A Promessa

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 12/12/2006.

A Promessa (Wu Ji - The Promise)

Até onde possa me lembrar, foi Ang Lee, com seu sensacional O Tigre e o Dragão (2000), que despertou o interesse da nerdaiada pelos suntuosos longas-metragens orientais que misturam lendas antigas com o melhor das artes-marciais bizarras-voadoras-inimagináveis protagonizadas pelos guerreiros Wuxia. Cenários detalhados, figurinos arrojados e maravilhosa direção de arte embalados com um enredo de cunho assumidamente romântico e seqüências de lutas embasbacantes e fantasiosas… Depois de Ang Lee, todo mundo queria fazer igual: o senhor Zhang Yimou, acostumado com dramas introvertidos e silenciosos, decidiu enveredar pelo subgênero e entregou duas inigualáveis obras-primas, Herói e O Clã das Adagas Voadoras, ambos de 2004. Quase simultaneamente, Takeshi Kitano comandou o bacaníssimo Zatoichi.

Isto, para não citar vários outros longas que sequer chegaram aqui no Brasil – e deixando de lado as divertidíssimas comédias de Stephen Chow (aquele de Shaolin Soccer e Kung-Fusão), que não são filmes de época, mas são assumidas variações destas mesmas lendas e trazem lutas incrivelmente engraçadas e engenhosas.

Deduzimos, então, que qualquer fita que fale de uma lenda oriental das antigas e traga zilhões de cenas de lutas com guerreiros voando é potencialmente boa? Claro que não. O caso é que estes realizadores são mesmo ultra-competentes e desenvolveram seus respectivos trabalhos com o máximo de cuidado para entregar filmes perfeitos tanto em termos de técnica quanto em termos de enredo. Era só questão de tempo até que algum zé-mané resolvesse fazer graça e estragar tudo. E devo dizer: o diretor/roteirista Chen Kaige (o mesmo de Adeus Minha Concubina) conseguiu, viu? Sim, A Promessa (Wu Ji/The Promise, 2005), superprodução chinesa de US$ 35 milhões – uma marca inacreditavelmente alta para o cinema de lá -, é ruim pra cacete.

Chega até a ser difícil analisar o negócio num todo e citar um ou outro ponto que tenha contribuído para o pavorosíssimo resultado final desta película; não há NADA no lugar. Enquanto filmes como Herói e O Clã das Adagas Voadoras destacam-se por usar seu visual refinado como apoio de um roteiro muito bem elaborado, A Promessa faz exatamente o contrário: exagera prá valer nas firulas visuais para esconder um roteiro que, além de ser bastante mal escrito, conta uma história bem fraquinha. Fraquinha? Na verdade, a trama é um engodo sem sentido! Jisuis, quem foi o GÊNIO que aprovou este roteiro?

Senão, veja só do que estamos falando: uma menina pobre encontra ocasionalmente uma espécie de feiticeira, e explicita sua angústia em viver na pobreza, sem ter o que comer, sem ter onde morar… A tal deusa – Man Shen, a deusa da fortuna – promete uma vida de luxo, riqueza, fartura… mas tudo tem um preço: para se tornar uma bela princesa, ela precisa abdicar do amor e da esperança de, um dia, se apaixonar e consumar um relacionamento. Resumindo a coisa toda, qualquer homem que se apaixonar por ela morrerá automaticamente (oi?). Sem saída, a menina aceita a proposta. O troço começa daí: qual é o sentido disso? Qual a ligação entre se tornar uma princesinha cheia de grana e fazer qualquer bastardo infeliz que lhe apareça na frente bater a caçoleta? Vai saber.

Enfim, a história avança vinte anos no tempo para centrar sua atenção em um general, Guang Ming (Hiroyuki Sanada), prestes a mergulhar em uma sangrenta batalha. Só que o arrogante comandante vê a vitória chegar graças a um escravo, Kun Lun (Jang Dong-Kun), que possui a habilidade de “correr mais rápido do que o vento” – detalhe que o cara corre MUITO rápido, literalmente falando… assumindo o escravo para si, o general tem uma visão e descobre que o Rei da Cidade Imperial está prestes a ser subjugado pelo vilãozão da parada, o Duque do Norte Wuhuan (Nicholas Tse). Ferido por conta de um ataque, Ming pede a Kun Lun que siga disfarçado até a Cidade Imperial para tentar salvar o Rei. E não é que o escravo cai de amores justamente pela tal princesa do começa da história, Qing Cheng (a bela Cecilia Leung), oferecida pelo Rei para o Duque em troca de sua vida?

A partir daí… nem queira saber, é aquele blá-blá-blá de sempre; o escravo, o duque e o general disputarão pelo amor da princesa, que sofrerá por não conseguir encontrar um amor que possa superar a maldição que ela carrega… Previsível, não? A novela das oito surpreende mais, e olha que aquilo é um purgante (Regina Duarte fazendo biquinho e pagando de gatinha não dá). A previsibilidade do roteiro de A Promessa, entretanto, não chega a incomodar tanto quanto os péssimos diálogos e os rumos que a história toma em certos momentos. Começam a brotar na tela uma série de situações que surgem do nada e pouco têm a ver com a essência do plot – em um momento qualquer, a princesinha é simplesmente enfiada dentro de uma gaiola gigante (oi?). Bem, para falar claro, é tudo uma verdadeira ZONA, uma verdadeira ESBÓRNIA, um verdadeiro ZARALHO, um verdadeiro REBUCETEIO! A bagunça chega a tal ponto que, com uma hora de projeção, você já não sabe mais o que diabos está acontecendo, de quem a concubina gosta, quem é o vilão de verdade, quem é o mocinho…

