Vidas em Jogo

Crítica de Cinema – Texto publicado originalmente em A ARCA, em 23/03/2006.

Vidas em Jogo (The Game)

David Fincher é um norte-americano batuta e conceituado que costumava dirigir videoclipes para gente como Michael Jackson, Madonna e Aerosmith, até que gerou controvérsia em meio mundo nerd ao deixar a heróica tenente Ellen Ripley toda “torradinha” em Alien3. Em seguida, o indivíduo tornou-se um dos nomes mais comentados de 1995 ao colocar Brad Pitt e Morgan Freeman à caça de um assassino psicótico em Seven – Os Sete Crimes Capitais, tido por muitos como um dos grandes filmes de suspense da história. Daí para desafiar convenções com o mesmo Brad Pitt lutando contra “o sistema” ao lado de Edward Norton na obra-prima máxima dos anos 90, Clube da Luta, lançado em 1999, foi um pulinho, a coisa mais fácil do mundo. Ou não?

Mais ou menos. Até hoje, embora seja aclamado internacionalmente como um cineasta que não tem medo de escancarar as feridas da sociedade ianque em filmes cruéis e desafiadores, o nome de David Fincher ainda não está associado a “gordas bilheterias”, o que dificulta um pouco seu trabalho. Mas Fincher é um cara esperto. Ele sabe que, para conquistar os investidores e ter liberdade para entregar suas fitas memoráveis, é necessário realizar um ou outro trabalho mais, na falta de uma palavra melhor, “comercial” – o que não significa que todas as (macabras) marcas registradas do diretor não estejam lá. Esta, aliás, é a grande razão pelo qual muitos torceram o nariz para o ótimo O Quarto do Pânico, suspense que sucedeu Clube da Luta: enquanto todos esperavam mais um divisor de águas, Fincher nos deu “apenas” um suspense comercial. Excelente e anos-luz à frente de muitos filmes por aí, mas ainda assim um filme menor.

Voltemos agora ao primeiro parágrafo. Depois de tirar o sono de meio mundo com Seven e antes de aterrorizar os puritanos com Clube da Luta, David Fincher gerou em 1997 um ótimo trabalho de direção que serviu para fixar o estilo dark do cineasta e para mostrar que Seven não era somente um “roteiro bem escolhido” e “sorte de principiante”. Infelizmente, quase ninguém conhece e quase ninguém viu este trabalho – cortesia do péssimo esquema de lançamento tanto lá fora quanto aqui. O nome do filme: Vidas em Jogo (The Game, 1997), que finalmente é lançado em DVD no Brasil, e em Edição Especial. O meu disquinho já chegou! :-D

Até agora, ninguém entendeu porque diabos esta pequena pérola do suspense é tão obscura, já que trata-se de um ótimo exercício de direção e traz um roteiro, escrito por John Brancato e Michael Ferris (de A Rede), totalmente acima da média. Aqui na nossa terrinha, estreou com absurdos dois anos de atraso, e demorou uma vida para chegar ao VHS. Talvez seja por ter sido esmagado entre dois clássicos indiscutíveis do cinema contemporâneo. Injustiça que agora finalmente pode ser sanada: embora seja realmente um trabalho menor, o martírio do multimilionário Nicholas Van Orton em Vidas em Jogo não deve nada ao sadismo de John Doe e as sandices de Tyler Durden. E em termos de construção da narrativa e frieza técnica, este filme está pau a pau com os melhores exemplares da filmografia de Fincher. Se você é fã das películas do cara e ainda não conferiu Vidas em Jogo, só o que posso dizer é: HEREGE! Hehehe. :-D

Aqui, o cineasta deixa de lado seus personagens com sérios desvios piscológicos e centra sua câmera num indivíduo aparentemente comum. Nicholas Van Orton (vivido por um inspiradíssimo Michael Douglas), executivo frio e desprovido de sentimentos, completa 48 anos de vida. O que não importa muito ao homem, pra falar a verdade. Nicholas vive sozinho em uma gigantesca mansão e, à primeira vista, só tem olhos para o trabalho. Não se sabe até que ponto a morte trágica de seu pai no passado, que coincidentemente suicidou-se em seu aniversário de 48 anos – ato, aliás, que nos é apresentado numa rápida e brilhante introdução -, influi em seu cotidiano. Enfim, Nicholas Van Orton é o tipo de pessoa incapaz de demonstrar qualquer espécie de sentimento, seja para quem for.

Em seu aniversário, Nicholas recebe um inusitado presente de seu irmão mais novo, o ex-junkie e absurdamente problemático Conrad (Sean Penn, genial como sempre): um cartão de uma empresa chamada CRS – sigla de Consumer Recreation Services. A tal empresa oferece uma espécie de “jogo”, e a única informação que Conrad se dá ao trabalho de ceder é a de que a CRS “torna sua vida um pouco mais divertida”. À noite, ao retornar para casa, encontra um boneco de palhaço ultra-macabro estirado à sua porta (medo). Mais tarde, o apresentador do noticiário de finanças que Nicholas assiste religiosamente, numa atitude surreal, interrompe o programa e avisa ao milionário: Você já está dentro do Jogo. Sai fora! :-D

