Vozes Inocentes

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 06/04/2005.

Vozes Inocentes (Voces Inocents)

Tem gente que diz com todas as letras que só os estadunidenses sabem fazer cinema. Isso me faz subir o sangue! Além de ser uma mentira barata e deslavada, ultimamente anda acontecendo o inverso: já cansei de ler sobre cineastas estrangeiros que causam furor em seu país natal, são tragados por Hollywood e acabam se dando mal. Quer um exemplo? O alemão Wolfgang Petersen iniciou uma carreira de sucesso em seu país de origem – cujo exemplar mais notório é o excelente O Barco: Inferno no Mar (1981) – e, quando migrou aos States, até dirigiu algumas coisas boas, mas nada que chegasse à altura do joelho de seus ótimos filmes alemães. O fato de realizar produções fraquinhas nos EUA é um fator que deve ser creditado exclusivamente àquelas pragas chamadas executivos de Hollywood, que só enxergam o cinema como indústria, e não como arte. Fogueira neles! :-P

O caso do mexicano Luis Mandoki é um pouco diferente: o cineasta realizou alguns trabalhos bacaninhas em Hollywood, como Gaby: Uma História Verdadeira (1987) e Loucos de Paixão (1990). Por outro lado, sua filmografia americana é lotada de fitas vergonhosas como Uma Carta de Amor (1999), Encurralada (2002) e, na minha opinião, a pior delas: o meloso Olhar de Anjo (2001), aquele troço com a Jennifer Lopez. Filmes tão fuleiros que o nome de Mandoki acabou automaticamente associado a eles no sentido de “responsável”, quando na verdade o cara foi apenas contratado para assumir a direção. Se não fosse ele no comando destas fitas, seria qualquer outro e o resultado certamente não seria tão diferente. Mandoki precisou voltar à sua terra natal para dirigir um bom trabalho e provar ao público que é – ou ao menos tenta ser – um bom diretor de cinema.

E não só provou como fez esta tarefa com louvor: Vozes Inocentes (Voces Inocentes, 2004), co-produção entre Estados Unidos e México, é um drama de guerra que não lembra em nada a filmografia do diretor. Arrisco-me a dizer que talvez seja seu melhor trabalho até aqui. Infelizmente, nem todos passarão perto do cinema quando este longa for exibido, já que Vozes Inocentes é um retrato sincero e nada sutil da situação das crianças salvadorenhas durante a Guerra Civil, que durou de 1980 a 1992. Trocando em miúdos, é um exercício cinematográfico cruel e nauseante ao extremo.

Duvida? Então se prepare para presenciar cenas que pegam o espectador pelo estômago, como aquela em que indefesos garotinhos de 11 e 12 anos são assassinados a sangue frio (e pelas costas) por covardes soldados mexicanos e americanos. Sim, eu falei que não é qualquer um que conseguirá assistir a este longa! Pois é, você achou que a seqüência da menina do vestidinho vermelho em A Lista de Schindler e a cena da molecadinha sofrendo nas mãos da gangue do Zé Pequeno em Cidade de Deus foram pesadas? Fique ciente, então, de que vinte minutos desta película mexicana serão suficientes para que você sofra uma síncope nervosa! :-D

Mas quem se deixar levar pela curiosidade e enfrentar uma sessão, verá que Vozes Inocentes, na verdade, fala também sobre o rito de passagem da infância à vida adulta, com todo o lirismo ao qual tem direito, e acima de tudo sobre a perda da inocência neste mundo desprezível em que vivemos. Por mais que use um fundo sangrento e beeem tortuoso para nos passar esta mensagem.

Antes de qualquer coisa, aqui vai um resuminho do que foi esta tal Guerra Civil, para aqueles que fugiram das aulas de História do Mundo no colegial (!): em Outubro de 1979, um conflito se instala entre camponeses e o governo (presidido na época pelo General Carlos Romero). A razão: posse de terras. Para conter o conflito, o governo salvadorenho enviou o exército. Em resposta, os camponeses se uniram a estudantes e criaram uma guerrilha de resistência conhecida como FMLN (Frente Faribundo Marti de Libertação Nacional). O conflito gerou a guerra, que durou até 1992. O final do evento contou até com representantes brasileiros infiltrados em El Salvador, que faziam parte da equipe responsável em fiscalizar o acordo de paz. A Guerra Civil Salvadorenha deixou um saldo de mais de 80.000 mortos e pelo menos 8.000 desaparecidos.