O problema não é somente este. A mediocridade do enredo é encoberta pela direção de arte extremamente exagerada da película. Os figurinos, por exemplo, parecem ter sido emprestados de uma escola de samba! São plumas, capacetes gigantes cheios de detalhezinhos dourados, cores mais do que variadas… pra virar Carnaval, só faltou mesmo alguém cantando um samba-enredo. Afe! Juro que fiquei esperando o Clóvis Bornay dar as caras no cantinho da tela, exclamando “Noooooofa, ameeeeeei o modelito!”. Vixe! :-D

Como se não bastasse todo o “gala gay” dos figurinos e dos cenários, o exagero nos efeitos visuais deixou as cenas de batalha com um aspecto meio fora do real, meio falso… sabe efeito especial de seriado japonês para a TV? Então. Por sinal, não pude deixar de esperar, durante a primeira batalha, uma suposta e até oportuna aparição dos Goggle Five (“ashinotoie! ashinotoie!”) lá no meio, lutando pelo bem das crianças e dos fracos e oprimidos (!). Acho que era por causa do capacete bisonho do General, com aqueles “chifrinhos” que lembram muito os tentáculos do Grande Olho… Credo, mais alguém aí lembra do nome dos personagens do Goggle Five ou eu é que sou mesmo um patético? :-P

Enfim, este mesmo exagero presente na técnica de A Promessa é aplicado sem medidas na atuação do elenco central, típica de novelinha mexicana do SBT – sério, os diálogos não são naturalmente ditos, e sim declamados como se fossem uma obra máxima de Shakespeare ou coisa que o valha – e principalmente nos efeitos visuais. Não, não há como negar que os efeitos até são razoavelmente bacanas, mas em certos momentos são beeeeem falhos e, num saldo geral, são extremamente inúteis. A primeira batalha, por exemplo, é interrompida pelo estouro de uma manada de bois (ou touros, ou sei lá o quê) muito mal rodada e que não tem razão de estar ali. Só esta cena, que acontece com quinze minutos de projeção e traz uma conclusão tão forçada quanto ridícula, é o suficiente para provar que o excesso de visual e de cores só está ali para cobrir os muitos rombos do roteiro. Aliás, um adendo: aquele cara correndo de quatro, ao melhor estilo Stephen Chow, é qualquer coisa de esquisito… Deus do céu, a que ponto o ser humano chega! A corridinha de quatro é lamentável, lamentável.

O estigma Stephen Chow é uma boa forma de resumir A Promessa. Afinal, o grande ponto negativo da fita é a mania de absorver as características cômicas dos filmes de Chow, reuni-las em um contexto bem divergente e querer tratá-las a sério demais. Em Herói, por exemplo, os guerreiros Wuxia quase chegavam ao ponto de voar, mas esta liberdade artística é justificada pelo fato de que o guerreiro passou por um violento processo de aprendizado e meditação para chegar àquele nível de luta; já em A Promessa, não há qualquer justificativa plausível para que o tal escravo se ajeite de quatro e supere uma manada de bois (ou seriam touros?) em uma corrida. Este tipo de coisa precisa explicar, cacetada! Não é só botar uma pá de coisa absurda ali e dizer que “não tem explicação porque é tudo fantasia”. Se alguém aí tem uma bola de cristal, para que eu possa entender o que raios se passou pela cabeça de Chen Kaige quando escreveu este roteiro, eu devolvo em seguida e ainda retiro o que disse aqui. Se houver algum FUNDAMENTO nas idéias de Kaige, claro. :-P

Há também uma outra forma de resumir A Promessa. O caso é que a fita peca por sua prepotência, por sua megalomania. Se um pouco da atenção direcionada ao exercício de estilo de Chen Kaige fosse revertida à modelagem do roteiro final, talvez o projeto melhorasse bastante – o que eu acho, na boa, que seria impossível, visto que o plot inicial, por si só, já é bem furreco. Se é pra ver um longa-metragem, ainda mais deste subgênero definido pelos excelentes trabalhos de Ang Lee e Zhang Yimou, que parece muito mais preocupado em trabalhar efeitos do que roteiro, que é o que realmente importa, prefiro locar Herói novamente que, além de ser tudo aquilo que este aqui quer ser e não conseguiu, ainda é bem mais bonito visualmente. E também tem no elenco a graciosa senhora Zhang Ziyi para alegrar nossas existências! Hehehe.

CURIOSIDADES:

A Promessa é o longa-metragem mais caro de toda a história do cinema da China: custou aproximadamente 282,572,490 Yuan, o que equivale a cerca de US$ 35 milhões.

• O filme concorreu ao Globo de Ouro 2006 de Melhor Filme Estrangeiro, perdendo o troféuzinho para o aclamado e polêmico palestino Paradise Now, de Hany Abu-Assad. A Promessa também foi o candidato apresentado pela China para disputar uma vaga entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, neste mesmo ano. Não conseguiu, tadinho.

• Por algum tempo, os direitos de distribuição de A Promessa em terras ianques ficou a cargo da Weinstein Co., que recuou por alguma razão não esclarecida. Neste curto período, o filme se chamou Master of the Crimson Armor (traduzindo literalmente, O Mestre da Armadura Carmesin), título que, segundo os parlapatões Irmãos Weinstein, dá um “clima mais americano” à produção. Ao perder seu distribuidor e, em seguida, ser comprado pela Warner Independent Pictures, a fita passou a se chamar The Promise.

• O título original da fita, Wu Ji, significa sem limites, numa tradução literal.

WU JI • CHI/COR/JAP/HK • 2005
Direção de Chen Kaige • Roteiro de Chen Kaige
Elenco: Cecilia Cheung, Dong-Kun Jang, Hioryuki Sanada, Nicholas Tse, Ye Liu.
128 min. • Distribuição: Warner Independent Pictures.

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