As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl em 3-D

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 17/07/2005.

As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl (The Adventures of Shark Boy and Lava Girl)

N. do E.: O texto abaixo é uma reprodução do e-mail recebido pela redação A ARCA, escrito pelo colunista Zarko.

À
A ARCA Entretenimento
A/C Srs. El Cid, Fanboy e R.Pichuebas

Ref.: PEDIDO DE DEMISSÃO

Caros,

Não adianta. Por mais que me segure, preciso perguntar: vocês têm algo contra a minha pessoa? Pois é, sei que já fiz esta pergunta ao menos umas 350 vezes somente neste mês, mas o que vocês querem que eu pense? Que vocês adoram me ver em estado de desespero, isso eu já sabia. Mas não imaginava o grau desta satisfação mórbida e psicótica com relação a mim! Sim, me refiro às “coisas” que vocês me fazem assistir em prol de um bem maior, ou seja, este website nerd.

Porém, tudo tem um limite. Tudo mesmo! E eis que o meu limite estourou, caros amigos. Logo, venho por meio desta solicitar meu afastamento permanente das atividades deste website chamado A ARCA. Trocando em miúdos: estou pedindo demissão. Pedindo as contas, chutando a mim mesmo, esvaziando a gaveta! Usem a expressão que acharem melhor. E nem percam tempo tentando humilhar-se para meu deleite e possível retorno, pois seria necessário algo muito extraordinário, como a Naomi Watts de presente, para me fazer voltar. Antes que chorem ou soltem fogos (e eu ainda acredito que esta segunda alternativa prevaleça), explicarei a razão da minha saída.

O motivo deste meu estado deplorável atende pela alcunha de As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl em 3D (The Adventures of Shark Boy and Lava Girl in 3D, 2005).

Sim, é “apenas” um filme infantil, à primeira vista. Um filme infantil gerado com o único intento de tirar a criançada de dentro de casa nas férias. E sei que a esta hora vocês devem estar rindo e se perguntando “ele não está falando sério”. Acham que um mero filme infantil é motivo fútil para um afastamento? Ah, vocês ainda não viram nada!

Em primeiro lugar, este Shark Boy e Lava Girl não é apenas uma película fraquinha. É bem provável que esta nova fita de Robert Rodriguez tenha bagagem suficiente para atropelar qualquer candidato a pior filme do ano até o momento. Aquilo é uma tortura psicológica! Uma hora e tralalá de puro masoquismo! Um pesadelo! Cada minuto de projeção dói na alma! Não é uma fita ruim com a qual você dá risada das tosqueiras apresentadas na tela; é uma fita ruim sobre a qual você diz “Deus, faça com que isto acabe logo”! E não me venham falar que não gostei de Shark Boy e Lava Girl porque é “produção pra crianças”: se eu fosse um garotinho e meus pais me levassem para assistir a ISTO, a primeira medida cabível após a sessão seria fugir de casa e encontrar uma família que me amasse de verdade.

E pensar que Robert Rodriguez gerou este troço a partir de uma idéia de seu filhinho de apenas sete anos, o tal do Racer Rodriguez… Olha, a julgar pela qualidade técnica, o pivetinho não só criou a idéia central do filme, como também deve tê-lo roteirizado e dirigido! A produção é tão amadorística (esta palavra existe?), tão cheia de falhas, tão mal escrita e mal interpretada que torna-se realmente difícil processar o fato de que o pseudo-cineasta que assina a direção desta coisa é o mesmo que ganhou recentemente o coração da nerdaiada mundial com o já clássico Sin City – A Cidade do Pecado. Simplesmente inaceitável! Se vocês quiserem arrancar algo de alguém, é só exibir vinte minutos de Shark Boy e Lava Girl que o cara entrega todos os seus pecados na hora.

Sintam só o drama: a tal “história” do filme é centrada em Max, um pivete de 10 anos que mergulha num mundo de sonhos para fugir do marasmo de sua vida. O moleque só sabe falar de “sonhos, sonhos, sonhos”. É “sonho” pra lá, “sonho” pra cá, eu sonho, tu sonhas, ele sonha… um porre! Para se ter uma idéia de como o garoto é pancada, ele tem até um “diário de sonhos”. Depois reclama quando apanha no colégio! Enfim: a nova do garoto é que ele diz a quem quiser ouvir que passou as férias ao lado de dois novos amigos: um menino chamado Shark Boy (que foi criado por tubarões depois do desaparecimento do pai e acabou assumindo as características dos tais peixinhos) e uma menina chamada Lava Girl (que nasceu das lavas e é dona de superpoderes).

