Plano de Vôo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 01/10/2005.

Plano de Vôo (Flightplan)

Bom, o negócio é o seguinte: Plano de Vôo (Flightplan, 2005), que estréia em solo brazuca nesta sexta-feira, é o maior legal. É um suspense simples, coerente, bem amarradinho, com tudo no lugar e que deixa o espectador entretido até o seu final, sem zombar de sua inteligência. Não é um filme para ficar gravado nos anais da história do cinema, mas vale cada centavo investido no ingresso. Pronto! Podem ir embora agora. Saiam desta matéria. Tem muita coisa ainda para ler neste website. Vamos, tchau! Vai logo! Adeus! Go, Forrest, go!

QUE REVOLTA É ESTA, SÊO ZARKO?

Ok, desculpem a grosseria da primeira linha. Vou explicar o que acontece: pelo menos 80% das pessoas que conheço sentem o ódio circulando nas veias só de ouvir falar na palavra spoiler. Aqui mesmo na redação d’A ARCA existem três exemplos clássicos: o Machine Boy (que quase me esmurrou quando, numa sessão do climático-porém-fraquinho Os Esquecidos, eu entreguei o único susto legal ao tapar os ouvidos com antecedência), o R.Pichuebas (que tentou cortar os pulsos quando, num ônibus fretado, um popular qualquer lhe contou o final de Coração Satânico – que ele não assistira até então) e a Srta.Ni (que quase pulou da janela quando inadvertidamente leu em um blog o nome do personagem que morre no sexto Harry Potter).

Quanto a isto, preciso ser sincero: nunca liguei muito para spoilers. Saber ou não de detalhes importantes de um longa não costumam atrapalhar a experiência de conferir tudo aquilo em imagens – e justamente por mexer bastante com notícias de cinema por conseqüência do trabalho, torna-se impossível para mim assistir a uma produção qualquer sem ao menos conhecer seu plot.

Com Plano de Vôo, a história foi diferente. Não sei bem por qual causa, razão, motivo ou circunstância (!), não quis saber absolutamente nada sobre este thriller, que marca a estréia do cineasta alemão Robert Schwentke (do elogiado As Jóias da Família) em terras ianques. Não vi o trailer, passei longe do preview de sete minutos divulgado pelo estúdio, não li a sinopse, não consultei sua ficha técnica… eu não sabia sequer quais eram os atores que dividiam a cena com a atriz principal, uma senhora aí que ninguém conhece e atende pelo nome de Jodie Foster. E embora repita a afirmação de que não estou nem aí para spoilers, devo admitir que foi até melhor assim. Porque assistir a Plano de Vôo com um número de informações zero me permitiu curtir cada detalhe da fita com um saboroso gostinho de novidade. :-)

Não que saber qualquer coisa estrague o filme – ele continua sendo tão divertido e intrigante quanto revela o preview (agora eu já vi, então posso dizer!). Mas descobrir tudo aos poucos deu um charme extra à produção. Por isso, dou aqui a opção: não revelarei nada neste texto além do que é naturalmente divulgado pela distribuidora numa sinopse, mas se ainda assim você achar melhor descobrir o enredo por si mesmo, fique apenas com estes primeiros parágrafos e…

PARE DE LER ESTE TEXTO AGORA! Volte depois de assistir ao filme. Obrigado.

Aos que continuaram, beleza. Vamos ao que interessa! Antes de mais nada, esclareço uma dúvida. Não, Plano de Vôo não tem praticamente nenhuma similaridade com Os Esquecidos, embora sua trama traga algumas leves semelhanças com o filme estrelado pela maravilhosa Julianne Moore. Enquanto Os Esquecidos usa e abusa da fantasia, o lance aqui é beeem realista e até oportuno, já que traça alguns paralelos interessantes com a atual paranóia de segurança instaurada nos EUA.

SOBRE A TRAMA…

Logo nas primeiras cenas do longa, numa seqüência bem fragmentada, sabemos que o marido da engenheira aérea Kyle Pratt (Foster, ótima como sempre) morreu num trágico e esquisitíssimo acidente em Berlim. Kyle, traumatizada e visivelmente abalada e confusa com o acontecimento, decide que é hora de voltar para os EUA. Assim, embarca com sua filha, a pequena Julia (a estreante Marlene Lawston), no luxuoso avião Aalto Air E-474, tido como um “transatlântico aéreo”, com dois andares, dotado de um supercomputador, mini-bar e com capacidade para levar, além dos passageiros, cerca de 29 veículos (uia!). Kyle conhece todo e qualquer canto do E-474, uma vez que é ela a responsável pelo design do “brinquedinho”.

