Apenas Uma Vez

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente no Judão, em 24/04/2008.

Apenas Uma Vez (Once)

O mais legal nesse negócio de doido que é fazer cinema é que você não precisa necessariamente ter grandes recursos, apadrinhamento de grandes estúdios, astros e estrelas de renome e efeitos visuais de última geração para gerar trabalhos contundentes e significativos. Na verdade, precisa-se de muito pouco. E vez por outra, surge um filminho pequeno, escondido, que comprova a máxima imortalizada pelo cineasta brazuca Glauber Rocha, “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”. Nas mãos das pessoas certas, uma historinha simples, bem escrita e bem interpretada pode simplesmente destruir qualquer um emocionalmente e martelar na mente do público por um bom tempo, mais do que aquele longa-metragem de 752 milhões de dinheiros visto por 752 milhões de espectadores que, em sua maioria, esquecerão do que assistiram em duas ou três horas após a sessão.

Sendo assim, se você é como este que vos escreve, louco psicótico capaz de gostar de viagens intergaláticas, suspenses sangrentos, serial killers, documentários do Animal Planet e comédias românticas água-com-açúcar da Meg Ryan na mesma proporção (!), é bom preparar os nervos para Apenas Uma Vez (Once, 2006), drama musical irlandês que precisou de menos de uma hora e meia de projeção para se tornar o melhor filme independente do ano (até agora, claro). E se você é como este que vos escreve, masoquista sem vergonha alguma na cara, prepare-se para querer ver (e sofrer com) esta fitinha de novo e de novo e de novo, com direito até a comprar o DVD na ocasião de seu lançamento. Pois é, gente doida é assim. :-D

E pelo visto, tem muito masoquista por aí, já que o longa, totalmente rodado com duas pequenas câmeras digitais, conquistou prêmios bem importantes, dentre eles o título de Melhor Filme Estrangeiro no Independent Spirit Awards e o Prêmio do Público no último Festival de Sundance, além do Oscar 2008 de Melhor Canção para a excelente Falling Slowly – e o fato inédito de a Academia permitir que um premiado retorne ao palco para concluir seu discurso, interrompido pela orquestra por ter extrapolado o tempo. Uau, hein? Isso é que é moral.

Toda essa babação de ovo justifica-se. O caso é que Apenas Uma Vez surpreende por apresentar uma série de pequenos elementos que propiciam uma identificação imediata do espectador. Em sua linha de enredo aparentemente rasa, trata de rejeição, carência paterna, exclusão, sonhos não realizados, resistência às barreiras lingüísticas, culturais e financeiras impostas pela sociedade, abandono, traição, frustração profissional e pessoal… tudo isto embalado em 85 minutos de uma tocante história de amor bem aos moldes de Luzes da Cidade, clássico de Charles Chaplin, protagonizada por belíssimas canções de folk-rock e personagens tão reais, tão tridimensionais, que poderiam ser seus vizinhos. É bom porque poderia acontecer com você mesmo, e você sente isso na pele.

E como toda e qualquer boa e RELEVANTE história de amor que se preze, tem tudo prá dar m%#@& no final. Será? :-D

O enredo de Apenas Uma Vez é aparentemente simples, direto ao ponto: temos duas personagens, cujos nomes nunca são ditos e são identificados pelos créditos apenas como “o cara” (Glen Hansard) e “a garota” (Marketa Irglova). O cara saiu da Inglaterra em direção à Irlanda para cuidar do pai após a morte da mãe e ajudá-lo em uma pequena lojinha de consertos de aspiradores de pó – mas sabe-se que a verdadeira razão da fuga do sujeito foi o galho sincero que ganhou de uma namorada, história narrada nas músicas que o cara toca em seu violão pelas ruas da cidade em troca de algumas moedinhas. A garota veio da República Tcheca com a mãe e a filha pequena; abandonou o marido em busca de oportunidades na terra do Bono e do Daniel Day-Lewis (!), mas encontrou uma realidade bem diferente da proposta e, para sobreviver, vende rosas pelas mesmas ruas.

A música (e a idéia de vencer na vida através dela) unirá estas personagens meio que sem querer: ele toca violão, ela é pianista e ambos possuem nítida afinidade profissional. Aos pouquinhos, quase imperceptivelmente, não conseguem enxergar-se longe um do outro. Compõem músicas, fazem duetos, tomam café, revelam alguma coisinha sobre suas histórias pessoais, e por aí vai.

E então… bem, todo mundo já deve imaginar o caminho que a bandinha vai tocar, certo? Como diria Lex Luthor, WROOOOOONG! É aí que o roteiro do irlandês John Carney, também diretor da fita, revela-se mais do que aparenta: evitando ao máximo todos os clichês do gênero, Apenas Uma Vez injeta seriedade, imprevisibilidade e até originalidade na trama ao preferir focar não em um suposto relacionamento entre os dois, mas sim na tortuosa dúvida silenciosa que surge a partir daí. Afinal, tanto o cara quanto a garota têm sonhos e é bem provável que não haja espaço para o outro nestes sonhos, embora a paixão seja de fato inevitável (ou não). O que fazer? Entregar-se a um amor que pode ou não ser correspondido? Não arriscar e deixar ir embora aquele(a) que pode ser sua definitiva cara-metade?

A melhor forma de desabafo segue nas canções executadas pela dupla durante a fita – canções aterrorizantes, compostas em grande parte pelos próprios atores, Marketa Irglova e Glen Hansard (músico profissional, integrante da popularíssima banda irlandesa The Frames e também ator de um dos filmes mais legais dos anos 90, The Commitments – Loucos Pela Fama, de Alan Parker). Sério, algumas das músicas são de cortar o coração, ainda mais analisando a perfeição do contexto das cenas na qual são utilizadas… e masoquista que sou, já tenho até o CD da trilha. Céus! :-D

Bem, para não entregar o jogo todo (o texto está ficando longo demais e, de qualquer forma, se quiser saber mais, vá ao cinema, oras!), basta dizer que Apenas Uma Vez é um daqueles trabalhos curtinhos, sem rodeios, mas de sensibilidade ímpar, que se constrói – e destrói, hehehe – com base em sugestões, na leveza dos diálogos, de seqüências marcantes e das personagens brilhantemente defendidas por Hansard e Irglova. Um filme que te deixa a sensação de ter sido esmurrado, estraçalhado, amassado e atropelado por um trator (!), e tudo isso com um tremendo sorriso no rosto. Veja o filme, compre a trilha, pegue seu violãozinho e saia por aí soltando o gogó! Só escolha bem o repertório. Nada de “quando Deus te desenhou” ou troços do gênero, ok? Nossos tímpanos, comovidos, agradecem. ;-)

Em tempo: na seqüência do passeio, o cara faz uma pergunta à garota, que responde em seu idioma natal e, ignorando a súplica do sujeito, não dá qualquer tipo de pista sobre o que aquela resposta significa. Daí fui forçado a procurar o significado nas Internets da vida… pra quê? Só me deu mais raiva ainda! Cacetada! :-D

ONCE • IRL • 2006
Direção de John Carney • Roteiro de John Carney
Elenco: Glen Hansard, Marketa Irglova, Hugh Walsh, Gerard Hendrick, Bill Hodnett, Danuse Ktreskova, Alistair Foley, Geoff Minogue.
85 min. • Distribuição: Imagem Filmes.

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