A partir daí, Nicholas se vê envolvido em uma série de bizarras e insólitas situações. O Jogo toma forma, mas não se sabe exatamente que forma é esta. As “pegadinhas” vão desde a troca da senha de sua maleta até ser trancafiado em um táxi desgovernado prestes a mergulhar na baía de São Francisco – ceninha nervosa, por sinal. Desde um quarto de hotel lotado de fotos pornográficas até uma esquisitíssima tentativa de assassinato. Num dos pontos cruciais do Jogo, Van Orton acorda dentro de uma cova rasa em plena Cidade do México (!). Desconhecidos como a garçonete Christine (Deborah Kara Unger, do horroroso Vozes do Além) entram na jogada, e não se sabe até que ponto pode-se confiar nestas pessoas. Aparentemente, o objetivo do Jogo é acabar com a vida de Nicholas Van Orton. Mas por quê? O que é o Jogo? Quais são as regras? Quem está tentando matá-lo? O que é preciso fazer para concluir o Jogo? Cabe ao sujeito – e à plateia – descobrir.

Só o plot já é deveras intrigante, ninguém pode negar. Ainda assim, estamos falando de David Fincher, indivíduo que adora brincar com seus temas. Então, espere por um roteiro com zilhões de reviravoltas (nenhuma delas forçadas, por sinal), uma magnífica trilha sonora do master Howard Shore (o solo de piano dá MEDO, MUITO MEDO) e um final controverso, odiado por muitos – o próprio Fanboy defende que sua conclusão é “imposição de estúdio” – mas inegavelmente surpreendente (embora eu admita que a fita tornaria-se clássica se acabasse na derradeira cena do “salto”). E como não poderia deixar de ser, há milhares de conotações metafóricas para a estranha situação de Nicholas Van Orton, um homem obcecado pelo controle de sua própria vida que, aos poucos, vê seu cotidiano sair dos trilhos e sua sanidade virar de ponta-cabeça.

Outra característica dos trabalhos de Fincher é a pegadinha do filme para com o espectador. Assim como Clube da Luta (que é repleto de mensagens subliminares espalhados pela película que sugerem a conclusão da história o tempo todo), Vidas em Jogo traz uma série de pequenas pistas distribuídas pela projeção. Ao final da história, é impossível sair da sessão sem aquela sensação de “ah, como não pensei nisto antes?”. E quando se revê a fita, percebe-se como não há furo algum na trama. Como um roteiro bem construído e um diretor competente fazem toda diferença nas nossas vidas, não? ;-)

O mais significativo em Vidas em Jogo, entretanto, é notar como David Fincher carrega uma preocupação constante em não ofender a inteligência do espectador. Não existem diálogos bobos e seqüências resolvidas de maneira idiota e de uma hora para outra. Não há personagens deslocados e nem atuações forçadas – até James Rebhorn (Cold Mountain), um ilustre coadjuvante que particularmente detesto, conseguiu me convencer. Só há mesmo mais uma prova concreta daquilo que Seven e Clube da Luta não cansam de nos esfregar na cara: David Fincher é um daqueles raros cineastas que simplesmente nasceram para a profissão. Se você ainda não assistiu Vidas em Jogo, faça a gentileza de desligar este computador, correr até a locadora e corrigir este erro! O Zarko, comovido, agradece. :-D

CURIOSIDADES:

• Andrew Kevin Walker, roteirista de Seven e 8MM e grande amigo da David Fincher, auxiliou no script de Vidas em Jogo.

• O papel de Sean Penn seria originalmente feminino, e interpretado por Jodie Foster. Ela seria filha de Van Orton, e não irmã. Embora estivesse bastante empolgada para trabalhar com Fincher (e ele idem), ela recusou por um motivo nobre: Vidas em Jogo foi produzido pela PolyGram, distribuidora da qual a Egg Pictures, produtora de Foster, costumava ser afiliada em um passado distante. Na época das filmagens, a Egg e a PolyGram eram rivais numa disputa judicial. Jodie Foster trabalhou com Fincher quatro anos mais tarde, em O Quarto do Pânico.

• Em Vidas em Jogo, há uma aparição cameo de ninguém menos que Spike Jonze, o surreal cineasta responsável por Quero Ser John Malkovich e Adaptação. Ele interpreta um paramédico.

• O roteiro de Vidas em Jogo foi inspirado em um jogo real, que obviamente não é tão macabro quanto este aqui. O Jogo, como é chamado, é uma espécie de “caçada” promovida por uma série de corporações gringas (entre elas, a Microsoft), sem prêmios em dinheiro e cuja arrecadação é totalmente doada a instituições de caridade – para participar, geralmente paga-se um valor aproximado de US$ 25 mil. Não posso detalhar muito como o Jogo funciona, pois isto poderia acabar transformando-se em um spoiler… hehehe!

THE GAME • EUA • 1997
Direção de David Fincher • Roteiro de John Brancato e Michael Ferris
Elenco: Michael Douglas, Sean Penn, Deborah Kara Unger, James Rebhorn, Peter Donat, Carrol Baker, Armin Mueller-Stahl.
128 min. • Distribuição: PolyGram Filmed Entertainment/Warner Bros.

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One Response to Vidas em Jogo

  1. João Lucas Rodrigues disse:

    Olá, acabei de assistir Seven e queria entender um pouco mais sobre o que aquelas mensagens subliminares que aparecem no começo e durante o filme. Há várias antes de Morgan Freeman entrar em cana, como também na parte em que a lanterna do personagem de Pitt falha. Gostaria de saber qual o objetivo do emprego dessas mensagens subliminares. Por favor, você poderia responder minha pergunta?

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