de Lemony Snicket e alertar: “Veja outra coisa! O risco é seu”. Mas perderá um filme muuuuito legal. E vamos concordar: traumatizar a molecada é pagar uma sessão do filme da Eliana, pelo amor de Deus! :-D

CURIOSIDADES:

• O americano Daniel Handler, de 34 anos, é o autor da coleção de livros A Series of Unfortunate Events, que conseguiu a proeza de desbancar Harry Potter na preferência da criançada americana, pelo menos segundo diz o ranking dos mais vendidos nas livrarias ianques, utilizando uma linguagem narrativa cruel, depressiva e altamente subversiva. A coleção contém 11 livros, sendo que cada um deles narra um trecho dos infortúnios dos órfãos Baudelaire. A história de Desventuras em Série, o filme, é uma colagem dos três primeiros livros da série.

• Confira o título dos onze livros, em ordem de lançamento: O Mau Começo; A Sala dos Répteis; O Lago das Sanguessugas; Serraria Baixo-Astral; Inferno no Colégio Interno; Elevador Ersatz; A Cidade Sinistra dos Corvos; O Hospital Hostil; O Espetáculo Carnívoro; O Escorregador de Gelo. O 11.º livro, The Grim Grotto, ainda não foi lançado no Brasil. Daniel Handler já divulgou que a série terminará no livro de número 13 (número de azar).

• Em várias cenas, é possível ver a misteriosa sigla V.F.D. embutida nos cenários. Esta sigla tem uma certa importância na coleção de livros, e é um sinal de que o longa deverá ganhar uma continuação em breve. Na cena em que o Conde Olaf tranca as crianças no carro, é possível ver a inscrição “The Last Chance”. Esta inscrição é uma referência à loja Last Chance, apresentada no oitavo livro da série, O Hospital Hostil.

• O pato que quase é esmagado por um fogão em uma das seqüências mais nervosas de Desventuras em Série é bem conhecido da platéia gringa. Ele é o mascote da companhia de seguros Aflac. Nas hilárias propagandas desta companhia, um casal comenta sobre a empresa, mas não consegue se lembrar do nome dela. O tal pato, ao fundo da cena, diz o nome “Aflac”, mas a palavra simplesmente soa como um “quack”.

• Durante as filmagens, Liam Aiken cresceu 11 centímetros. Isto é visível durante o filme: no início, o ator tem a mesma altura de sua parceira de cena, Emily Browning. Perto do final, o garoto está mais alto que a atriz. Na cena em que os órfãos conhecem o Conde Olaf, Jim Carrey diz: “Espere, me dêem a última linha”. Isto não estava no roteiro. Carrey esqueceu mesmo o texto, mas os produtores optaram por mantê-la na montagem final, já que Carrey não “saiu do personagem”.

• Os direitos do personagem pertencem à Nickelodeon. Maluco deste jeito, só podia ser mesmo.

LEMONY SNICKET’S A SERIES OF UNOFRTUNATE EVENTS • EUA • 2004
Direção de Brad Silberling • Roteiro de Robert Gordon
Baseado nos livros The Bad Beginning, The Reptile Room e The Wide Window, de Daniel Hendler
Elenco: Jim Carrey, Emily Browning, Liam Aiken, Kara Hoffman, Shelby Hoffman, Timothy Spall, Billy Connoly, Catherine O’Hara, Meryl Streep e Jude Law.
108 min. • Distribuição: Paramount/DreamWorks.

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