As Torres Gêmeas

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 27/09/2006.

As Torres Gêmeas (World Trade Center)

Para quem ainda está se familiarizando com as maravilhas de ser um cinéfilo inveterado e ainda não conhece todos os nomes que deveria conhecer, a lição de hoje é sobre um sujeito muito comentado na indústria cinematográfica. Seu nome é Oliver Stone. Bem, Oliver Stone é um cineasta megapolêmico que adora usar o cinema para declarar ao mundo todas as suas 752 teorias da conspiração e, com isto, cutucar uma série de onças com varas bem curtinhas. E o bacana é que, vez por outra, Oliver Stone expõe suas teorias, provoca meio mundo… e entrega filmes bárbaros.

Quer um destes? Salvador – O Martírio de um Povo (1986). Quer outro? Talk Radio (1988). Quer outro? Platoon (1986). E por aí vai.

É verdade, também, que muitos de seus longas não passam de mero exercício de estilo e, alguns, têm suas histórias detonadas pela mania do diretor em imprimir um visual excessivamente estilizado e dar mais atenção às suas teorias conspiratórias do que ao que realmente importa em um filme: o enredo. Só para citar um exemplo, não à toa, Quentin Tarantino, o autor da trama de Assassinos por Natureza (1994), não quer ver Oliver Stone à sua frente nem pintado de ouro – Tarantino alega que Stone simplesmente destruiu seu roteiro para imprimir seu estilo e também para alfinetar a mídia, capaz de transformar serial killers em superstars adorados pelo povo. Para este que vos fala, no caso de Assassinos por Natureza, só o que há de realmente bom ali são as músicas do Leonard Cohen e olhe lá. ;-)

Agora, falemos de As Torres Gêmeas (World Trade Center, 2006), a visão de Oliver Stone para os fatídicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001 em Nova York. Antes de qualquer coisa, devo dizer que As Torres Gêmeas não é um típico filme de Stone. Não há cenas estilizadas ao extremo, não há montagens aceleradas e – o mais importante – não há teorias conspiratórias. Mas As Torres Gêmeas também não é o pote de sacarina, o melodrama mexicano, a apologia patriótica, o filme programadinho para fazer chorar que o horroroso trailer sugeriu. Nunca um trabalho esteve no mais absoluto meio-termo.

Este meio-termo também se aplica à perfeição ao resultado final da película. Primeiro, porque é impossível acreditar que estamos falando de um longa-metragem de Oliver Stone; a narrativa da fita é tão comedida, tão despida de posicionamentos político-sociais e tão apoiada em elementos que o cineasta sempre repudiou, que assistir As Torres Gêmeas e saber que é um trabalho seu é como ver Steven Spielberg no comando de um thriller recheado de cenas gratuitas de sexo esportivo (!). O que não é ruim. Se As Torres Gêmeas traz muitos bons momentos, por outro lado o conjunto da obra é bastante prejudicado pelos pequenos clichês do gênero e também pela impressão que se tem em certas seqüências de que a fita só existe mesmo como apologia à bravura, à coragem e ao sofrimento dos norte-americanos naquele momento. E isso soa prepotente pra cacete.

As Torres Gêmeas perde muito pouco tempo para estabelecer os pilares de sua trama: nas primeiras cenas, acompanhamos uma equipe do Departamento de Polícia Portuária liderada pelo veterano John McLoughlin (Nicolas Cage) preparando-se para mais um dia de batente, até que as primeiras notícias sobre um avião que se chocou com um dos prédios do centro empresarial World Trade Center começam a circular. A equipe de McLoughlin, assim como todos os policiais, bombeiros, militares e oficiais da cidade, seguiram ao local para auxiliar no resgate de sobreviventes. Um pequeno núcleo de oficiais da Polícia Portuária, dentre eles McLoughlin e o oficial menor Will Jimeno (Michael Peña), entra no WTC. Em seguida, as torres caem. Embaixo de zilhões de entulhos e a cerca de seis a sete metros abaixo da superfície dos escombros, McLoughlin e Jimeno, os dois únicos sobreviventes do grupo, tentam manter-se vivo até a chegada de um possível resgate.

E ponto final. Sem teorias, sem questionamentos. Apenas uma história de sobrevivência.

Só pela sua primeira meia-hora, As Torres Gêmeas seria um clássico – não a ponto, claro, de superar o fenomenal Vôo United 93 de Paul Greengrass, que ainda ostenta a posição de “longa definitivo sobre o 9/11”, embora seja impossível tecer comparações aos dois. Enfim, a película seria realmente digna de aplausos se não concentrasse, a partir daí, um número considerável de diálogos-prontos e situações-clichê que incomodam, e muito. Então, prepare-se para uma ou outra frase de fazer estourar os tímpanos nas cenas do resgate dos policiais. Uma cena em especial – a cena em que Will Jimeno, morto de sede, vê Jesus em pessoa lhe trazer um copo d’água, pode até emocionar os mais crédulos, mas num saldo geral é apenas piegas e desnecessária.