O troço começa a ficar nervoso quando o avião decola e Kyle pega no sono. Quando ela acorda, Julia não está mais lá. Depois de vasculhar cada canto do E-474, Kyle descobre, atônita, que ninguém viu a criança. As aeromoças não conseguem se lembrar de ter visto a menina, não há registro de embarque da garotinha, e no bolso de Kyle há apenas uma única passagem, quando deveriam ter duas. Por mais que o Capitão Rich (Sean Bean, de A Ilha e A Lenda do Tesouro Perdido) e o oficial Gene Carson (Peter Sarsgaard) tentem acreditar na mulher, todos os indícios apontam que Julia nunca esteve à bordo do avião. Pior: talvez ela sequer exista (!). Sem poder contar com a ajuda de ninguém – já que todos acreditam que ela está pirada -, cabe à Kyle tentar descobrir o que houve e provar aos tripulantes do E-474 que não está enlouquecendo. Mas será que isto é verdade? Se Julia realmente existe e está à bordo, quem estaria tramando contra a engenheira, e por qual motivo? Ok, agora chega. :-D

SOBRE A PRODUÇÃO…

Pois é. Aqui é que o bicho pega. Como não quero me aprofundar nos comentários para não correr o risco de entregar qualquer detalhe, mesmo que sem querer, farei apenas algumas observações rápidas e superficiais: o roteiro, escrito a quatro mãos pelo novato Peter A. Dowling e o veterano Billy Ray (de Volcano e A Guerra de Hart), não é nenhum primor no quesito “originalidade”, sejamos francos. Mas é bem amarrado, cuidadoso e climático, o que faz toda a diferença. A dubiedade está presente em cada fotograma: não é fácil tentar adivinhar quem tem “algo a esconder”, já que todos, eu digo, TODOS os passageiros e tripulantes do avião possuem um ar misterioso e até meio macabro.

E o bacana é que o clima intrigante permanece até o final da película, por mais que sua conclusão não seja tão impressionante quanto o preview sugere. Aliás, digo desde já que o final de Plano de Vôo é apenas satisfatório, bem simplezinho, mas adequadamente coerente com o enredo. Afinal, é melhor ser tradicional com segurança do que inventar história e quebrar a cara, não é? Resumindo em uma única frase, eu diria que Plano de Vôo é um parente próximo de outro thriller estrelado por Jodie Foster, o excelente-porém-subestimado-pelo-público O Quarto do Pânico – como todos sabem, dirigido por David Fincher, aquele que considero um dos caras mais inventivos da nova safra de diretores americanos.

No mais, Plano de Vôo é um thriller tenso, envolvente, com boas interpretações, uma direção correta e efeitos de som bacaníssimos, e que tem tudo para agradar aos fãs de suspense e ação. Ou seja: tudo aquilo que espera-se de uma película do gênero. Não é uma produção que ficará na memória do espectador por mais de dois dias, mas é perfeito para embalar uma sessão-pipoca num sabadão à noite. E se você acha que esta matéria não disse muita coisa, só o que posso dizer é: assista ao filme. Afinal, pra quê dissecar a fita se a graça maior é se deliciar com o gostinho de novidade, não é mesmo? :-D

Só um parêntese para finalizar: executivos de Hollywood, abram o olho para Peter Sarsgaard! O que vocês têm na cabeça? Pô, o cara já arrebentou em Meninos Não Choram, ganhou um destaque impressionante na cinebiografia Kinsey – Vamos Falar de Sexo, quase roubou a cena no ótimo Hora de Voltar e gelou a espinha de meio mundo em A Chave Mestra! O que mais vocês querem? Dêem logo um papel central para este indivíduo, caceta! :-P

CURIOSIDADES:

• Na primeira versão do roteiro de Plano de Vôo, o papel de Jodie Foster seria, na verdade, um homem. O papel foi escrito para ninguém menos que Sean Penn. Não se sabe por quais motivos o personagem tornou-se uma mulher. O nome do personagem, Kyle, foi mantido. Curiosamente, o papel de Sean Penn em Vidas em Jogo, de David Fincher, seria originalmente uma mulher. A atriz que assinou inicialmente para interpretá-la: Jodie Foster.

• Na vida real, tanto Peter Sarsgaard quanto Sean Bean morrem de medo de voar. O caso de Bean ainda é mais complicado que o de Sarsgaard; o ator admitiu que só entra num avião caso seja extremamente necessário, e ainda assim precisa de fraldinhas! :-)

FLIGHTPLAN • EUA • 2005
Direção de Robert Schwentke • Roteiro de Peter A. Dowling e Billy Ray
Elenco: Jodie Foster, Marlene Lawston, Peter Sarsgaard, Sean Bean, Kate Beahan, Michael Irby, Erika Christensen, Judith Scott.
93 min. • Distribuição: Buena Vista International.

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