Não é à toa que, depois desta, a reputação do indivíduo vai por água abaixo (e com razão). Max apanha na escola, é perseguido por um grupinho liderado pelo valentão Linus, leva broncas e mais broncas de seu professor – um certo Sr. Eletricidade – e ainda é obrigado a agüentar os sermões da mãe, embora o pai seja tão tapad… ops, sonhador e avoado quanto ele. Max tem uma chance de provar que não é maluco quando, um dia, Shark Boy e Lava Girl em pessoa aparecem em sua escola, para levá-lo ao Planeta Baba – um planeta onde a única regra é a diversão. Olhem só a explicação: o que acontece é que, de tanto sonhar com estas figuras, Max acabou dando vida a elas (!) e, como ele “gerou” o tal lugar, é o único que tem o poder de deter um vilão que quer tomar conta do pedaço, um tal… Sr. Elétrico. Afe.

Já tentaram cometer suicídio até aqui? Não? Imagino quando vocês tomarem consciência da absurda conclusão desta sub-história… Ugh!

O pior é que o enredo central de Shark Boy e Lava Girl nem chega a ser tão tenebroso assim. Aliás, me arrisco a dizer que, se tivesse recebido melhor tratamento, poderia render até uma boa produção descartável de férias. Mas Rodriguez, que assumiu a direção, o roteiro, a produção, a fotografia, a montagem e a trilha sonora (!), parece ter esquecido de trabalhar melhor seu script. O cara quer fazer tudo, dá nisso! Acaba deixando alguns buracos abertos, mesmo.

A verdade é que o roteiro desta película concentra um sem fim de diálogos idiotas, seqüências incoerentes e situações inacreditavelmente falsas até mesmo para uma história de fantasia.

Duvidam, meus caros? Então vejam só: se a menina é feita de lava e esquenta tudo o que toca, por que ela não derrete o gelo do Palácio de Gelo que visita em certo momento do filme? E que tal uma escola ser parcialmente destruída, para aparecer perfeita e intacta UM DIA DEPOIS? Aliás, só tem UMA classe neste colégio? Isto sem contar os “vinte minutos” mais longos da história! Assistam e entenderão o que eu digo. Ou melhor, NÃO assistam.

Pra piorar tudo, Rodriguez também esqueceu de dirigir seus atores-mirins. Bem, a molecada contratada aqui já é sofrível por natureza. O quarteto central, composto dos mini-pagadores de mico Cayden Boyd (Max), Taylor Lautner (Shark Boy), Taylor Dooley (Lava Girl) e Jacob Davich (Linus), consegue ser tão talentoso quanto os dois eficientíssimos instrumentos de tortura que “apresentam” aquele programa infantil matinal do SBT – cá entre nós, sinto vontade de me candidatar à vaga de homem-bomba em qualquer grupo terrorista só de lembrar daqueles dois. Voltando: as atuações das crianças do filme são de gelar a espinha dorsal! O único que consegue ser “menos ruim” é Lautner, que até consegue imprimir certo carisma como o menino-tubarão, mas perde toda a credibilidade na cena da “dança para Max dormir”. Não contarei mais para não estragar o momento de horror de quem quiser cometer auto-flagelo assistindo ao filme.

Pior mesmo do que as crianças, só o pavoroso George Lopez como o professor. Deus, de onde tiraram este sujeito? O cara é pura careta, totalmente bizarro! Por favor, alguém incinere o currículo deste ser! Isto porque eu me recuso a comentar qualquer coisa sobre a lamentável participação de David Arquette, como o pai sorvete-na-testa da criança sorvete-na-testa… Não me perguntem. Nem queiram saber.