Também me incomodou bastante a necessidade do roteiro de insistir no lance de ser politicamente correto e mostrar, o tempo todo, pessoas de diferentes raças e nacionalidades rompendo barreiras e quebrando preconceitos para ajudar uns aos outros. A fita insiste tanto neste detalhe que soa visivelmente falso. Muito, mas muito falso.

Na verdade, são apenas três elementos que não deixam As Torres Gêmeas transformar-se em um engodo. O primeiro elemento é o realismo com que Oliver Stone arremessa o espectador no meio daquilo tudo. A espetacular primeira meia-hora, o espaço de tempo entre a primeira notícia do ataque e o momento em que McLoughlin e Jimeno são surpreendidos pela queda do arranha-céu, não precisa mostrar muita coisa para deixar o público extremamente chocado e comovido. Particularmente, a rápida visão de um homem se atirando do WTC e a visão em primeira pessoa, de dentro do saguão da segunda torre, de pessoas desaparecendo em uma gigantesca nuvem de poeira, me deixaram bastante perturbado.

O segundo elemento é o trabalho de atuação do elenco central. Enquanto Nicolas Cage e Michael Peña (o chaveiro humilde e único personagem sem desvios de caráter em Crash – No Limite) entregam um show de interpretação como McLoughlin e Jimeno, transmitindo uma violenta carga dramática somente através de olhares e diálogos (afinal, eles estão imobilizados po conta dos escombros), suas respectivas esposas, Donna e Allison, são defendidas de maneira bem contundente e cuidadosa por Maria Bello e Maggie Gyllenhaal. Dá um nó na garganta acompanhar a angústia das personagens à espera de notícias de seus entes (embora o filme apele MUITO para momentos-melô). Por sinal, Bello, que já mostrara do que é capaz em Marcas da Violência, aqui é dona de uma cena de derreter qualquer coração de pedra (menos o do Benício :-D). Sério, qualquer prêmio concedido a este quarteto será pouco.

O primordial, entretanto, não vêm da perfeição dos detalhes técnicos, da reconstrução do WTC ou do empenho do elenco. Vem da maturidade e da sobriedade do trabalho de Oliver Stone na direção. A escolha de Stone em centrar sua história na história de John McLoughlin e William Jimeno foi a mais correta possível – e meu medo vinha justamente de ter a impressão de que Stone usaria o evento para destilar mais uma de suas teorias psicóticas. Só o que temos aqui é um drama que sabe comover e sabe prender o espectador, mas que poderia ser bem mais impactante se não se rendesse tão facilmente aos arquétipos do gênero. Se é pra comparar, mesmo que uma comparação seja até pejorativa de tão absurda, eu ainda fico com Vôo United 93, indubitavelmente mais doloroso e realista.

Mas eu ainda não consigo acreditar que este filme é do Oliver Stone! Para o mundo ficar esquisito de vez, só falta ver Will Ferrell fazendo um bom trabalho de ator e Tom Hanks interpretando um estuprador psicopata. Aí é o fim do mundo de vez. :-D

CURIOSIDADES:

• A recriação do chamado Ponto Zero, o monte de entulhos acumulados com a queda das torres, consumiu cerca de 240 toneladas de material e um extenso galpão em Los Angeles.

• Quando indagado sobre a ausência de posicionamento político em As Torres Gêmeas, Oliver Stone declarou que “a política não entra nisso, e sim a coragem e a sobrevivência”. Bem sóbrio, não?

• Em certa seqüência do longa, quando a sombra de um dos aviões seqüestrados atravessa Nova York, é possível ver em um canto uma propaganda de Zoolander, comédia estrelada por Ben Stiller. Zoolander, cuja estréia em solo gringo estava programada para meados de setembro de 2001, foi um dos muitos longas-metragens que, após a tragédia das torres gêmeas, voltaram à mesa de edição para passar pelo processo de remoção digital de qualquer cena em que o World Trade Center aparecesse.

• Oliver Stone queria Kevin Costner, seu parceiro em JFK, no papel de John McLoughlin. A Paramount Pictures recusou o ator, por uma razão: Costner, que recentemente narrou o documentário One Native Soil (sobre as investigações acerca dos ataques terroristas de 11/9), é defensor ferrenho das posições socio-políticas de Stone. A Paramount temia que a nova parceria entre o diretor e o ator transformasse As Torres Gêmeas em mais um desfile de teorias de conspiração.

• Antes de aceitar viver Allison Jimeno, Maggie Gyllenhaal procurou o casal Jimeno e pediu perdão, declarando que só aceitaria participar do longa com suas aprovações. Isto porque, à época dos ataques, Gyllenhaal declarou a quem quisesse ouvir que o atentado terrorista que matou milhares de pessoas em 2001 era, em grande parte, culpa dos Estados Unidos. Bem, ela não disse mentira alguma.

WORLD TRADE CENTER • EUA • 2006
Direção de Oliver Stone • Roteiro de Andrea Berloff
Elenco: Nicolas Cage, Michael Peña, Maria Bello, Maggie Gyllenhaal, Jay Hernandez, Stephen Dorff, Michael Shannon, William Mapother, Nicky Katt, Frank Whaley.
129 min. • Distribuição: Paramount Pictures.

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