A história de Vozes Inocentes tem início no povoado de Cuscatazingo, região paupérrima onde vive o garoto Chava (Carlos Padilla), de 11 anos. Chava, que mora com a mãe Kella (Leonor Varela, do divertido Dupla Confusão) e mais dois irmãos, torna-se o “homem da casa” quando seu pai abandona a família. Tamanha responsabilidade não chega a ser um problemão para o garoto, já que Cuscatazingo fica bem no centro do fogo-cruzado entre os rebeldes e os milicos – o que dá uma carga de valentia considerável à criança. Não é raro acontecer de, durante a madrugada, a família ter que pular da cama direto para o chão, para escapar das balas perdidas. Cenas como esta, aliás, garantem um bom par de sustos na sala de cinema, se o som estiver no talo. :-P

Mesmo assim, Chava ainda é um garoto feliz: ele tem muitos amigos, faz um bico como ajudante de um motorista de ônibus para ajudar a mãe a pagar as contas, e está naquela fase de experimentar as agruras do primeiro amor (no caso, uma amiguinha de escola). Só que esta alegria não durará muito: Chava está perto de completar 12 anos, idade em que os garotos são literalmente arrancados das salas de aula e automaticamente recrutados para lutar na Guerra Civil a favor do exército. Cabe ao garoto manter a sanidade no lugar para que consiga sobreviver a este destino trágico. Ao menos a sanidade, já que sua inocência foi pras cucuias há muito.

Já deu pra ter uma idéia de que Vozes Inocentes não é MESMO para qualquer um; tanto que até os mais resistentes e inabaláveis torcerão para que o filme acabe logo, visto que Luis Mandoki deixa as firulas de lado e, sem as amarras de um grande estúdio, não economiza nas cenas de guerra e não poupa seus personagens – e nem o público. No entanto, nada é gratuito, e está lá porque precisa estar lá. Este é um dos grandes trunfos da produção, que ainda conta com a excelente atuação de Leonor Varela e o talento promissor do pequeno Carlos Padilla. Aliás, sei que este comentário poderá despertar a ira de muita gente, mas a atuação de Padilla, de 10 anos, é tão visceral e bem-construída que faz o choro de Dakota Fanning no trailer de Guerra dos Mundos e a raiva de Freddie Highmore em Em Busca da Terra do Nunca parecer coisa de atorzinho de Malhação. É sério! Escrevam o que estou dizendo: Carlos Padilla dará muito trabalho. E antes que me xinguem, assistam e comprovem! :-D

Por último, o roteiro de Mandoki em parceira com o também mexicano Oscar Torres evita cair no sentimentalismo barato e nos entrega bons diálogos e uma estrutura bem convincente, que não toma partido de ninguém, não levanta bandeira, não tem aquela patriotada típica das fitas americanas e nos põe na incômoda posição de testemunha ocular deste desastre, sem o poder de mudar as coisas. E como se não bastasse sermos bombardeados por estas imagens terríveis, o final do filme ainda nos pergunta: o que VOCÊ está fazendo para mudar este quadro? Se alguém aí pretende enfrentar uma sessão de Vozes Inocentes, é bom se adiantar e ir pensando numa resposta. Pois precisará dela.

Olha, se depender de mim, o Luis Mandoki nunca mais volta para Hollywood! :-D

CURIOSIDADES:

• O roteiro de Luis Mandoki e Oscar Torres é inspirado na infância do próprio Torres, que vivia em Cuscatazingo, El Salvador, e tinha exatos 12 anos quando a Guerra Civil explodiu. Para sobreviver, Torres fugiu para os Estados Unidos sozinho, em 1986, aos 14 anos. Por incrível que pareça, Oscar conseguiu reencontrar sua família inteira (e viva) depois de anos.

• A excelente e elogiada trilha sonora de Vozes Inocentes é composta pelo brazucão André Abujamra, ex-vocalista da banda Karnak.

• O produtor Lawrence Bender é um dos responsáveis pela posição que a Miramax possui hoje em dia no mercado cinematográfico americano. Bender também é amigo pessoal de ninguém menos que Quentin Tarantino, e produtor de todos os seus longas-metragens.

Vozes Inocentes foi o representante do México por uma vaga entre os indicados a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar deste ano. Obviamente, não foi escolhido. Os membros da Academia jamais deixariam um drama qualquer sobre o Holocausto dar o lugar a um filme como este, que põe o exército americano apoiando o “lado mau” da luta armada. O pior de tudo é saber que isso é verdade… :-P

VOCES INOCENTES • EUA/MEX • 2004
Direção de Luis Mandoki • Roteiro de Luis Mandoki e Oscar Torres
Elenco: Carlos Padilla, Leonor Varela, Gustavo Muñoz, José Maria Yazpik, Ofelia Medina, Daniel Giménez Cacho, Jesús Ochoa.
110 min. • Distribuição: 20th Century Fox.

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One Response to Vozes Inocentes

  1. Junior disse:

    Excelente crítica, um dos melhores filmes que assisti. Sem mais.

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