Quanto ao 3D… o negócio é estranho. Não há como negar que o visual do filme, do tal Planeta Baba e até mesmo do vilão, a máquina chamada Sr. Elétrico, são bons. Bonitinhos e só. Mas o 3D simplesmente não funciona de vez em quando, sem contar que Rodriguez perdeu boas chances de criar efeitos legais por conta disso. Já que era pra rodar um filme só pra fazer a criançada babar no 3D – que, ao final, revela ser o único atrativo desta produção –, bem que ele podia ter explorado mais este efeito, e não apenas “deixar as coisas em relevo”, como acontece em boa parte da ação. E quem se arriscar a tirar os óculos em algumas cenas, perceberá o quanto a montagem está ruim…

Talvez o problema máximo de Shark Boy e Lava Girl seja cometer a heresia absoluta de chamar o público adulto e o espectador-mirim de burro na cara dura (mesmo erro cometido por O Expresso Polar, por sinal). A produção é muito mastigada, muito explicadinha. O roteiro explica tudo, tintim por tintim, como se o público-alvo não fosse capaz de entender o que se passa na tela. Em certas seqüências, cheguei a pensar que os personagens virariam para a tela e diriam: “E aí, entenderam?”. Pecado mortal em época de trabalhos tão inteligentes e cheios de informações nas entrelinhas, como Procurando Nemo. Se for pra ser chamado de TEBA, é preferível deixar a pimpolhada assistindo ao Bom Dia & Cia. Ao menos o dinheiro de ingresso não é gasto. Mas não será preciso torturar a molecada assim, visto que há pelo menos três bons filmes infantis (ou quase) em cartaz nos cinemas: Madagascar, Herbie e agora o ótimo A Fantástica Fábrica de Chocolate. Menino-tubarão de loló é pirulito.

E só pra finalizar este assunto: eu nunca fui muito fã de Robert Rodriguez mesmo, embora goste bastante de El Mariachi e esteja de fato muito ansioso para conferir Sin City. Mas é inegável que o currículo do elemento tem uma predominância de títulos ruins, na boa. Mas Shark Boy e Lava Girl consegue chegar ao fundo do poço. Até o momento, o PIOR filme da carreira do cara, ultrapassando até aquele terceiro Pequenos Espiões com o Sylvester Stallone como vilão. Perto disto, O Filho do Máskara é um clássico digno de um Urso de Ouro em Berlim!

E é justamente por isso que estou aqui, redigindo esta declaração, meus caros. Com Shark Boy e Lava Girl, quem chegou ao fundo do poço fui EU. Não conseguiria sobreviver intacto a mais uma bomba. Então, para evitar que vocês, senhores El Cid, Fanboy e R.Pichuebas, tentem me torturar ainda mais, estou neste momento me desligando do site. Agora vocês podem voltar a maltratar o Benício com os filmes ruins – embora eu tenha certeza de que o coitado cometerá suicídio assim que souber de minha saída. E ele é louco de querer enfrentar um Acquaria da vida novamente?

Portanto… esqueçam que eu existo! E o acerto de contas, pode mandar pelo correio mesmo. Vai que vocês ainda tentem me forçar a assistir Dois Filhos de Francisco… Se tive pensamentos mórbidos só de pronunciar este nome, imaginem se fosse obrigado a passar duas horas assistindo ao Ângelo Antônio interpretando o Zezé di Camargo! Ou o Luciano, sei lá… Medo.

No mais, adeus. E só não completo com um “obrigado pelos peixes”, porque peixe me lembra tubarão. E os peixes que vocês me deram estavam todos estragados.

Sem mais, Zarko.

N. do E.: Felizmente, o colunista Zarko retornou à Redação A ARCA em dois dias, pedindo seu cargo de volta. Ao que consta, o único portal de entretenimento que lhe deu abrigo solicitou como primeiro artigo um review da carreira de Tom Hanks…

THE ADVENTURES OF SHARK BOY AND LAVA GIRL IN 3D • EUA • 2005
Direção de Robert Rodriguez • Roteiro de Robert Rodriguez
Elenco: Taylor Lautner, Taylor Dooley, Cayden Boyd, George Lopez, David Arquette, Jacob Davich.
93 min. • Distribuição: Buena Vista International.

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2 Responses to As Aventuras de Shark Boy e Lava Girl em 3-D

  1. […] estreladas por super-heróis… Se eu soubesse que enfrentaria um troço destes, teria mantido meu pedido de demissão sem medo de ser feliz. Embora ainda dê pra considerar esta possibilidade, afinal, até onde sei, […]

  2. hirla naina disse:

    quereo assirti muito esse filme demais

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